terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O saber desprovido de conteúdo: a sociologia brasiliense.


                       Algo que se apresentou como habitual e natural durante toda minha experiência de bacharelado em sociologia em Brasília foi a confissão de alunos que meditavam (amargamente) sobre não saber exatamente o que tinham aprendido ao longo da graduação, como se essa ciência fosse intrisecamente desprovida de conteúdos positivos. A naturalidade desse tipo de reflexão deveria parecer tão grande quanto a de um aluno do curso de matemática ou engenharia que concluísse que só aprendeu cálculos diversos ao longo de seus anos de estudo.
                O maior problema da formação que nos foi oferecida em sociologia, incrivelmente, é justamente a nulidade das temáticas sociais. A maioria pode dizer que leu um pouco de Weber, Durkhem e Marx e sabe que Bourdieu está na moda hoje - e quase somente isso. A leitura, no entanto, limita-se a decorar clichês sobre a visão média que se tem do autor em questão, a lembrar de dois ou três conceitos chave e - repetir sempre - que o “mundo mudou muito” e é preciso entender o contemporâneo, o que eles só conseguem fazer pela assimilação de opiniões jornalísticas e apelo ao senso comum. Não é de estranhar os disparates que ouvimos ao tentar interrogar qualquer um deles sobre questões políticas ou acompanhá-los em redes sociais durante momentos de agitação, como nas eleições.
                Os melhor sucedidos no campo conseguiram efetivar mentalmente uma textualização da vida, aprenderam a pensar em tudo como uma questão de encaixes teóricos e passaram a ignorar quase tudo que não esteja no esquema da moda. Os mais talentos e interdisciplinares tornaram-se poetas do social, capazes de escrever com desenvoltura e beleza sobre o cotidiano, utilizando o material pesado e desagradável de autores carrancudos e absolutamente voltados para a ciência. Os normais saem do curso com uma cultura geral vulgarmente aumentada, um canudo na mão e a perspectiva de um emprego idiota mais próxima.
                O incrível da situação é o quanto se pode ir longe nesse processo. Quando comentei essa impressão terrível com Aisha, ela me respondeu que era o típico problema da filosofia. Em minha opinião, a situação mesmo dos comentadores de filosofia é bem diferente, pois, em seu caso, os textos, as ideias, são assumidamente seu objeto, eles se dedicam a desvendar os nexos do pensamento de um ou vários autores e, com isso, não se perdem em conhecimentos pontuais e fragmentários, mas podem aprofundar uma linha de pensamento até suas raízes, seus desdobramentos mais fundamentais. E também, ao estudarem autores muitas vezes situados em tradições historicamente ou linguisticamente muito diferentes, são forçados a ultrapassarem a mera contemplação do presente ou de um passado relativamente muito recente, ou seja, não podem se contentar com o senso comum e sim mergulhar em sociedades e pensamentos tão distantes como os da Grécia ou da China antigas. Além disso, de vez em quando, há os reais filósofos que formulam seu próprio sistema e, para isso, investigam a sociedade, a mente ou grandes segmentos de ideias, tirando deles muito mais do que um sociólogo simples poderia, indo até a raiz dos problemas, perpassando as fronteiras disciplinares com voracidade e alcançando verdades inteiras. Mesmo um aluno medíocre no campo da filosofia, costuma ser confrontado com essa diversidade de possibilidades complexas, de autores que os forçam a, no mínimo, conceber a diferença e a identidade, sem estarem completamente envoltos por um véu de conhecimentos superficiais. Basta ver que, apesar dos pesares, não faltam tipos estranhos, ambiciosos, eruditos ou nerds em qualquer curso de filosofia.
                A sociologia que proponho – e que há em lugares melhores – está longe de ser empirista. Colecionadores de dados, tristemente, sempre estiveram presentes em minha trajetória e são não apenas seres banais como inteiros conservadores  de tudo o que já está presente (voluntariamente ou não), até mesmo dessa miséria intelectual mais teórica.  O que defendo é que os cursos de sociologia apresentem aos estudantes um mundo feito de pessoas e grupos, uma sociedade em que existe trabalho, lazer, comunicação, hábitos culturais, gênero, história étnica, violência e política. Esses fatos, sejam apresentados por uma sociologia do trabalho ou da cultura ou qualquer outra, não são motivos para abdicar da teoria e fazer estatística, mas, muito pelo contrário, são razão para se compreender, a partir do pensamento, a teia de fatores a integrar a vida social em seus conflitos e transformações. Em porte desse tipo de saber, talvez os verdadeiros estudantes sejam capazes de entender o porquê de se estudar o pensamento social, de assimilar e elaborar reflexões que sejam capazes de tocar no conteúdo das vivências e explicá-las de maneira realista.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Arte contemporânea: é arte de "verdade"?

Indagamo-nos se a arte contemporânea, com todo o tipo de bizarrices, configura-se ou não como arte, uma arte que é transformada em arte pelo discurso, pela palavra, pelo fenômeno, se quisermos assim dizer, e não pela essência. Portanto, diriam alguns, saudosistas ao tempo em que arte ainda eram quadros que pareciam trazer um significado, mais ou menos preciso, mais ou menos aberto, mas um significado, enfim, expressam estes, em um tom compreensível, que o que se produz hoje não se trata mais de arte. No entanto, talvez aqui valha a pena lembrar das lições de Lukács, não sobre a arte especificamente, até porque ele mesmo aspirava pelo retorno do realismo, não do realismo naturalista, mas de um realismo que traduz a essência do ser. Seja como for, vale lembrar as lições de Lukács sobre ideologia.

Para Lukács, a noção de ideologia se distingue do sentido pejorativo presente em grande parte da tradição marxista, de falsa consciência. A ideologia, para ele, diz respeito não tanto ao espelhamento correto ou falso da realidade econômica ou à sua corretude gnosiológica, mas, sobretudo, ao seu impacto sobre as tendências do desenvolvimento social, à sua relevância no desdobramento da realidade social. Há, porém, que se destacar aí duas advertências. Em primeiro lugar, o fato de que a ideologia não precisa significar, como gostaria a II Internacional, um espelhamento mecânico da economia, ou seja, que a ideologia eventualmente possa representar um espelhamento falso, não significa, por outro lado, que haja completa independência da ideologia em relação ao desenvolvimento da objetividade econômica. A compreensão de Marx, de que os homens fazem a sua história, embora não sob as condições que escolheram pode ilustrar esse processo. A duração da influência e efetividade de uma ideologia só pode ser compreendida não em completa dependência da economia, mas jamais pode se desprender completamente dela. É uma relação de identidade de identidade e diferença entre ideologia e economia.

Analisemos mais detidamente a questão. Lukács aborda dois grandes grupos de pores teleológicos, que visam ou o metabolismo com a natureza ou a influência dos pores teleológicos de outras pessoas. A diferença entre esses dois grupos reside, em parte, no fato de que o coeficiente de incerteza nos pores que visam influenciar as decisões de outras pessoas é maior não apenas em termos quantitativos, mas qualitativos. No metabolismo com a natureza, mesmo que nem sempre se possa ter um conhecimento pleno de todos os momentos do processo de trabalho, está dada uma legalidade estável do objeto, que pode ser conhecida de antemão (por exemplo, o tipo de matéria-prima, instrumento, modo de preparo etc. a ser utilizado no processo de trabalho), ou seja, as legalidades apenas podem ser conhecidas. O desenvolvimento social, porém, ao contrário do trabalho, produz novas legalidades a partir de si mesmo. Ou seja, os pores teleológicos que visam influenciar outros pores teleológicos geram novas legalidades. Assim, na dimensão política, os processos são mais incertos não apenas no sentido de que são menos passíveis de serem conhecidos, mas também mais dinâmicos. Por isso, com certa liberdade, podemos trazer aqui uma resolução da Dialética Negativa de Adorno (apesar de suas divergências e caminhos diferentes), o eterno adiamento da síntese no processo social. A ciência social não se presta a uma conclusão acabada, não apenas porque a própria sociedade é contraditória como quer Adorno, mas também porque novas legalidades são sempre geradas no seio do desenvolvimento social e, por isso, destaca-se sua peculiaridade e seu grau de incerteza em relação ao outro tipo de pôr teleológico, o trabalho. É assim que, como diz Lukács (p.513), “o traçado dos limites de uma política [a política como uma dimensão da ideologia] ‘em geral’ é muito mais restrito do que o da produção em geral”, porque o metabolismo com a natureza é menos incerto e, portanto, a abstração que Marx realiza com o processo de produção, quando fala nos Grundrisse em “produção em geral”, é mais razoável, porque é próprio da dimensão política e da ideologia como um todo a contínua produção de novas legalidades a partir de si mesma e, portanto, a impossibilidade de se dar de antemão um critério de corretude.

Isso não responde, contudo, o problema anteriormente posto sobre a relação contraditória entre economia e ideologia, quanto ao fato de que a ideologia pode ter um espelhamento eventualmente falso da economia, como explica Lukács referindo-se, aqui, ao direito: “Em outros contextos já expusemos que o direito tem de espelhar a realidade econômica de modo deformado. Isso mostra, por sua vez, como é errado abordar questões ideológicas com critérios gnosiológicos. Porque, nesse campo, não se trata de fazer uma separação abstrata de verdadeiro e falso na imagem ideal do econômico, mas de verificar se o ser-propriamente-assim de um espelhamento eventualmente falso é constituído de tal maneira que se torna apropriado para exercer funções sociais bem determinadas” (p.498). Porém, como se abordou anteriormente, trata-se de uma identidade de identidade e diferença. Assim, por mais que o direito, como uma esfera eminentemente posta (em contraposição aos costumes, à moral, etc., que tendem a ser mais espontâneos), possa tender a um esfacelamento cada vez maior do espelhamento do desenvolvimento econômico, ele surge eminentemente da economia. A partir dos conflitos surgidos na dimensão da economia, que na sua imediatidade parecem ser casos singulares, o surgimento de uma esfera destinada à resolução de conflitos e, portanto, a medida que avança a complexificação do desenvolvimento social, o surgimento de uma esfera relativamente autônoma. Assim, o direito configura-se então como nova forma de objetivação e alienação, que surge da economia, mas não é mero espelhamento dela. Por isso não é válida a mera análise gnosiológica da ideologia. Por outro lado, por mais que persista o elemento irrevogável da casualidade do direito, de não necessariamente manifestar uma simples transposição de determinações do processo econômico, “esta ação sempre ocorre só num campo de ação precisamente determinados em termos sociais”. Isto é, as compreensões do direito, por mais que possam partir das ações de um grupo de pessoas, como juristas especializados, são sempre são delimitadas por uma situação sócio-histórico concreta, por exemplo, como ilustra Lukács, a consideração jurídica do roubo como crime na acumulação originária ou no capitalismo desenvolvido. Aqui se ilustra, mais uma vez, a impossibilidade de ser dada uma ideologia em “geral”, por tal impossibilidade de perenização do conhecimento social em relação ao conteúdo, no caso do direito, de regras absolutas, por mais que a ciência oficial fetichizada queira compreender suas normas sociais como “eternas”, “naturais”.

Assim, compreende-se a unidade contraditória entre economia e ideologia. Porém, me permanecem algumas questões. O entrelaçamento de ambas não anula possíveis contradições, de casos singulares concretos que tomam um desenvolvimento diverso ao desenvolvimento econômico daquele momento. A pergunta, porém, é se e em que medida as novas cadeias causais postas em andamento pela ideologia, mesmo que não estejam em conformidade com a objetividade social, mas influem nela efetivamente, ou a contraria, pode persistir. Isto é, como, do descompasso entre os fatores objetivos e subjetivos, ou seja, como fatores subjetivos, ou da ideologia, podem persistir mesmo que contrariem o processo econômico? Ou seja, como a ideologia pode se tornar uma força efetiva a ponto de reverter, reverberar sobre o processo econômico, se não representa um espelhamento mais ou menos correto de tal processo? Como pode durar uma ideologia contraditória a uma dada objetividade social? Ela só pode durar se é consonante com o desenvolvimento geral? A isto ainda não tenho respostas, não apenas como, mas mesmo sobre tal possibilidade.

Seja como for, a partir de tal compreensão, os critérios gnosiológicos, para Lukács, são insuficientes. É a partir dessa apropriação que se configura minha crítica à crítica do PSTU aos  movimentos desorganizados da massa, então chamados Black Blocs. Não se está dizendo com isso que, em termos de conteúdo, a ação tática desse “grupo” (em aspas porque, pelo menos até o período da crítica, não me parece que havia, de fato, um grupo organizado, mas um conjunto de manifestações rebeldes e espontâneas por parte de pequenos grupos de pessoas mais ou menos articuladas), enfim, não se está admitindo uma concordância material com a prática espontaneista rebelde. No entanto, seguindo a compreensão de Lukács quanto à ideologia, tais atos eram não apenas inevitáveis, como manifestação de revolta por uma parcela da população, mas geraram novas cadeias causais, foram operantes.Isto, porém, permanece no caráter abstrato. Somente a análise do conteúdo deste ideal pode oferecer sua particularidade, sua constituição material, efetiva.

Essa consideração é essencial para a compreensão de que por um lado, uma análise ontológica das ideologias admite que o critério para sua compreensão não reside na correção científica verdadeira ou falsa de seu conteúdo como espelhamento da realidade econômica, mas no seu impacto sobre as tendências do desenvolvimento do processo produtivo, nos termos de Lukács, pores teleológicos que põem em funcionamento novas cadeias causais. Por outro lado, cai no erro oposto a completa rejeição dos critérios gnosiológicos para compreensão da ideologia, incorrendo no puro pragmatismo. Os conteúdos das ideias de modo algum são indiferentes ao processo social, como se fosse decisivo apenas o êxito prático. É assim que, por exemplo, em termos abstratos, como mostra Lukács, não compete examinar o ideal dos jacobinos no século XIX ou do nazismo no século XX, no sentido de que ambos foram decisivos, efetivos no processo de desenvolvimento da humanidade. Isto, porém, só em termos puramente abstratos, porque em termos humanos, faz toda a diferença o conteúdo da ideologia, o seu caráter político-moral, a sua particularidade: “já o teor ideal, moral, etc. que põem essas massas [jacobinos e nazistas] em movimento é extremamente diferenciado e essa diversidade imprime a sua particularidade, a sua constituição especificamente humana, a sua constituição política, a todos os atos ulteriores. O caráter humano-social da gênese, do caminho encetado por um movimento, determina também a direção e o conteúdo da práxis posterior. O homem enquanto ser que responde nunca é independente da questão que a história lhe coloca, mas de igual maneira o movimento social que se tornou objetivo jamais pode se tornar independente de sua gênese humano-social, político-moral” (p.509). O final desta citação nos permite a explicitação do problema, não se pode rejeitar o conteúdo da ideologia em detrimento de uma análise meramente pragmática, porque é ela [ideologia] que dá o critério da sociedade correta, a sociedade que se quer, seu caráter peculiarmente humano.

Para voltar à reflexão sobre a arte, é nestes termos que é falso quando se avalia a arte contemporânea como não-arte, no sentido de que ela é fundamento objetivo do desdobramento social, de que já é objetivamente parte do universo artístico, independentemente da valoração qualitativa que se tenha dela. Os artistas partem dela, independente de sua postura de recusa ou identificação com tal arte. Criticar a arte contemporânea seria recair na crítica de Feuerbach à religião. Feuerbach entende que a religião torna o homem estranho a si mesmo, por isso procura reduzir o mundo religioso à sua base profana, ao mundo social. Mas assim torna abstrata justamente essa base profana, desligando-a de suas contradições, que tornam necessário o mundo religioso. Com a arte, de modo análogo, do que se trata não é da recusa ou aceite do estilo de produção artística, mas que "espírito do tempo" permitiu criar um Andy Warhol ou Duchamp? Qual é a lógica cultural, própria do capitalismo tardio, na qual o objeto comum e a arte se igualam entre si, ao ponto que o que diferencia se uma caixa de brillo box é arte, mas outra outra igual a ela não o é, é apenas o seu "conceito"?

Andy Warhol, Brillo Boxes, 1964.

A pergunta não é aonde quer chegar esta arte, mas o que ela pode nos revelar como sintoma? O que
pode revelar como conteúdo ético, inclusive?

A aparência de que dinheiro supostamente gera mais dinheiro se revela como fenômeno, por trás do que se vela a essência do mais-valor e do mais-trabalho. No entanto, o lucro, enquanto fenômeno, não é uma aparência, mas fundamento real da atividade social, mesmo que a maior parte dos operadores do capital desconheçam sua origem como mais-valor. De modo mais ou menos análogo, embora muito mais incerto, a arte da caixa de Brillo Box, que deixa quase de "existir" fisicamente para se tornar performance, aparece apenas sob sua figura imediata, que vela uma mediação histórica atrás de si, mas não é mera aparência. A arquitetura medieval românica, com sua configuração pesada e ambientes escuros remete a um significado religioso, de entrega emocional e desprendimento da razão. A arte contemporânea também nos diz algo, que talvez não seja tão fácil identificar exatamente por estarmos nós mesmos imersos neste espírito. Como suspeita, relacionado a uma época que recusa qualquer ontologia como metafísica, a falta de referência externa. Assim como a Juliette de Sade, segundo examinam Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento, sem critérios sobre o que é possível, agarra-se às posturas sexuais mais execradas pela sociedade, não tanto pelo prazer, mas apenas "por diversão", porque, pela falta de parâmetros, "vale tudo", também neste sentido para um Andy Warhol não há mais critérios para o estabelecimento do que é arte, as fronteiras diluíram-se? Não se trata de gosto pessoal, mas da relação quase óbvia, inegável, entre a arte e seu próprio tempo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A Guinada Infraestrutural e as eleições de 2014.





                A lógica social não é óbvia, mas, ao contrário, apresenta estratos, os quais se há de ter muito claro ao considerar cada argumento, é preciso pesar seu nível de abstração, compreender seus limites e interpretar suas qualidades diferentes em interação mútua.
                Há, é claro, os fatos (1), os acontecimentos que se sucedem de maneira constante e sempre diversificada, num turbilhão de informação, que pode ser bem ou mal usada – como diz a piada, se duas pessoas tem fome e se produzem dois sanduíches, estatisticamente, ninguém está com fome.
                Indo mais a fundo, encontra-se algo mais importante, os contextos, as construções culturais, as correlações de força, etc (2). É certamente este o ponto em que comumente nos encontramos quando falamos de eleições com seriedade – ou seja, ignorando os falseadores e propagandistas que citam apenas “fatos” – e aí nos deparamos com a importante disputa por hegemonia, pela predominância de valores, o que pode nos encaminhar por todo o amplo espectro que vai do comunismo à barbárie.
                Não obstante, sem consideração à infraestrutura (3), à mudança efetiva da posição relativa e absoluta dos indivíduos entre si, todo o foco na disputa por hegemonia pode converter-se em circularidade, em religiosidade cega. Cada ideal ganha sentido quando significa ou pode significar passos definitivos no movimento real, quando pode se cristalizar em uma estrutura qualitativamente diferente, que embasa saltos novos, ideais novos, constituição nova. É, sem duvidas, o olhar a esse estrato que determina o avanço, a igualdade, a acumulação.
                O que se vê hoje, de um lado, é a queda do senso comum ao nível puramente estético, individualista, propagandista e factual, a realização da imitação brasileira em relação aos países ocidentais de "capitalismo avançado" (o "nível 1"). De outro lado, nas mentes “mais politizadas”, é a circunscrição da política à sua dimensão puramente superestrutural (o "nível 2").
                Fica-se em dúvida, por exemplo, acerca de que estratégia predomina na campanha de Dilma(líder em pesquisas) em relação à Marina(vice-líder), se sua intenção de auto defesa do estigma de desonesta/vendida e sua busca por rotular a rival como fanática/religiosa (o lado ad hominen, abusando do factual); ou suas promessas de garantia de direito às minorias e amparo aos pobres e acusação da adversária de privatista, conservadora, etc. (ou seja, a dimensão político-moral, a luta por hegemonia de valores).
                Tomando essas duvidosas diferenciações petistas como verdadeiras, seríamos gravemente tentados a flertar com a posição de Saffatle, a entender como mais “inteligente” diferenciar as candidatas e optar pelo menos pior. Mas uma pulga surge atrás da orelha de quem percebe que 12 anos se dizem ameaçados por 4 de qualquer novo governo; de que a alternância, a virtude máxima para muitos democráticos, é a tendência e, com ela, segundo o PT, tudo virá abaixo inevitavelmente; ou, então, que o povão não se tornou mais socialista, sequer mais progressista, desde as décadas sombrias de nosso passado até os governos populares atuais.
                Talvez diferenciar seja apenas parte da inteligência, talvez tenha chegado o momento de igualar, de encontrar a identidade de tudo o que está e esteve aí e assumir postura não mais complacente com essa esmagadora ideologia contemporânea. No capitalismo tardio, parece que as “conquistas” de minorias se tornou a verdadeira finalidade da nova esquerda, os “direitos” são sempre anexados ao ser inalterado, a democracia burguesa parece ter a tendência a crescer sempre no respeito à “fala”, a expressão do que já é dado e nunca a alteração definitiva do estatuto do ser falante.
                Não é atoa que os conservadores mais impertigados de hoje apelidaram todo o jogo político petista ou neopetista de “marxismo cultural”, de luta por posições igualitaristas no campo das representações.  A política dessa esquerda se parece com uma prisão em trincheiras eternas, um jogo parlamentarista de correr atrás do próprio rabo, vendo cada conquista de hoje ser ameaçada amanhã e se mantendo no poder através do incentivo a esse medo perpétuo de que o miserável perca a migalha que tem. Já está provado que todo grupo organizado pode ganhar força e respeito através desse modelo e, no entanto, cada espaço ganho por um grupo só pode significar uma carga extra de sofrimento para os miseráveis do grupo vizinho e, se chegasse o impossível dia em que todas a “minorias” tivessem seu justo quinhão, toda exploração e humilhação recairia sobre os ombros dos menos fortes dentre cada uma delas, entre os pobres, pois o fim da pobreza, da escassez produzida, da lógica do ódio, em uma palavra, da mercadoria, é a única luta que não se pode nem pensar em ganhar através desse jogo de empurra-empurra.
                O “assalto ao céu” precisa da verdade ontológica, da coragem desinteressada e do entendimento estrutural. Nada é tão contrário ao capitalismo tardio, onde “verdade”, “desinteresse” e “estruturas” cederam lugar à crítica do “autoritarismo”, à apologia da “identidade” e à luta pelas “singularidades”. Realizou-se de maneira perversa o sonho dos progressistas hippies dos anos 60, a criação do mundo a partir do pensar e o esvaziamento por parte da mente dos modelos pré-fabricados, e tudo resultou num grande conservadorismo. A “inação” uniu desde o capitalista George Lucas, que desejava ver sua poupança inflar, até os manifestantes anti-capitalistas, os quais queriam fazer os prédios voarem. Mas o principal: uniu a esquerda com o status quo.
                 A profundidade, religiosidade e projeção são armas que precisam ser reabilitadas e, do ponto de vista individual, isso pode começar acontecer ao se dizer não para a esquerda subjetiva do PT, ao diferenciar não as palavras e imagens, mas os objetivos, métodos e elaborações dos grupos políticos.
                   A prova de que até nos supostos radicais a estética política está presente a unir a  quem se quer de esquerda com a direita encontra-se na crítica até hoje não sustentada dialeticamente em relação a URSS. Os comunistas, sem embargo, devem fazê-lo, devem parar de fugir de si mesmos e abraçar sua história para poderem ir além dela nela.
               O delírio que tomou conta das formulações nessa eleição são fruto de expectativas delirantes tanto por parte dos "progressistas" quanto dos "conservadores", envolvidos no atual lamaçal da "política do ressentimento": a esquerda deve sair desse charco para poder acabar com ele!
              O momento presente permite isso. Talvez logo não vejamos mais quatro candidaturas da verdadeira esquerda como nessa eleição, tendo em conta que toda junta ela ainda não teria 10% das simpatias. Talvez superemos as situações 1) de um partido de esquerda com mais espaço criticar seu maior aliado na TV; 2) de alguns deles mostrarem-se tão ignorantes e autoritários; 3) de se abandonarem as aspirações culturalistas, individualistas e anti-intelectuais; 4) do clamor por união que, dessa vez, veio unilateralmente mostre-se como único caminho possível - e de uma vez por todas. Superadas as ilusões, teremos uma esquerda capaz de apresentar alternativa real ao antro estreito em que nos encontramos.         

(*Acréscimo:o simples gráfico abaixo serve para demonstrar, matematicamente, que não só não devemos compreender a política em termos subjetivistas, mas que ela efetivamente não funciona de maneira subjetiva. Acreditar que o poder estar na ideias, na construção de novos valores, é ignorar a obviedade de que as ideias estão submetidas aos interesses e são manipulas em função destes. Todas as correntes eleitorais eram bem organizadas e ideologicamente estruturadas, no entanto, os resultados eleitorais estão claramente hierarquizados em função das receitas eleitorais).



 

domingo, 14 de setembro de 2014

Jamie Lannister: além da honra e da vaidade.




                   O Regicida, conhecido como homem sem honra, é não só o personagem mais complexo de Guerra dos Tronos como é também aquele que propicia a melhor reflexão sobre o bem, o mal, a honra e a desonra. Se é verdade que a maior astúcia do mal é nos convencer de sua inexistência, então o mundo de Gelo e Fogo é muito similar ao nosso em sua era pós-moderna, pois lá se vive um momento de ceticismo em relação à existência de snarks e gramequins, mas também em relação à própria distinção heroísmo/vilania. Com o trajeto de Jaime, vemos metaforizado o percurso daquele mundo e talvez também do nosso.
                  Jaime Lannister nos é apresentado no início da série como o cavaleiro juramentado da Guarda Real que deu cabo da vida de seu rei, Aerys, o Rei Louco, ignorando seus votos sagrados.  Descobrimos logo também que ele ignora seus votos acerca do celibato e não o faz de forma pouco profana e casual (com prostitutas), mas com a própria irmã! Vaidade, incesto, crueldade e a ganância, típicas dos Lannister, são as características que vemos representada de maneira arquetípica no cavaleiro sem honra. Como se não bastasse, Sor Jaime ainda é responsável por um atentado contra a vida de um garoto Stark, que o flagrou em situação de sexo com a irmã. Não à toa quase todos os personagens decentes da série mostram-se abertamente avessos ou receosos em relação a ele.
                  A tendência a julgar e condenar o Regicida é quase incontornável para qualquer leitor das Crônicas ou espectador, pois acompanhamos a história dos Sete Reinos sempre através de PdVs (pontos de vista) - PoVs, no original inglês. Quando, no entanto, ganhamos acesso à visão de Jaime da narrativa começamos a ter a impressão de que “o homem sem honra” parece mais honrado do que a maioria dos demais – e mais crítico. Começamos a colocar em perspectiva nossas crenças, a questionar o crime de matar o “Rei Louco”, cruel e odiado por todos, a duvidar da inviolabilidade dos códigos da Guarda Real, a criticar o cinismo dos que criticam aquele que fez o que todos precisavam que fosse feito, a questionar o pecado genericamente imputado a quem quebra o tabu do incesto, etc...
                Esse é certamente um exemplo brilhante do poder pós-moderno do multiculturalismo, da facilidade pela qual nosso olhar encantado e ludibriado pela tradicional perspectiva única do herói moderno pode ser chocado pelo salto abrupto entre o Regicida e Sor Jaime, entre o bem de único e o bem multilateral, de como o absoluto pode derreter-se em relativo e, por fim, o caráter simples pode ser pulverizado em momentos e mais momentos. A série de Martin é capaz de zombar da perspectiva moderna em várias instâncias, desde quando viaja por amplos espaços e perspectivas demonstrando a pequenez de um olhar unilateral e cego às determinações múltiplas de uma trama, até quando mostra o equívoco da apologia ao caráter simples e linear, da unicidade entre a bondade e o bem comum.
                Embora efetivado de forma encantadora e até brilhante, tal construção de Martin não é original. É a já batida - embora ainda na moda – contraposição da perfectibilidade antiquada e modernista com a falibilidade do caráter do herói atual. De fato, aqui Bem e Mal são aspectos pertencentes ao espectro de uma mesma personalidade, facetas do comportamento de um indivíduo que se depara com ambientes imprevisíveis e mutáveis, cujas opções e resultados de ações são por natureza opacos e incertos. O flerte com o niilismo se apresenta em Jaime diversas vezes, como quando ele justifica a quebra de votos afirmando “Nós juramos fidelidade ao rei, proteger o povo, honrar a família, etc. Mas e quando o rei massacra o povo? Quando seu pai quer matar o rei?”.  O caminho é unívoco, quanto mais consciência e inteligência se tem, mais se é absorvido pelo niilismo.
                A resolução prática do niilismo é a vaidade e a conformidade com a ordem. Jaime se idolatra em sua própria irmã, sua imagem feminina, se consola de sua má fama com seu poder real seja em batalha real ou na de prestígio entre as famílias, peca para se eximir de um pecado futuro, justifica um erro com a negação de outro. E justamente em sua imaginação de evitar um “mal maior” preserva e adia o bem que há em si para um futuro indefinido, que, com a idade, vai parecendo nunca chegar. Alguns de seus atos forma bons, eliminar o Rei Louco, ajudar o irmão anão, ser fiel, ser honrado em batalha, impedir estupros, porém, sem direção, toda sua bondade se esgota em momentos isolados, os quais parecem confirmar a cada passo que a vida de cada um nada é senão uma promíscua mistura de bem e mal. Ou seja, Jaime é Jaime, mas também o Regicida, é o homem e o mostro, tudo de maneira angustiante e inevitável.
                 A genialidade em sua confecção, no entanto, está em superar a pura perspectiva espacial, somando-a calculadamente à velha trajetória temporal. A luz e as trevas coniventes em Jaime não são sua única verdade, ele também é cobrado a tomar posição, a deixar de ser plateia de si mesmo. Dar um sentido a sua vida é uma exigência de seu tempo histórico, pois, como sempre ocorreu na história, são os momentos de colapso a convocarem os indivíduos de maneira inequívoca à escolha. A desconfiança e seu incômodo com a relatividade do “agir correto” é respondido quando se depara novamente com o horror da guerra, dessa vez pela perspectiva da vítima, tendo sua mão decepada brutalmente por Vargo Hoat.
                A virada aqui pode ser encarada por inúmeros pontos de vista, mas há uma virada! Se é verdade que havia dois ou mais homens em um, é ainda mais verdadeiro que, a partir desse momento, dá-se um salto na trajetória desse indivíduo único – embora ele não deixe de ser “plural”. A guinada da “busca vaidosa” pela “busca por honra” pode ser lida, além da maneira sócio política, de maneira freudiana, como a perda do falo, da “mão da espada”, da simbólica potência masculina, e a consequente reconstrução psiquica em favor de uma imagem de eu menos agressiva e dominadora.
                 Está aqui presente o utópico de toda fantasia, a confrontação decisiva e energética entre o negativo e o positivo. A imagem medieval da honra é trazida pelo Anjo da História para nosso tempo como reivindicação do bem contra o mal e Jaime Lannister é seu portador, o cavaleiro que encarna a esperança num mundo de crescente e total confronto entre a vida e a morte. O amor dá o tom, pois a vontade de potência por si mesma estava para Cersei, tal como a nova estima pelo outro estará para Brienne.
                O desejo é também remodelado. O fetiche em apreciar o artificial, de curtir a beleza plastificada e vazia, de esmiuçar os detalhes para velar e controlar o todo, ou seja, a fuga e o medo do selvagem, representados pela irmã e rainha Cersei, são superados pela vontade de mergulhar na natureza bruta, na exótica, descuidada e inexplorada existência de Brienne. Não apenas a coragem da guerreira, mas cada traço espontâneo ou até mesmo feio em sua figura passa em certo momento a significar para Jaime o caminho para a transposição do presente, para a redenção e vida significativa (já não Bem em sentido Stark, mas o Bem). A dupla virada(subjetiva e objetiva) na imagem do Regicida é irreversível, sua escolha em priorizar honradez à pura vaidade o põe na proa dos verdadeiros conflitos que estão por vir em Westeros. Que venham os caminhantes brancos, então!

quinta-feira, 13 de março de 2014

A voracidade do espetáculo e o espetáculo da voracidade: sucinto comentário sobre a série Jogos Vorazes



A narrativa de Jogos Vorazes é eminentemente política, embora haja na série um elevado grau de indeterminação acerca dos conteúdos políticos específicos e o resultado dessa característica é que transbordam leituras e divergências acerca da “real crítica” levada a cabo por Suzanne Collins. A autora, no entanto, admite ter se inspirado na experiência crítica do pai acerca da guerra estadunidense no Vietnã e dos modernos “reality shows”.
                O terror da guerra, sua propaganda cruel, o sacrifício dos dominados em nome do interesse de poucos e, ao mesmo tempo, o mundo do marketing milagroso, das manipulações e falsificações televisivas, da competição individualista feroz e a ideologia do vencedor imbatível formam, portanto, uma totalidade coerente, um sistema unitário, nas páginas de Collins.
                Não há dúvida de que múltiplas situações históricas podem ser figurativamente representadas nesse arranjo, até porque, como sabemos, a história até hoje esteve sempre imersa em sangue, opressão e desvario. Mas, a julgar pelas características dos protagonistas políticos da história, a Capital e o Distrito 13, parece muito mais plausível inferir que Collins esteve interessada em reproduzir um conflito inspirado na Guerra Fria, no qual a primeira cidade representa o capitalismo com seu cinismo, crueldade e futilidade, enquanto a segunda cidade representaria o socialismo com suas esperanças bloqueadas pelo autoritarismo e pela escassez de recursos.
                 A inversão da crítica burguesa usual é de máxima importância aqui. A distância histórica permitiu a Collins manter uma crítica comum aos regimes autoritários do tipo soviético e, no entanto, enfatizar muito mais a violência liberal, a brutalidade das disputas individualistas e a falsidade inerente à mídia em sua conjugação com o interesse das classes dominantes. O efeito social corrosivo e a perversidade quase irracional da comunicação de massas faz com que muitos expectadores sintam-se superiores perante a credulidade e passividade supostamente caricaturais dos personagens, porém será assim tão caricatural? A atração que o filme gera sobre a multidão parece mostrar a força realista presente nesse “blockbuster”, a inspiração no presente que nós vivemos. A contradição se encontra justamente na sociedade e, perante a bela e rara formulação de um entendimento coerente que tal obra permite acerca da sociedade “pós-moderna”, as interpretações se perdem no antagonismo da necessária crítica radical total e da inerte aceitação ideológica do dado.
                Não surpreende que alguns – e talvez a maioria - tenham visto no livro ou no filme apenas uma crítica ao Estado, uma crítica ela própria midiática e moralista à concentração de poder nas mãos dos políticos. Quanto à autora sabemos que não é tão superficial quando observamos sua ênfase na exploração econômica dos distritos mais pobres, ou seja, no fato dela não ver o mercado ou a divisão do trabalho como a mão amiga a distribuir benefícios (“Há coisas que as pessoas não pensa quando nunca lhes faltou pão em casa”); igualmente o confirmamos em sua contraposição da Capital com o 13, que surge no último livro e que contrasta sua crítica ao autoritarismo com sua crítica ao capitalismo em fase monopolista. Por fim, a tese da figuração da Guerra Fria ganha força com a ameaça nuclear que no livro impede a guerra total, mas serve para manter a política de estrangulamento econômico sobre o 13 e impedir o livre desenvolvimento de sua sociedade.
                Para além dessa capacidade de representação de uma sociedade do espetáculo, na qual violência e apologia se unem, o mais fascinante em Jogos Vorazes é a dramatização do conflito pessoal no que diz respeito à interpretação e a espontaneidade, à necessária adaptação e o impulso autêntico. Katniss Everdeen, a protagonista da série, embora desde o início apresente críticas e antipatia pela Capital, somente pode compreender verdadeiramente o mundo em que vive quando é envolvida de maneira dramática na trama diabólica da luta pelo poder.
                O conflito entre ser uma peça num jogo muito mais amplo do que ela e ser quem se é, é um paradoxo dilacerante. É confuso e insolúvel quando se trata da política, da tensão entre a busca por sobrevivência e ser símbolo da rebelião e, ainda mais, quando se trata do amor, a confusão gerada por representar para as câmeras um amor comercialmente útil e, ao mesmo tempo, descobrir dentro de si uma paixão e um afeto verdadeiros.
                Katniss torna-se um símbolo da revolução, o tordo (ou a foice e o martelo) da esperança na medida em que vai deixando de ser apenas o negativo do sistema, na medida em que é levada - e se deixa levar – para fora da limitação da vida no Distrito 12 e aprende quão deformada e absurda é a situação total de seu mundo, ela aprende com a Capital que mesmo os cidadãos privilegiados da cidade são não muito mais do que alienados e, no entanto, do arranjo que os tem como viga mestra brota uma monstruosidade injustificável. Ela torna-se uma consciência universal e crítica.
                A contraposição dialética entre o indivíduo advindo da sociedade, que atua sobre ela, que a tem como palco de luta e de rebelião é repercutida de forma tão abrangente pelo romance que não há sequer motivos para suspeitar que sua autora tenha total consciência do que fez. Isto porque o dilema da protagonista é o do próprio texto, que, apesar de sua inclinação absolutamente crítica, se dobra a imperativos culturais mercadológicos em sua raiz, como a linguagem simples e rápida, o esquema de roteiro de cinema industrial, etc. A própria crítica não pode brotar de outra parte senão da totalidade criticada e Collins não ignora inteiramente tal fato, pois observa que a ampla propaganda ao redor do filme, a ênfase no triângulo amoroso gerada pela adaptação cinematográfica e todas as demais “distorções” geradas pelo sucesso da história são paradoxos com os quais seu fãs tem de saber lidar.