domingo, 11 de dezembro de 2016

As ruínas da esquerda e nosso primeiro inimigo.

Le Pen e a Frente Nacional crescem há anos na França. Após as ameaças de saída da Grécia, Itália, Espanha e Portugal, a Grã-Bretanha foi quem de fato saiu da União Europeia – o Brexit. No Brasil, o fascismo jurídico a cada dia parece ganhar mais entusiasmo popular e com seu gozo doentio pelo linchamento moral da “política” ameaça, inclusive, extrapolar seu escopo elitista e antipetista inicial rumo à sacralização do judiciário por si mesmo. Mas a hora da verdade foi a eleição para presidente dos Estados Unidos: “Trump ganhou!” parece ter sido um lamento geral a percorrer o mundo por um instante, tal lamento uniu gregos e troianos, direitistas e esquerdistas, socialdemocratas e conservadores. Ora, qual a razão de tamanho consenso? Qual pressuposto fundamental partilhado por todos e que coube a esse indivíduo romper?
Aparentemente, Trump é sintoma final do fim da era multicultural, do fim da globalização harmônica e consensual. O eterno engodo socialdemocrata e liberal da escolha pelos “menos pior”, a repetição constante da mobilização emergencial fracassou de maneira significativa pela primeira vez em várias décadas. O “taticismo”, que sempre impedia qualquer consideração séria de uma estratégia política, de um projeto social, não resistiu à crise econômica e nem a vitória do status quo pôde ser assegurada pelas manipulações dos marqueteiros mundiais. Agora se expressa claramente a revolta contra a aclamação universal do privilégio, mas ela eclode através do bárbaro egoísmo de uma classe trabalhadora despolitizada e nada solidária. É através de discursos fascistas que o mundo hodierno demonstra a ilusão do “fim da ideologia”.
A lição que se pode tirar de toda essa conjuntura diz respeito a nós mesmos, a esquerda. Qual caminho foi percorrido para que o limitado multiculturalismo decaísse no puro ódio? Como a era cuja a forma de pensamento e ação era a pluralidade e diferença deu à luz ao monstro protofascista? Há muito sabemos quem é nosso inimigo derradeiro, a quem devemos dirigir a “luta final”, qual o poder capaz de tudo para destruir a emancipação, porém devemos agora nos questionar sobre nossos obstáculos de maneira mais ampla: qual o nosso primeiro inimigo? Talvez na mais recente experiência de Ocupação da UNB se possa perceber como os últimos oito anos puderam agravar o quadro lamentável de ruína da práxis crítica e ilustrem o resultado perverso da substituição do choque dual pelas localidades.
A primeira impressão, sob o ponto de vista de visitante esporádico da referida ação política na universidade, era de avanço em aspectos significativos. Ocorreram diversas ocupações menores de 2008 até 2016, mas a seriedade do movimento atual parecia distanciá-la desses eventos menores, apesar de sua relativa pouca visibilidade em relação ao espetáculo midiático do “Fora Timothy”. Agora a UNB estava diante de uma Ocupação generalizada que foi além da anterior ao ocupar não apenas a reitoria, e sim diversos prédios, implantar um sistema de comunicação baseado nas novas tecnologias e mobilizar um número ainda maior de militantes em suas barricadas, se não em suas assembleias.
Mas algo chama atenção a partir de um olhar formado em 2008: o número de lugares reservados e restritos, a regionalização dos milititantes em acordo com seus interesses imediatos (locais de estudo), políticos (os partidos e seus interesses na visibilidade da reitoria) e identitários (mulheres, negros, etc.). A consolidação de espaços políticos seccionados segundo a identidade era universalmente tida como a marca da modernização e consequência do movimento estudantil hodierno, suplantando mesmo considerações práticas sobre a viabilidade numérica, o contingente de pessoas para manterem as ocupações do movimento negro ou das feministas. De fato, as pautas principais eram o fim da reforma do ensino médio, a retirada da “PEC 241” e o reconhecimento do primeiro CA étnico, o CA Quilombo.
O enclausuramento tomado por radicalidade, o regozijo consigo mesmo em detrimento de qualquer totalização, mostrou seu resultado numa noite casual, através de gestos banais, precipitando por meio da contingência, a verdade da loucura em que nos encontramos. Em parte por ironia do destino, em parte por má-fé dos envolvidos, o estopim do problema se deu em meio aos mais inofensivos representantes do movimento estudantil, os estudantes da Faculdade de Educação (FE). Enquanto se encontrava um militante do pretenso “CA Quilombo” na FE, um integrante da comissão de segurança lhe perguntou: “É seu esse casaco? Não é da minha colega?”. A resposta furiosa ressaltou o racismo de inquirir um negro sobre roubo, denunciou o peso secular do preconceito e opressão racial cristalizados naquela pontual indagação.
            Findado aí o caso, alcançar-se-ia, talvez, justiça. O frenesi gerado pelo maniqueísmo e pela idolatria da identidade, no entanto, não permitiu esse fim ou qualquer comunicação real. A imagem sombria da noite seguinte é de um novo fascismo surgido de onde poucos esperavam: a FE foi cercada por um grupo armado encapuzado e com tacapes, militantes negros transtornados estavam dispostos a fazer uma intervenção denunciatória contra o fato ocorrido no dia anterior. A performance política regada à álcool com música, dança e eventuais ofensas e agressões dirigidas aos ocupantes da faculdade, como não podia deixar de ser, rapidamente evolui para ameaças mais diretas e hostilidades de caráter bárbaro. Uma mulher e um homem se despiram e urinaram em frente a faculdade, as críticas dos ocupantes em relação à agressividade sexual do ato não surtiram nenhum efeito dado que provinham dos “branquelos racistas da FE”, ao contrário, insuflaram o ódio que se propagava como chama.
            Quando um militante negro da FE se opôs aos métodos irracionais e tresloucados da gangue esquerdista, foi rapidamente taxado de “criado de brancos”. Quando o mais pacífico e sereno militante branco, de olhos baixos, cruzou com os trogloditas para adentrar no prédio os ouviu dizer “não nos encare mesmo, branquelo filho da puta, ou vai levar porrada”. O ódio pelo diferente e a paixão pelo igual, o completo desvanecimento da alteridade, deram luz ao maniqueísmo absoluto e ao binarismo que parece a tudo poder justificar em nome da defesa desse “eu” fantástico e mitológico encarnado na coletividade indentitária. Assim, mesmo entre seus pares, se desencadeou o ódio na ocasião em que uma mulher branca dentre os agressores discordou de algum encaminhamento prático e logo foi hostilizada por utilizar “ dreds” e ser do Ceub, ou seja, por fazer “apropriação cultural” da forma de vida negra e não possuir legitimidade de fala dentre seus pares. Enlouquecida, a mulher pediu ao amigo que lhe trouxesse qualquer material cortante, tesoura ou faca, para arrancar os cabelos naquele exato momento - ela seria, no dia seguinte, internada num hospital público psiquiátrico. Ora, o que nos choca, além da extinção de qualquer dialética, de qualquer bom senso, é a fluidez do ódio em direção a qualquer objeto se apresente, por instante fugaz que se seja, como ameaça a estabilidade da auto-representação, tal como vemos ocorrer a nível global na xenofobia e militarismo.
            Em meio a tamanho caos e aleatoriedade, o que era impossível há anos atrás ocorreu: deu-se a invasão de uma ocupação por outros estudantes, movimento estudantil contra movimento estudantil. A luta fratricida substituiu todos os receios de invasão por policiais ou ataque pelos “coxinhas” e demonstrou o quanto involuímos e nos tornamos inimigos de nós mesmos. O ataque ao prédio histórico, tombado pelo patrimônio histórico, fez nada valer o esforço de preservação de seus ocupantes, não deixou nem uma parede limpa, nem um metro do chão sem pichações e nem os corrimões sem inscrições ofensivas. Os invasores pintaram em todos os cantos frases “como a faculdade mais racista”, “faculdade de brancos” e, ironicamente, numa prateleira de livros humanistas e multiculturais: “livros brancos racistas”. Não contentes, encontraram o rapaz responsável pela infeliz pergunta – franzino, homossexual e apavorado –  e o cercaram: fizeram o escracho no melhor estilo policial, o intimidando a cada resposta com gritos e ofensas. Ao final do vandalismo e tortura, sobrevieram novas ameaças: agora dormiriam lá, veriam os brancos, e somente eles, limpando as instalações, exigiriam que lhes fosse servido o café-da-manhã por parte dos ocupantes da FE, etc.
O espetáculo terminou. Eles foram embora ainda durante a noite. Não se sabe até onde mais os militantes da faculdade de educação suportariam as humilhações. Sua reação ao ocorrido foi de absoluta resignação, a inquestionabilidade do “racismo mesmo que inconsciente” os levou a concluir que não deveriam se manifestar, de que não deveriam reagir ou sequer emitir uma nota de repúdio ao ocorrido. Mais: sequer deveria ser mencionado o incidente ou vazado para indivíduos externos. Tal como amiúde costuma ocorrer aos violentados, a culpa domina a experiência do real oprimido, a vergonha vem a somar injúria à violência, o silêncio sintetiza perversamente a impotência e necessidade de prosseguir. O medo da vingança e a insuficiente capacidade de formulação são apenas parte da explicação, dado que se poderia mesmo desocupar a faculdade em função de evento tão grave, a outra parte causa de tal absurdos se pode encontra na lógica paradoxal da esquerda contemporânea, na ambiguidade paralisante na qual as boas intenções humanistas se casam com o prazer obscuro pela violência, seja na forma do autoflagelo ou do sadismo.
O poder obsceno do automartírio, no entanto, não venceu unilateralmente. Parece que há um ponto em que o ego oprimido ainda resiste e é capaz de alguma reação contra o superego maternal hodierno. Assim, afinal, foi produzida uma moderada carta de repudio ao ocorrido. A submissão parece ter perdido força após o influxo do tempo e permitiu um mínimo de lucidez às vítimas. Esse mínimo, porém, precisa se expandir ao ponto de inverter toda a lógica doentia de um tempo histórico que se apresenta aquém do mais ralé senso comum de outrora[1]. A esquerda precisa partir para o ataque e cortar a própria carne onde está putrefata, precisa combater o aspecto doentio de si mesma e expurgar sem complacência os marginas de vermelho: “ser radical é ir até a raiz”, não importa seu “lugar”. Quem almeja autonomia deve exigir responsabilidade, deve-se ter claro o real significado das agressões que sofremos e deve-se perceber sem ilusões os atalhos para a emancipação e as armadilhas em tal caminho.



[1] Como Zizek observa acerca da tortura que voltou a ser aceita como um problema na arena do debate público após um aparente avanço em que era vista como monstruosa. A crise, no entanto, é uma oportunidade de evolução.

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