A
globalização finalmente alcançou um ponto em que coloca em xeque a estabilidade
dos espaços hegemônicos do capital, as relações internacionais fundamentalmente
definidas na sequência da Segunda Guerra Mundial e que apenas se reafirmaram no
progressivo sufocamento da alteridade através Guerra Fria, com o colapso da
União Soviética, brilharam por alguns instantes como irrevogáveis. O arranjo
final do mundo era, então, o civilizado mundo ocidental, o triunfo do American Way Of Life contra o
autoritarismo socialista e a barbárie nazista, contra os poderes do Leste e o
findado império Alemão, sua vitória era lentamente saboreada perante a
paulatina erradicação até mesmo das “excentricidades culturais” da Europa
Ocidental.
A ofuscante vitória, no entanto,
numa inversão dialética, começa a aparecer como mais um ciclo histórico. A
eliminação dos poderes inimigos gerou novas forças intimidadoras ainda mais
globais, o islã fundamentalista soou o gongo no início do século, a
reestruturação da Rússia (seu sobrevivente poderio militar), a força alemã na
atualmente instável Europa e a acelerada acumulação na China demonstram que a
“pax ocidental” está ameaçada. A anti-globalização não é mais um movimento das
minorias barulhentas e sem esperanças é, agora, um movimento do próprio Capital
em sua luta por autoperpetuação e ameaça o quintal da democracia, as medidas
autoritárias contra o “terror” (as denúncias de Snowdem, Assange, etc.), a
força da xenofobia (Trump, Le Pen, etc.), os “golpes democráticos” e referendos
solenemente atropelados (Brasil, Paraguai, Colômbia, Grécia, etc.) demonstram
que novos choques e perturbações são inevitáveis.
Os filmes hollywoodianos
significativos, enquanto dramatização de nosso descompasso com o mundo, mapeiam
o novo cenário implacavelmente. Jameson demonstrou na ficção científica do
século XX o olhar cultural dirigido para os impasses de cada época. Os impulsos
futuristas perante o meramente desconhecido. O pavor perante alienígena, o estranho,
e a desconfiança com a alteridade absoluta implícita nessa reprodução da lógica
dicotômica da Guerra Fria. O regozijo crescente diante da identidade absorvente
na era do triunfo do Capital, o deleite com o corpo extraterrestre ou a
aventureira exploração do mundo androide, que reproduzia o poderio perfeito de
nossa época sobre si mesma.
A
Chegada (2016) representa a etapa atual do trajeto humano, o momento em que
novas forças estranhas emergem no cenário do idílio burguês ocidental. O filme
retrata a aparição de doze espaçonaves alienígenas em nove pontos distantes da
Terra (EUA, 2 na Rússia, Venezuela, Austrália, Serra Leoa, Reino Unido,
Dinamarca, Japão, China, Paquistão e Sudão) e cuja lógica é desconhecida. A
pergunta que aparece de saída é significativa: “Qual o propósito deles na
Terra?”, tal como a assombrosa e onipresente hipótese de resposta implícita em “para
que nove naves se a intenção deles for pacífica?”. Quem é chamada para lidar
com tal contato imprevisível é a Dra. Louise Banks, linguista acadêmica e digna
representante da cultura ocidental.
A tensão, o medo e ansiedade dos
humanos nesse primeiro contato toma conta da película em diversos momentos nos
quais o espectador é conduzido, junto à Louise, por som e câmera a um clima de
suspense inteiramente digno de um contato em primeiro grau. O suporte emocional
para a protagonista lidar com a indizível angústia de sua tarefa vem de seu
companheiro humano, Dr Ian Donnelly, físico teórico, mais preocupado com
números do que com intenções alienígenas. As oposições da trama, portanto, estão
desenhadas: a mulher e o homem, as ciências humanas e as exatas, os
extraterrestres e os seres humanos, os dois alienígenas (Abbot e Costello), os
Estados Unidos e a China, os militares e os civis, etc.
As perguntas, por conseguinte, são: como lidar com tais diferenças?; Tratamos
com diferenças ou antagonismos?; nos apegamos a nossa identidade e reagimos ou
nos congregamos? Quase todos os pressupostos apontam para a belicosidade,
para a agressão preventiva, para a desconfiança e medo. Tal ocorre com a mídia
histérica, com o ataque de um grupo de soldados rebeldes e, sobretudo, no
militarismo chinês, cujo responsável pela mediação com os chamados heptapods é
feita pelo general Shang. Mas a aparente oposição diametral com o militar
chinês é apenas superficial, dado que o exército estadunidense também se mostra
disposto a tudo para evitar ceder vantagens aos rivais.
As contra tendências ao conflito se
expressam em Louise, em seu relacionamento com Ian, no compreensivo militar
Weber, na comunicação científica aberta dos países cede do contato hepatapod,
porém a ameaça de irrupção da luta é uma sombra onipresente. Quanto tempo pode
durar a abertura e reciprocidade entre EUA e seus inimigos China, Rússia ou Venezuela?
Quanto pode dura a paciência com o demorado método de alfabetização dos
perturbadores visitantes por Louise? Quanto pode sua própria mente resistir a
tensão e medo ante a expectativa de resposta?
As descobertas de Louise apontam sem
cessar para sua intuição de que a linguagem é uma ponte, uma possibilidade de
conviver com o diverso, de que o outro
pode ser compreendido à luz de boa-vontade multicultural. Mas é também esforço
o que tal postura exige, perseverança para conquistar uma lógica diversa,
coragem para se desarmar perante o abismo do inicial incognoscível. Cada passo
de sua pedagogia interplanetária reafirma o esforço; “qual é o propósito de
vocês na Terra?” exige a confissão e expressão da interrogação e da incerteza
(“?”); pede a descoberta da existência ou não da identidade e diferença no
seio desses seres estranhos (“vocês”); o contato e a imersão na intensão ou inconsciência da alteridade (“propósito”).
A angústia, a investigação e
compreensão são os passos sucessivos para a entrada no mudo alheio, para
adentrar na lógica dual, na “cena do dois”, segundo as palavras de Alain
Badiou. O ato literal de se despir, de retirar a indumentária preventiva e
desnecessária que mediava e embarreirava o “face-a-face”
com os alienígenas é, para Louise, uma ação perfeitamente análoga a sua
comunicação crescente com o Dr. Ian e a exposição da fragilidade deixa de sê-lo
na medida em que tal abertura é a própria superação da aridez e inimizade que
antes dominava a vivência.
O
diálogo com os heptapods, portanto, é a possibilidade de expressar o dilema
geopolítico, o drama afetivo e a angústia existencial. Os perturbadores “flasbacks” de Louise representam
precisamente as dificuldades e crises que se anunciam perante o projeto de
síntese almejado por ela, a possibilidade de reconciliação e concretude vislumbrada
pela vontade e ameaçada pela objetividade hostil[1] . Seu aprendizado da
linguagem alienígena a coloca em novo patamar existencial, ela aprende a
pensar/viver de maneira integradora, global, simultânea. Ao mesmo tempo, a
imperfeição ainda reside na vida, ela ainda é um híbrido de humano e
pós-humano, os ruídos se fazem sentir na sua confusão, em seus receios e
sobretudo nos fracassos objetivos que a vida ainda lhe reserva.
O
que a língua heptapod ensina é que a linearidade e a classificação são a
linguagem do medo e escassez, dos nacionalismos que irrompem no mundo hodierno
e a solução fílmica para tais limites é tolerância, o pensamento cíclico, a
irmandade e a aceitação. Mas a lição do eterno
retorno ou do budismo ocidental
não demonstra sua fraqueza na própria estrutura de sua ideologia da resignação?
Ao que parece, o seu “imperativo da paz”, do “jogo de soma não zero”, guarda
como segredo a noção de irreversibilidade e fatalidade, ou seja, ela obriga a
acolher igualmente o indesejado. De fato, em suas três dimensões (individual, dual e geopolítica), a “mensagem” aqui é que
deveríamos acatar o horror da morte, o fracasso do dual, e, em última
instância, a possibilidade da fratricida Terceira Guerra. “O que vale é o
percurso” nos diz o subjetivismo de um tempo histórico abstrato e agora fica
claro que a moral de rebanho, típica do cristianismo em uma totalidade anterior,
atualmente se encarna em outras ideologias.
[1] É possível aqui pensar no “realismo” (em
oposição ao “simbolismo”) de Lukács, da tentativa de unir dramaticamente
sujeito e objeto.
Um comentário:
Interessante, você gostou do filme? É excelente, sinto que história é boa, mas o que realmente faz a diferença é a participação do atriz Amy Adams neste filme. O elenco deste filme é ótimo, eu amo os filmes onde Amy Adams aparece, o ultimo que eu vi foi em liga da justiça filme 2017, adorei! De todos os filmes que estrearam, este foi o meu preferido, eu recomendo, é uma historia boa que nos mantêm presos no sofá. É espetacular. Pessoalmente eu acho que é um filme que nos prende, tenho certeza que vai gostar, é uma boa história. Definitivamente recomendado.
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