A
compulsão pelo similar não é auto evidente como pode parecer. A natureza da
história, sua marcha irrefreável de mudança por meio do trabalho demonstra como
a alteridade desempenha um papel central na existência do gênero humano, o modo
como a carência nos impulsiona em busca
da alteridade como única forma de realização,
como sede pelo novo e atração pelas promessas das diferenças. O poder absorvente
do outro, portanto, reside em seu
constante desafio e incentivo a nossa própria totalização, ao nosso processo
laboral de nos completarmos através do jogo de conquista daquilo que nos
escapa.
Em sua melhor faceta, o amor se
anuncia como reconciliação com o mundo, como “comunismo mínimo” (Badiou) que
nos permite a experiência de outra forma de existência, da forma dual com a
qual o regozijo de mim mesmo cede espaço ao partilhamento trans-individual. A
despeito de Lacan e Badiou, a despeito de sua lógica de que “não há relação
sexual”, de que só há o gozo próprio com a mediação alheia no sexo, vejo a
própria “mediação” como constituinte de necessidade ontológica do outro. O corpo do outro em sua singularidade que nos escapa, em sua lógica irredutível, em seu poder oculto nos chama para si.
A
sexualidade, por conseguinte, ilustra de maneira privilegiada os potenciais e
limites de uma época dominada pela ética da identidade, pelo deleite com a imediaticidade
quase só física do visível em detrimento do intangível[1], pela adoração
microscópica do detalhe em prejuízo do quadro inteiro. O mistério, encanto e
temor perante o diferente caracterizaram a bela época do coquetismo, do olhar
significativo e provocação singela que guardavam em si uma esperança quase
mística pelo todo outro, pelas
promessas de maravilhas desconhecidas e transcendentes.
A
compulsão pelo consumo, pela fungibilidade universal de corpos e desejos, por
vezes, esconde o ódio por tal diferença, sua equalização serial é anestesiante.
O processo se retroalimente e excreta a ideologia visceral da limpeza, do
controle, a depilação de toda aresta, o amortecer de toda força selvagem pela
literal emplastificação do ato sexual. As necessidades pragmáticas embutidas em
tal autocontrole são auto evidentes, mas não anulam seu caráter ideológico.
Ocorre,
no entanto, de estarmos diante da ameaça de inversão dialética desse quadro
pós-histórico. A apreciação da pureza, a imersão doentia na técnica e ação
imediata, parece alcançar seus estertores vitimada pela própria perversidade
que lhe deu origem. Dado que se esgota o potencial rebelde da mecanicidade e
instrumentalidade, ela só encontrar escape em sua própria radicalização, no
entanto, tal extremo frequentemente pode resultar num retorno obsceno e
inesperado da dimensão humana sob a forma de vexame, inquietação e constrangimento
daquele ineliminável âmago de subjetividade que resiste nos sujeitos inclusive
a despeito de sua vontade. Toda a cultura, em suas dimensões individuais, duais
e coletivas, parece estar diante de tal abismo: para onde vamos?
[1]
Jameson faz a análise da regressão no que diz respeito a FC em sua idolatria
pelo corpo alienígena em detrimento do mistério e suspense anteriores.
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