quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Identidade e sua Antinomia:

            A compulsão pelo similar não é auto evidente como pode parecer. A natureza da história, sua marcha irrefreável de mudança por meio do trabalho demonstra como a alteridade desempenha um papel central na existência do gênero humano, o modo como a carência nos impulsiona em busca da alteridade como única forma de realização, como sede pelo novo e atração pelas promessas das diferenças. O poder absorvente do outro, portanto, reside em seu constante desafio e incentivo a nossa própria totalização, ao nosso processo laboral de nos completarmos através do jogo de conquista daquilo que nos escapa.
            Em sua melhor faceta, o amor se anuncia como reconciliação com o mundo, como “comunismo mínimo” (Badiou) que nos permite a experiência de outra forma de existência, da forma dual com a qual o regozijo de mim mesmo cede espaço ao partilhamento trans-individual. A despeito de Lacan e Badiou, a despeito de sua lógica de que “não há relação sexual”, de que só há o gozo próprio com a mediação alheia no sexo, vejo a própria “mediação” como constituinte de necessidade ontológica do outro. O corpo do outro em sua singularidade que nos escapa, em sua lógica irredutível, em seu poder oculto nos chama para si. 
A sexualidade, por conseguinte, ilustra de maneira privilegiada os potenciais e limites de uma época dominada pela ética da identidade, pelo deleite com a imediaticidade quase só física do visível em detrimento do intangível[1], pela adoração microscópica do detalhe em prejuízo do quadro inteiro. O mistério, encanto e temor perante o diferente caracterizaram a bela época do coquetismo, do olhar significativo e provocação singela que guardavam em si uma esperança quase mística pelo todo outro, pelas promessas de maravilhas desconhecidas e transcendentes.
A compulsão pelo consumo, pela fungibilidade universal de corpos e desejos, por vezes, esconde o ódio por tal diferença, sua equalização serial é anestesiante. O processo se retroalimente e excreta a ideologia visceral da limpeza, do controle, a depilação de toda aresta, o amortecer de toda força selvagem pela literal emplastificação do ato sexual. As necessidades pragmáticas embutidas em tal autocontrole são auto evidentes, mas não anulam seu caráter ideológico.
Ocorre, no entanto, de estarmos diante da ameaça de inversão dialética desse quadro pós-histórico. A apreciação da pureza, a imersão doentia na técnica e ação imediata, parece alcançar seus estertores vitimada pela própria perversidade que lhe deu origem. Dado que se esgota o potencial rebelde da mecanicidade e instrumentalidade, ela só encontrar escape em sua própria radicalização, no entanto, tal extremo frequentemente pode resultar num retorno obsceno e inesperado da dimensão humana sob a forma de vexame, inquietação e constrangimento daquele ineliminável âmago de subjetividade que resiste nos sujeitos inclusive a despeito de sua vontade. Toda a cultura, em suas dimensões individuais, duais e coletivas, parece estar diante de tal abismo: para onde vamos?




[1] Jameson faz a análise da regressão no que diz respeito a FC em sua idolatria pelo corpo alienígena em detrimento do mistério e suspense anteriores.

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