segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Um Mapa da Ideologia por Sinopses



             A Vida dos Outros (Alemanha, 2006).
                Li em algum lugar que A Vida dos Outros se caracterizava por não ser uma luta do bem contra o mal, o que só pode me levar à conclusão de O Senhor dos Anéis também não o é na percepção desse crítico esquecido. O filme, menos inconsequente com a política do que Adeus Lênin, troca o humor agitado por uma dramaticidade suave de tons acinzentados de personalidades reprimidas. Aqui a sociedade se apoia numa vigilância irrestrita, mas que só tem como fundamento as arbitrariedades de vilões burocratas. No caso, um artista bem comportado torna-se alvo de investigação após um palpite policial, posteriormente alimentado por um cacique gordo e tarado que deseja sua mulher. Ora, a tensão explorada pelo filme é entre a parte dos alemães que se entrega à lógica má do sistema e aqueles desenvolvem sua bondade intrínseca: a esposa que se vende à luxúria do influente burocrata (mas se arrepende); o escritor que permanece neutro perante a barbaridade do sistema; e, a grandiosa cereja do bolo, o policial endurecido que desperta como um liberal bondoso. 
                O que poderia haver de rebelde na crítica é anestesiado pela vitória dos “não corrompidos”. Naturalmente, os torturantes interrogatórios sem vigília, as ameaças de perseguição profissional, a elaboração de leis do comportamento (a emoção ao se defender, o padrão da memória), os suicídios volumosos, e toda sorte de maldades aparecem como resolvidos no triunfo humano: a queda do Muro de Berlim. A humanidade, claro, jamais viu monstruosidades equivalentes no ocidente livre: nem do pau de arara, nem no macartismo, nem nos testes behvoristas da CIA e, ainda menos, nos milhares de desaparecidos do amigo de Thatcher, Pinochet. Nada é tão confortável e fácil quanto a crítica ao que já não do que não é presente, do que já temos como vitória assegurada. Nada é tão bovino quanto ver trevas apenas no passado.
                Não se pode dizer que se trate de um filme profundamente reacionário, pois para além de sua sensibilidade política antiutópica se sobressai, de modo infeliz e superficial, um propagandismo totalmente vulgar, a começar pela adaptação em 1984 (!); na reconciliação artística proveniente da inspiração que se volta do sistema corrupto para a bondade redescoberta no mundo (!!); aliás, só se retira dos grandes críticos o momento moral, como no caso de Marx, Brecht, ou Lênin, que não poderia ser malvado na revolução se tivesse se permitido ouvir mais música clássica (!!!); por fim, na maravilhosa redenção do policial que, apesar da falência e humilhação, é secretamente reconhecido com um “homem bom” (!!!!). Ah, o que teria sido do homem bom sem os horrores do socialismo? Sem os vingativos burocratas socialistas ele jamais teria se tornado um humilde carteiro num sujo subúrbio de Berlim, tal como de certo não aconteceu com o restante da população do leste e nem agora acontecerá com os Sírios...

              Que horas ela volta?(Brasil, 2015)
               Mas que nem toda maldade se encontra no passado. Que nem toda violência provem dos inimigos do “nosso modo de viver” é algo que felizmente apareceu no vestígio de crítica existente no cinema brasileiro, “Que horas Ela Volta?”. Aqui a empregada Val (Regina Casé) deixou a filha há muito tempo, não parece saber se voltará a vê-la, não sabe se voltará a se reencontrar consigo mesma.

                No entanto, nada disso ocorreu por causa de qualquer encarnação do mal, nenhum ditador cruel precisou mostrar o rosto para que sua vida fosse diminuída, desvalorizada. Tampouco ela precisou representar alguma ameaça ao governo, à elite ou sequer pertence aos privilegiados críticos, sua vida é apenas irrelevante dada à abundância de gente comum desimportante como ela.

                Se está tão longe do bem e mal aqui, na verdade, ao ponto de que os patrões opressores nada mais são do que indivíduos infelizes, entediados e fracassados: o herdeiro pródigo, sem grandes horizontes, mas carinhoso; o marido depressivo, pintor fracassado, e de casamento frustrado; a esposa ressentida, elitista e de gentileza estéril. O desprezo pela empregada não é teórico, não é raivoso, sequer proposital. Trata-se da desconsideração, desprezo pela qualidade da vida do outro em sua forma mais difusa, e mais real.

                A exaltação é desnecessária até a chegada da filha da empregada, daquela que começa a desafiar as fronteiras invisíveis do espaço da elite. É o que diz Christian Dunker: “O conflito é novamente caracterizado por uma espécie de dilatação da presença do serviçal. Assim como Val deve aparecer para o que for necessário, antecipando demandas e dificuldades de seus patrões, ela deve logo em seguida tornar-se invisível quando se trata de existência não funcional.”.

                A filha é excesso que atrapalha a complacência e colaboração de Val com os mecanismos da coexistência pacífica das desigualdades. A covardia da mãe, o abandono da filha Jéssica, é propositalmente vingado por esta quando se propõe abertamente a ser um incômodo para a família que a hospeda. Ducker descreve: “Ela gruda, se insinua, aceita ser tratada como hóspede, comporta-se como um objeto intrusivo, age como se não soubesse que existe uma ordem e uma lei, um semblante que mantém sob si a verdade de um discurso, que é o discurso da segregação.”. 

                Enquanto a Val de Regina Casé consegue ser a mais perfeita imagem do pobre subserviente e dedicado, Jéssica cria um mal estar terrível no espectador, o tempo todo faz notar, até sem mesmo querer, a insatisfação da patroa com seu espaço invadido, o desejo patético do patrão por ela, e o jeito abobalhado do jovem Fabinho. Mas cada explosão esperada dessa tensão é angustiosamente protelada, as fronteiras expostas pela tensão não chegam a ser quebradas, mas exploradas em sua extensão, elaborando um meticuloso, invulgar e doloroso mapeamento.

                De modo quase certo, como indica o ideólogo Sérgio Alpendre, o filme tem qualquer afinidade com o lamentável e injustificável militantismo petista. A patroa chega a dizer diante da irrealista “vitória” vestibulanda da jovem nordestina que o “o país mudou mesmo”. Na verdade, essa vitória nada mais traduz do que a capitulação de setores progressistas da sociedade ao consolo perante a invencibilidade do capitalismo. Sem dúvida o aspecto mais tolo do filme é a ideia de que as fronteiras podem ser subjetivamente superadas no âmbito da realidade que engendra fronteiras. Naturalmente, isso vai agradar em variados graus reformistas com Ducker, que esperam o “reconhecimento” da importância dos direitos fundamentais, e até mesmo Safatle, que acredita na força da suposta ascendência dos pobres.

                Apesar de tudo, não se pode dizer que o filme perca sua força crítica em decorrência de seu “petismo”. A afirmação simbólica de Val ao demitir-se, entrar na piscina, se libertar após o afastamento do elemento carinhoso da família (o jovem) representa um momento verdadeiro de utopia, é realista. Mas a libertação advém justamente do aspecto objetivo, bruto de sua crítica e jamais dos sentimentalismos subjetivos e celebrações. Como observa Ducker sobre a apresentação imagética da perturbação simbólica: “não é neste plano subjetivo que Jéssica nos é apresentada, mas numa espécie de plano subjetivo com uma semi-torção, no qual a câmera está perto do rosto da personagem, mas seu rosto vira-se para o lado, como que a recusar a sua psicologização, sem por outro lado, recorrer ao distanciamento...”

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