As assembleias presentes parecerão piadas aos
homens dos Conselhos. Claro que foi de surpreender ver um esforço de pequenos
burgueses para participar de decisões coletivas, tentando estabelecer um
diálogo sobre algo para além de suas carreiras e lazeres individuais, uma
encenação fantástica do elo perdido
buscando construir ferramentas pela primeira vez. Mas a manipulação técnica e
as justificações espetaculares, o mito do poder separado, impunham-se de
maneira acachapante. Na media, havia um desarticulado ar de desconfiança – o que até certo ponto é o que resta de boa
notícia em meio à distopia. Mas essa revolta mediana se dissolve, tal como ocorre a nível nacional, em sua própria
superficialidade imagética: a crítica irracional, a indignação, assume como
pano de fundo a contraimagem espetacular, a oposição artificial que se faz
entre puras palavras diversas.
Alguns
poucos se levantavam acima da mediocridade, a elite impotente (A Brecha), mas seu discurso o que pode
diante de números e dados? E, se outros dados são contrastados, ainda assim,
são números contra números, então parece melhor “confiar” (deixar nas mãos,
desconfiar passivamente) dos experts, dos
técnicos de sabe-se lá o quê, do misterioso e intocável pessoal do andar de
cima. Claro, a democracia exige
que alguém seja expurgado pelo mundo não ser o que queríamos, portanto, nada
melhor que ameaçar o avatar do andar de
cima, o capacho assalariado deles não voltará, não passará, não será
perdoado e, se possível, terá o salário reduzido (porque não?). Ora, o que mais
eles podem fazer se não pedir o troco do ladrão? O mito moral apresenta-se como
única alternativa utópica no momento em que desaparece a corrente fria da
utopia, o mapeamento do real, ou seja, a moral aqui nada mais é do que o desejo impotente e inconsciente oposto à
pura instrumentalidade, porém a
anos-luz da ação consciente e livremente
determinada.
O
Salvador da Pátria e mantenedor da paz será sempre o sujeito de fala mansa,
opequeno sátiro que agrada a todos e medeia entre o sujeito expectador e o
nãosujeito espetacular. Como ele quer o bem de todos, estuda copiosamente
osnúmeros, mas entende a fragilidade de quem deve pagar a conta, ele medita
cuidadosamentesobre os dois lados da questão e chega sempre a conclusão de que
o melhor é diminuiçãodo sobrepeso sobre os expectadores , livrando-os da tarefa
de buscar soluçõespor contra própria e, no entanto, sem desconsiderar o fato de
que é preciso terresponsabilidade com o estabelecido, moderação.
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