segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A Guinada Infraestrutural e as eleições de 2014.





                A lógica social não é óbvia, mas, ao contrário, apresenta estratos, os quais se há de ter muito claro ao considerar cada argumento, é preciso pesar seu nível de abstração, compreender seus limites e interpretar suas qualidades diferentes em interação mútua.
                Há, é claro, os fatos (1), os acontecimentos que se sucedem de maneira constante e sempre diversificada, num turbilhão de informação, que pode ser bem ou mal usada – como diz a piada, se duas pessoas tem fome e se produzem dois sanduíches, estatisticamente, ninguém está com fome.
                Indo mais a fundo, encontra-se algo mais importante, os contextos, as construções culturais, as correlações de força, etc (2). É certamente este o ponto em que comumente nos encontramos quando falamos de eleições com seriedade – ou seja, ignorando os falseadores e propagandistas que citam apenas “fatos” – e aí nos deparamos com a importante disputa por hegemonia, pela predominância de valores, o que pode nos encaminhar por todo o amplo espectro que vai do comunismo à barbárie.
                Não obstante, sem consideração à infraestrutura (3), à mudança efetiva da posição relativa e absoluta dos indivíduos entre si, todo o foco na disputa por hegemonia pode converter-se em circularidade, em religiosidade cega. Cada ideal ganha sentido quando significa ou pode significar passos definitivos no movimento real, quando pode se cristalizar em uma estrutura qualitativamente diferente, que embasa saltos novos, ideais novos, constituição nova. É, sem duvidas, o olhar a esse estrato que determina o avanço, a igualdade, a acumulação.
                O que se vê hoje, de um lado, é a queda do senso comum ao nível puramente estético, individualista, propagandista e factual, a realização da imitação brasileira em relação aos países ocidentais de "capitalismo avançado" (o "nível 1"). De outro lado, nas mentes “mais politizadas”, é a circunscrição da política à sua dimensão puramente superestrutural (o "nível 2").
                Fica-se em dúvida, por exemplo, acerca de que estratégia predomina na campanha de Dilma(líder em pesquisas) em relação à Marina(vice-líder), se sua intenção de auto defesa do estigma de desonesta/vendida e sua busca por rotular a rival como fanática/religiosa (o lado ad hominen, abusando do factual); ou suas promessas de garantia de direito às minorias e amparo aos pobres e acusação da adversária de privatista, conservadora, etc. (ou seja, a dimensão político-moral, a luta por hegemonia de valores).
                Tomando essas duvidosas diferenciações petistas como verdadeiras, seríamos gravemente tentados a flertar com a posição de Saffatle, a entender como mais “inteligente” diferenciar as candidatas e optar pelo menos pior. Mas uma pulga surge atrás da orelha de quem percebe que 12 anos se dizem ameaçados por 4 de qualquer novo governo; de que a alternância, a virtude máxima para muitos democráticos, é a tendência e, com ela, segundo o PT, tudo virá abaixo inevitavelmente; ou, então, que o povão não se tornou mais socialista, sequer mais progressista, desde as décadas sombrias de nosso passado até os governos populares atuais.
                Talvez diferenciar seja apenas parte da inteligência, talvez tenha chegado o momento de igualar, de encontrar a identidade de tudo o que está e esteve aí e assumir postura não mais complacente com essa esmagadora ideologia contemporânea. No capitalismo tardio, parece que as “conquistas” de minorias se tornou a verdadeira finalidade da nova esquerda, os “direitos” são sempre anexados ao ser inalterado, a democracia burguesa parece ter a tendência a crescer sempre no respeito à “fala”, a expressão do que já é dado e nunca a alteração definitiva do estatuto do ser falante.
                Não é atoa que os conservadores mais impertigados de hoje apelidaram todo o jogo político petista ou neopetista de “marxismo cultural”, de luta por posições igualitaristas no campo das representações.  A política dessa esquerda se parece com uma prisão em trincheiras eternas, um jogo parlamentarista de correr atrás do próprio rabo, vendo cada conquista de hoje ser ameaçada amanhã e se mantendo no poder através do incentivo a esse medo perpétuo de que o miserável perca a migalha que tem. Já está provado que todo grupo organizado pode ganhar força e respeito através desse modelo e, no entanto, cada espaço ganho por um grupo só pode significar uma carga extra de sofrimento para os miseráveis do grupo vizinho e, se chegasse o impossível dia em que todas a “minorias” tivessem seu justo quinhão, toda exploração e humilhação recairia sobre os ombros dos menos fortes dentre cada uma delas, entre os pobres, pois o fim da pobreza, da escassez produzida, da lógica do ódio, em uma palavra, da mercadoria, é a única luta que não se pode nem pensar em ganhar através desse jogo de empurra-empurra.
                O “assalto ao céu” precisa da verdade ontológica, da coragem desinteressada e do entendimento estrutural. Nada é tão contrário ao capitalismo tardio, onde “verdade”, “desinteresse” e “estruturas” cederam lugar à crítica do “autoritarismo”, à apologia da “identidade” e à luta pelas “singularidades”. Realizou-se de maneira perversa o sonho dos progressistas hippies dos anos 60, a criação do mundo a partir do pensar e o esvaziamento por parte da mente dos modelos pré-fabricados, e tudo resultou num grande conservadorismo. A “inação” uniu desde o capitalista George Lucas, que desejava ver sua poupança inflar, até os manifestantes anti-capitalistas, os quais queriam fazer os prédios voarem. Mas o principal: uniu a esquerda com o status quo.
                 A profundidade, religiosidade e projeção são armas que precisam ser reabilitadas e, do ponto de vista individual, isso pode começar acontecer ao se dizer não para a esquerda subjetiva do PT, ao diferenciar não as palavras e imagens, mas os objetivos, métodos e elaborações dos grupos políticos.
                   A prova de que até nos supostos radicais a estética política está presente a unir a  quem se quer de esquerda com a direita encontra-se na crítica até hoje não sustentada dialeticamente em relação a URSS. Os comunistas, sem embargo, devem fazê-lo, devem parar de fugir de si mesmos e abraçar sua história para poderem ir além dela nela.
               O delírio que tomou conta das formulações nessa eleição são fruto de expectativas delirantes tanto por parte dos "progressistas" quanto dos "conservadores", envolvidos no atual lamaçal da "política do ressentimento": a esquerda deve sair desse charco para poder acabar com ele!
              O momento presente permite isso. Talvez logo não vejamos mais quatro candidaturas da verdadeira esquerda como nessa eleição, tendo em conta que toda junta ela ainda não teria 10% das simpatias. Talvez superemos as situações 1) de um partido de esquerda com mais espaço criticar seu maior aliado na TV; 2) de alguns deles mostrarem-se tão ignorantes e autoritários; 3) de se abandonarem as aspirações culturalistas, individualistas e anti-intelectuais; 4) do clamor por união que, dessa vez, veio unilateralmente mostre-se como único caminho possível - e de uma vez por todas. Superadas as ilusões, teremos uma esquerda capaz de apresentar alternativa real ao antro estreito em que nos encontramos.         

(*Acréscimo:o simples gráfico abaixo serve para demonstrar, matematicamente, que não só não devemos compreender a política em termos subjetivistas, mas que ela efetivamente não funciona de maneira subjetiva. Acreditar que o poder estar na ideias, na construção de novos valores, é ignorar a obviedade de que as ideias estão submetidas aos interesses e são manipulas em função destes. Todas as correntes eleitorais eram bem organizadas e ideologicamente estruturadas, no entanto, os resultados eleitorais estão claramente hierarquizados em função das receitas eleitorais).



 

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