O Regicida, conhecido como homem
sem honra, é não só o personagem mais complexo de Guerra dos Tronos como é
também aquele que propicia a melhor reflexão sobre o bem, o mal, a honra e a
desonra. Se é verdade que a maior astúcia do mal é nos convencer de sua inexistência, então o mundo de Gelo e Fogo é muito similar ao nosso em sua era pós-moderna, pois lá se vive um momento de ceticismo em relação à existência de snarks e gramequins, mas também em relação à própria distinção heroísmo/vilania. Com o trajeto de Jaime, vemos metaforizado o percurso daquele mundo e talvez também do nosso.
Jaime Lannister nos é apresentado no início da série como o cavaleiro juramentado da Guarda Real que deu cabo da vida de seu rei, Aerys, o Rei Louco, ignorando seus votos sagrados. Descobrimos logo também que ele ignora seus votos acerca do celibato e não o faz de forma pouco profana e casual (com prostitutas), mas com a própria irmã! Vaidade, incesto, crueldade e a ganância, típicas dos Lannister, são as características que vemos representada de maneira arquetípica no cavaleiro sem honra. Como se não bastasse, Sor Jaime ainda é responsável por um atentado contra a vida de um garoto Stark, que o flagrou em situação de sexo com a irmã. Não à toa quase todos os personagens decentes da série mostram-se abertamente avessos ou receosos em relação a ele.
Jaime Lannister nos é apresentado no início da série como o cavaleiro juramentado da Guarda Real que deu cabo da vida de seu rei, Aerys, o Rei Louco, ignorando seus votos sagrados. Descobrimos logo também que ele ignora seus votos acerca do celibato e não o faz de forma pouco profana e casual (com prostitutas), mas com a própria irmã! Vaidade, incesto, crueldade e a ganância, típicas dos Lannister, são as características que vemos representada de maneira arquetípica no cavaleiro sem honra. Como se não bastasse, Sor Jaime ainda é responsável por um atentado contra a vida de um garoto Stark, que o flagrou em situação de sexo com a irmã. Não à toa quase todos os personagens decentes da série mostram-se abertamente avessos ou receosos em relação a ele.
A tendência a julgar e condenar o Regicida é
quase incontornável para qualquer leitor das Crônicas ou espectador, pois
acompanhamos a história dos Sete Reinos sempre através de PdVs (pontos de
vista) - PoVs, no original inglês. Quando, no entanto, ganhamos acesso à visão
de Jaime da narrativa começamos a ter a impressão de que “o homem sem honra”
parece mais honrado do que a maioria dos demais – e mais crítico. Começamos a
colocar em perspectiva nossas crenças, a questionar o crime de matar o “Rei
Louco”, cruel e odiado por todos, a duvidar da inviolabilidade dos códigos da
Guarda Real, a criticar o cinismo dos que criticam aquele que fez o que todos
precisavam que fosse feito, a questionar o pecado genericamente imputado a quem
quebra o tabu do incesto, etc...
Esse
é certamente um exemplo brilhante do poder pós-moderno do multiculturalismo, da
facilidade pela qual nosso olhar encantado e ludibriado pela tradicional
perspectiva única do herói moderno pode ser chocado pelo salto abrupto entre o
Regicida e Sor Jaime, entre o bem de único e o bem multilateral, de como o
absoluto pode derreter-se em relativo e, por fim, o caráter simples pode ser
pulverizado em momentos e mais momentos. A série de Martin é capaz de zombar da
perspectiva moderna em várias instâncias, desde quando viaja por amplos espaços
e perspectivas demonstrando a pequenez de um olhar unilateral e cego às
determinações múltiplas de uma trama, até quando mostra o equívoco da apologia
ao caráter simples e linear, da unicidade entre a bondade e o bem comum.
Embora
efetivado de forma encantadora e até brilhante, tal construção de Martin não é
original. É a já batida - embora ainda na moda – contraposição da
perfectibilidade antiquada e modernista com a falibilidade do caráter do herói
atual. De fato, aqui Bem e Mal são aspectos pertencentes ao espectro de uma
mesma personalidade, facetas do comportamento de um indivíduo que se depara com
ambientes imprevisíveis e mutáveis, cujas opções e resultados de ações são por
natureza opacos e incertos. O flerte com o niilismo se apresenta em Jaime
diversas vezes, como quando ele justifica a quebra de votos afirmando “Nós
juramos fidelidade ao rei, proteger o povo, honrar a família, etc. Mas e quando
o rei massacra o povo? Quando seu pai quer matar o rei?”. O caminho é unívoco, quanto mais consciência e
inteligência se tem, mais se é absorvido pelo niilismo.
A
resolução prática do niilismo é a vaidade e a conformidade com a ordem. Jaime
se idolatra em sua própria irmã, sua imagem feminina, se consola de sua má fama
com seu poder real seja em batalha real ou na de prestígio entre as famílias,
peca para se eximir de um pecado futuro, justifica um erro com a negação de
outro. E justamente em sua imaginação de evitar um “mal maior” preserva e adia
o bem que há em si para um futuro indefinido, que, com a idade, vai parecendo
nunca chegar. Alguns de seus atos forma bons, eliminar o Rei Louco, ajudar o
irmão anão, ser fiel, ser honrado em batalha, impedir estupros, porém, sem
direção, toda sua bondade se esgota em momentos isolados, os quais parecem
confirmar a cada passo que a vida de cada um nada é senão uma promíscua mistura
de bem e mal. Ou seja, Jaime é Jaime, mas também o Regicida, é o homem e o
mostro, tudo de maneira angustiante e inevitável.
A genialidade em sua confecção, no entanto,
está em superar a pura perspectiva espacial, somando-a calculadamente à velha
trajetória temporal. A luz e as trevas coniventes em Jaime não são sua única
verdade, ele também é cobrado a tomar posição, a deixar de ser plateia de si
mesmo. Dar um sentido a sua vida é uma exigência de seu tempo histórico, pois,
como sempre ocorreu na história, são os momentos de colapso a convocarem os
indivíduos de maneira inequívoca à escolha. A desconfiança e seu incômodo com a
relatividade do “agir correto” é respondido quando se depara novamente com o
horror da guerra, dessa vez pela perspectiva da vítima, tendo sua mão decepada
brutalmente por Vargo Hoat.
A
virada aqui pode ser encarada por inúmeros pontos de vista, mas há uma virada!
Se é verdade que havia dois ou mais homens em um, é ainda mais verdadeiro que,
a partir desse momento, dá-se um salto na trajetória desse indivíduo único –
embora ele não deixe de ser “plural”. A guinada da “busca vaidosa” pela “busca
por honra” pode ser lida, além da maneira sócio política, de maneira freudiana,
como a perda do falo, da “mão da espada”, da simbólica potência masculina, e a consequente
reconstrução psiquica em favor de uma imagem de eu menos agressiva e
dominadora.
Está aqui presente o utópico de toda fantasia,
a confrontação decisiva e energética entre o negativo e o positivo. A imagem
medieval da honra é trazida pelo Anjo da História para nosso tempo como
reivindicação do bem contra o mal e Jaime Lannister é seu portador, o cavaleiro
que encarna a esperança num mundo de crescente e total confronto entre a vida e
a morte. O amor dá o tom, pois a vontade de potência por si mesma estava para
Cersei, tal como a nova estima pelo outro estará para Brienne.
O
desejo é também remodelado. O fetiche em apreciar o artificial, de curtir a
beleza plastificada e vazia, de esmiuçar os detalhes para velar e controlar o
todo, ou seja, a fuga e o medo do selvagem, representados pela irmã e rainha
Cersei, são superados pela vontade de mergulhar na natureza bruta, na exótica,
descuidada e inexplorada existência de Brienne. Não apenas a coragem da
guerreira, mas cada traço espontâneo ou até mesmo feio em sua figura passa em
certo momento a significar para Jaime o caminho para a transposição do
presente, para a redenção e vida significativa (já não Bem em sentido Stark, mas o Bem). A dupla virada(subjetiva e objetiva) na imagem do
Regicida é irreversível, sua escolha em priorizar honradez à pura vaidade o põe
na proa dos verdadeiros conflitos que estão por vir em Westeros. Que venham os
caminhantes brancos, então!
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