terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O saber desprovido de conteúdo: a sociologia brasiliense.


                       Algo que se apresentou como habitual e natural durante toda minha experiência de bacharelado em sociologia em Brasília foi a confissão de alunos que meditavam (amargamente) sobre não saber exatamente o que tinham aprendido ao longo da graduação, como se essa ciência fosse intrisecamente desprovida de conteúdos positivos. A naturalidade desse tipo de reflexão deveria parecer tão grande quanto a de um aluno do curso de matemática ou engenharia que concluísse que só aprendeu cálculos diversos ao longo de seus anos de estudo.
                O maior problema da formação que nos foi oferecida em sociologia, incrivelmente, é justamente a nulidade das temáticas sociais. A maioria pode dizer que leu um pouco de Weber, Durkhem e Marx e sabe que Bourdieu está na moda hoje - e quase somente isso. A leitura, no entanto, limita-se a decorar clichês sobre a visão média que se tem do autor em questão, a lembrar de dois ou três conceitos chave e - repetir sempre - que o “mundo mudou muito” e é preciso entender o contemporâneo, o que eles só conseguem fazer pela assimilação de opiniões jornalísticas e apelo ao senso comum. Não é de estranhar os disparates que ouvimos ao tentar interrogar qualquer um deles sobre questões políticas ou acompanhá-los em redes sociais durante momentos de agitação, como nas eleições.
                Os melhor sucedidos no campo conseguiram efetivar mentalmente uma textualização da vida, aprenderam a pensar em tudo como uma questão de encaixes teóricos e passaram a ignorar quase tudo que não esteja no esquema da moda. Os mais talentos e interdisciplinares tornaram-se poetas do social, capazes de escrever com desenvoltura e beleza sobre o cotidiano, utilizando o material pesado e desagradável de autores carrancudos e absolutamente voltados para a ciência. Os normais saem do curso com uma cultura geral vulgarmente aumentada, um canudo na mão e a perspectiva de um emprego idiota mais próxima.
                O incrível da situação é o quanto se pode ir longe nesse processo. Quando comentei essa impressão terrível com Aisha, ela me respondeu que era o típico problema da filosofia. Em minha opinião, a situação mesmo dos comentadores de filosofia é bem diferente, pois, em seu caso, os textos, as ideias, são assumidamente seu objeto, eles se dedicam a desvendar os nexos do pensamento de um ou vários autores e, com isso, não se perdem em conhecimentos pontuais e fragmentários, mas podem aprofundar uma linha de pensamento até suas raízes, seus desdobramentos mais fundamentais. E também, ao estudarem autores muitas vezes situados em tradições historicamente ou linguisticamente muito diferentes, são forçados a ultrapassarem a mera contemplação do presente ou de um passado relativamente muito recente, ou seja, não podem se contentar com o senso comum e sim mergulhar em sociedades e pensamentos tão distantes como os da Grécia ou da China antigas. Além disso, de vez em quando, há os reais filósofos que formulam seu próprio sistema e, para isso, investigam a sociedade, a mente ou grandes segmentos de ideias, tirando deles muito mais do que um sociólogo simples poderia, indo até a raiz dos problemas, perpassando as fronteiras disciplinares com voracidade e alcançando verdades inteiras. Mesmo um aluno medíocre no campo da filosofia, costuma ser confrontado com essa diversidade de possibilidades complexas, de autores que os forçam a, no mínimo, conceber a diferença e a identidade, sem estarem completamente envoltos por um véu de conhecimentos superficiais. Basta ver que, apesar dos pesares, não faltam tipos estranhos, ambiciosos, eruditos ou nerds em qualquer curso de filosofia.
                A sociologia que proponho – e que há em lugares melhores – está longe de ser empirista. Colecionadores de dados, tristemente, sempre estiveram presentes em minha trajetória e são não apenas seres banais como inteiros conservadores  de tudo o que já está presente (voluntariamente ou não), até mesmo dessa miséria intelectual mais teórica.  O que defendo é que os cursos de sociologia apresentem aos estudantes um mundo feito de pessoas e grupos, uma sociedade em que existe trabalho, lazer, comunicação, hábitos culturais, gênero, história étnica, violência e política. Esses fatos, sejam apresentados por uma sociologia do trabalho ou da cultura ou qualquer outra, não são motivos para abdicar da teoria e fazer estatística, mas, muito pelo contrário, são razão para se compreender, a partir do pensamento, a teia de fatores a integrar a vida social em seus conflitos e transformações. Em porte desse tipo de saber, talvez os verdadeiros estudantes sejam capazes de entender o porquê de se estudar o pensamento social, de assimilar e elaborar reflexões que sejam capazes de tocar no conteúdo das vivências e explicá-las de maneira realista.

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