Algo
que se apresentou como habitual e natural durante toda minha experiência de
bacharelado em sociologia em Brasília foi a confissão de alunos que meditavam
(amargamente) sobre não saber exatamente o que tinham aprendido ao longo da
graduação, como se essa ciência fosse intrisecamente desprovida de conteúdos
positivos. A naturalidade desse tipo de reflexão deveria parecer tão grande
quanto a de um aluno do curso de matemática ou engenharia que concluísse que só
aprendeu cálculos diversos ao longo de seus anos de estudo.
O
maior problema da formação que nos foi oferecida em sociologia, incrivelmente,
é justamente a nulidade das temáticas sociais. A maioria pode dizer que leu um
pouco de Weber, Durkhem e Marx e sabe que Bourdieu está na moda hoje - e quase
somente isso. A leitura, no entanto, limita-se a decorar clichês sobre a visão
média que se tem do autor em questão, a lembrar de dois ou três conceitos chave
e - repetir sempre - que o “mundo mudou muito” e é preciso entender o
contemporâneo, o que eles só conseguem fazer pela assimilação de opiniões
jornalísticas e apelo ao senso comum. Não é de estranhar os disparates que ouvimos
ao tentar interrogar qualquer um deles sobre questões políticas ou
acompanhá-los em redes sociais durante momentos de agitação, como nas eleições.
Os
melhor sucedidos no campo conseguiram efetivar mentalmente uma textualização da
vida, aprenderam a pensar em tudo como uma questão de encaixes teóricos e
passaram a ignorar quase tudo que não esteja no esquema da moda. Os mais
talentos e interdisciplinares tornaram-se poetas do social, capazes de escrever
com desenvoltura e beleza sobre o cotidiano, utilizando o material pesado e
desagradável de autores carrancudos e absolutamente voltados para a ciência. Os
normais saem do curso com uma cultura geral vulgarmente aumentada, um canudo na
mão e a perspectiva de um emprego idiota mais próxima.
O
incrível da situação é o quanto se pode ir longe nesse processo. Quando
comentei essa impressão terrível com Aisha,
ela me respondeu que era o típico problema da filosofia. Em minha opinião, a
situação mesmo dos comentadores de filosofia é bem diferente, pois, em seu
caso, os textos, as ideias, são assumidamente seu objeto, eles se dedicam a
desvendar os nexos do pensamento de um ou vários autores e, com isso, não se
perdem em conhecimentos pontuais e fragmentários, mas podem aprofundar uma linha
de pensamento até suas raízes, seus desdobramentos mais fundamentais. E também,
ao estudarem autores muitas vezes situados em tradições historicamente ou
linguisticamente muito diferentes, são forçados a ultrapassarem a mera
contemplação do presente ou de um passado relativamente muito recente, ou seja,
não podem se contentar com o senso comum e sim mergulhar em sociedades e
pensamentos tão distantes como os da Grécia ou da China antigas. Além disso, de
vez em quando, há os reais filósofos que formulam seu próprio sistema e, para isso,
investigam a sociedade, a mente ou grandes segmentos de ideias, tirando deles
muito mais do que um sociólogo simples poderia, indo até a raiz dos problemas,
perpassando as fronteiras disciplinares com voracidade e alcançando verdades
inteiras. Mesmo um aluno medíocre no campo da filosofia, costuma ser
confrontado com essa diversidade de possibilidades complexas, de autores que os
forçam a, no mínimo, conceber a diferença e a identidade, sem estarem
completamente envoltos por um véu de conhecimentos superficiais. Basta ver que,
apesar dos pesares, não faltam tipos estranhos, ambiciosos, eruditos ou nerds
em qualquer curso de filosofia.
A
sociologia que proponho – e que há em lugares melhores – está longe de ser
empirista. Colecionadores de dados, tristemente, sempre estiveram presentes em
minha trajetória e são não apenas seres banais como inteiros conservadores de tudo o que já está presente
(voluntariamente ou não), até mesmo dessa miséria intelectual mais teórica. O que defendo é que os cursos de sociologia
apresentem aos estudantes um mundo feito de pessoas e grupos, uma sociedade em
que existe trabalho, lazer, comunicação, hábitos culturais, gênero, história
étnica, violência e política. Esses fatos, sejam apresentados por uma sociologia
do trabalho ou da cultura ou qualquer outra, não são motivos para abdicar da
teoria e fazer estatística, mas, muito pelo contrário, são razão para se
compreender, a partir do pensamento, a teia de fatores a integrar a vida social
em seus conflitos e transformações. Em porte desse tipo de saber, talvez os
verdadeiros estudantes sejam capazes de entender o porquê de se estudar o
pensamento social, de assimilar e elaborar reflexões que sejam capazes de tocar
no conteúdo das vivências e explicá-las de maneira realista.
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