Ao remar num entardecer pouco chuvoso,
um náutico sente uma serenidade sincera e completa. A felicidade nos cobre
quando não temos pressa, culpa ou medo e, ao mesmo tempo, estamos
sensibilizados pelo cenário ao nosso redor e pela força de nossas próprias braçadas.
Quando as águas estão bravas, a maré hostil e nossa atenção exigida de maneira
exagerada, nós nos sentimos cansados e o progresso torna-se ansiedade pelo fim
da travessia, pelo cumprimento da meta. Ainda pior, é quando estamos inseridos
no puro fazer do cotidiano, quando toda beleza e paisagem torna-se só espaço
estéril, e nossa mente está tão alerta aos procedimentos rotineiros quanto
indiferente à toda sutileza, à todo refinamento de percepção e encantamento com
o balançar do bote, o espumar das ondinhas, a beleza do céu. Daí é certo
estamos meio animalizados, numa apatia de aparência ativa e sem significado, um
nadar de tubarão ou sardinha, tanto faz.
A vida e
nosso desenvolvimento mental são tão parecidos com a experiência do navegante!
Um dos níveis mais elementares da consciência é o dessa última jornada, a de um
indivíduo que vaga pelas correntes do destino tomando como inquestionável tudo o que há; adotando a ética, os costumes e todos
os temperos de nossas vias culturais como dados. Em todas essas pessoas, os
traços de moralidade são como dogmas simples e os objetivos espirituais são
meramente o alcance de padrões heteronomamente estabelecidos por uma cultura
pasteurizada. A liberdade aqui não passa de uma piada, uma palavra sem sentido
real, que se pode igualmente usar para definir o curso, bonito ou não, de
um pedregulho arremessado em espiral sobre um espelho d’água.
Pode-se
dizer que a navegação é apresentada à liberdade em seu estado intermediário, no
momento em que se aprende a separar o bom tempo do mal tempo, a imagem querida
da imagem repudiada. Mas, aqui, a ética costuma ainda aparecer sob a forma
daquele jovem celibatário que se vê dividido entre sua fé, seus desejos mais
elevados e a paixão fulminante pela donzela, que se dirige a ele com ternura.
Essa liberdade é ainda a autocensura, a culpa, o golpe que se resolve aplicar a
si mesmo, um livre-arbítrio negativo, uma âncora que se carrega nas costas, por
assim dizer. Uma trajetória que pode ser tão linda quanto dolorosa, uma beleza
que se paga ao preço da opressão de si e dos demais, um néctar que se bebe
amargamente.
A
união do conhecer as marés, compreender os rangidos da embarcação, apreciar o
tempo e saber da responsabilidade, no entanto, não precisa ser divorciada da sabedoria,
da empatia que ouve os ventos sem deixar de ser serena e viril. Quando se
aprende a amar as travessias que se faz, o intrépido ato de remar torna-se
passeio, não marcha dolorosa ou tediosa. Se alguém quer ensinar truques novos a
alguém, deve fazê-lo muito mais ao mostrar seus prazeres do que o equívoco de
ignorá-los, sob pena de ter sob suas mãos apenas um refém, que pulará a mureta
do convés tão logo consiga estar distante o bastante das paredes do porão e
possa esquecer o medo da prancha, da polícia exterior ou interior.
Proibir
um objeto, um comportamento ou uma linguagem, não é mais do que reintroduzi-los
no universo dos objetos sagrados negativamente, como sombras tentadoras. A
firmeza de quem não cai em tentação pode ser igualmente uma covardia em ser tão
espontâneo quanto os marujos menos robustos, mais frouxos. A superação real de
alguma cegueira ética vem, não quando encurtamos as nossas possibilidades ou a
de outros perante ela (moralismo), mas quando podemos encará-la sem nenhum
fetiche, quando o universo de possibilidades cresce tanto que a ação tentadora
converte-se em ação banalmente inferior àquela que podemos adotar.
O
real Ulisses está condenado a
sacudir-se para sempre em seu mastro imaginário; de fato, vai passar o restante
de seus dias a se remoer, em sua semiloucura, a escolha que fez, ou melhor, a
escolha que deixou de fazer, a tempestade que viveu em sombras sem viver em
ato. O canto das sereias só poderia ser tirado de sua cabeça no caso em que
tivesse coragem de ser desamarrado e encarar o perigo: ou evitar morrer a
partir da força de seu viver ou perecer satisfeito e enganado. Deveria também
libertar seus escravos, pois sua surda atividade não é mais do que o estímulo
para a superioridade infértil de seu senhor, para seu aprisionamento na crença
de que, entre surdos, basta ter ouvido para ser rei.
A
travessia não costuma – na verdade, não pode – ser livre mesmo no melhor
transatlântico estilo Titanic, em que
faltam botes para tantos. As classes desse navio são a prova das miragens
marítimas naquele que pensava não pode ser afundado “nem por Deus”, mas o
destino é mais cheio de intempéries e pedras de gelo no caminho do que pode
supor nossa vã imaginação, cada escravo é também um ouvido, um nariz a menos para escutar
ou farejar nosso próprio naufrágio, cada bote que falta para escapar, é um a menos
que volta para ajudar, uma mão a menos para puxar do mar frio. Se fazemos a história,
não a fazemos como queremos ou só como queremos.
Assim,
claro, nossas possibilidades não são apenas nossas, são o espectro do possível
para nossos companheiros de jornada, são também as águas exploradas e
conhecidas por outros. Quando se abrem novas rotas éticas, não se pode ser sectário,
não se pode criar tabus e dogmas, se deve começar a mapear um novo oceano,
fazer concessões às tempestades que não podemos prever e começar a imaginar as
costas que poderemos atingir, uns rincões que poderemos oferecer em alternativa
ao que até então se conhecia. O mapeamento não mercatil, o sonho diurno de Grandes Navegações alternativas, paulatinamente, aumenta a quantidade de novos portos para ancorar e, ao final do processo, promete um mundo rico para todos e não nichos ou meros entraves comerciais.
A
moral da proibição já deu errado por tempo demais no Ocidente: não a repitamos em sonhos éticos! Ouçamos o que ela pôde
nos ensinar e a elevemos ao nível mais que procedimental, ao nível de um saber
sobre o em si mesmo das coisas e não
apenas a um manejo instrumental do existente fetichizado. A adequação ao puro procedimento, na ciência, na arte ou na vida moral nos conduziu sempre ao contentamento com o pouco, ou só a brisa fresca que se torna tediosa e dispersiva ou só com o remar rotineiro e enjoativo. O que existe, antes
dos dizeres morais ou dos conhecimentos de marinha, são os fluxos reais do ser
ou das águas, sua simultaneidade dialética e implacável é a bondade de Iemanjá
conosco, nossa real possibilidade de liberdade.
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