quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A leveza da ética consciente.



                    Ao remar num entardecer pouco chuvoso, um náutico sente uma serenidade sincera e completa. A felicidade nos cobre quando não temos pressa, culpa ou medo e, ao mesmo tempo, estamos sensibilizados pelo cenário ao nosso redor e pela força de nossas próprias braçadas. Quando as águas estão bravas, a maré hostil e nossa atenção exigida de maneira exagerada, nós nos sentimos cansados e o progresso torna-se ansiedade pelo fim da travessia, pelo cumprimento da meta. Ainda pior, é quando estamos inseridos no puro fazer do cotidiano, quando toda beleza e paisagem torna-se só espaço estéril, e nossa mente está tão alerta aos procedimentos rotineiros quanto indiferente à toda sutileza, à todo refinamento de percepção e encantamento com o balançar do bote, o espumar das ondinhas, a beleza do céu. Daí é certo estamos meio animalizados, numa apatia de aparência ativa e sem significado, um nadar de tubarão ou sardinha, tanto faz.
                 A vida e nosso desenvolvimento mental são tão parecidos com a experiência do navegante! Um dos níveis mais elementares da consciência é o dessa última jornada, a de um indivíduo que vaga pelas correntes do destino tomando como inquestionável tudo o que há; adotando a ética, os costumes e todos os temperos de nossas vias culturais como dados. Em todas essas pessoas, os traços de moralidade são como dogmas simples e os objetivos espirituais são meramente o alcance de padrões heteronomamente estabelecidos por uma cultura pasteurizada. A liberdade aqui não passa de uma piada, uma palavra sem sentido real, que se pode igualmente usar para definir o curso, bonito ou não, de um pedregulho arremessado em espiral sobre um espelho d’água.
                Pode-se dizer que a navegação é apresentada à liberdade em seu estado intermediário, no momento em que se aprende a separar o bom tempo do mal tempo, a imagem querida da imagem repudiada. Mas, aqui, a ética costuma ainda aparecer sob a forma daquele jovem celibatário que se vê dividido entre sua fé, seus desejos mais elevados e a paixão fulminante pela donzela, que se dirige a ele com ternura. Essa liberdade é ainda a autocensura, a culpa, o golpe que se resolve aplicar a si mesmo, um livre-arbítrio negativo, uma âncora que se carrega nas costas, por assim dizer. Uma trajetória que pode ser tão linda quanto dolorosa, uma beleza que se paga ao preço da opressão de si e dos demais, um néctar que se bebe amargamente.
                A união do conhecer as marés, compreender os rangidos da embarcação, apreciar o tempo e saber da responsabilidade, no entanto, não precisa ser divorciada da sabedoria, da empatia que ouve os ventos sem deixar de ser serena e viril. Quando se aprende a amar as travessias que se faz, o intrépido ato de remar torna-se passeio, não marcha dolorosa ou tediosa. Se alguém quer ensinar truques novos a alguém, deve fazê-lo muito mais ao mostrar seus prazeres do que o equívoco de ignorá-los, sob pena de ter sob suas mãos apenas um refém, que pulará a mureta do convés tão logo consiga estar distante o bastante das paredes do porão e possa esquecer o medo da prancha, da polícia exterior ou interior.
                Proibir um objeto, um comportamento ou uma linguagem, não é mais do que reintroduzi-los no universo dos objetos sagrados negativamente, como sombras tentadoras. A firmeza de quem não cai em tentação pode ser igualmente uma covardia em ser tão espontâneo quanto os marujos menos robustos, mais frouxos. A superação real de alguma cegueira ética vem, não quando encurtamos as nossas possibilidades ou a de outros perante ela (moralismo), mas quando podemos encará-la sem nenhum fetiche, quando o universo de possibilidades cresce tanto que a ação tentadora converte-se em ação banalmente inferior àquela que podemos adotar.
                O real Ulisses está condenado a sacudir-se para sempre em seu mastro imaginário; de fato, vai passar o restante de seus dias a se remoer, em sua semiloucura, a escolha que fez, ou melhor, a escolha que deixou de fazer, a tempestade que viveu em sombras sem viver em ato. O canto das sereias só poderia ser tirado de sua cabeça no caso em que tivesse coragem de ser desamarrado e encarar o perigo: ou evitar morrer a partir da força de seu viver ou perecer satisfeito e enganado. Deveria também libertar seus escravos, pois sua surda atividade não é mais do que o estímulo para a superioridade infértil de seu senhor, para seu aprisionamento na crença de que, entre surdos, basta ter ouvido para ser rei.
                A travessia não costuma – na verdade, não pode – ser livre mesmo no melhor transatlântico estilo Titanic, em que faltam botes para tantos. As classes desse navio são a prova das miragens marítimas naquele que pensava não pode ser afundado “nem por Deus”, mas o destino é mais cheio de intempéries e pedras de gelo no caminho do que pode supor nossa vã imaginação, cada escravo é também um ouvido, um nariz a menos para escutar ou farejar nosso próprio naufrágio, cada bote que falta para escapar, é um a menos que volta para ajudar, uma mão a menos para puxar do mar frio. Se fazemos a história, não a fazemos como queremos ou só como queremos.
                Assim, claro, nossas possibilidades não são apenas nossas, são o espectro do possível para nossos companheiros de jornada, são também as águas exploradas e conhecidas por outros. Quando se abrem novas rotas éticas, não se pode ser sectário, não se pode criar tabus e dogmas, se deve começar a mapear um novo oceano, fazer concessões às tempestades que não podemos prever e começar a imaginar as costas que poderemos atingir, uns rincões que poderemos oferecer em alternativa ao que até então se conhecia. O mapeamento não mercatil, o sonho diurno de Grandes Navegações alternativas, paulatinamente, aumenta a quantidade de novos portos para ancorar e, ao final do processo, promete um mundo rico para todos e não nichos ou meros entraves comerciais.
                A moral da proibição já deu errado por tempo demais no Ocidente: não a repitamos em sonhos éticos! Ouçamos o que ela pôde nos ensinar e a elevemos ao nível mais que procedimental, ao nível de um saber sobre o em si mesmo das coisas e não apenas a um manejo instrumental do existente fetichizado. A adequação ao puro procedimento, na ciência, na arte ou na vida moral nos conduziu sempre ao contentamento com o pouco, ou só a brisa fresca que se torna tediosa e dispersiva ou só com o remar rotineiro e enjoativo. O que existe, antes dos dizeres morais ou dos conhecimentos de marinha, são os fluxos reais do ser ou das águas, sua simultaneidade dialética e implacável é a bondade de Iemanjá conosco, nossa real possibilidade de liberdade.

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