sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Modéstia do Marxismo.


             A categoria de totalidade é vista por muitos como a suprema demonstração da arrogância do marxismo. A noção de que é possível ter uma visão abrangente e integrada dos mais diversos âmbitos da vida social, e a ideia de que a economia forma uma base a integrar tudo, um esqueleto das instituições e da cultura, é praticamente ofensiva. É raro lembrar que a dupla conceitual “valor de troca” e “valor de uso” é justamente útil para separar a “lei” da “idiossicrasia”, não para desprezar a segunda. 
                A humildade, para os antimarxistas, consiste nas elaborações culturalistas e religiosas. A “visão complexa” sobre o “complexo mundo contemporâneo” estaria no entendimento da diversidade dos discursos, no apoio à luta das fraternidades oprimidas, sejam de mulheres, negros, LGBTT e até mesmo das “comunidas marginais”, favelados, suburbanos ou indígenas. As subdivisões, na verdade, são intermináveis.
                É óbvia a relação de todo esse moralismo como as pregações religiosas. Não há ampla comunidade religiosa mundo afora que não se permita sermões acerca do jeito “certo e errado de agir”, do “homem bom e do mau”, da “sociedade corrompida ou pura”, etc. A diferença entre os homens de fé, ao menos os homens de fé cristãos, e os movimentos pós-modernos, está unicamente no fato de que os primeiros costumam ter oficialmente uma ética mais generosa, menos ressentida e menos fascista, pois defendem uma irmandade mais ampla, uma comunhão de todos os seres.
                O notável fracasso do fortalecimento ético individual ao longo de todos os séculos de civilização até aqui, não constitui para esse idealismo conveniente (para os poderosos) nenhum constrangimento. Seja ou na forma de cabeças cortadas, pessoas queimadas, torturas, prisões, escrachos, linchamentos, ou na forma de culpabilizações, condenações morais e ataques metafísicos, esses líderes valentes continuam a estimular os infiéis, as pessoas comuns, a tomarem o caminho correto, embora, nada raramente, eles mesmos, sejam pegos de calças curtas, e a humanidade como um todo permaneça dominada por gente que ainda não aprendeu, que insiste em cometer os pecados já esclarecidos.
                Toda teoria dessa gente, se é que se pode chamar teoria, provêm basicamente do pensamento de que a linguagem, e somente ela, cria o mundo. Hoje há militantes veganos, do poliamor, da ecologia, do consumo consciente, da alimentação mágica perfeita, da meditação, do uso de drogas, de filosofias humanistas, e todos parecem partilhar da crença de que “se as palavras certas forem utilizadas”, “se as pessoas se conscientizarem”, aí o mundo virará o paraíso. Eles são os melhores criadores de necessidades, nichos de consumo e fontes de acumulação de capital desde as revoluções industriais. Mas tomem cuidado por que, se tomarem muito lugar dos burgueses tradicionais, eles podem brigar feio com vocês!
                São raciocínios bem diferentes dos que provêm das doentias e autoritárias mentes marxistas. Esses dogmáticos percebem já faz algum tempo que mesmo nos partidos mais heroicos, mesmo nos movimentos mais fantasticamente concebidos, e até entre os indivíduos mais perfeitos, há quase sempre uma semente podre, há sempre “gente corrompida”, práticas que podem se descontrolar e tender à violência e ideais que podem ser perdidos. Qualquer um que tenha participado de alguma coletividade mais orgânica terá visto um misto de altruísmo e egoísmo, generosidade e inveja, inteligência e burrice.
                As duas formas mais comuns de negar essa evidência são o sectarismo e o ceticismo. Uns insistirão até a morte que seu grupo é diferente, que só há puros de coração e gente de bem: a dúvida que nos surge é como tal grupo permanece quase sempre nas sombras, sem que a imensa massa da humanidade sequer desconfie de tamanha perfeição, sem que se sinta minimamente atraída por esse oásis de felicidade, apesar de todo o empenho de seus seguidores em espalhá-la e semeá-la. Os outros dirão que a humanidade não presta, que a ação correta e incorreta são equivalente e relativas, em resumo, que todos os gatos são pardos, e o farão amparados em toda a experiência que adquiriram em sua inação cínica, o farão baseados na completa ignorância da história, das transformações e reconstruções que foram efetivadas através de pessoas que agiram organizadas (corretas e mais felizes ou não).
                Que os antimarxistas não nos entendam mal! Nós não queremos desestimulá-los nem ao engajamento sectário e nem sequer ao niilismo individualista, pois, quem sabe, algum de vocês descubra, a qualquer momento, um caminho real para o paraíso perfeito. O que nós queremos é apenas criar as bases objetivas para uma sociedade em que a inimizade não seja um a priori e amizade e solidariedade um difícil a posteriore. Esperamos apenas encerrar o ciclo amaldiçoado em que uns morrem de fome ou doença na pocilga e outros tentam gozar (impossivelmente, é claro) de um milhar de apartamentos de superluxo. Ao que nos parece, dentro do que hora podemos vislumbrar, os males do puro cultural, ou para outros, as características inerentes da própria vida, irão continuar e cada um ainda terá de fazer sua própria história, travar suas batalhas, viver suas alegrias e dores subjetivas.

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