quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Quem é o comunista de bem?


                Já falei tanto quanto devia sobre a miséria da esquerda cultural, embora eu nunca me canse. Uma vez mais, portanto, vou me permitir roubar reflexões de minha agendinha pessoal e publicar aqui, afinal tanto aborrecimento não faz bem escoar por uma só porta. Aquilo sobre o que quero remoer um pouco agora é sobre os críticos ad hominen de plantão, sobre os santinhos a julgarem as pessoas privadas de militantes e/ou teóricos radicais.
                O coro entoado por essa gente é, no fundo, completamente liberal e faz frente comum às maledicências mais antigas e reacionárias registradas na face da Terra: sua ideia é de que criticar é uma indecência, uma arrogância de quem se acha perfeito. A solução é aceitar tudo como está, cada um em seu lugar: não reclamar para não ser igualmente acusado ou desprezado.
                É exatamente o sentido da alegação de uma estudante que diz que “o professor X se diz marxista, comparece ao protesto, mas não faz nada além de comer pizza” ou de um militante ordinário quando afirma que “o professor Y é marxista acadêmico”. Ora, todas essas frases são utilizadas com um desprezo com que não se vê falar de um assassino – aliás, esquerdistas costumam ser tolerantes com assassinos comuns -, mas a mesma revolta não é verificada contra as dezenas de outros intelectuais complacentes que sequer se reivindicam adversários da imperfeição desse mundo.
                É menos pecado para essa gente ser cúmplice da carnificina diária do que ser um revoltado incapaz ou hipócrita, é menos vergonhoso ser um indiferente acomodado do que um produtor parcial de emancipação. O comunista de bem, para eles, é o comunista que não existe e não poderia existir. O comunista de bem deve ser o militante incansável, o sujeito gentil, o intelectual erudito, o trabalhador engajado, etc. Já o não comunista está livre para ser humano, para ter virtudes e vícios.
                Não quero dizer que se deva tolerar qualquer pessoa só por ela professar boa intenção ou, ainda menos, por ser uma tola indignada com a “maldade”. Trata-se apenas de separar o real do imaginário, de saber julgar com parcimônia os méritos e deméritos de um indivíduo sem puni-lo com especial severidade por ser alguém comum com intenções um pouco melhores do que a média.
                Uma vez mais, na tarefa de criticar impiedosamente os críticos e abanar servilmente os acomodados, a esquerda pequeno-burguesa anda de mãos dadas com os liberais. A diferença é que os primeiros se alimentam da miragem de que estão a construir uma utopia, de que o paraíso depende de seu esforço em repelir com igual força e veemência tudo o que é imperfeito; os demais querem banir justamente a utopia, querem negar toda perfeição. Ambos se contentam com devaneios e com suas vaidades acerca do que o bom viver para si e para os outros.
                A meu ver, nada é mais natural do que os riquinhos idolatrarem a pobreza, cultuarem suas próprias aventuras proletárias: suas encenações de excursões miseráveis em ônibus, barcos ou de carona; sua acomodação preferencialmente em albergues imundos ou barracas sujas; sua dependência de favores, esmolas ou sorte; e labutas por comida. E tudo isso, em geral, por terríveis três ou quatro semanas! Quanto aos proletários de verdade e os adultos impelidos por seus compromissos, o normal é procurar um lugar ao sol, uma vida tão burguesa, confortável ou preguiçosa quanto possível, elegância e respeito alheio.   
              Nada disso chega a ser demérito para ninguém, são gostos pessoais, estéticas privadas e nichos numa sociedade cindida culturalmente. O que é imperativo e incontornável é uma noção enfática de verdade que permita superar vãos preconceitos, estereótipos convenientes a um extremismo desprovido de conteúdo. Com essa compreensão podemos tirar a culpa das costas dos indivíduos – particularmente de quem age de alguma maneira - e nos permitir separar o que é emancipatório do que é conservador.  

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