Não faz tanto tempo, assistir programas
jornalísticos de futebol era um dos poucos prazeres televisivos que restavam
para mim. A vantagem do comentarista de futebol está em sempre ter assuntos
novos, sempre tratar de um tema que apaixona, poder envolver na discussão
aspectos diversos e complexos como a psicologia do jogador, a força da torcida,
a organização clubística, a habilidade do técnico, o erro do juiz e, tudo isso,
até certo ponto livre da tediosa propaganda liberal a transbordar absolutamente
todos os outros tipos de noticiário e mesas redondas, que versam sobre
política, economia ou dia a dia.
Dentre
todos, eu prefiria o Redação Sport TV, cujo a emissora é das Organizações Globo
e o apresentador ex redator da Veja. Rizek, independente das duvidosas
credenciais, é boa praça, portador de um bom senso prático e, certamente, um
indivíduo bem intencionado. Até certo ponto, ele entende a lógica do futebol,
compreende o que está além dos negócios e da fofoca. A mesa redonda também não
é jamais daquele tipo histérico e o toque de mestre do programa consiste na
acidez da própria temática: tratar o sentimento futebolístico não só pela
visão das diversas torcidas, mas, principalmente, por sua representação
midiática.
Um
prato cheio sobre esporte e com inteligência! Acontece que nada como o passar
do tempo para demonstrar o necessário círculo vicioso de todas as
representações social-espetaculares. Dia após dia, reportagem após reportagem,
sempre volta à tona a “problemática do futebol brasileiro”, o vazio de
planejamento dos clubes, a falta de seriedade da justiça esportiva, o abandono
do público no “ex-país do futebol”, a desorganização da CBF, os erros de calendário
e, mais moralista, a falta de ética do “jogador brasileira”, ausência de novos talentos,
de organização tática, etc. Tudo poderia ser visto por uma ótica branda inicialmente, afinal,
pensar é criticar.
Mas quando se vê que toda a crítica à imprensa é delicada e voltada aos excessos de quem apenas “faz seu trabalho”; que toda negação da realidade brasileira é revestida de apologia ao exterior; que toda crítica aos arredores do futebol é focada nos erros de uma má dirigência, e nunca nas circunstâncias econômica e objetivas; daí se percebe, e com toda clareza, que estamos diante da ideologia do vira-lata, das velhas pregações de uma elite complexada. O mais sintomático é que no programa não há divergências, reina sempre o consenso – tanto que o mais rebelde de seu rebanho foi expurgado do canal, Renato Maurício Prado.
Mas quando se vê que toda a crítica à imprensa é delicada e voltada aos excessos de quem apenas “faz seu trabalho”; que toda negação da realidade brasileira é revestida de apologia ao exterior; que toda crítica aos arredores do futebol é focada nos erros de uma má dirigência, e nunca nas circunstâncias econômica e objetivas; daí se percebe, e com toda clareza, que estamos diante da ideologia do vira-lata, das velhas pregações de uma elite complexada. O mais sintomático é que no programa não há divergências, reina sempre o consenso – tanto que o mais rebelde de seu rebanho foi expurgado do canal, Renato Maurício Prado.
É
assim que os debatedores desse e de outros programas podem chegar à conclusão
absurda de que os 7x1 da Alemanha contra o Brasil na Copa não passaram da
demonstração cabal de que o futebol alemão atualmente é sete vezes melhor do
que o brasileiro, seus jogadores e técnicos sete vezes mais capazes. Quando
elogiam clubes alemães ou espanhóis não lhes ocorre o quando são patéticas suas
ligas nacionais, piores que nossos estaduais; quando elogiam os times franceses
ou russos, esquecem o ridículo de seus times com donos; quando
elogiam o futebol inglês ou italiano, fingem não ver toda a sujeira e corrupção
que rola por lá. Quanto à Copa, acenam com ideias idiotas de que o Brasil era o
único time limitado; de que os jogadores da seleção não mostraram, imediatamente
depois da Copa, que aquilo foi um episódio isolado (ganhando a vice-campeã,
Argentina, que tinha humilhado os alemães no primeiro amistoso após o torneio);
de que a situação emocional não teve um peso absurdo - em cem jogos
aquilo não se repetiria nos outros noventa e nove!
Enfim,
a cada exibição, um show de autopiedade e bajulação em relação ao
exterior. O que quero dizer é que o
jornalismo, principalmente todo tipo de jornalismo mais diretamente dirigido à
classe média alta, reproduz de maneira exemplar o sistemático sermão de uma
classe dominante servil. Esse triste patrimônio nacional é secular e, talvez,
compartilhado com grande parte dos países periféricos do sistema capitalista
mundial. Em qualquer campo, somos bombardeados com a ilusão de que só nós
estamos às voltas, desde os tempos da colônia, com problemas éticos, com falta
de profissionalismo, com corrupção, etc. É uma revitimização constante de todos
os setores da sociedade, que, além de já serem historicamente despojados de
privilégios dos países centrais, são ainda responsabilizados por essa situação,
pela não centralidade do "nosso país" no mapa-mundi. Os mesmos vira-latas
conseguem, por outro lado, atacar ferozmente qualquer ingênuo realmente
patriota que queira valorizar a “nação” ou “o povo brasileiro”, é um paradoxo dessa elite.
São cretinos que, no fundo, querem sempre poder repetir “o problema do Brasil
começa no jeitinho, na corrupção do cidadão comum no cotidiano” e ir passear em
lugares aonde os perfeitos cidadãos os tratam com indiferença e falam línguas chiques, como Nova Iorque ou Paris.
É
possível, ocorre-me, de tão maligna a situação, que isso possa ser algo
especialmente brasileiro e não de todas as elites colonizadas. É difícil ter
total noção do que se passa no resto do mundo tendo fontes de informação tão
herméticas em sua estupidez. Ocorre-me, eu dizia, que haja uma explicação em
nossa história e talvez possa ser encontrada mesmo nas análises culturalistas
de alguns teóricos conservadores nacionais. Penso agora no fato do Brasil ter sido
o único país americano a ter tido uma história de décadas de monarquia; de ter
buscado, em sua primeira constituição social independente, forjar uma cópia
tropical dos ares europeus. O Império pode ser a gênese dessa permanente
sensação de inadequação das instituições locais, o culpado por uma corte ampla,
responsável por um país imenso e incapaz de superar seu primordial encaixe na
divisão internacional do trabalho. Imagine como a elite escravocrata devia se
sentir grandiosa, humanamente superior, abençoada com um bom gosto francês e
uma monarquia de origens inquestionavelmente tradicional, das grandes casas
europeias, e como deve ser frustrante para essa corte de valores aristocráticos
ser sempre considerada de segunda ordem, um atraso pré-capitalista, embora eles
soubessem o quanto o suor de seus escravos era fundamental para erigir toda a
ordem hegemonizada pela Inglaterra.
Os
nossos intelectuais, a elite que pensa, parece ter sido poupada de toda essa
frustração pelos ventos teóricos esquerdistas vindos da Europa, pela
desculpabilização por lá efetuada em favor das classes desfavorecidas, das nações e de outros oprimidos. De fato, até
hoje, se a maioria dos pensadores nacionais tem alguma virtude moral em comum, ela se encontra na incapacidade de pactuar plenamente com o simples coitadismo. Na verdade, o processo de valorização frívola do local já parece ter se tornado uma praga e, inclusive, uma nova ideologia conservadora nas mãos deles, porém, ao menos, uma nova ideologia e menos patética. Mas coitados mesmos dos nossos ex aristocratas, posteriores burgueses, e
seus apologetas liberais no jornalismo ou na academia: deve ser realmente
terrível viver com tanto complexo de inferioridade, com tanto ressentimento e
culpa. É mesmo uma sorte que eles possam despejar todo essa má consciência nas
costas do povo que eles já esmagam economicamente!
Um comentário:
Honestamente, eu nem sei o que dizer, achei brilhante, sobretudo a conexão entre pós-modernismo e religião.
Aisha
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