sábado, 16 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 3

O local em que fizemos a assembléia, na entrada leste da reitoria, é o pequeno e ligeiramente íngreme gramado que separa a reitoria do estacionamento da biblioteca. A quentura do meio-dia completava o calvário com o qual eram premiados os que se dispunham a participar do movimento estudantil. Para remediar a situação, improvisamos precariamente e com muitas dificuldades, uma baixa tenda, amarrando em árvores a enorme bandeira do Brasil, que se mostrou mais útil dessa maneira do que como enfeite, como a UJS a utilizara na assembléia anterior. Ainda assim, esta sombra cobria somente uns 20% do espaço que utilizávamos, não aliviava em quase nada a quentura para os que estavam embaixo dela, e atrapalhava a visão dos que sentavam atrás.


É claro que neste caso não poderíamos fazer a assembléia em nenhum lugar longe da reitoria, não obstante, tal situação sublinha e nos faz lembrar, do fato de que não há nenhuma estrutura física na UnB minimamente adequada a qualquer atividade política horizontal. Todas as salas de conselhos ou de aulas adotam um padrão espacial hierárquico, em que todos devem olhar para a frente, onde encontram seus líderes iluminados, e, no mais, só veem a nuca uns dos outros. Ora, o Teatro de Arena é um dos únicos locais em que seria possível realizar uma assembléia em harmonia com o seu próprio espaço, como ocorreu nos anos 80, no entanto, ele é de concreto e não tem cobertura!


Obviamente, o espaço não é neutro, mas, ao contrário, como assinala Milton Santos, ele solidifica as relações sociais existentes e passa as condicionar. Esse é o motivo pelo qual o movimento estudantil precisava enxergar a luta por novos espaços como parte de sua luta por uma nova universidade e uma nova sociedade. Em se tratando de UnB, pelo menos, é bem claro que praticamente nenhum CA tem sequer um espaço que possa ser qualificado como “digno” para fazer suas assembléias de curso e que esse é um dos motivos das dificuldades organizativas dos cursos, aliás, mesmo o DCE, não conta com mais do que um cubículo. Na prática pudemos ver como a existência de um ponto de convergência, de referência, pode ampliar a politização quando ficamos trancados e concentrados no gabinete da reitoria, utilizando uma sala de reuniões em “u”. Tanto é assim que quando nos dispersamos na reitoria, perdemos o gabinete como referência e a sincronia dos encontros, já houve um notável retrocesso político. Vimos que a dispersão demográfico antecipou a política!


Pode ser também uma ocasião adequada para desfazermos um velho mal entendido, que ronda o marxismo, tanto por influência de seus adeptos vulgares como por conta de seus críticos rasos, tal é o problema quanto a “predestinação” revolucionária da classe operária. Marx ao depositar as esperanças comunistas sobre o ombro do operariado não o faz por pura fé, arbitrariedade ou idealismo, ao contrário, sabe reconhecer perfeitamente os limites do proletariado e, por sinal, o define como “negação” da liberdade humana. A confiança histórico materialista nos operários, além de se ancorar, obviamente, na teoria do valor-trabalho, deve-se ao fato de que os trabalhadores braçais, na indústria moderna, são postos em contato direto e constante uns com os outros, ou seja, a materialidade geográfica é também elemento revolucionário decisivo – (observe-se que as universidades são outro palco privilegiado no sentido geográfico, embora não no socioeconômico). A lógica marxiana fica evidente quando observamos sua descrença no potencial revolucionário camponês e rural se comparado ao operário e urbano. Com tal observação, podemos esperar enterrar todas as críticas de messianismo em relação ao marxismo, afinal elas costumam ter forte respaldo na incompreensão ilustrada e esclarecida acima. Mas vale a pena ainda citar diretamente o nosso pensador para terminar a argumentação com a devida autoridade:


“Acontecimentos de uma semelhança extraordinária, que têm lugar em diferentes contextos históricos, levam a resultados totalmente diferentes. Estudando cada um desses desenvolvimentos em separado, e depois comparando-os, pode-se descobrir facilmente a chave do fenômeno. Mas nunca se alcançará o êxito com a chave mestra de uma teoria histórico-filosófica, cuja suprema virtude consista em ser supra-histórica” (Escritos Sobre a Russia) e:


“Em consequência, não se pode transformar meu esboço histórico da gênese do capitalismo na Europa ocidental em uma teoria histórico-filosófica da marcha geral, fatalmente imposta a todos os povos, quaisquer que sejam as circunstâncias históricas em que se encontrem; para chegar em última instância a essa formação econômica [o comunismo] que assegura, com o maior desenvolvimento dos poderes produtivos do trabalho social, o desenvolvimento integral [do ser humano]” (Carta a Vera Zassulich) e:


“O comunismo é a figura necessária e o energético princípio do futuro próximo, mas o comunismo não é, como tal, a meta do desenvolvimento humano, a figura de uma sociedade humana”


Ora, algum autor pode ser mais claro ao rejeitar qualquer messianismo? Tais afirmações se encontram em Marx desde a juventude até a velhice e, se escolhi citações desta última fase, isto se deve somente a maior clareza delas. O messianismo eu o vejo, isto sim, nos apólogos do capital, que pregam o “fim da história”.


Enfim, minha reflexão nesta nota visou demonstrar que a espacialidade é um tema sério para nossas reflexões e caro ao marxismo. Fato é que num contexto revolucionário valerá se debruçar sobre tal problemática. Uma sociedade comunista precisa de um espaço comunista! Precisaremos de ambientes físicos e virtuais de encontro, de debate e deliberação. Se, por exemplo, o projeto de uma cidade modernista e progressista, como a Brasília de Lúcio Costa e Niemayer, não se realizou até hoje, talvez também devamos buscar causas nos impedimentos que o próprio capital suscita ao privatizar espaços públicos, ocupar áreas irregularmente, ferir o planejamento urbanístico de diversas fomas e limitar as possibilidades de vivência da cidade por parte das pessoas. Não há dúvida que os pilotis levantados, o verde abundante e os grandes espaços públicos combinariam bem com o aumento da disponibilidade de tempo e a criação de arenas locais! A pólis moderna e a ágora moderna!

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