domingo, 17 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 4

Zanata dizia que, sem dinheiro para salas de aula e professores, o que esperava os estudantes, era uma universidade massificada, com aulas em anfiteatros enormes(como já ocorre em parte da UNB), professores mestrandos, dificuldade enorme de acesso à biblioteca, etc. O objetivo do governo era iniciar a privatização da universidade por dentro, inserindo fundações privadas, que acabariam mandando nas pesquisas; fazendo com que a nova massa de estudantes tivesse uma relação com a universidade ao nível da de um aluno de escola; etc. Os argumentos bastante verdadeiros, não obstante, eram carregados de números e vinham acompanhados de uma fala radicalista, um tanto quanto afetada.


É um velho problema dos comunistas expressar seus objetivos. Não se pode falar da sociedade que queremos, utilizando somente a linguagem burguesa dos cálculos e do dinheiro, embora ela também seja necessária em sua crítica (conservação/superação). O comunismo se baseia numa antropologia filosófica, especificamente na noção de que a “natureza humana” realiza-se apenas quando seu espírito pode expressar-se por completo, ser ele próprio, e isso só é possível quando a condição da liberdade está presente. Como dizer isso num debate?


Os partidos comunistas, nas propagandas eleitorais, fazem mal serviço ao utilizarem uma linguagem de outras épocas e argumentarem de forma burguesa. Não adianta falar em quintuplicar o salário mínimo, boicotar o FMI e estatizar as empresas. Só numa situação de crise muito grande tais argumentos poderão ter efeito, até lá passarão por ridículos. O bom senso popular percebe claramente que tais atos, em si e nas conjunturas atuais, só resultariam em colapso e múltiplas represálias. Trata-se, portanto, de demonstrar que o objetivo é destruir tais conjunturas! Acabar com o mundo em que, como diz Marx, “todos os nossos inventos e todo o nosso progresso parecem ter como resultado dotar as forças materiais de vida espiritual e em converter a vida em estúpida força material”


Ora, os militantes nos dirão “até hoje nunca se ouviu falar da reunião nem mesmo de um punhado de trabalhadores ser feita em nome do socialismo, de um mundo melhor e mais rosado, a verdade é que o que mobiliza as massas é a luta por melhorias materiais, coisas nas quais as pessoas reconhecem valor”. Eu retrucaria: “ é verdade, no entanto, não conseguiremos nada até que a situação de pauperismo seja tal que a massa queira aventurar-se por caminhos nunca antes percorridos e, até lá, corremos o risco de nos deixarmos hipnotizar pelo único mundo do qual falamos(o burguês)”; e diria ainda: “não esqueçamos que Niezstche ensina 'se olhares por muito tempo para dentro do abismo, ele também olha dentro de ti' !”; por fim, concluiria: “se não há remédio e precisamos utilizar as imagens burguesas, então que não deixemos de enxertar, em seu meio, as nossas próprias imagens, mais humanas, e, talvez, alguns nos entendam”.



A humanidade tem costumado abrandar o furor, a paixão inicial de cada criação sua com a rotinização. Tal problema é profundo na medida em que adapta o espírito da revolução ao da inércia. Em matéria política, isto se percebe nestes novos programas radicais, que são incapazes de enfrentar a implícita e bisonha pressuposição do "com tudo o mais constante...". Creio que estejamos um pouco mais distantes da linguagem do movimento do que já estivemos.

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