sábado, 9 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 2

Acho que não será difícil a nenhum leitor perceber que, neste texto, eu aplico-me tanto a uma reflexão sobre a motivação, a interioridade e os sentimentos individuais ou, como se costuma erradamente dizer, ao lado “subjetivo” dos acontecimentos, como às estruturas, à exterioridade e aos cálculos – o suposto lado “objetivo” dos acontecimentos. Aqui, como em todas as notas sobre teoria, sou forçado a um drástico reducionismo e esquematismo, que são particularmente inconvenientes para a teoria marxista, mas que possuem o mérito de trazer à luz um quadro de categorias que responde às críticas mais bobas e comuns.


No que diz respeito à análise da exterioridade e das estruturas, que já têm sua presença neste ensaio anunciada pelo seu título, sabe-se que ela é a base da sociologia Durkheimiana e tem também papel importante no pensamento marxiano. Quanto à reflexão sobre a interioridade, posso dizer que sempre me senti inclinado a ela e me dá muito prazer tentar desvendar as nuances psicológicas do comportamento de uma pessoa. Tal tipo de análise não pode deixar de ter forte influência da sociologia compreensiva de Weber e em suas derivações em Parsons e no interacionismo simbólico. Mas podemos ver também a preocupação com a agência individual em Marx, por exemplo, no 18 Brumário. Não são, de modo algum, perspectivas que se excluem mutuamente ou não teriam tido como se fundirem no interior das várias escolas sociológicas. Ainda assim, cada uma possui seu núcleo. Se fôssemos resumir numa só palavra, diríamos que Durkheim estuda a estrutura; Weber estuda o sentido; e Marx estuda o movimento; daí que seja vã a oposição dos weberianos em relação à falta de precisão dos marxistas no que diz respeito à definição do peso de cada “esfera” da vida. Weber pede a Marx coisas impossíveis para um pensador dialético, exige, por exempolo, que ele separe de forma estanque o que é "econômico", "ecomicamente determinado" e "economicamente relevante". Ora, para Marx, a mutabilidade é a lei geral e não há esferas autônomas. Não se pode, portanto, deixar de ilustrar a unilaralidade da outras escolas:


Sobre os estudos da interioridade, não devemos esquecer a crítica de Luckács à reificação da teoria que pode derivar de uma abordagem unicamente interior da ação e que tem por efeito o obscurecimento dos condicionamentos exteriores da mesma – um eclipse do conflito que pode-se perceber em parcelas na economia neoclássica e na sociologia weberiana, embora este autor oscile muitas vezes no sentido de um materialismo desfocado, que abarca de maneira pouco histórica áreas como a religião, a ciência e a política. A alguns pareceu que o marxismo coisificava as relações sociais ao dar tanta ênfase ao mundo material, no entanto, está claro que para poder dar voz à liberdade interior e à criatividade humana, na prática, é antes necessário reconhecer e eliminar as forças que tiranizam a mesma! Em resumo, não se deve mergulhar na intenção individual sem saber o que a condiciona e produz, caso contrário, se cai numa armadilha individualista, idealista e ahistórica.


O olhar sobre a exterioridade pode, por sua vez, resultar em outra reificação, como se dá na sociologia durkheimiana e funcionalista em geral, ao naturalizar a existência de determinados mecanismos sociais. O funcionalista típico olha o mundo e só se pergunta “pra quê esta ou aquela coisa serve?”, ele dá como pressuposta a permanência temporal de certas instituições(causas) e vai em busca de suas funções e suas disfunções(efeitos), raciocínio no qual a finalidade de uma gigantesca e mecânica série causal, é sempre a “coesão social”, o todo é dado como real e cabe entender as partes (e nunca o contrário!). Portanto, o funcionalismo, de certa maneira, inverte a lógica “causa → efeito” para “causa ← efeito”. O paradigma atual é oposto e busca encontrar as causas de uma determinada existência efetiva e não pressupõe que ela mesma tenha uma razão maior e, dessa forma, vendo mais caos e história, o cientista pergunta-se: “Por que tais coisas existem, por que são como são e como geram o todo?”

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