quinta-feira, 7 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 1

Tenho a impressão de que a primeira coisa que se deve fazer no início de um trabalho teórico é esclarecer alguns de seus pressupostos, mas, como as pessoas mal são capazes de os perceberem, acabam por nunca fazê-lo. Felizmente, não estou a fazer nada de propriamente acadêmico aqui, não obstante, opto por deixar às claras minha perspectiva, política e intelectualmente. A oportunidade permite já refutar os que esperam um pensamento puramente “técnico” e afirmar a lógica marxista geral de minhas reflexões. Afinal, em meus textos, implícita ou explicitamente, sempre estou ancorado numa reflexão acerca do materialismo histórico de Marx.

Isto implica, em primeiro lugar, a intenção de uma ciência que busque na realidade, e não alhures, a efetividade dos processos que analisa e explica, ou seja, não se acomoda à submissão aos velhos poderes fantasmagóricos que antes monopolizavam a ciência e a imobilizavam. Tal dimensão do materialismo poderíamos chamar de "epistemológica". Marx a mobilizou no combate à crítica mistificadora empreendida pelos jovens hegelianos de esquerda que, por exemplo, eram capazes de creditar todo o desenvolvimento histórico aos feitos de uns poucos grandes heróis ou, ainda mais caricato, às atividades nobres de gente como eles mesmos, de intelectuais pequeno-burgueses absolutamente alheios ao todo da realidade social. Daí o fato do marxismo preocupar-se com todas as relações sociais reais e não só com a economia, como indica o preconceito mais rasteiro. O destino histórico da humanidade é fruto da totalidade das escolhas humanas.


O problema para Marx é a tranformação, a impermanência, o devir, a crítica é sua paixão. Talvez o grau de contingência em sua dedicação central à economia possa ser ilustrado em uma carta sua para Engels em 1851: "cheguei a um ponto em que, dentro de cinco semanas, terei encerrado com toda essa merda de economia. E, feito isso, escreverei meu livro de economia em casa. No museu, começarei a estudar uma outra ciência. A economia começa a me aborrecer. No fundo, esta ciência não progrediu desde Adam Smith e David Ricardo, não obstante o que foi feito em estudos isolados, não raro ultradelicados". Neste sentido, comprova-se que o foco do materialismo histórico é todo o real. Demasiado sociólogo para os filósofos, demasiado economista para o sociólogos, e demasiado filósofo para os economistas, eis o destino do legado de Marx até hoje.


É óbvio que as ciências sociais, hoje, já absorveram parte da crítica marxista neste aspecto e, portanto, por assim dizer, materializaram seus objetos, no entanto, não é nada raro encontrar um intelectual tão celebrado como José Murilo de Carvalho que ao explicar, por exemplo, a queda de Getúlio Vargas em 45 permite-se apontar, quase como causa única do fenômeno, a contradição lógica do governante atacar o facismo europeu e manter seu próprio regime ditatorial. Ora, numa explicação destas, tudo parece indicar que uma Deusa da Lógica – talvez Atenas - desceu do Olimpo em sua magnífica armadura para castigar com ferro e fogo aquele que não pagara os respeitos e tributos devidos a ela. É uma explicação mágica e não histórica! Numa vertente materialista, por outro lado, investigaríamos as forças sociais que se puseram contra o poder então instituído e o destituíram, utilizando tal discurso como mero meio. Aqui não quero me prender numa refutação aos entusiastas da autonomia dos discursos, filhotes de Foucault, mas, vale dizer, esta autonomia, em qualquer caso, está sempre ancorada em sujeitos históricos concretos. No que diz respeito ao presente exemplo, o amor à democracia estava longe de ser arraigado no espírito coletivo dos brasileiros. (Ideologia Alemã)

Em segundo lugar, o materialismo possui uma dimensão metodológica (e o próprio título deste ensaio mostra sua não neutralidade política e moral) e aqui começa a afinidade de Marx com a economia. Se ele preconiza a exterioridade dos indivíduos - econômica e política – em detrimento da sua vida interior, é unicamente porque busca uma mudança social generalizada e elegeu como seus índices mais confiáveis aqueles que provêm da frieza das estruturas e não do calor enganoso dos sentimentos e discursos. Olhemos por onde olharmos na história, sempre poderemos encontrar a existência da produção material da vida, embora a paisagem das formas culturais seja infinitamente plural. Ao contrário do que pregam certos apologetas do capital, no entanto, Marx jamais pregou qualquer determinismo econômico, caso contrário, seria ridícula toda a proposta comunista, que visa justamente a abolição das estruturas que tiranizam os poderes criativos humanos e seria vão todo o movimento de incitação à Revolução. Queremos, na verdade, sair da pré-história e entrar na história, queremos que o mundo humanize-se, de tal maneira que a liberdade seja possível como regra geral e os elementos determinísticos da vida encolham-se o quanto possível. A crença marxista na facticidade da proposta transparece na sentença marxiana: “a história não é senão a história da transformação da natureza humana”. (Aqui recorro à análise histórica concreta contida no 18 Brumário e à Miséria da Filosofia)

Em terceiro lugar, é fundamental destacar a dimensão propriamente ontológica do materialismo: aquela que afirma ser a economia o condicionante fundamental da realidade social atual. É importante perceber que tal nível do materialismo histórico não o faz decair à vulgaridade daquela concepção que os já citados apologetas querem atribuir a ele, uma vez que “condicionar” é diferente de “determinar” e dizer que uma esfera da vida social condiciona as demais nem de longe é negar a autonomia relativa destas. Ora, a polêmica em torno desta “hipótese” marxiana parece-me absolutamente ideológica, visto que desde à observação mais descuidada do senso comum até à mais refinada ciência podem facilmente nos ilustrar que a vida contemporânea é inteiramente limitada em suas possibilidades pela produção material.

Podemos ver no noticiário da manhã, da tarde ou da noite, que cada política de um país leva em conta, cuidadosamente, seus próprios efeitos na economia e podemos perceber (embora não graças a TV) em cada ação de governo, desde a mais nobre, como num ministério de cultura, até a mais vil, como numa política de guerra, as motivações econômicas. Há algum importante governo que se importe com qualquer coisa mais do que com o “crescimento”? Existe algum país que aplique seus recursos sem freios e convictamente baseado unicamente na fé em algum valor não-econômico? E quantas famílias que não levem em conta o orçamento no planejamento de suas atividades? Há, aliás, qualquer motivo nem econômico e nem francamente místico para explicar uma guerra como a do Iraque?

Enfim, o materialismo histórico não é e não pode ser encarado como dogma. Marx nunca se constrangeu em ir além dos limites econômicos e sociológicos ao falar de certas ações políticas, literatura, filosofia ou da mera vida cotidiana (Sobre O Suicídio, por exemplo), ou seja, o que é espontâneo não é um dilema para o marxismo. Então, o sistema não explica toda a realidade? Qual o motivo de o utilizarmos? Ora, não podemos cair no absurdo, como o rei do conto de Jorge Luís Borges, de exigir que um mapa contenha toda a realidade, sob pena de obtermos uma carta inútil, que não é senão a transcrição de tudo e a explicação de nada. Mapas são mapas, somente guias, e não possuem a vida, mas são possuídos por ela.

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