terça-feira, 26 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 5

Segundo determinado ponto de vista, o fato de não termos senão informações muito dispersas acerca das motivações dos agentes, nos impediria de estabelecer uma linha causal perfeitamente clara e, portanto, de fazer qualquer ciência. É muito claro, embora não percebido por todos, que se nos entregarmos inteiramente a esse tipo de mecanicismo moderno não poderá demorar o momento em que desistiremos de qualquer crítica. Tal evidência é muito bem aclarada tanto em um texto meu sobre a filosofia da natureza de Demócrito, quanto no texto “Da Culpa e Da Autoria dos Textos” (http://xtudotudo6.zip.net/arch2008-10-01_2008-10-31.html), de Rafael Aguiar – embora ele faça uma defesa contrária a minha. Vamos tentar encarar o problema de uma maneira minimamente filosófica ou, em palavras simples, de forma um pouco consequente:


A sentença de Leibniz “a natureza não dá saltos”, se estendida até ao gênero humano, não significa outra coisa senão a universalidade da situação de “causa → efeito” que, obviamente, implica no fato de que toda causa é já um efeito de outras causas, anulando fatores “externos”, como o “livre-arbítrio” – como observou entusiasmadamente o antropólogo E.B. Tylor. Assim, a ação humana é reduzida a ação física, o mesmo jogo de forças que controlou a gênese do universo, a origem da Terra, o nascimento dos seres vivos e sua evolução, determina cada ato nosso. A física celeste, a química moderna e a biologia darwinista, desaguam no fisicalismo! A alma – ou qualquer outro “Deus ex-machina” que se queira – é uma fantasia já morta e enterrada!


Eu só estaria escrevendo aqui por estar na ponta de uma linha causal, que soma todos os elementos recém listados com outras incontáveis causas igualmente mecânicas. Tudo, desde a história política do Brasil, a classe social de minha família, o encontro dos gametas dos meus pais, até as pessoas que conheci(também mecanicamente forjadas), confluem para o momento atual. O resultado final, único dado certo de tudo isto, seria o acionamento químico de certas substâncias no meu cérebro que, nesse momento, me dão aquilo que podemos chamar de “vontade de escrever” - causa de: eu estar escrevendo; efeito de: tudo o que se passou ao longo da minha vida, incluindo o programa de TV que vi hoje pela manhã, as horas de sono que dormi e o que comi.


Tal é o resultado mais consequente do entendimento de causalidade moderno. É também um pressuposto ontológico e um acordo tácito a unir grandes parcelas do pensamento das correntes positivistas e pós-modernistas, estruturalistas e pós-estruturalistas, seja no formato do “desvendamento da gramática social” ou da “dissolução do sujeito”. A diferença é que as primeiras animadamente propõem-se, a partir dessa lógica, a elaborarem a ciência total do mundo; e as segundas negam-se a buscar quaisquer verdades, conformando-se com a infinidade causal, que faz com que todas as existências efetivas da "rede" universal sejam, simultaneamente, causa e efeito de todas as outras.


Um pós-moderno como Bruno Latour, que goza do mérito de formular claramente sua lamentável proposta científica, afirma que devemos abandonar a teoria crítica, em decorrência do fato de que ela ancora-se rigidamente na existência do sujeito (ativo). Ora, as pessoas são tão fruto das circunstâncias quanto os objetos físicos! Dar credibilidade às dicotomias entre autonomia e heteronomia; virtude e vício; ou revolução e conservação na humanidade, é tão imbecil quanto ter fé na atividade ou passividade; bondade ou maldade; sabedoria ou idiotice; alienação ou consciência emancipada de um revólver ou de um ferro de passar roupas. Tudo é imanência, não há transcendência!

Ou talvez La Tour esteja propondo um superação da concepção sujeito-objeto com viés hegeliano, na qual o todo é entendido como gerador de si, como pulsão de vida inesgotável, sem "big bangs" ou quaisquer determinações causais primordiais? Se este fosse o caso, não haveria qualquer razão para sua contraposição em relação à teoria crítica, uma vez que esta, obviamente, por sua própria origem, é absolutamente compatível com a filosofia hegeliana.



Qual é a posição do marxismo neste coisa toda? É lícito a um marxista criticar as outras escolas neste ponto? Ora, é certo que Marx, é muito acusado como “evolucionista”, “mecanicista”, “economicista”, “estruturalista” e de muitos outros adjetivos, que não significam mais do que a acusação de que é partidário de um estrito determinismo. Eu digo “estrito” pelo fato de que muitos de seus críticos assumem outros determinismos, mas mais amplos do que o puramente econômico, ou seja, que inclui mais “variáveis”! A maior parte das acusações feitas a Marx concentram-se no pequeníssimo conteúdo do prefácio da “Contribuição a Crítica Da Economia Política”. Pois bem, lá há dois alvos claros: primeiro, a hipótese de que nem sequer um pensamento humano pode ocorrer sem que estejam desenvolvidas as circunstâncias materiais que o permitem; segundo, que os modos de produção evoluem de asiático, para antigo, feudal e, depois, capitalista.




Quanto ao primeiro ponto, basta observar o quão banais são, por exemplo, as afirmações: “não haveria feudalismo sem o declínio do escravismo romano (ou sem as invasões bárbaras)” ou “não haveria capitalismo sem a expropriação da terra comum feudal (ou sem as mudanças culturais da Baixa Idade Média)”. O que afirma-se aí não é que a economia é uma “variável independente”, mas, ao contrário, que não existem “variáveis” e que a vida social é uma mesma totalidade, em que cada parte pode ser compreendida em função de qualquer uma das outras. Marx escolhe na maior parte das vezes como ponto de referência a economia, pois é o que indicada o método materialista histórico (ver nota 1) .


Quanto ao segundo ponto, sabe-se que não muito tempo depois, em O Capital, Marx esclarece a tese de que o modo de produção asiático não encontra lugar no ocidente e que, portanto, é uma característica idiossincrática da história oriental. Ora, a infinidade de fatores que conformam a estrutura social não se repetem em lugar algum! A crítica antimarxista é míope, até mesmo um weberiano como Giddens (Marx, Weber e a Origem do Capitalismo), reconhece tranquilamente que Marx assume não só a independência relativa de outras instâncias da vida social, como a liberdade incausada da escolha (por exemplo, nas Teses sobre Feuerbach). Não só não há quaisquer desconfianças de determinismo econômico em O Capital para quem lê a passagem sobre a influência do judaísmo na gênese do capitalismo, como há certeza do oposto para quem nota o chamativo detalhe de quase sempre haver o adjetivo “condição” à causação econômica.


Dessa forma, vê-se que Marx não é somente um defensor da liberdade social, tal como seus companheiros socialistas utópicos e vários anarquistas, mas também da liberdade de ação – no que contrária drasticamente um Prodhon ou Kropotikine. Tais autores se limitam àquela inovação que surgida da evolução do liberalismo e que é de extrema esquerda, ou seja, a da compatibilização entre a ideia de liberdade e igualdade sem negar a heterogeneidade, esse primeiro passo é bem sintetizado por Mikhail Bakunin:“liberdade sem socialismo é o privilégio, a injustiça; assim como socialismo sem liberdade é a escravidão e a brutalidade”.


Marx vai além e se pronuncia a favor da liberdade humanista. O que ele defende é que a criatividade é a essência mais profunda do ser humano - (e não a luta de classes!). Os mecanicistas, afinal, só nos oferecem uma dedução desprovida de conteúdo, que não se verifica na própria vida e que não pode responder a si mesma sobre o seu imaginado começo dos começos. Podemos ver, desde a juventude, em sua tese de doutoramento, Marx defender Epicuro e a ideia “dogmática” de “clinamen”, ao invés do mecanicismo rígido e “empirista” de Demócrito. O primeiro autor defendia a não-causalidade atômica total, o voluntarismo do átomo de mover-se numa dada direção sem qualquer estímulo, eventualmente. Posteriormente, podemos ver na teoria do valor-trabalho a repetição da estrutura de pensamento que o dominara quando jovem. O trabalho, característica distintiva do ser humano, é o que confere valor aos objetos materiais e não qualquer outro elemento na longa cadeia causal necessária em sua produção. Qual seria o motivo oculto no fato de somente o ser humano acrescentar valor à mercadoria e não o próprio capital (maquinaria) ou a terra (natureza)? A resposta é que o ser humano, através de sua vontade livre, é capaz de causar um salto metafísico no rumo rígido determinado pela física.


Todo o pensamento de Marx organiza-se ao redor da ideia de “crítica” e de “revolução”, que carecem de sentido sem a metafísica. Nada pode ser verdadeiramente criticado se adotamos uma filosofia que aponta para a ideia de que “tudo está como está por necessidade". O fatalismo ou torna todos vítimas, ou simplesmente acaba com as oposições algoz/vítima, inocência/culpa e atividade/passividade, ou seja, de quebra, anula a eficiência de qualquer vontade política. Por outro lado, é bem verdade que um voluntarismo absoluto pode destruir qualquer pretensão de conhecimentos positivos e, dessa forma, eliminar a função não só da ciência como da crítica. Marx resolve o problema através da adoção de uma perspectiva em que a lei física da causalidade assume o papel de condicionamento da prática, enquanto a prática mesma, é preenchida pelos seres humanos concretos em sua liberdade.


“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob as circunstâncias de sua escolha, senão sob aquela com que se defrontam diretamente, apresentadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas aflige como um pesadelo o cérebro dos vivos. E é precisamente quando parecem ocupados em revolucionar-se a si mesmos e às coisas, em criar algo que nunca existiu, justamente nessas épocas de crise revolucionária, os homens chamam angustiadamente em seu socorro os espíritos do passado, apossando-se dos seus nomes, gritos de guerra e trajes a fim de se apresentarem nessa linguagem empresta na nova cena da história universal”.


Assim, também é verdade que “as revoluções(os saltos) são a locomotiva da história” no sentido de que a liberdade se manifesta revolucionando as condições materiais (físicas) que envolvem determinada época e criando outras que se cristalizam e passam, por sua vez, a condicionarem a realidade. A inércia é a imanência e a autodeterminação, a transcendência. O comunismo é o momento no qual se obtém a mais ampla liberdade social, através da horizontalidade, e em que a liberdade humana pode enfim manifestar-se sem entraves, instante a instante.

domingo, 17 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 4

Zanata dizia que, sem dinheiro para salas de aula e professores, o que esperava os estudantes, era uma universidade massificada, com aulas em anfiteatros enormes(como já ocorre em parte da UNB), professores mestrandos, dificuldade enorme de acesso à biblioteca, etc. O objetivo do governo era iniciar a privatização da universidade por dentro, inserindo fundações privadas, que acabariam mandando nas pesquisas; fazendo com que a nova massa de estudantes tivesse uma relação com a universidade ao nível da de um aluno de escola; etc. Os argumentos bastante verdadeiros, não obstante, eram carregados de números e vinham acompanhados de uma fala radicalista, um tanto quanto afetada.


É um velho problema dos comunistas expressar seus objetivos. Não se pode falar da sociedade que queremos, utilizando somente a linguagem burguesa dos cálculos e do dinheiro, embora ela também seja necessária em sua crítica (conservação/superação). O comunismo se baseia numa antropologia filosófica, especificamente na noção de que a “natureza humana” realiza-se apenas quando seu espírito pode expressar-se por completo, ser ele próprio, e isso só é possível quando a condição da liberdade está presente. Como dizer isso num debate?


Os partidos comunistas, nas propagandas eleitorais, fazem mal serviço ao utilizarem uma linguagem de outras épocas e argumentarem de forma burguesa. Não adianta falar em quintuplicar o salário mínimo, boicotar o FMI e estatizar as empresas. Só numa situação de crise muito grande tais argumentos poderão ter efeito, até lá passarão por ridículos. O bom senso popular percebe claramente que tais atos, em si e nas conjunturas atuais, só resultariam em colapso e múltiplas represálias. Trata-se, portanto, de demonstrar que o objetivo é destruir tais conjunturas! Acabar com o mundo em que, como diz Marx, “todos os nossos inventos e todo o nosso progresso parecem ter como resultado dotar as forças materiais de vida espiritual e em converter a vida em estúpida força material”


Ora, os militantes nos dirão “até hoje nunca se ouviu falar da reunião nem mesmo de um punhado de trabalhadores ser feita em nome do socialismo, de um mundo melhor e mais rosado, a verdade é que o que mobiliza as massas é a luta por melhorias materiais, coisas nas quais as pessoas reconhecem valor”. Eu retrucaria: “ é verdade, no entanto, não conseguiremos nada até que a situação de pauperismo seja tal que a massa queira aventurar-se por caminhos nunca antes percorridos e, até lá, corremos o risco de nos deixarmos hipnotizar pelo único mundo do qual falamos(o burguês)”; e diria ainda: “não esqueçamos que Niezstche ensina 'se olhares por muito tempo para dentro do abismo, ele também olha dentro de ti' !”; por fim, concluiria: “se não há remédio e precisamos utilizar as imagens burguesas, então que não deixemos de enxertar, em seu meio, as nossas próprias imagens, mais humanas, e, talvez, alguns nos entendam”.



A humanidade tem costumado abrandar o furor, a paixão inicial de cada criação sua com a rotinização. Tal problema é profundo na medida em que adapta o espírito da revolução ao da inércia. Em matéria política, isto se percebe nestes novos programas radicais, que são incapazes de enfrentar a implícita e bisonha pressuposição do "com tudo o mais constante...". Creio que estejamos um pouco mais distantes da linguagem do movimento do que já estivemos.

sábado, 16 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 3

O local em que fizemos a assembléia, na entrada leste da reitoria, é o pequeno e ligeiramente íngreme gramado que separa a reitoria do estacionamento da biblioteca. A quentura do meio-dia completava o calvário com o qual eram premiados os que se dispunham a participar do movimento estudantil. Para remediar a situação, improvisamos precariamente e com muitas dificuldades, uma baixa tenda, amarrando em árvores a enorme bandeira do Brasil, que se mostrou mais útil dessa maneira do que como enfeite, como a UJS a utilizara na assembléia anterior. Ainda assim, esta sombra cobria somente uns 20% do espaço que utilizávamos, não aliviava em quase nada a quentura para os que estavam embaixo dela, e atrapalhava a visão dos que sentavam atrás.


É claro que neste caso não poderíamos fazer a assembléia em nenhum lugar longe da reitoria, não obstante, tal situação sublinha e nos faz lembrar, do fato de que não há nenhuma estrutura física na UnB minimamente adequada a qualquer atividade política horizontal. Todas as salas de conselhos ou de aulas adotam um padrão espacial hierárquico, em que todos devem olhar para a frente, onde encontram seus líderes iluminados, e, no mais, só veem a nuca uns dos outros. Ora, o Teatro de Arena é um dos únicos locais em que seria possível realizar uma assembléia em harmonia com o seu próprio espaço, como ocorreu nos anos 80, no entanto, ele é de concreto e não tem cobertura!


Obviamente, o espaço não é neutro, mas, ao contrário, como assinala Milton Santos, ele solidifica as relações sociais existentes e passa as condicionar. Esse é o motivo pelo qual o movimento estudantil precisava enxergar a luta por novos espaços como parte de sua luta por uma nova universidade e uma nova sociedade. Em se tratando de UnB, pelo menos, é bem claro que praticamente nenhum CA tem sequer um espaço que possa ser qualificado como “digno” para fazer suas assembléias de curso e que esse é um dos motivos das dificuldades organizativas dos cursos, aliás, mesmo o DCE, não conta com mais do que um cubículo. Na prática pudemos ver como a existência de um ponto de convergência, de referência, pode ampliar a politização quando ficamos trancados e concentrados no gabinete da reitoria, utilizando uma sala de reuniões em “u”. Tanto é assim que quando nos dispersamos na reitoria, perdemos o gabinete como referência e a sincronia dos encontros, já houve um notável retrocesso político. Vimos que a dispersão demográfico antecipou a política!


Pode ser também uma ocasião adequada para desfazermos um velho mal entendido, que ronda o marxismo, tanto por influência de seus adeptos vulgares como por conta de seus críticos rasos, tal é o problema quanto a “predestinação” revolucionária da classe operária. Marx ao depositar as esperanças comunistas sobre o ombro do operariado não o faz por pura fé, arbitrariedade ou idealismo, ao contrário, sabe reconhecer perfeitamente os limites do proletariado e, por sinal, o define como “negação” da liberdade humana. A confiança histórico materialista nos operários, além de se ancorar, obviamente, na teoria do valor-trabalho, deve-se ao fato de que os trabalhadores braçais, na indústria moderna, são postos em contato direto e constante uns com os outros, ou seja, a materialidade geográfica é também elemento revolucionário decisivo – (observe-se que as universidades são outro palco privilegiado no sentido geográfico, embora não no socioeconômico). A lógica marxiana fica evidente quando observamos sua descrença no potencial revolucionário camponês e rural se comparado ao operário e urbano. Com tal observação, podemos esperar enterrar todas as críticas de messianismo em relação ao marxismo, afinal elas costumam ter forte respaldo na incompreensão ilustrada e esclarecida acima. Mas vale a pena ainda citar diretamente o nosso pensador para terminar a argumentação com a devida autoridade:


“Acontecimentos de uma semelhança extraordinária, que têm lugar em diferentes contextos históricos, levam a resultados totalmente diferentes. Estudando cada um desses desenvolvimentos em separado, e depois comparando-os, pode-se descobrir facilmente a chave do fenômeno. Mas nunca se alcançará o êxito com a chave mestra de uma teoria histórico-filosófica, cuja suprema virtude consista em ser supra-histórica” (Escritos Sobre a Russia) e:


“Em consequência, não se pode transformar meu esboço histórico da gênese do capitalismo na Europa ocidental em uma teoria histórico-filosófica da marcha geral, fatalmente imposta a todos os povos, quaisquer que sejam as circunstâncias históricas em que se encontrem; para chegar em última instância a essa formação econômica [o comunismo] que assegura, com o maior desenvolvimento dos poderes produtivos do trabalho social, o desenvolvimento integral [do ser humano]” (Carta a Vera Zassulich) e:


“O comunismo é a figura necessária e o energético princípio do futuro próximo, mas o comunismo não é, como tal, a meta do desenvolvimento humano, a figura de uma sociedade humana”


Ora, algum autor pode ser mais claro ao rejeitar qualquer messianismo? Tais afirmações se encontram em Marx desde a juventude até a velhice e, se escolhi citações desta última fase, isto se deve somente a maior clareza delas. O messianismo eu o vejo, isto sim, nos apólogos do capital, que pregam o “fim da história”.


Enfim, minha reflexão nesta nota visou demonstrar que a espacialidade é um tema sério para nossas reflexões e caro ao marxismo. Fato é que num contexto revolucionário valerá se debruçar sobre tal problemática. Uma sociedade comunista precisa de um espaço comunista! Precisaremos de ambientes físicos e virtuais de encontro, de debate e deliberação. Se, por exemplo, o projeto de uma cidade modernista e progressista, como a Brasília de Lúcio Costa e Niemayer, não se realizou até hoje, talvez também devamos buscar causas nos impedimentos que o próprio capital suscita ao privatizar espaços públicos, ocupar áreas irregularmente, ferir o planejamento urbanístico de diversas fomas e limitar as possibilidades de vivência da cidade por parte das pessoas. Não há dúvida que os pilotis levantados, o verde abundante e os grandes espaços públicos combinariam bem com o aumento da disponibilidade de tempo e a criação de arenas locais! A pólis moderna e a ágora moderna!

sábado, 9 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 2

Acho que não será difícil a nenhum leitor perceber que, neste texto, eu aplico-me tanto a uma reflexão sobre a motivação, a interioridade e os sentimentos individuais ou, como se costuma erradamente dizer, ao lado “subjetivo” dos acontecimentos, como às estruturas, à exterioridade e aos cálculos – o suposto lado “objetivo” dos acontecimentos. Aqui, como em todas as notas sobre teoria, sou forçado a um drástico reducionismo e esquematismo, que são particularmente inconvenientes para a teoria marxista, mas que possuem o mérito de trazer à luz um quadro de categorias que responde às críticas mais bobas e comuns.


No que diz respeito à análise da exterioridade e das estruturas, que já têm sua presença neste ensaio anunciada pelo seu título, sabe-se que ela é a base da sociologia Durkheimiana e tem também papel importante no pensamento marxiano. Quanto à reflexão sobre a interioridade, posso dizer que sempre me senti inclinado a ela e me dá muito prazer tentar desvendar as nuances psicológicas do comportamento de uma pessoa. Tal tipo de análise não pode deixar de ter forte influência da sociologia compreensiva de Weber e em suas derivações em Parsons e no interacionismo simbólico. Mas podemos ver também a preocupação com a agência individual em Marx, por exemplo, no 18 Brumário. Não são, de modo algum, perspectivas que se excluem mutuamente ou não teriam tido como se fundirem no interior das várias escolas sociológicas. Ainda assim, cada uma possui seu núcleo. Se fôssemos resumir numa só palavra, diríamos que Durkheim estuda a estrutura; Weber estuda o sentido; e Marx estuda o movimento; daí que seja vã a oposição dos weberianos em relação à falta de precisão dos marxistas no que diz respeito à definição do peso de cada “esfera” da vida. Weber pede a Marx coisas impossíveis para um pensador dialético, exige, por exempolo, que ele separe de forma estanque o que é "econômico", "ecomicamente determinado" e "economicamente relevante". Ora, para Marx, a mutabilidade é a lei geral e não há esferas autônomas. Não se pode, portanto, deixar de ilustrar a unilaralidade da outras escolas:


Sobre os estudos da interioridade, não devemos esquecer a crítica de Luckács à reificação da teoria que pode derivar de uma abordagem unicamente interior da ação e que tem por efeito o obscurecimento dos condicionamentos exteriores da mesma – um eclipse do conflito que pode-se perceber em parcelas na economia neoclássica e na sociologia weberiana, embora este autor oscile muitas vezes no sentido de um materialismo desfocado, que abarca de maneira pouco histórica áreas como a religião, a ciência e a política. A alguns pareceu que o marxismo coisificava as relações sociais ao dar tanta ênfase ao mundo material, no entanto, está claro que para poder dar voz à liberdade interior e à criatividade humana, na prática, é antes necessário reconhecer e eliminar as forças que tiranizam a mesma! Em resumo, não se deve mergulhar na intenção individual sem saber o que a condiciona e produz, caso contrário, se cai numa armadilha individualista, idealista e ahistórica.


O olhar sobre a exterioridade pode, por sua vez, resultar em outra reificação, como se dá na sociologia durkheimiana e funcionalista em geral, ao naturalizar a existência de determinados mecanismos sociais. O funcionalista típico olha o mundo e só se pergunta “pra quê esta ou aquela coisa serve?”, ele dá como pressuposta a permanência temporal de certas instituições(causas) e vai em busca de suas funções e suas disfunções(efeitos), raciocínio no qual a finalidade de uma gigantesca e mecânica série causal, é sempre a “coesão social”, o todo é dado como real e cabe entender as partes (e nunca o contrário!). Portanto, o funcionalismo, de certa maneira, inverte a lógica “causa → efeito” para “causa ← efeito”. O paradigma atual é oposto e busca encontrar as causas de uma determinada existência efetiva e não pressupõe que ela mesma tenha uma razão maior e, dessa forma, vendo mais caos e história, o cientista pergunta-se: “Por que tais coisas existem, por que são como são e como geram o todo?”

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Notas Sobre o Marxismo 1

Tenho a impressão de que a primeira coisa que se deve fazer no início de um trabalho teórico é esclarecer alguns de seus pressupostos, mas, como as pessoas mal são capazes de os perceberem, acabam por nunca fazê-lo. Felizmente, não estou a fazer nada de propriamente acadêmico aqui, não obstante, opto por deixar às claras minha perspectiva, política e intelectualmente. A oportunidade permite já refutar os que esperam um pensamento puramente “técnico” e afirmar a lógica marxista geral de minhas reflexões. Afinal, em meus textos, implícita ou explicitamente, sempre estou ancorado numa reflexão acerca do materialismo histórico de Marx.

Isto implica, em primeiro lugar, a intenção de uma ciência que busque na realidade, e não alhures, a efetividade dos processos que analisa e explica, ou seja, não se acomoda à submissão aos velhos poderes fantasmagóricos que antes monopolizavam a ciência e a imobilizavam. Tal dimensão do materialismo poderíamos chamar de "epistemológica". Marx a mobilizou no combate à crítica mistificadora empreendida pelos jovens hegelianos de esquerda que, por exemplo, eram capazes de creditar todo o desenvolvimento histórico aos feitos de uns poucos grandes heróis ou, ainda mais caricato, às atividades nobres de gente como eles mesmos, de intelectuais pequeno-burgueses absolutamente alheios ao todo da realidade social. Daí o fato do marxismo preocupar-se com todas as relações sociais reais e não só com a economia, como indica o preconceito mais rasteiro. O destino histórico da humanidade é fruto da totalidade das escolhas humanas.


O problema para Marx é a tranformação, a impermanência, o devir, a crítica é sua paixão. Talvez o grau de contingência em sua dedicação central à economia possa ser ilustrado em uma carta sua para Engels em 1851: "cheguei a um ponto em que, dentro de cinco semanas, terei encerrado com toda essa merda de economia. E, feito isso, escreverei meu livro de economia em casa. No museu, começarei a estudar uma outra ciência. A economia começa a me aborrecer. No fundo, esta ciência não progrediu desde Adam Smith e David Ricardo, não obstante o que foi feito em estudos isolados, não raro ultradelicados". Neste sentido, comprova-se que o foco do materialismo histórico é todo o real. Demasiado sociólogo para os filósofos, demasiado economista para o sociólogos, e demasiado filósofo para os economistas, eis o destino do legado de Marx até hoje.


É óbvio que as ciências sociais, hoje, já absorveram parte da crítica marxista neste aspecto e, portanto, por assim dizer, materializaram seus objetos, no entanto, não é nada raro encontrar um intelectual tão celebrado como José Murilo de Carvalho que ao explicar, por exemplo, a queda de Getúlio Vargas em 45 permite-se apontar, quase como causa única do fenômeno, a contradição lógica do governante atacar o facismo europeu e manter seu próprio regime ditatorial. Ora, numa explicação destas, tudo parece indicar que uma Deusa da Lógica – talvez Atenas - desceu do Olimpo em sua magnífica armadura para castigar com ferro e fogo aquele que não pagara os respeitos e tributos devidos a ela. É uma explicação mágica e não histórica! Numa vertente materialista, por outro lado, investigaríamos as forças sociais que se puseram contra o poder então instituído e o destituíram, utilizando tal discurso como mero meio. Aqui não quero me prender numa refutação aos entusiastas da autonomia dos discursos, filhotes de Foucault, mas, vale dizer, esta autonomia, em qualquer caso, está sempre ancorada em sujeitos históricos concretos. No que diz respeito ao presente exemplo, o amor à democracia estava longe de ser arraigado no espírito coletivo dos brasileiros. (Ideologia Alemã)

Em segundo lugar, o materialismo possui uma dimensão metodológica (e o próprio título deste ensaio mostra sua não neutralidade política e moral) e aqui começa a afinidade de Marx com a economia. Se ele preconiza a exterioridade dos indivíduos - econômica e política – em detrimento da sua vida interior, é unicamente porque busca uma mudança social generalizada e elegeu como seus índices mais confiáveis aqueles que provêm da frieza das estruturas e não do calor enganoso dos sentimentos e discursos. Olhemos por onde olharmos na história, sempre poderemos encontrar a existência da produção material da vida, embora a paisagem das formas culturais seja infinitamente plural. Ao contrário do que pregam certos apologetas do capital, no entanto, Marx jamais pregou qualquer determinismo econômico, caso contrário, seria ridícula toda a proposta comunista, que visa justamente a abolição das estruturas que tiranizam os poderes criativos humanos e seria vão todo o movimento de incitação à Revolução. Queremos, na verdade, sair da pré-história e entrar na história, queremos que o mundo humanize-se, de tal maneira que a liberdade seja possível como regra geral e os elementos determinísticos da vida encolham-se o quanto possível. A crença marxista na facticidade da proposta transparece na sentença marxiana: “a história não é senão a história da transformação da natureza humana”. (Aqui recorro à análise histórica concreta contida no 18 Brumário e à Miséria da Filosofia)

Em terceiro lugar, é fundamental destacar a dimensão propriamente ontológica do materialismo: aquela que afirma ser a economia o condicionante fundamental da realidade social atual. É importante perceber que tal nível do materialismo histórico não o faz decair à vulgaridade daquela concepção que os já citados apologetas querem atribuir a ele, uma vez que “condicionar” é diferente de “determinar” e dizer que uma esfera da vida social condiciona as demais nem de longe é negar a autonomia relativa destas. Ora, a polêmica em torno desta “hipótese” marxiana parece-me absolutamente ideológica, visto que desde à observação mais descuidada do senso comum até à mais refinada ciência podem facilmente nos ilustrar que a vida contemporânea é inteiramente limitada em suas possibilidades pela produção material.

Podemos ver no noticiário da manhã, da tarde ou da noite, que cada política de um país leva em conta, cuidadosamente, seus próprios efeitos na economia e podemos perceber (embora não graças a TV) em cada ação de governo, desde a mais nobre, como num ministério de cultura, até a mais vil, como numa política de guerra, as motivações econômicas. Há algum importante governo que se importe com qualquer coisa mais do que com o “crescimento”? Existe algum país que aplique seus recursos sem freios e convictamente baseado unicamente na fé em algum valor não-econômico? E quantas famílias que não levem em conta o orçamento no planejamento de suas atividades? Há, aliás, qualquer motivo nem econômico e nem francamente místico para explicar uma guerra como a do Iraque?

Enfim, o materialismo histórico não é e não pode ser encarado como dogma. Marx nunca se constrangeu em ir além dos limites econômicos e sociológicos ao falar de certas ações políticas, literatura, filosofia ou da mera vida cotidiana (Sobre O Suicídio, por exemplo), ou seja, o que é espontâneo não é um dilema para o marxismo. Então, o sistema não explica toda a realidade? Qual o motivo de o utilizarmos? Ora, não podemos cair no absurdo, como o rei do conto de Jorge Luís Borges, de exigir que um mapa contenha toda a realidade, sob pena de obtermos uma carta inútil, que não é senão a transcrição de tudo e a explicação de nada. Mapas são mapas, somente guias, e não possuem a vida, mas são possuídos por ela.

sábado, 2 de abril de 2011

Reciclagem!

Acabei decidindo apagar as postagens de 2008 e 2009. Eram parcelas da minha longa narrativa sobre a ocupação da reitoria da UNB. Agora que eu estou pensando em divulgar o blog para algumas pessoas, seria problemático manter aqui aqueles textos com tantas referências aos unbnianos. Eu poderia vir a ter problemas tanto com os vários que se tornaram meus amigos e amigas quanto com os que eu mal conheço... Agora já não quero que muita a gente venha a ler aquilo, creio que só irei confiar o texto a uma ou duas pessoas. Seja como for, uma herança importante daquela minha grande narrativa ficará para o blog: publicarei algumas notas de rodapé do texto que são um resumo básico e [talvez excessivamente] esquemático/categorizado acerca do significado do materialismo histórico para o marxismo*.


* É uma forma também de comemorar os três anos que a Ocupação está completando.