Segundo determinado ponto de vista, o fato de não termos senão informações muito dispersas acerca das motivações dos agentes, nos impediria de estabelecer uma linha causal perfeitamente clara e, portanto, de fazer qualquer ciência. É muito claro, embora não percebido por todos, que se nos entregarmos inteiramente a esse tipo de mecanicismo moderno não poderá demorar o momento em que desistiremos de qualquer crítica. Tal evidência é muito bem aclarada tanto em um texto meu sobre a filosofia da natureza de Demócrito, quanto no texto “Da Culpa e Da Autoria dos Textos” (http://xtudotudo6.zip.net/arch2008-10-01_2008-10-31.html), de Rafael Aguiar – embora ele faça uma defesa contrária a minha. Vamos tentar encarar o problema de uma maneira minimamente filosófica ou, em palavras simples, de forma um pouco consequente:
A sentença de Leibniz “a natureza não dá saltos”, se estendida até ao gênero humano, não significa outra coisa senão a universalidade da situação de “causa → efeito” que, obviamente, implica no fato de que toda causa é já um efeito de outras causas, anulando fatores “externos”, como o “livre-arbítrio” – como observou entusiasmadamente o antropólogo E.B. Tylor. Assim, a ação humana é reduzida a ação física, o mesmo jogo de forças que controlou a gênese do universo, a origem da Terra, o nascimento dos seres vivos e sua evolução, determina cada ato nosso. A física celeste, a química moderna e a biologia darwinista, desaguam no fisicalismo! A alma – ou qualquer outro “Deus ex-machina” que se queira – é uma fantasia já morta e enterrada!
Eu só estaria escrevendo aqui por estar na ponta de uma linha causal, que soma todos os elementos recém listados com outras incontáveis causas igualmente mecânicas. Tudo, desde a história política do Brasil, a classe social de minha família, o encontro dos gametas dos meus pais, até as pessoas que conheci(também mecanicamente forjadas), confluem para o momento atual. O resultado final, único dado certo de tudo isto, seria o acionamento químico de certas substâncias no meu cérebro que, nesse momento, me dão aquilo que podemos chamar de “vontade de escrever” - causa de: eu estar escrevendo; efeito de: tudo o que se passou ao longo da minha vida, incluindo o programa de TV que vi hoje pela manhã, as horas de sono que dormi e o que comi.
Tal é o resultado mais consequente do entendimento de causalidade moderno. É também um pressuposto ontológico e um acordo tácito a unir grandes parcelas do pensamento das correntes positivistas e pós-modernistas, estruturalistas e pós-estruturalistas, seja no formato do “desvendamento da gramática social” ou da “dissolução do sujeito”. A diferença é que as primeiras animadamente propõem-se, a partir dessa lógica, a elaborarem a ciência total do mundo; e as segundas negam-se a buscar quaisquer verdades, conformando-se com a infinidade causal, que faz com que todas as existências efetivas da "rede" universal sejam, simultaneamente, causa e efeito de todas as outras.
Um pós-moderno como Bruno Latour, que goza do mérito de formular claramente sua lamentável proposta científica, afirma que devemos abandonar a teoria crítica, em decorrência do fato de que ela ancora-se rigidamente na existência do sujeito (ativo). Ora, as pessoas são tão fruto das circunstâncias quanto os objetos físicos! Dar credibilidade às dicotomias entre autonomia e heteronomia; virtude e vício; ou revolução e conservação na humanidade, é tão imbecil quanto ter fé na atividade ou passividade; bondade ou maldade; sabedoria ou idiotice; alienação ou consciência emancipada de um revólver ou de um ferro de passar roupas. Tudo é imanência, não há transcendência!
Ou talvez La Tour esteja propondo um superação da concepção sujeito-objeto com viés hegeliano, na qual o todo é entendido como gerador de si, como pulsão de vida inesgotável, sem "big bangs" ou quaisquer determinações causais primordiais? Se este fosse o caso, não haveria qualquer razão para sua contraposição em relação à teoria crítica, uma vez que esta, obviamente, por sua própria origem, é absolutamente compatível com a filosofia hegeliana.
A sentença de Leibniz “a natureza não dá saltos”, se estendida até ao gênero humano, não significa outra coisa senão a universalidade da situação de “causa → efeito” que, obviamente, implica no fato de que toda causa é já um efeito de outras causas, anulando fatores “externos”, como o “livre-arbítrio” – como observou entusiasmadamente o antropólogo E.B. Tylor. Assim, a ação humana é reduzida a ação física, o mesmo jogo de forças que controlou a gênese do universo, a origem da Terra, o nascimento dos seres vivos e sua evolução, determina cada ato nosso. A física celeste, a química moderna e a biologia darwinista, desaguam no fisicalismo! A alma – ou qualquer outro “Deus ex-machina” que se queira – é uma fantasia já morta e enterrada!
Eu só estaria escrevendo aqui por estar na ponta de uma linha causal, que soma todos os elementos recém listados com outras incontáveis causas igualmente mecânicas. Tudo, desde a história política do Brasil, a classe social de minha família, o encontro dos gametas dos meus pais, até as pessoas que conheci(também mecanicamente forjadas), confluem para o momento atual. O resultado final, único dado certo de tudo isto, seria o acionamento químico de certas substâncias no meu cérebro que, nesse momento, me dão aquilo que podemos chamar de “vontade de escrever” - causa de: eu estar escrevendo; efeito de: tudo o que se passou ao longo da minha vida, incluindo o programa de TV que vi hoje pela manhã, as horas de sono que dormi e o que comi.
Tal é o resultado mais consequente do entendimento de causalidade moderno. É também um pressuposto ontológico e um acordo tácito a unir grandes parcelas do pensamento das correntes positivistas e pós-modernistas, estruturalistas e pós-estruturalistas, seja no formato do “desvendamento da gramática social” ou da “dissolução do sujeito”. A diferença é que as primeiras animadamente propõem-se, a partir dessa lógica, a elaborarem a ciência total do mundo; e as segundas negam-se a buscar quaisquer verdades, conformando-se com a infinidade causal, que faz com que todas as existências efetivas da "rede" universal sejam, simultaneamente, causa e efeito de todas as outras.
Um pós-moderno como Bruno Latour, que goza do mérito de formular claramente sua lamentável proposta científica, afirma que devemos abandonar a teoria crítica, em decorrência do fato de que ela ancora-se rigidamente na existência do sujeito (ativo). Ora, as pessoas são tão fruto das circunstâncias quanto os objetos físicos! Dar credibilidade às dicotomias entre autonomia e heteronomia; virtude e vício; ou revolução e conservação na humanidade, é tão imbecil quanto ter fé na atividade ou passividade; bondade ou maldade; sabedoria ou idiotice; alienação ou consciência emancipada de um revólver ou de um ferro de passar roupas. Tudo é imanência, não há transcendência!
Ou talvez La Tour esteja propondo um superação da concepção sujeito-objeto com viés hegeliano, na qual o todo é entendido como gerador de si, como pulsão de vida inesgotável, sem "big bangs" ou quaisquer determinações causais primordiais? Se este fosse o caso, não haveria qualquer razão para sua contraposição em relação à teoria crítica, uma vez que esta, obviamente, por sua própria origem, é absolutamente compatível com a filosofia hegeliana.
Qual é a posição do marxismo neste coisa toda? É lícito a um marxista criticar as outras escolas neste ponto? Ora, é certo que Marx, é muito acusado como “evolucionista”, “mecanicista”, “economicista”, “estruturalista” e de muitos outros adjetivos, que não significam mais do que a acusação de que é partidário de um estrito determinismo. Eu digo “estrito” pelo fato de que muitos de seus críticos assumem outros determinismos, mas mais amplos do que o puramente econômico, ou seja, que inclui mais “variáveis”! A maior parte das acusações feitas a Marx concentram-se no pequeníssimo conteúdo do prefácio da “Contribuição a Crítica Da Economia Política”. Pois bem, lá há dois alvos claros: primeiro, a hipótese de que nem sequer um pensamento humano pode ocorrer sem que estejam desenvolvidas as circunstâncias materiais que o permitem; segundo, que os modos de produção evoluem de asiático, para antigo, feudal e, depois, capitalista.
Quanto ao primeiro ponto, basta observar o quão banais são, por exemplo, as afirmações: “não haveria feudalismo sem o declínio do escravismo romano (ou sem as invasões bárbaras)” ou “não haveria capitalismo sem a expropriação da terra comum feudal (ou sem as mudanças culturais da Baixa Idade Média)”. O que afirma-se aí não é que a economia é uma “variável independente”, mas, ao contrário, que não existem “variáveis” e que a vida social é uma mesma totalidade, em que cada parte pode ser compreendida em função de qualquer uma das outras. Marx escolhe na maior parte das vezes como ponto de referência a economia, pois é o que indicada o método materialista histórico (ver nota 1) .
Quanto ao segundo ponto, sabe-se que não muito tempo depois, em O Capital, Marx esclarece a tese de que o modo de produção asiático não encontra lugar no ocidente e que, portanto, é uma característica idiossincrática da história oriental. Ora, a infinidade de fatores que conformam a estrutura social não se repetem em lugar algum! A crítica antimarxista é míope, até mesmo um weberiano como Giddens (Marx, Weber e a Origem do Capitalismo), reconhece tranquilamente que Marx assume não só a independência relativa de outras instâncias da vida social, como a liberdade incausada da escolha (por exemplo, nas Teses sobre Feuerbach). Não só não há quaisquer desconfianças de determinismo econômico em O Capital para quem lê a passagem sobre a influência do judaísmo na gênese do capitalismo, como há certeza do oposto para quem nota o chamativo detalhe de quase sempre haver o adjetivo “condição” à causação econômica.
Dessa forma, vê-se que Marx não é somente um defensor da liberdade social, tal como seus companheiros socialistas utópicos e vários anarquistas, mas também da liberdade de ação – no que contrária drasticamente um Prodhon ou Kropotikine. Tais autores se limitam àquela inovação que surgida da evolução do liberalismo e que é de extrema esquerda, ou seja, a da compatibilização entre a ideia de liberdade e igualdade sem negar a heterogeneidade, esse primeiro passo é bem sintetizado por Mikhail Bakunin:“liberdade sem socialismo é o privilégio, a injustiça; assim como socialismo sem liberdade é a escravidão e a brutalidade”.
Marx vai além e se pronuncia a favor da liberdade humanista. O que ele defende é que a criatividade é a essência mais profunda do ser humano - (e não a luta de classes!). Os mecanicistas, afinal, só nos oferecem uma dedução desprovida de conteúdo, que não se verifica na própria vida e que não pode responder a si mesma sobre o seu imaginado começo dos começos. Podemos ver, desde a juventude, em sua tese de doutoramento, Marx defender Epicuro e a ideia “dogmática” de “clinamen”, ao invés do mecanicismo rígido e “empirista” de Demócrito. O primeiro autor defendia a não-causalidade atômica total, o voluntarismo do átomo de mover-se numa dada direção sem qualquer estímulo, eventualmente. Posteriormente, podemos ver na teoria do valor-trabalho a repetição da estrutura de pensamento que o dominara quando jovem. O trabalho, característica distintiva do ser humano, é o que confere valor aos objetos materiais e não qualquer outro elemento na longa cadeia causal necessária em sua produção. Qual seria o motivo oculto no fato de somente o ser humano acrescentar valor à mercadoria e não o próprio capital (maquinaria) ou a terra (natureza)? A resposta é que o ser humano, através de sua vontade livre, é capaz de causar um salto metafísico no rumo rígido determinado pela física.
Todo o pensamento de Marx organiza-se ao redor da ideia de “crítica” e de “revolução”, que carecem de sentido sem a metafísica. Nada pode ser verdadeiramente criticado se adotamos uma filosofia que aponta para a ideia de que “tudo está como está por necessidade". O fatalismo ou torna todos vítimas, ou simplesmente acaba com as oposições algoz/vítima, inocência/culpa e atividade/passividade, ou seja, de quebra, anula a eficiência de qualquer vontade política. Por outro lado, é bem verdade que um voluntarismo absoluto pode destruir qualquer pretensão de conhecimentos positivos e, dessa forma, eliminar a função não só da ciência como da crítica. Marx resolve o problema através da adoção de uma perspectiva em que a lei física da causalidade assume o papel de condicionamento da prática, enquanto a prática mesma, é preenchida pelos seres humanos concretos em sua liberdade.
“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob as circunstâncias de sua escolha, senão sob aquela com que se defrontam diretamente, apresentadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas aflige como um pesadelo o cérebro dos vivos. E é precisamente quando parecem ocupados em revolucionar-se a si mesmos e às coisas, em criar algo que nunca existiu, justamente nessas épocas de crise revolucionária, os homens chamam angustiadamente em seu socorro os espíritos do passado, apossando-se dos seus nomes, gritos de guerra e trajes a fim de se apresentarem nessa linguagem empresta na nova cena da história universal”.
Assim, também é verdade que “as revoluções(os saltos) são a locomotiva da história” no sentido de que a liberdade se manifesta revolucionando as condições materiais (físicas) que envolvem determinada época e criando outras que se cristalizam e passam, por sua vez, a condicionarem a realidade. A inércia é a imanência e a autodeterminação, a transcendência. O comunismo é o momento no qual se obtém a mais ampla liberdade social, através da horizontalidade, e em que a liberdade humana pode enfim manifestar-se sem entraves, instante a instante.