sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O Conciliador Azul




            As assembleias presentes parecerão piadas aos homens dos Conselhos. Claro que foi de surpreender ver um esforço de pequenos burgueses para participar de decisões coletivas, tentando estabelecer um diálogo sobre algo para além de suas carreiras e lazeres individuais, uma encenação fantástica do elo perdido buscando construir ferramentas pela primeira vez. Mas a manipulação técnica e as justificações espetaculares, o mito do poder separado, impunham-se de maneira acachapante. Na media, havia um desarticulado ar de desconfiança – o que até certo ponto é o que resta de boa notícia em meio à distopia. Mas essa revolta mediana se dissolve, tal como ocorre a nível nacional, em sua própria superficialidade imagética: a crítica irracional, a indignação, assume como pano de fundo a contraimagem espetacular, a oposição artificial que se faz entre puras palavras diversas.
            Alguns poucos se levantavam acima da mediocridade, a elite impotente (A Brecha), mas seu discurso o que pode diante de números e dados? E, se outros dados são contrastados, ainda assim, são números contra números, então parece melhor “confiar” (deixar nas mãos, desconfiar passivamente) dos experts, dos técnicos de sabe-se lá o quê, do misterioso e intocável pessoal do andar de cima. Claro, a democracia exige que alguém seja expurgado pelo mundo não ser o que queríamos, portanto, nada melhor que ameaçar o avatar do andar de cima, o capacho assalariado deles não voltará, não passará, não será perdoado e, se possível, terá o salário reduzido (porque não?). Ora, o que mais eles podem fazer se não pedir o troco do ladrão? O mito moral apresenta-se como única alternativa utópica no momento em que desaparece a corrente fria da utopia, o mapeamento do real, ou seja, a moral aqui nada mais é do que o desejo impotente e inconsciente oposto à pura instrumentalidade, porém a anos-luz da ação consciente e livremente determinada.
                O Salvador da Pátria e mantenedor da paz será sempre o sujeito de fala mansa, opequeno sátiro que agrada a todos e medeia entre o sujeito expectador e o nãosujeito espetacular. Como ele quer o bem de todos, estuda copiosamente osnúmeros, mas entende a fragilidade de quem deve pagar a conta, ele medita cuidadosamentesobre os dois lados da questão e chega sempre a conclusão de que o melhor é diminuiçãodo sobrepeso sobre os expectadores , livrando-os da tarefa de buscar soluçõespor contra própria e, no entanto, sem desconsiderar o fato de que é preciso terresponsabilidade com o estabelecido, moderação.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Conciliador Vermelho



                  Ele era o mais gentil, simpático e inteligente daquele grupo, não restam dúvidas. Ele queria ser um sucesso individual, mas acabou seduzido pela possibilidade de liderar, amar, dizer a verdade... Essas escolhas foram se tornando poderosas e, sem querer, o boa-praça logo se tornou um rebelde, o líder de um grupo em luta contra outro. A posição consolidada, apesar de longe da sonhada, mostrou-se ainda mais feliz, além de trazer prestígio e estabilidade.
                A vida, no entanto, tem qualquer coisa de avessa à estabilidade. O charme que parecia infalível foi questionado, as circunstâncias desorganizaram seu grupo, a vitória se tornou incerta. Em meio a agressões, o pior castigo foi a distância do objeto de amor: a confiança inabalável derreteu-se, a incerteza se tornou uma sombra permanente. O que pensam de mim? Vale a pena insistir numa convicção que todos questionam? O que importa essa fé que já não traz paz no presente?
                Ser refém de sua crença, fazer uma prece ridicularizada, tudo isso é um pesadelo. A saída foi procurar se reconciliar com os inimigos. Não uma reconciliação verdadeira, ele pensou, apenas uma aliança tática, um embuste para não se queimar e poder virar o jogo. Tão carismático ele era que não demoraram a surgir adversários dispostos a aproximação, ao mesmo tempo, os amigos não puderam lhe virar as costas de imediato. Ele agradava a todos, dava esperança a todos e era amado por quase todos.
                Com os inimigos ressentidos, sempre há alguns, ele mal precisou se ocupar: simplesmente ficaram fora do novo edifício social, formado tendo-o como centro gravitacional. Mas algo de nossos parceiros sempre nos afeta; na vida, a água e o óleo sempre se misturam. A sedução, os mesquinhos dons ofertados pelos novos aliados sutil e firmemente insistem em querer solapar a força, a certeza e até a lembrança daquela fidelidade (antes) eterna. Por um instante, no entanto, a Fortuna é ainda maior do que a esperada: surge uma fácil comunhão de todos ao seu redor, uma oportunidade de felicidade.
                Logo o herói está tão emaranhado naquilo que desprezava que até alguns de seus aliados originais ficam com um pé atrás. Irá ele pular a cerca? Nem ele sabe. Adia, reluta, empurra com a barriga e a tensão se mantém. A mais ardilosa tentação é essa que se perpetua como promessa latente, como contradição do desejo. Ora, ele tem de ceder, ceder só um pouquinho não faz mal, mas a Caixa de Pandora não permite meio termo: ou está aberta ou fechada. A virada está completa.
                Agora se trata apenas de disfarçar, por vergonha ou esperteza. O novo alinhamento já faz exigências e elimina ambiguidades. Se manter no centro do pacto passa a ser uma arte, um malabarismo. O que antes eram laços verdadeiros, escolhas cheias de significado, agora são pequenos gestos, agrados calculados e nunca encenados com a velha paixão. O símbolo da amizade agora está esvaziado de sua verdade. A traição é percebida tarde demais, mas o vencedor é derrotado: o que lhe resta é o gosto de cinzas na boca e o vislumbre que tem é o de um medíocre a desempenhar o papel que deixou vago. Ele trocaria o sucesso pela paixão se pudesse...

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

MAD MA(R)X - O Guerreiro das Estradas?

“Aonde devemos ir, nós que peregrinamos por este deserto, em busca do melhor de nós mesmos?”  



                Max Rockatansk (Tom Hardy) é atualmente um louco, um sujismundo comedor de calangos deformados a correr pelo deserto sem fim do mundo pós-atômico. Nesse mundo, todos somos inimigos, nada é belo, tudo é extremamente apressado e um pausa pode significar a morte, tanto quanto um passo além do devido. Max, felizmente (?) menos mutilado que os outros, logo será capturado como preciosa fonte de vida, como bolsa de sangue para Nux, um guerreiro apodrecido neste verão atômico. Levado ao império da escassez, da loucura, da rapidez, da angústia, das sombras, ele poderia definhar numa jaula imunda enquanto usado de recurso, mas a fuga de algumas outras privilegiadas genéticas, esposas cativas do imperador Immortal Joe (Hugh Keays-Byrne), e a obcessão fundamentalista de Nux(Nicholas Hoult) por Valhalla, pela projeção ideal de tudo que a Terra já foi no Além, forçará Max a voltar ao deserto exterior, agora como suprimento em uma caçada alucinada. A perseguição é conceitual, o frenesi é crítico, o herói implacável é um Floriano de Vidas Secas, as mulheres belas são rebeldes, o vilão maligno é um opressor social, tudo isso torna o blockbuster um filme aplaudido em Cannes.
            Quando levado pela contingência e ardil a se unir aos alvos da caçada, às mulheres representantes de toda subjugação física e moral, ele aprende que devemos ter como primeiro objetivo fugir da opressão imediata, dos inimigos fisicamente visíveis no retrovisor do caminhão. A corrida pelo deserto é perturbadora, a areia que entra em toda parte, a secura dos diálogos, o calor que ultrapassa a tela do cinema, as alucinações do protagonista, os intermináveis cães de guarda, vassalos e comparsas do poder estabelecido, a acelerada agonia da guitarra permanente, a feiura de tudo ao redor e somente a promessa da “Terra Verde” adiante, como nos mitos ecologistas atuais. As dúvidas sobre como confiar nos aliados desse mundo, a morte da fugitiva grávida, a tentação de uma das oprimidas em voltar ao terrível conforto da escravidão, parecem todos elementos a apontar para a falência da empreitada, para a vanidade de nossos sonhos. Mas desse infernal paradoxo em que a esperança está no passado, nessa espiral descendente, na qual toda possibilidade de realização parece recair nas artimanhas de um pesadelo sádico, surge uma dissonância: o fanático Nux se torna um rebelde, perde a esperança de glória em decorrência do fracasso perante Immortal Joe e é seduzido pela beleza utópica da ruiva fugitiva. A desgraça, a derrota, e o amor se tornam cúmplices e válvulas de escape.
            A fuga se realiza, a negação do existente se completa, mas daí o novum aparece? Quando Furiosa (Charlize Theron) leva seus companheiros para a Terra Verde o segundo passo está dado, o paraíso perdido das mulheres, da inocência, da liberdade e abundância, encontrado, porém eles descobrem que as herdeiras do lugar são velhas enfraquecidas, a floresta é pântano, a liberdade é caos e a abundância, miséria. As lágrimas são dolorosas, a dor profunda, mas a teimosia de procurar o paraíso no espaço permanece, a miragem não pode ser desfeita pelo choro, é a desistência moral que se impõe primeiramente. Atravessar o deserto é um suicídio disfarçado. Max vê isso: morrer matando é mais digno, a última coragem do espírito, a nossa única chance de redenção, o terceiro e derradeiro objetivo da vida. Agora os rebeldes retornam, seu caminhão corre em direção a cidade, antes símbolo de prisão, sabendo que as perdas serão gigantescas, mas que a derrota pode soar como vitória quando faz aflorar até o limite a virtude do espírito.
            A vitória é sempre uma dúvida, uma inquietação. Mesmo após aniquilar o imortal, após refazer-se a si mesmo, nada nos garante que a vontade se tornará redenção. Só mesmo quando o cadáver de Immortal Joe é reconhecido e a veneração popular se mostra mágoa sublimado, quando o implorar revela que seu negativo é o ódio, quando o desejo de vingança esquarteja o avatar da exploração, é que se tem certeza de que o Império ruiu. Toda riqueza oculta talvez possa agora significar outra coisa: as estufas elaboradas, quem sabe, um dia, possam reesverdear o mundo, as mulheres possam deixar de servir como leiteiras e reprodutoras, o elevado do edifício imperial posas se alinhar ao rasteiro do mundo ordinário e assim que este deixe de ser miserável. Mas, sobretudo, a água racionada, a escassez proposital e sua correlata ideologia da abundância como um mal, como um perigo social e individual, possa ser desfeito para sempre. Aqui Max encontra Marx, aqui descobrimos que para encontramos o melhor de nós mesmos devemos parar de peregrinar e edificar a nova ordem no espaço e não contra o espaço.

sábado, 18 de julho de 2015

A VIRTUDE DOS VIRA-CASACAS: Sansa Stark, Theon Greyjoy e Jon Stark Targaryen.



Deixe-me lhe dar um conselho, bastardo - disse Lannister. - Nunca se esqueça de quem é, porque é certo que o mundo se lembrará. Faça disso sua força. Assim, não poderá ser nunca a sua fraqueza. Arme-se com esta lembrança, e ela nunca poderá ser usada para magoá-lo(...)Todos os anões serão bastardos, mas nem todos os bastardos precisam ser anões (Tyrion para Jon - pág 77 – A Guerra dos Tronos)

Para ir ao norte, deve viajar para o sul. Para alcançar o oeste, tem de ir para o leste. Para ir em frente, deve voltar para trás, e para tocar a luz, tem de passar sob a sombra. (Quaithe para Daenerys – A Fúria dos Reis)







               Quase nada é tão odioso quanto um traidor, um sujeito que nega suas convicções, um soldado que trai seu exército, um ex comunista que abandona suas convicções, um amante que trai ao outro, um amigo que abandona o outro em momento de necessidade, um cínico a ironizar tudo aquilo pelo que se vive. Todos esses personagens se caracterizam pela deslealdade, por uma fraqueza de caráter e por terem os olhos voltados para o próprio umbigo apenas, mas há outro tipo de vira-casaca: aqueles impulsionados pelo destino e que conseguem sintetizar tudo o que foram e o que está por vir. Os primeiros são voluntaristas e aventureiros, o segundos revolucionários. Estes são personagens dialéticos, que conseguem cavalgar sobre as guinadas do destino e frequentemente se desenvolvem entre “os aleijados, bastardos e coisas quebradas”, como diria Tyrion Lannister. E justamente esse perfil abunda nas Crônicas de Gelo e Fogo, sendo que seria prazeroso, quase por igual, abordá-los na trajetória de Daenerys Targaryen, Arya Stark, Arianne Martell, Jorah Mormont, Tyrion Lannister ou, particularmente, na do Regicida, Jaime Lannister. Mas escolho aqui três outras personagens, saídas do tumultuado mundo Stark, que se destacam justamente pelas peculiaridades que lhes foram impostas pelas marés revoltas de seus destinos às vésperas da chegada dos temíveis Ventos de Inverno.
         A primeira personagem é Sansa Stark. A menina criada para ser rainha, prendada, sonhadora, nobre e bela e que é tentada a virar as costas para a família no momento em que as disputas e antipatias dos seus parentes colocam em xeque seu destino almejado. A jovem lady mimada, no entanto, é posta em uma situação verdadeiramente trágica a partir do momento em que a tensão entre as famílias se resolve irremediavelmente a favor dos inimigos. Cada passo em seu destino aponta para esse desfecho, mas ela não pode notar, não quer notar, e, em todo caso, é impotente: o exemplo de sua loba protetora e amiga sacrificada injustamente perante os caprichos de uma majestade Lannister fútil e em decorrência do conflito de um conflito de sua irmã e de seu prometido é somente o primeiro sinal. Até o último momento possível, Sansa permanece no espírito infantil, egocêntrico e prepotente instilado por sua educação privilegiada e limitadora:
Pai, acabei de me lembrar, não posso ir embora, vou me casar com o Príncipe Joffrey - tentou sorrir com bravura para ele. - Eu o amo, pai, amo mesmo, mesmo, tanto como a Rainha Naerys amou o Príncipe Aemon,  o Cavaleiro do Dragão, tanto como Jonquil amou Sor Florian. Quero ser a sua rainha e ter os seus bebês. (668- A Guerra dos Tronos)
         E mesmo após a morte do pai, a brutalidade confirmada de sua paixão cega e interesseira, Joffrey, ela não pode abandonar de imediato seu modo de ser anterior. Ela simplesmente pode projetar seu delírio sobre um novo objeto, o gordo, atrapalhado e covarde Sor Dontos:
Meu Florian - sussurrou. - Os deuses ouviram as minhas preces. Fugiu ao longo do passeio do rio, passando pela cozinha pequena e atravessando o pátio dos porcos, com os passos apressados perdendo-se por entre os roncos dos porcos nas suas pocilgas. Casa, pensou, casa, ele vai me levar para casa, ele vai me manter a salvo, o meu Florian. As canções sobre Florian e Jonquil eram as suas favoritas. Florian também era modesto, embora não fosse tão velho.(186 - Fúria do Reis)

             Ela continuará a buscar por uma magia abstrata, a se apegar ao falso conforto de uma posição feminina passiva, a se deixar prender pelas sutis armadilhas de ser uma donzela cobiçada, mas impotente. O resultado funesto serão os múltiplos abusos e torturas psicológicas cometidas por seu antes idealizado pretendente, a humilhação de ter de se casar com o odiado anão Tyrion Lannister, a angústia de ser mantida prisioneira e receber dia após dia as notícias do esfacelamento de sua família e, por fim, a traição de seu falso cavaleiro salvador. Sansa é acusada e abusada por tudo, sem poder deixar de ser a esperança de paz de seus algozes, é maltratada e necessária, ou seja, numa irônica inversão de sua situação anterior, todo o seu desejo passa a ser estar ao lado dos familiares “menos nobres”, ao invés de estar numa corte infernal dominada pela vaidade e crueldade. Mas toda a consciência adquirida, toda “a experiência e desenvolvido de sua personalidade”, não pode se impor sobre a realidade objetiva sem mais nem menos e, tanto no livro quanto na série, por diferentes caminhos, será apenas um virada da sorte a poder voltar a iluminar seu caminho, agora, como uma vira-casaca consumada, um mulher desprovida de ingenuidade, e a única força tradicionalmente feminina da série, alguém apto atuar jogar o jogo dos tronos ainda que restrita aos bastidores:
Uma vez, quando ela era apenas uma garotinha, um cantor viajante tinha ficado com eles em Winterfell por meio ano. Ele era um homem idoso de cabelos grisalhos e rosto curtido pelo vento, mas ele cantou sobre cavaleiros, feitos e lindas mulheres, e Sansa derramou lágrimas amargas quando ele os deixou, implorando a seu pai para que não o deixasse partir.(...) Sansa havia orado para os Sete em seu septo e para os deuses antigos da árvore-coração, pedindo a eles para trazerem o velho homem de volta, ou melhor ainda, mandarem um outro cantor, jovem e charmoso. Mas os deuses não lhe responderam, e os salões de Winterfell permaneceram em silêncio. Mas isso foi quando ela era uma garotinha, e tola. Ela era uma donzela agora, tinha treze anos e havia florescido. Todas as suas noites estavam cheias de música, e durante o dia ela rezava por silêncio. (178 – O Festim dos Corvos)

            O nosso segundo anti-heroi é o arrogante Theon Greyjoy, último filho vivo de Balon Greyjoy, herdeiro das Ilhas de Ferro e “protegido” de Lorde Stark. Era uma criança pequena quando a rebelião de seu pai foi destroçada, seus irmãos foram mortos e foi capturado como refém por um dos inimigos mais detestados por sua família. O rapaz, quando cresce, é nobre e ressentido, fiel e infiel, amigo e rival dos filhos do patriarca Eddard Stark, ao mesmo sedento por aprovação da família Stark e cioso de sua identidade Greyjoy. Desse emaranhado de contradições, emerge uma personalidade irritante e desdenhosa, sempre a sustentar um sorrisinho no canto da boca, um conquistar um tanto quanto misógino e simultaneamente carente. Sua indelicadeza é tanto maior quanto menor a posição daqueles com quem se relaciona, como numa compensação por sua inferioridade se apraz em desprezar o bastardo Jon Snow, bem como camponeses e prostituas, enquanto consegue ser plenamente amigo do herdeiro Robb Stark. No entanto, sua prepotência costuma se limitar a má educação, sem que consiga ser um individuo particularmente pérfido ou cruel.
            Quando Theon vai a guerra, é valente, quando recebe de Robb a dádiva de poder se reintegrar a sua nobre Casa para fortalecer a luta, fica radiante, porém a dúvida logo chega para lhe assombrar. Balon Greyjoy ou Robb Stark? Família ou amizade? Ser um conquistador astuto e desleal ou um simples aliado? Seu caminho é o das primeiras veredas, talvez as mais fáceis. Com sua pequena maré, Theon Greyjoy tomará Wintefell pela retaguarda de seus antigos semifamiliares, irá até mais longe do que o almejado por seu pai para provar seu valor, para demonstrar sua grandeza e tentar superar qualquer contradição através da radicalidade de sua tomada de posição. Para com um vira-casaca, seus antigos aliados não terão qualquer amor, não terão nenhuma simpatia e serão insubmissos o quanto possível; perante seus novos homens, ele não conquistará o prestígio de maneira tão rápida quando idealizava.
            Como resultado de todas essas contradições a lhe assolarem como num pesadelo constante, o recente príncipe de Winterfell não terá como lidar com a crise e a rebeldia: seu destino caminhará movido de um equívoco seguido ao outra, desembocando em tragédia. Quando os jovens Bran e Rickon escapam aos seus tentáculos, o filho da Lula Gigante passa a ser tentado por um Nefistófeles, por um demônio em sua orelha direita - e quase sem poder ouvir os apelos redentores de meistre Luwin - submeterá sua alma a Fedor, o maligno Ramsay Snow disfarçado. Mata e depois queima os cadáveres de filhos de fazendeiros para fazê-los passar pelos nobres fugidos, para se mostrar temível e não risível, para consolidar seu poder como suserano inquestionável perante os novos vassalos. Vende toda sua honra, todos os seus valores transcendentes, por uma promessa de glória terrena que não obterá.
            Theon Greyjoy cai na armadilha do bastardo Ramsay, é apunhalado pelas costas, perde Winterfell e seus homens logo após perder todas a sua compaixão. Mas a morte não lhe sobreveio como consolo, ao contrário, caiu na mão do mais pérfido herdeiro da tradição da família torturadora dos Bolton e vai começar uma expiação inimaginável, além do preço por qualquer pecado que se possa imaginar. Theon será humilhado, castrado, desdentado, esfolado e, por fim, se converterá em Fedor, no capacho apodrecido do mais cruel e diabólico dos senhores. Da grandeza da realeza, ele cairá numa condição de animal, viverá nos canis, se alimentará de ratos, usará os trapos mais sujos e fedorentos imagináveis e agradecera por tudo isso, enquanto puder se esquivar por alguns momentos da tortura implacável enquanto puder rastejar e sussurrar seu novo nome para agradar, sempre agradar, aquele que detém sobre si um poder muito maior do que o da vida e morte. Fedor que rima com temor. Theon Greyjoy chega a se esquecer de quem é. Mas pode viver um centelha humana em seu interior? Há uma esperança adormecida no interior do Fantasma de Winterfell?
A neve caía no bosque sagrado também, derretendo quando chegava ao solo. Sob as árvores cobertas de branco, a terra se transformara em lama. Gavinhas de névoa pendiam no ar como fitas fantasmagóricas. Por que vim até aqui? Esses não são meus deuses. Este não é meu lugar. A árvore-coração estava diante dele, um gigante pálido com uma face esculpida e folhas como mãos ensanguentadas. Uma fina camada de gelo cobria a lagoa ao lado do represeiro. Theon se afundou sobre os joelhos diante da árvore.
– Por favor – murmurou, através dos dentes quebrados –, eu nunca pretendi... – As palavras ficaram presas em sua garganta. – Salve-me – ele finalmente falou. – Dê-me... – O quê? Força? Coragem? Misericórdia? (451- A Dança dos Dragões)
           
            E Theon demonstra que a súplica, a reza vacilante de um homem esfacelado, pode se converter numa força real, numa bravura nova, desprovida de qualquer afetação, justamente no momento de maior desespero:
                       
A noite estava sem vento, a neve caía direto de um frio céu negro e, mesmo assim, as folhas da árvore-coração farfalhavam seu nome. Theon, elas pareciam sussurrar, Theon. Os velhos deuses, ele pensou. Eles me conhecem. Sabem meu nome. Eu era Theon da Casa Greyjoy. Era um protegido de Eddard Stark, um amigo e irmão de seus filhos.
– Por favor – caiu de joelhos. – Uma espada, é tudo o que peço. Deixem-me morrer como Theon, não como Fedor. – Lágrimas escorriam por seu rosto, impossivelmente quentes.
– Eu era um homem de ferro. Um filho... um filho de Pyke, das ilhas. 
Uma folha caiu, roçando em sua testa e pousando na lagoa. (509 - A Dança dos Dragões)
                Theon poderá, depois de passar pelo maior sofrimento passível de ser infligido a um ser vivente, se reerguerá parcialmente, então salvará Jeyne Poole, tomará coragem e alimentará uma espécie de último orgulho, uma ousadia completamente sóbria. Arriscar o resto de vida que tem, o pouquíssimo de forças físicas e psíquicas armazenadas, contra a monstruosidade do bastardo Ramsay, longe de ser uma aposta pequena, é a maior demonstração de bravura possível, é um dos raros cumes possíveis de serem atingidos por um ser humano grandioso. O destino do herdeiro de Pyke, do homem de ferro caído, permanece em aberto, mas sua riqueza interna, seu valor inestimável, certamente podem ser uma herança riquíssima para o continente de Westeros, em meio a todos os desafios pelos quais passa e ainda passará...


 












               Mas o supremo vira-casaca, o homem que mais mudou de lado, aquele no qual parece se combinar toda a coloração multicultural e, ao mesmo, tempo todo o senso de verdade, dever e objetividade, é Jon Snow. O Bastardo de Winterfell, por seus próprios caminhos, também vai “além da honra e da vaidade”, supera o puro gelo e o simples fogo. Desde o início, oscila entre ser o estigmatizado filho ilegítimo de Eddard Stark, no seio de sua família, e ser o membro privilegiado de uma das famílias mais importantes dos Sete Reinos, perante todo o restante do mundo. Vive perseguido e rejeitado pela matriarca Catelyn Stark, mãe dos filhos de seu pai, mas goza de amor por parte dos irmãos, particularmente do generoso Robb e da também desajustada Arya, e de seu pai. Sonha em alcançar uma posição privilegiada no interior da Patrulha da Noite, na qual um bastardo “pode valer tanto quanto qualquer outro”, e onde secretamente nutre sonhos épicos de honradez, combates com selvagens e, quem sabe, até com criaturas mais misteriosas. Toda zombaria e alertas dos que sabem sobre as frustrações da vida de celibato, dos rigores climáticos, dos irmãos corruptos e cruéis, não podem calar de todo a contradição que Jon alimenta e que tem como solução utópica a vida de guardião da Muralha.

                A Muralha guarda o mistério, ela é o limite protetor de toda uma coletividade imaginada, de tudo o que pode ser precioso no mundo. Mas essa força ideal se alimenta não só por seu poder de conservação, sua sedução provem igualmente da proibição, da possibilidade de transpô-la, de explorar o mundo intocado, novo, misterioso. Assim, Jon sonha ser o Primeiro Patrulheiro, como seu tio, deseja ser o comandante militar a ir além das fronteiras do conhecido. Envaidece-se de sua capacidade de luta, se vangloria de sua habilidade que o poderá conduzir ao destaque necessário, porém só até ser alertado por Tyrion Lannister acerca do perigo e da efemeridade de um orgulho que só pode se sustentar sobre a mitificação, sobre a sonegação de sua vida anterior de privilégio e treinamento em relação àqueles pobres camponeses com quem duelava. Mas a humildade jamais se torna aqui monótona passividade, ela é superação da vaidade simplória no sentido de uma vaidade dignificada, de um sentido existencial.

              Jon logo galgará o destaque merecido e verá sua utopia improvável se tornará utopia concreta, o "a menos" da realização somado ao "a mais" da experiência, as limitações da patrulha e o abandono do lar contrapostas às descobertas de uma luta de sentido maior, à necessidade de lidar com a ressurreição de mistérios a muito desconhecidos da humanidade: os mortos revividos e seus mestres, os Vagantes Brancos. Mas para defender o Reino Humano de tais criaturas, será necessário se deparar com outros inimigos milenares, os selvagens. O ódio herdado e o espírito de luta mostram-se forte e o jovem intendente bem gostaria de ignorar toda a subjetividade desse outro povo, mas seu destino o coloca como prisioneiro deles, mais do que isso, como uma espécie de prisioneiro estratégico, de espião capaz de deter, através da subtração de informações, a horda inimiga, que parece querer transpor a Muralha custe o que custar.

            Mas, como tragicomicamente pode acontecer, o elemento mediador, o ponto de contato de Jon com esse outro povo, torna-se parte dele, a casaca virada torna-se também casaca autêntica. A culpa é de Ygritte, uma selvagem com “cabelos de fogo” em meio ao gelo infinito. A ruiva o ama e ela a ama. Selvagem? Snow agora, de vez quando, não pode deixar de ver vê-los como o “povo livre”, aqueles valentes e livres que não se sujeitam a nenhum rei, que não se ajoelham e conhecem poderes muito maiores, que mantém as tradições do velho e profundo Norte. Ao contrário de Eddard, Jon não é enrigecido, não pode resistir ao seu amor em nome de uma honra abstrata, seus votos não lhe parecem mais sagrados do que a realidade, seu celibato não parece fazer sentido, a menos que sua quebra significasse algum prejuízo real para os valores nos quais acredita.

            Mas Jon não chega jamais a se perder de sua honra, ele a supera/suspende, tal como o fez com a vaidade, e se vê obrigado a renunciar ao seu amor para salvar os irmãos para os quais fez seus juramentos. O resultado acaba por ser a morte daquela que o ensinou que ele “não sabe de nada”, que o mundo é muito maior do que seu arbitrário círculo pessoal. Jon, no entanto, diante da tragédia, da dupla traição necessária, aprende algo, aprende que aqueles estranhos e perigosos são também seres humanos, são pessoas com amor, sonhos, personalidades diferentes: Havia esposas de lança com eles, com longos cabelos. Jon não podia olhar para elas sem se lembrar de Ygritte; o brilho do fogo nos cabelos, o olhar em seu rosto quando se despiu para ele na gruta, o som de sua voz” (pág 639 – A Dança dos Dragões). E não só: da relativização da imaginação maniqueísta, brota uma nova compreensão de que há sim "bem e mal", um bem e mal menos mecânico, menos simples, no entanto, muito mais real em sua atuação na ordem do mundo. Uma batalha a ser travada não entre os patrulheiros e selvagens, mas interiormente a eles (enquanto coletividades), e particularmente contra as forças a ameaçarem todos indistintamente, os Vagantes Brancos:“Sou o escudo que guarda o reino dos homens. Essas são as palavras. Então diga-me, meu senhor: o que esses selvagens são, se não homens?” ( 590 – A Dança do Dragões)

            Desde o início, justamente por essa lembrança do valor e da humanidade daqueles por quem desenvolve afeto, Jon precisa se levantar contra seus próprios companheiros, que já não são, para ele, um grupo orgânico, inquestionável por natureza, mas seres falíveis e precisando passar por transformação junto com ele. Uma mudança, um movimento, no qual ele sente necessidade de ser protagonista e o torna cada vez mais capaz de perceber o absurdo das crenças que o rodeiam:
– E salvou a Muralha, talvez – disse Bowen Marsh. – Esses são os inimigos dos quais falamos. Deixe-os rezar entre ruínas, e se os deuses deles mandarem navios para levá-los para um mundo melhor, muito bem. Neste mundo, não tenho comida para alimentá-los.
Jon flexionou os dedos da mão da espada.
– As galés de Cotter Py ke navegam por Durolar de tempos em tempos. Ele me diz que não há abrigo lá além das cavernas. As cavernas que gritam, seus homens as chamam. Mãe Toupeira e aqueles que a seguiram perecerão ali, de frio e de fome. Centenas deles. Milhares.
– Milhares de inimigos. Milhares de selvagens.
Milhares de pessoas, Jon pensou. Homens, mulheres, crianças. A raiva cresceu dentro dele, mas, quando falou, sua voz estava calma e fria.
– São tão cegos assim, ou isso é algo que não desejam enxergar? O que acham que vai acontecer quando todos esses inimigos estiverem mortos?
Sobre a porta, o corvo resmungou, Mortos, mortos, mortos.
– Deixe-me falar o que acontecerá – disse Jon. – Os mortos se levantarão novamente, em centenas e aos milhares. Eles se levantarão como criaturas, com mãos negras e claros olhos azuis, e virão atrás de nós. – Levantou-se, os dedos da mão da espada abrindo e fechando. – Têm minha permissão para ir. (pág 435 – A Dança dos Dragões)

             Jon é muito provavelmente um Targaryen, filho de Lyanna Stark e de Raeghar Targaryen, adotado por Eddard para obscurecer o seu nascimento e existência. O fato é que aquela criança adotada era justamente fruto e símbolo de um amor, de um reconhecimento entre almas de família inimigas. Esse reconhecimento acabou por desencadear a guerra que aniquilou todo o equilíbrio de poderes anteriores, causou a erradicação da família real Targaryen. Esse bastardo é filho ilegítimo de um mundo que não pode aceitá-lo, que não está pronto para a conciliação que ele representa, porém, sem saber sua verdadeira história, Jon se envolveu em outro projeto de união impossível e de amor: ele quis juntar a família dos selvagens com a dos vassalos do Reino, unir todos os seres humanos. A consequência foi seu brutal assassinato! Mas poderá agora o Senhor Comande da Patrulha da noite combinar-se com seu lobo Fantasma? Poderá desfazer a cegueira de seus companheiros e abrir contado para com as forças geradoras da vida? E poderá Jon Snow desvendar até mesmo a morte, descobrir quem realmente ela é, compreender os Vagantes Brancos?