domingo, 31 de maio de 2015

As gerações do marxismo.



               A história social do último século e meio está intimamente entrelaçada com a história do marxismo, enquanto movimento de massas e desenvolvimento teórico-político. Ao contrário de qualquer outra, a filosofia da emancipação humana pode constituir e orientar a realidade sobre a qual se debruçava, a partir de Marx, deixou de existir posicionamento político (esquerda, direita ou centro) que não se referencie de uma maneira ou outra ao comunismo científico, como continuador, herdeiro ou antípoda.  Tornou-se também impossível não ver com certo desdém os esforços acadêmicos que continuam restritos aos seus nichos intelectuais superespecíficos ou até organizações práticas desprovidas de filosofia, pois a dialética entre teoria e práxis ficou absolutamente patente no instante em que foram  traçadas com garranchos aquelas letras, frases e parágrafos que continham a mais contundente das críticas ao pensamento burguês e a toda exploração do homem pelo homem. Justamente por esse fato, a reflexão sobre os momentos desse intercâmbio de ser e pensar é vital: saber como se elaboraram os comportamentos no passado e tentar mapear como eles se desenham no presente.
                O momento fundador é o do século XIX, no qual as forças utópicas por um novo mundo se manifestavam de maneira caótica. O blanquismo gostaria de tomar o Estado por meio de um golpe; Bakunin esperava o fenecimento imediato do Estado; Phroudon pensava na sociedade em termos morais e foi pioneiro indesejado e modelar de certo anarquismo ainda em voga; afora os incontáveis sonhadores inspirados em Fourier, Saint-Simon e até Rosseau. A trajetória de Marx inverte em si mesma todo esse idealismo: a filosofia cética e materialista fagocita uma compreensão histórico-utópica, depois um entendimento econômico da sociedade e, em cada um desses passos, se aproxima da própria experiência das massas em luta. O resultado é o estabelecimento de uma inédita base para todo o pensamento crítico, a fundação de um método em que precisamente a história da interação entre a ossatura da sociedade (seus grupos e posições) e suas representações culturais é decisiva, ou seja, estamos falando da autoconsciência de um mundo em conflito em que as forças sociais minoritárias se percebem como corpo único e com possibilidade de atuar, de transformar o real a partir de sua inversão dialética, que as permite se tornarem maioria efetiva. Esse entusiasmo inteligente é o ancestral de todas as táticas e estratégias contemporâneas em política e a imagem da 1º geração do marxismo.

                   Já a segunda geração floresce juntamente com a ascensão da classe trabalhadora enquanto sujeito histórico no Velho Mundo. O espectro do comunismo se materializa diante dos olhos dos povos e traz consigo a brisa fresca do otimismo, a revolução aparece como horizonte palpável. A tarefa de guiá-la caberá a Lênin, Rosa, Trotsky, Stalin ou Mao. Com as mais diversas colorações, esse é um debate que se faz sobretudo no âmbito da tática e, em geral, não tem o desenvolvimento histórico como um problema e sim um dado. É o caso mesmo do primeiro Lukács marxista de História e Consciência de Classe, quando, a despeito de toda sua invejável contribuição filosófica, orienta sua obra tendo em vista a inscrição nos contornos do progressismo do debate Rosa-Lênin.
                As prioridades de uma geração, no entanto, frequentemente se revelam insuficientes e enganosas no contato com apenas alguns câmbios de contexto. O que é sólido se desmancha no ar, as certezas trazidas pelas condições imediatas não resistem ao combate com as insignificantes interrogações marginalizadas naquela mesma época. Quando as conquistas russas de Outubro começam a mostrar seus limites, quando a Alemanha mergulha na barbárie hitlerista, quando o capital incorpora a socialdemocracia e põe em funcionamento novas máquinas ideológicas para a manutenção do status quo, então o progresso aparece como um tabu insuportável e como venda a nos cegar perante o desenvolvimento histórico real. A teoria europeia havia se entrincheirado ao leste e agora retorna desencantada ao oeste.
                Esse é o momento em que o fechamento será brilhantemente teorizado, sob o pano de fundo emocional da perda de visibilidade do sujeito histórico. A Dialética do Esclarecimento é a imagem modelar da reflexão sobre a derrota não digerida, uma guinada do destino que a teoria marxista quer fagocitar, pois, ao explicar o revés, Adorno e Horkheimer buscavam de alguma maneira exorcizá-lo. E se não puderam fazê-lo sem recorrer à obra otimista de Lukács isso se dá não apenas pelo reconhecimento da importância filosófica da geração anterior, mas igualmente pela absorção involuntária da forma reflexiva do húngaro, que naquele momento pendia em direção à linearidade evolutiva. Assim, a terceira geração só pode contribuir com o diagnóstico sobre o aprisionamento ideológico e transmitir o correspondente mal-estar a partir de sua inserção nas balizas dos motes ideais por ela herdados. Aqui se unem dos frankfurtianos até Althusser, do “médio” Lukács a muitos teóricos das singularidades regionais.
                A imaginação desse tempo é marcada pelas estruturas emocionais fornecidas pelo mundo das guerras mundiais e da Guerra Fria, o saber tende a entrar no horizonte de eventos da geopolítica. Mas quais seriam as novas tendências quando atualizada essa conjuntura? Uma quarta geração do marxismo viveu essa transição e sua tarefa tem sido meditar sobre como a sociedade do capitalismo avançado incrementa as formas de reprodução e, ao mesmo tempo, não pode impedir que em seus poros renasçam questionamentos sistêmicos, impulsos utópicos. Tal tarefa parece necessitar da união entre fechamento (3ºG) e progresso (2ºG) e de alguma maneira acaba por fazer recurso a uma ontologia marxista (1ºG), mas esta aparece complicada a cada passo pelo desdobramento factual do capitalismo flexível e pela ideia da virada linguística.
                É no velho Lukács que se veem os primeiros esforços no sentido de realizar a complexa mediação, quando busca unir a causalidade ao pôr teleológico. Em sua própria substância humana, a sociedade capitalista é obrigada a sustentar a contradição entre as forças automotas do estranhamento e as potências criadoras insaciáveis do gênero. Inversamente, parte do marxismo inglês aparentada ao pós-estruturalismo, busca compreender as cotradições da cultura em relação aos imperativos das relações de produção mercantis como sendo provenientes do empuxo gerado por essas mesmas relações, sempre a impelir o pensamento à negação.
                É possível, não obstante, que uma nova era se delineie no presente momento. Vivemos uma época em que aparentemente as contradições típicas do capitalismo avançado começam a entrar em evidência: fracassam as promessas do superestado sobrevivente, aprumam-se novos movimentos de massas, emergem novos conflitos geopolíticos, decai definitivamente a moralidade tradicional, intensificam-se conflitos religiosos, o terrorismo e a imigração ilegal. Talvez já esteja a se ascender uma nova chama, uma quinta geração do marxismo a desenvolver o materialismo histórico rumo à compreensão dos pré-requisitos infraestruturais e  narrativos para a reunificação do sujeito histórico revolucionário. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O Destino de Júpiter



               São raras às vezes em que entro num cinema e bate logo um desespero, vontade de imitar o bonequinho malcriado das críticas de cinema, quebrar a tradição metódica e abandonar a sala de exibição. Na verdade, é coisa tão avessa à minha natureza que não me ocorria tal pensamento desde 2004, quando fui ver Garfield com minha mãe e irmã. Talvez, no entanto, esse seja um ótimo motivo para eu escrever um pouquinho sobre O Destino de Júpiter (2015).
                A história de Júpiter Jones (Mila Kunis) começa da maneira mais barulhenta e entediante que poderia. A cena inicial é tão terrivelmente longa, barulhenta e recheada de tiros e contratiros que chocalhou meu cérebro ao ponto de me fazer cogitar por um segundo o supracitado desapego malcriado. O traço simplório do enredo inicial era um argumento cantado de maneira ardilosa pelo demoniozinho numa das minhas orelhas: Júpiter trata-se de uma menina de biografia triste, muito pobre, explorada pelos próprios familiares e que, repentinamente, descobre ser rainha de boa parte do universo (!), herdeira da Terra e muitos outros planetas.
                A descoberta é feita em meio ao caos aventuresco das primeiras cenas, pois, obviamente, um presente tão grande do destino não pode deixar de causar inveja e planos homicidas por parte de supervilões universo afora. Os malvados nesse caso são três irmãos, empresários espaciais, que herdariam essa e outras fatias do multiverso, não fosse a inconveniente reencarnação da Rainha-faxineira, Júpiter Jones, nascida sob o signo de Leão e influenciada pelo alinhamento da Terra com Júpiter no momento de seu nascimento.
                No fim das contas, no entanto, há uma inspiração crítica para a perseguição intergaláctica e ela se baseia num criativo e detalhado mundo ficcional.    Os irmãos Wachowski, diretores e produtores, incorporam aqui a estrutura de pensamento de seu Matrix (1999), acrescentam seu encanto por temas espirituais e místicos e ainda acrescentam esquisitices cósmicas num estilo digno de Star Wars (1977).
                A revolta é comprometida pelo fato de que a forma da revolta (o filme de ação que mal permite pensar) tornou-se adequada aquilo conta o qual ela se revolta (a sociedade em que a poucos é dado o direito de pensar)? - o problema pode ser explorado tanto no conteúdo narrativo de Jogos Vorazes (2012) quanto em sua história real: as linhas de produtos para fãs de cada distrito. Em outras palavras, toda a ação e caos cinematográfico a atraírem irresistivelmente o público e os criadores cancelam por completo a intenção crítica? Pode a reflexão política intencionada sobreviver de alguma maneira nos interstícios da agitação contínua e na afetividade que ela provoca? É apropriado averiguar a contradição no próprio discurso do filme para não ir longe demais, porém sem esquecer de ver no discurso e nos recursos formais do pós-ciberpunk (as contemporâneas "distopias reversíveis") o resultado de uma determinada configuração social.
                Sobre os componentes inspiradores do filme, parece que as espécies alienígenas, sua burocracia ou poderes, são apenas um jogo cômico (embora talvez sintomático), mas os outros dois ingredientes da narrativa, o espiritualismo e a crítica da exploração, se entrelaçam de maneira a modificar a distopia pós-ciberpunk de seu filme dos anos 90. Os alienígenas mais avançados representam uma espécie de classe dominante universal que maquiavelicamente cultiva planetas e suas populações humanoides com a intenção de fazer uma colheita genética na ocasião oportuna. A extração e reposição ordenada da carga genética recria indefinidamente a vida de seus indivíduos beneficiários. Sem em nada alterar sua base biológica, a reciclagem não significa eliminação das estruturas superiores da individualidade e sim sua manutenção livre de envelhecimento.
                Ao contrário da história de Neo, portanto, na história de Júpiter, os explorados não vivem no simulacro intencional criticado por seu inspirador contrafeito, Baudrillard. Eles vivem num mundo em que conhecer e ser estão ainda mais completamente divorciados em relação à ilusão criada pelas máquinas, porque os alienígenas não apenas montaram uma miragem manipulada num jogo de ação e reação, mas semearam e prepararam um mundo inteiro (desde a extinção dos dinossauros) para funcionar por si, completamente alijado da possibilidade de conhecer os propósitos reais de sua existência ou de conceber a face de seus reais inimigos através de sua falhas ou excessos. Ainda mais claramente do que as máquinas, os alienígenas representam um perverso Deus ex machina. O total divórcio aqui reflete a dificuldade de perceber uma relação orgânica entre a base e o topo da pirâmide social.
                O espiritualismo se encontra no fato de que a repetição de uma ordem genética dada, mesmo quando desprovida do sedimento corporal e psicosocial já construído, significa identidade de personalidade, ou seja, a reencarnação de uma pessoa. Esse é o modo como o abandono da exploração e sua recompensa na imortalidade por parte dos empresários universais é amenizado, afinal, em última instância, seus milênios de vida não são perdidos, apenas convertidos numa nova vida quando renunciam ao seu “lucro genético”. A incognoscibilidade dos dominadores (alienígenas) e o fosso em relação aos seus submetidos se reflete na gratuidade ideal do rompimento de seus vínculos, ao contrário de Matrix em que as máquinas perderiam sua existência sem a fonte humana de energia ou, ainda mais, de outra película pós-ciberpunk também fundada sob a ideia da mercantilização do tempo, O Preço do Amanhã (2011), na qual “ninguém deve ser imortal se for necessário que alguém morra”.
                Por um lado, a frieza do projeto dominador, a noção do transplante forçado de órgãos e da mercantilização como forma de obter privilégios ilimitados sobre os desprovidos de poder e conhecimentos reconstrói uma crítica extremamente pertinentes à lógica do capital, ao mesmo tempo, a noção de futilidade e superfluidade da exploração em última instância, recria uma mitologia extremamente conservadora, na qual os desníveis sociais são tidos como lamentáveis equívocos culturais (num espírito que me parece análogo ao raciocínio de certos “neomarxistas”). Os recursos de uma crítica ao capitalismo tardio são sufocados por uma noção do tipo "feudalismo industrial", uma noção de que a dominação poderia se resolver apenas no nível de um maior esclarecimento.
                 O próprio pós-ciberpunk enquanto gênero representa um amadurecimento da percepção das mazelas típicas do capitalismo tardio, ao mesmo tempo, a forma induzida pela indústria cultural implica na formação de imagens demasiado lineares para representarem adequadamente a contradição sentida. É esse contraste explosivo entre intuição correta e representação equivocada que perfaz grande parte da tragédia dos intelectuais esquerdistas pós-estruturalistas ou “pós-pós-estruturalistas”. Sendo assim, o “gosto” pelo cinema de ação e pela crítica entram em um conflito radical, resultando na  criação de um discurso incoerente acerca da ontologia desse mundo imaginário, embora a imperfeição seja dramatizada por essa visível falta de qualidade.    
                É por todo esse absurdo na ontologia dos Wachowski que seu resultado mais visível, “a mensagem deixada ao público”, acaba sendo funesta: a Rainha do Universo, após retomar seu trono, volta a ser uma lavadora de privadas. Embora impeça o extermínio em massa dos terráqueos ao derrotar os vilões (embora sem os empoderar), Júpiter Jones humildemente parece concluir que a sua própria exploração não é um problema, mas apenas a inconsciência dessa injustiça era deletéria. A maior das vitórias é, para ela, apenas o prólogo de uma derrota continuada e feliz!

terça-feira, 17 de março de 2015

Sobre Marx e UnB...ou nem tanto!!!

Lembro quando eu vendia livros da Expressão Popular e da Boitempo na UnB anos atrás, o manifesto custava 2 reais e suas vendas nunca dispararam apesar do preço ser mais acessível do que a edição britânica, e olha q já estávamos na boa onda de vendas editoriais de livros de Marx estimulada pela crise de 2008.
Acontece que o pólo intelectual de Brasília chamado UnB é mui miserável, em particular o curso que fiz o de Ciências Sociais, com professores que são verdadeiras múmias engolindo o cérebro de alguns poucos alunos vivos intelectualmente.
Além de Marx ser classificado como autor datado, ou sermos brindados com algumas frases como "mas ele não dá importância ao indivíduo", "não é comprovado empiricamente"(lembram do Gusmão?), "não concordo que são só classes ou a luta de classes, tem mais coisas" essas opiniões elevadas ao nível de análises ainda poderiam descer a um patamar mais baixo ainda, um professor "Doutor" até mesmo chegou a dizer que Marx era um "branco,europeu,que nunca trabalhou"(faltou dizer q Marx era hétero tb) e que por isso não poderia falar sobre a realidade dos trabalhadores(????)...
Me pergunto será que Marx ao falar sobre os trabalhadores estaria "roubando" o lugar de fala deles? melhor usando Marx contra Marx...ele talvez estivesse expropriando a fala do operário? uma violência tão brutal quanto a que a burguesia comete contra os trabalhadores ao explorá-los no processo produtivo? Ao nobre professor respondi que só uma pessoa que não trabalha poderia teorizar sobre o proletariado na qualidade que Marx teorizou, simples assim, e que este não é um problema, mas o grande crítico de Marx lançou sua cartada final, "Marx transava com sua empregada doméstica", sobre isso eu não sei, mas o que não sei mesmo é qual utilidade essa informação daria ao nosso debate em sala de aula.
Enfim essa pequena ilustração de fatos não explica pq vendemos poucos Manifestos da Expressão,nem era minha intenção, "há muitas explicações certo?", mas é um momento da explicação de pq este autor é tão mal recebido na UnB mesmo pelos seus estudantes mais "crítico/progressistas" ,militantes e descolados. Alunos e professores que se contentam com este ambiente acadêmico certamente o reproduzirá em um nível cada vez mais baixo, esta universidade permanecerá em um nível baixo.
É hora semear e colher dragões em vez de pulgas!!!!

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/vendas-do-manifesto-comunista-disparam-no-reino-unido-15508926?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O+Globo

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Cersei, Joffrey e Ramsay: Da mesquinharia à crueldade.



“A poesia [ficção] é mais fina e mais filosófica do que a história; porque a poesia expressa o universo, e a história somente o detalhe.” (Aristóteles – A Poética) 

               
              Eles estão em toda parte e é tanto mais fácil nos enganarmos quanto mais próximos eles estão de nós, tanto na ficção quanto na vida. Os maiores vilões das Crônicas de Gelo e Fogo, de Martin, são uma encarnação psicologicamente riquíssima da personalidade egocêntrica. Os malvados são orgulhosos, egoístas e, sobretudo, mesquinhos. Eles podem aparentar gentileza e atenção quando é socialmente conveniente e podem - até mesmo - autenticamente amar uns poucos indivíduos extremamente próximos a eles, um sentimento sedutor por sua exclusividade e por sua dedicação cega. Quem é alvo de tal adoração pode custar a perceber ou ser levado a relativizar a iniquidade generalizada de seus adoradores para com todos os outros.
             Mas, se há um sentido espiritual e intelectual que falta ao egocêntrico (mesquinho), esse sentido é a audição. Aí está o calcanhar da Aquiles de seu afeto e da miragem que causa aos receptores dele: todo o seu amor está destinado a se tornar veneração, a objetificar e colocar em pedestal a alteridade, não permitindo real expressão do outro, sendo fechado em si mesmo e não podendo trazer satisfação profunda ao ser amado. É o caso do mimo cego de Cercei para com Joffrey ou seu endeuzamento de Tywin Lannister; da idealização de Joffrey em relação ao rei, Robert Baratheon; e, igualmente, de Ramsay para com o pai, Roose Bolton. Veneram em tais personalidades seu próprio eu travestido: ou o primogênito, o herdeiro homem e de seu próprio sangue; ou o rei conquistador, o guerreiro temível, a história épica; ou, então, o nome nobre, o articulista frio, o lorde Protetor do Norte.
                Sintomático que todos esses amores se dão no – e somente no – âmbito da “família natural”. O forte sentimento endógeno por parte daqueles que compartilham ou pensam compartilhar laços de sangue. A importância desse apego está no fato mesmo de que a família, sob a base de um ego imperfeitamente diferenciado, pode facilmente servir como defesa moral e hipócrita contra todas as hostilidades reais ou supostas do mundo exterior, ela é mais capaz do que qualquer outra instituição de se constituir em uma autoilusão para aquele que busca dissimular seu egocentrismo.
                Quanto aos demais afetos nessas personagens, são sombras, restos de uma empatia natimorta. Cercei cultuou o irmão Jaime por sua beleza gêmea à sua, por sua virilidade e, principalmente, pelo amor dele em relação a ela. Quando ele perde a mão, perde sua potência, amplia sua sede por verdadeira honra (consolida princípios), passa apreciar a bondade nada glamourosa de Brienne (começa a ouvir melhor), ele perde a reciprocidade de sua paixão. Sua nova figura aparece a Cercei como rechaço a ela, como abandono do glamour e vaidade que ela representa e, assim rui, antes de mais nada, a imagem que ela alimentava de seu irmão. Joffrey se agrada inicialmente com Sansa, com Margaery, com seu Cão, mas só até ao ponto em que lhe conferem prestígio e força, mas tem de lutar incessantemente, sem esperança de vitória, contra o seu impulso de lhes pisar e humilhar. Já Ramsay mantém sua gangue, os Garotos do Bastardo, como forma de potencializar suas atrocidades e regozijo com elas, mas, obviamente, foi capaz de se livrar do Fedor I sem a menor dor.
                Esse último vilão, Ramsay Snow, é o caso mais claramente psicopatológico. A tara do bastardo por torturar, seu prazer visceral com a dor e a humilhação alheia quase não possuem vínculo com sua nova função social de herdeiro do Norte, exceto, claro, pela tradição histórica de escalpelar dos Bolton. O caminho que o leva da mesquinharia à crueldade é um abrupto salto por sobre as suas reais necessidades políticas no Jogo dos Tronos, um prazer completamente descabido pelo qual ele provavelmente arriscaria todo o prestígio. Ao interrogar, pouco importa extrair as informações, importa submeter completamente, esvaziar o coração e a mente de tudo o que não seja medo e dor. Ao esfolar, pouco importa tratar-se de um inimigo implacável, um ex-amigo ou uma ex-amante, e sim apreciar a dor, o grito, o sangue. Ao lutar, pouco importa a própria vida, desde que possa infligir pavor e feridas em alguém.
                Já Joffrey Baratheon baseia toda sua desumanidade em suas atribuições régias, sua crueldade e tolice se alimentam diretamente de sua coroa. O jovem rei é uma criança medrosa, que sente prazer em queimar formigas, em espezinhar as criaturas menores, em suma, triturar por triturar besouros atrás de besouro num círculo sem fim (para usar a parábola de Tyrion sobre o Montanha). Tudo o que foge ao seu controle lhe causa temor: a primeira noite com uma mulher, os reis rebeldes, a batalha real que tem de lutar, a sombra de quem ele não pode intimidar, etc. O prazer mórbido é aqui envolto por uma camada de princípio de realidade.
                A empatia, base antropológica do bem e da ética no ser humano e que tende a crescer na medida em que se desenvolve a consciência, aqui, estancou no limiar do instrumental, na aguda percepção dos poderes externos que podem ferir o eu. Joffrey se delicia com a violência intrínseca à majestade, com a agressividade da hierarquização entre quem pode e quem não pode, e a eleva ao máximo, porém compreende, intuitivamente, seus limites, a organização social e o equilíbrio de poder que o matem no topo. Claro que isso não é o bastante para evitar as hostilidades contra si, como o demonstra o Casamento Roxo.
                Mas, se Ramsay e Joffrey são casos de extroversão doentia e acabam por flertar com a morte em suas compulsões, Cerscei representa um caso muitíssimo mais interessante psicologicamente, ao mesmo tempo em que se apresenta como um modelo social muito mais frequente. Ela é a corporificação do ressentimento e da ambição, sua imagem introvertida corresponde justamente à síntese da contradição que ela representa enquanto elemento perverso, criatura do mal, mas num jogo com regras e com outros jogadores. A descrição feita por seu irmão Tyrion é a mais precisa possível:
"Westeros está dilacerado e sangrando, e não duvido que até agora minha doce irmã esteja colocando ataduras nas feridas... com sal. Cersei é tão gentil quanto o Rei Maegor [o Cruel], tão abnegada quanto Aegon, o Indigno, e tão sábia quanto o Louco Aerys. Ela nunca esquece uma desfeita, real ou imaginada. Confunde cuidado com covardia, divergência com desafio. E é gananciosa. Gananciosa por poder, por honrarias e por amor." (Martin - A Dança dos Dragões)

                A força cruel de Cersei segue a contrastiva regra do "maior perigo, menor visibilidade". Ela se move com dissimulação espontânea, se tal coisa é possível. Seu egoísmo profundo teve sempre de lidar com sua condição de mulher, sua posição sempre secundária na corte obrigou seu sadismo a se contorcer e espremer sob a pressão da censura alheia e da precaução. Em sua regência, de forma realista, tal debater-se, também interno, não desaparece de um momento para o outro, então, sob a influência do maligno Qyburn, ela busca se livrar da culpa pelos experimentos de torturas terríveis e pelas mortes que ordena, tapando os ouvidos e afastando os olhos das criaturas mutiladas.
          Cercei Lannister é a figuração da maldade prosaica, da indiferença e cumplicidade em um indivíduo comum. A melhor prova de que não há amor sem empatia. Sua pergunta à Qyburn sobre a mutilação planejada em seu campeão é um resumo de sua avareza instrumental: “Como serão essas modificações? Elas o deixarão mais fraco?”
               A guinada definitiva da Rainha é quase simultânea à de Jaime Lannister, mas em sentido oposto e, as duas juntas, colocam em xeque uma época de plena vigência do relativismo moral, o qual convive perfeitamente com seu falso opositor: o moralismo individualista, como o da parábola "beija-flor x incêndio florestal". Martin dá aula de realismo moral com sua contraposição entre uma tomada de posição objetivamente opressiva e outra emancipatória.