domingo, 12 de fevereiro de 2012

Cavalo de Guerra: o mundo natural e idílico versus o mundo civilizado e racional

  
             Spielberg é um homem sobre o qual praticamente nada sei. As informações mais elementares sobre ele são as seguintes: é um diretor de grande sucesso no circuito do cinema comercial, com filmes de roteiro mágico e audaciosos em termos de efeitos especiais, é filho de uma mãe pianista e um pai que lidava com tecnologia, ambos judeus. Sabendo desses dados, considerando os comentários do texto Em Busca da Sensibilidade, e tendo visto uns poucos de seus filmes, sou capaz de apostar que se trata de um sujeito com forte apego pelo encantado, que busca conscientemente uma estética para além do mundano.
                Seu filme Cavalo de Guerra é o que mais me prende a essa convicção. A história desse filme é o de um contraste entre a vagarosidade mística e afetiva do campo (embora também bruta) e a aceleração violenta e desesperadora da guerra mecanizada, daquela que é típica da urbanidade contemporânea – e essa contraposição em si mesma, atualmente, é impressionantemente libertadora (em seus variados matizes), até num filme doloroso como O Antricristo, de Lars Von Trier.
                A narrativa mostra um cavalo que é comprado em leilão por um camponês bêbado, em afronta ao seu senhorio, sua demonstração de coragem, audácia e estupidez acarreta reação por parte do poderoso ofendido, mas o velho camponês já não possui brio para além do efeito volátil do álcool. E o problema é que o cavalo em questão não é apropriado para o trabalho agrícola, ou seja, não pode ajudar no pagamento do que deve seu dono.  É aí que surge a relação do animal com o protagonista humano, filho do camponês, que tem amor e paciência com o cavalo.
                No curso da história, o cavalo acaba envolvido no monstruoso conflito humano e vive de perto o lado inglês, francês e alemão da guerra, visita a região rural da França e as trincheiras infernais em que as pessoas precisam trucidar as outras sem qualquer razão razoável e sem sequer conhecimento dos inimigos.
                Toda a tensão é retratada na medida em que saímos do cenário rural e até mesmo do ambiente das guerras a cavalo e caminhamos em direção ao horror das metralhadoras e bombas de gás da Primeira Guerra. Claro que no sentido de Em Busca da Sensibilidade, as guerras, e particularmente as do século XX, não seriam consideradas retrato da monotonia e homogeneidade do mundo capitalista tardio, mas entendo que ela é a melhor forma para o diretor retratar uma sociabilidade desumana.
                Mas toda a desumanidade no filme encontra uma negação interna, encontra pessoas dispostas a se arriscarem para ajudar a vítima das circunstâncias – movimento contraditório e esperançoso similar ao desenhado por Lars Von Trier, em Dançando no Escuro. Em Cavalo de Guerra, o protagonista é sempre ajudado por aqueles que possuem um coração ainda, de alguma maneira, empático e puro. Estes estão dentre as crianças e os aldeões afastados da guerra, mas até mesmo entre militares alemães e ingleses ou, mais surpreendentemente, ambos juntos.
                Toda essa força utópica, como era de se esperar, não é recebida de maneira unânime pelo público e mídia. Ao contrário, a crítica do Correio Brasiliense, mais uma vez a denunciar seu gosto pelo factual e simplório, por exemplo, faz menção negativa e totalmente exterior à lógica do filme ao defini-lo como improvável corrente de gentilezas e bondade na trajetória de um cavalo. O resenhista Tiago Siqueira do sítio cinema com rapadura percebe bem as coisas ao escrever:

“Steven Spielberg é um homem sentimental. Seus filmes às vezes beiraram a pieguice e, em um mundo marcado por cinismo, isso pode ser considerado um defeito para muitos. Mas, ao nos mostrar um conto de coragem e amizade que, mesmo se passando no mundo “real”, apresenta-se mais como uma parábola do que como qualquer outra coisa, ser piegas pode ser uma coisa boa. Em “Cavalo de Guerra”, ele se utiliza dos olhos do animal do título para nos mostrar as virtudes de uma vida simples e os horrores de uma das mais sujas das guerras, sempre com o lado emocional em evidência(...) Colocando o coração nas lentes de sua câmera, o diretor ignora a preferência das audiências modernas por tramas ambíguas do ponto de vista moral e nos entrega um longa mais simples e sincero, mas visualmente belíssimo.”

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Em busca da sensibilidade


Na mesa do bar, os pedidos de bebida, os flertes estandartizados, o cheiro enjoativo do narguilé ou o insuportável do cigarro, sem contar o barulho e o vaivém caótico das pessoas. Em Brasília, cidade do desencontro, o palco considerado mais privilegiado para encontra-se com os outros e se comunicar com eles é a mesa de bar. O complemento das incontáveis horas de trabalho e consumo é o consumo boêmio e as conversas superficiais dos butecos, a busca pela plenitude e pelo ócio só conhece esse caminho. Em alguns casos, vê-se quase uma tentativa desesperada de tornar-se leviano para encontrar a diversão almejada, e a leviandade não raro acaba por conquistar completamente os modos de uma pessoa, mas nem sempre ela é generosa o suficiente para abarcar igualmente sua consciência, que continua a buscar de maneira desajeitada, e cada vez com menos probabilidade de sucesso, um encontro mágico.
Ou, então, o cenário é a universidade: salas de aula cheias de doutores tão autoconfiantes quanto fechados em si mesmos; estudantes tão desinteressados quanto eram no ensino médio, querendo que as aulas acabem para encontrarem seus colegas ou ficantes e igualmente desejantes que o próprio curso acabe para arranjarem logo um emprego público; a imagem dos mau-ajustados é, no máximo, aquela banal de um rodinha de gente fumando maconha, ou estudantes fora da sala de aula conversando sobre a próxima festinha, ou ainda um solitário com MP3 (ou, sei lá, MP15) no ouvido, escutando as mesmas bandinhas de rock estadunidense que todos os outros; o fluxo de gente - inigualável em Brasília – que anda ao nosso lado nos caminhos do ICC ou rumo ao RU só serve para reforçar a certeza de que estamos sós perante a indiferença de todos que nos rodeiam.
Como, com meu gosto pessoal pela magia, posso mergulhar afetivamente nesse mundo? Minha tentativa de deixar de carregar em todos os momentos a seriedade dos meus planos futuros, então, talvez, não encontre obstáculos somente em meus fantasmas internos. É possível que, para quem quase nunca se sente contemplado pelo ambiente externo, as duas saídas mais plausíveis sejam ou uma reação emocional dolorosa (a pura melancolia, o cinismo melancólico, o desespero, etc.) ou uma reação racionalista obsessivamente crítica (a sensação de distância irremediável em relação aos outros, a falta de tranqüilidade e espontaneidade permanente, o incomodo com o modo como as coisas funcionam, etc.). Um amigo que talvez sinta algo similar com relação ao mundo contemporâneo certa vez me mostrou a seguinte música de Raul Seixas:




Há muitos anos você anda em círculos
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiu

Você vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

Você cruzou todas as fronteiras
Não soube mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou

Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI




O “consolo” mais poderoso que se pode encontrar nessa situação provavelmente é o espírito utópico. A sede pelo futuro (movimento), pelo que parece impossível (até mesmo sendo o “fantástico”) e pela ação política em si, são formas de radical rejeição do mundo imanente. Possivelmente, a unidade mais explícita de tudo o que recusei acima como imagem de uma sociedade verdadeiramente humana, é o fato de que todos esses fenômenos me parecem de alguma forma homogêneos e desprovidos de qualquer transcendência. Claro que a vida boêmia em si não é banal (o alcóol e outros drogas, afinal, já são uma forma de se por para fora da mesmice), igualmente a vida acadêmica não é linear em si (pois é cheia de promessas, "descobertas", senso de entrega, contatos e assim por diante). A questão é a forma  de uma "subversão rotinizada", tal como o carnaval, que a primeira prática recebeu; e a profissão burocática que a segunda tornou-se. Como um outro amigo disse ironicamente sobre a juventude brasiliense: eles chegam numa cidade nova, para visitar, e a primeira coisa que fazem é buscar um bar para beber e uma ocasião para "ficar".
Frederic Jameson percebe em todo o espírito factual (não-utópico) atual uma tendência da própria vida sob o primado da mercadoria. Ao que parece a universalidade das equivalências gera uma miragem, uma percepção falsa de que no mundo (e no tempo) tudo é perpassado pelo mesmo: mesma língua, mesmos hábitos, mesmos sonhos, mesmas formas de relacionamento interpessoal, etc. Desaparece o senso do imponderável e todo o democratismo surge apenas como uma forma de nos despistar da triste verdade de que não há real alteridade sob o capital, cada vez menos resta sequer uma imagem dos modos de produção anteriores, das formas de convívio mais humanas, da natureza ou mesmo do inconsciente.
O “encanto” eu associo aquilo que é misterioso e poderoso, ao amor romântico em sua expressão mais elevada, à experiência existencial da alteridade na leitura de um romance ou até mesmo num bom filme, às incríveis surpresas que se pode esperar no diálogo com uma pessoa sensível e inteligente ou à sensação única de ir ao mar, da areia nos tocando, da marisia a envolver toda a costa e do poder extraordinário e benigno das ondas do mar em seu eterno movimento. Não há duvida de que é nessa sensibilidade tão espontânea, com sentidos vivos e conversas prosaicas, que desejo imergir, apesar do gélido mundo e do fardo – embora um pouco mágico – das “obrigações” acadêmicas. É talvez também uma maneira de levar a crítica ao seu estágio mais elevado, lembrando o conselho de Schiller: “viva com teu século, mas sem ser sua criatura”.
Outra música – de Caetano Veloso - me traz de volta ao meu feliz anacronismo constitutivo:


Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Meu amor..
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Em busca do diálogo

Eu sei que o pensar traz consigo toda sorte de armadilhas e entraves. Podemos alimentar um espírito analítico de tal maneira aguçado que nos tornemos cegos diante de toda emoção do cotidiano e, inclusive, ao emprego da racionalidade em outros campos ou objetos.
Já me ocorreu de estar tão preso à idéia da consecução de certas metas e tarefas ao ponto de praticamente não perceber outra dimensão da vida. O preço é caro: o esmaecimento da afetividade rapidamente causa desespero, mas todas as súplicas são vãs, pois a incapacidade em questão é a de perceber que o declínio da produtividade é função do próprio produtivismo.
E buscar nos efêmeros “diálogos” com colegas alguma reconciliação com a vida, nessa situação, é uma frustração tão dolorosa quanto difícil de evitar. E o poço é sempre mais fundo do que parece: a busca de luz através do descolorido território dos sorrisos amarelos e das conversas-brincadeira é uma areia movediça, que nos traga cada vez mais para as suas entranhas de brutalidade e idiotice.
É certo que o pensar pode nos levar por um caminho de “trevas”. Por outro lado, é a partir dele que podemos criticar, inclusive, as razões desvirtuadas com as quais fomos habituados. Certamente há algo de encantado no pensar que interpela outro ser, buscando compreendê-lo e, para além da pura empatia, acrescentar, construir ou adiantar nele algo de seu, uma impressão, idéia ou vontade.
Soube – através de um amigo – da fala de um personagem do filme Antes do Amanhecer que bem expressa o espírito do pensar-sentindo: “Se há algum tipo de magia no mundo, ela deve estar na tentativa de entender e compartilhar algo com alguém”. O filme não é mais do que razoável, mas a idéia de um casal que se encontra, dialoga da maneira mais espontânea, sem receios, e se apaixona, é uma pequena visão do paraíso.
Mas a raridade de tal forma de encontro se dá pelo fato de que ele exige uma magia por demais sofisticada (para nossos tempos), o treinamento é árduo.
Em primeiro, é necessário abandonar o estágio da pura imediaticidade, da espontaneidade pré-reflexiva, ou, em outras palavras, o da concretude crua. Para nossos jovens pós-modernos, isso já é um desafio tremendo.
O senso comum à altura em que nos encontramos é essa forma imediata de pensar. É um pensamento de consumidor, cuja a marca é não possuir qualquer unidade de coerência e voltar-se para os objetos sem relacioná-los. Um pensar quase circunscrito aos mecanismos necessários para trilhar os caminhos para as volúpias. Inquietação, ansiedade, vazio e histeria são um pesadelo tão onipresente nessas mentes, que não podem percebê-los enquanto tal. Esse viver-no-tempo é contentar-se em ser vítima das circustâncias.
A outra forma de equivoco do pensar, algo similar ao drama que descrevi no início do texto [lá na forma de vida, aqui na forma de pensar], é aquela que é própria aos dogmáticos. A razão aqui acaba por se extraviar no mundo conceitual.
É um problema particularmente comum nos grupos que freqüento. Algumas pessoas não podem ver o mundo além de dualismos rígidos (seja “bem” e “mal” ou mesmo “reacionário” e “revolucionário”). E, nesse caso, o diálogo vê-se limitado a concordância absoluta ou ao ódio.
Há colegas que perdem completamente o senso dialético da realidade. Tornam-se enraivecidos diante de qualquer diversidade e ainda mais quando esta é política. A imaturidade encontra-se no fato de que suas personalidades estão tão ambientadas ao meio marxista, que se esqueceram de que a mentalidade burguesa é um sintoma inevitável do mundo burguês. O encontro com essa antítese necessária deveria, então, ser sereno e não turbulento como uma briga de gangues. Mas não há como ser diferente, pois viver-para-o-tempo é obrigatoriamente esquecer-se da leviandade, doçura e flexibilidade do cotidiano.
Não bastasse isso, há toda a rabugice e preconceito que caracterizam os grupos políticos dogmáticos, até no caso da lida com seus exemplares mais análogos, como outros grupos de extrema esquerda. Quando não de maneira explícita, o estímulo a ignorância em relação ao mundo exterior vem na forma de uma sutil ciência da censura, de um preconceito fundado em algum dos pseudo-marxismos. A mensagem mais profunda é de que só no seu partido há humanidade e formas legítimas de vida, ou seja, nada no resto do mundo trabalha na direção certa, nada mais é revolucionário: é o prelúdio para o Stalinismo.
Trata-se de uma percepção congelada que é, inclusive, muito prejudicial aos propósitos partidários no curto prazo, afinal não é raro que toda essa rigidez forje uma personalidade de tal maneira alheia ao mundo exterior (da banalidade e rotina, do emprego, etc.), que, quando desencapsulada, quando expulsa de sua zona de conforto (universidade, por exemplo), ou simplesmente se desmancha ou volta-se com toda a virulência contra seu exótico mundo natal. Eis a origem de muitos reacionários ex-comunistas.
O pensar que, no sentido marxiano, merece o título de dialético é aquele que pode encarar a plasticidade do mundo sem perder a força crítica de suas categorias. É aquele que atravessou a concretude e o conceito para então reencontrar-se com o mundo. O pensar dialético reconhece em todo esforço totalizante (mesmo os mais diferentes do seu) um valorizável momento de liberdade e a vê, inclusive, nas tentativas parciais. Tais parcialidades - quando na forma política  - são um verdadeiro dilema teórico para os marxistas vulgares. Vale pensar nas contradições obrigatórias que envolvem a situação de classe de militantes, o posicionamento quanto à política de cotas, quanto ao feminismo burguês, ou até as relações pessoais suprapolíticas.
O pensar mais elevado é realmente uma magia: ele, em diálogo, pode construir obras de tamanho interminável, compreender sutilezas indescritíveis e, acima de tudo, rir com toda sinceridade. Rir, aliás, é um belo exemplo de sentimento dialético, no qual, como golfinhos, mergulhamos na empatia só para logo em seguida saltarmos na percepção. Viver-o-tempo é conciliar o universo do sujeito e o do objeto. Talvez baste ver Chaves para entender ao que me refiro! ;)
Embora, obviamente, todos esses três níveis do pensar se intercruzem em cada personalidade das maneiras mais promíscuas possíveis, é verdade que o primeiro predomina sobre o terceiro. Assim sendo, as amizades verdadeiras e os diálogos profundos, confortáveis e expressivos continuam a ser um horizonte difícil de realizar no cotidiano.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Marx e Jenny: ou o uso do imponderável pessoal para despolitização.

A história de quase todo grande personagem histórico é contada por personagens menores. O motivo é muito simples, tal como raios não caem repetidamente no mesmo lugar, os espíritos grandiosos são raros demais para serem vistos em bandos. O que nos restou da vida pessoal do gigantesco Marx também não foram mais do que fragmentos dele próprio, os que puderam ser apreendidos e compreendidos por seus pesquisadores caprichosos ou não. Tais fragmentos são unânimes em atestar sua assustadora capacidade intelectual, seu orgulho de si mesmo e, não menos, sua grande paixão por Jenny.
E agora o que importa é este último aspecto do temperamento de Marx, pois é relativamente pouco comentado e muito distorcido. Outros de seus atributos foram atacados: sua genialidade chegou a ser denominada por ideólogos como “confusão” e seu amor-próprio como “vaidade e egoísmo”, mas nada foi tão maculado quanto seu casamento, aparentemente é mais difícil condenar o amor por seus excessos do que através de sua negação. E a negação aqui é uma acusação de traição, que naturalmente derivaria, para nossos pós-modernos, em machismo, misoginia, etc. Eis mais um argumento para quem quer construir a emancipação política ao custo da emancipação humana!
O suposto "delito" teria sido praticado com Helene Demuth, quando estavam sozinhos em Londres e teria resultado em um filho. Especula-se que na época em que surgiram tais acusações Marx ainda era vivo e jovem (Jacques Attali), eram os anos 50 do século XIX, e ele escreveu a Weydemyer sobre “calúnias indescritíveis”, que recebia por parte de sua "legião de inimigos". E Marx escreveu, também nessa época, a Engels num tom grave sobre “um mistério no qual você desempenha um papel. Falamos em viva voz”.
Um silêncio enorme por parte dos possíveis envolvidos se deu a partir daí. Jenny escreveu sobre um incidente traumático dessa época, Engels terminou por adotar a criança e deixá-la sob outra responsabilidade, mas nada absolutamente conclusivo foi dito. A versão só voltou à tona na ocasião em que Louise - ligada a Kautsky, Bernstein e Freyberger – disseminou a informação de que teria ouvido de Engels (por quê?), em seu leito de morte, a confissão de que Marx teria traído Jenny e tido um filho com Helene. O contexto em que Louise estava inseria é dos mais suspeitos: ela era justamente uma agente infiltrada na casa de Engels para apropriar-se dos documentos e textos de Marx e levá-los para a Alemanha.
O que podemos extrair de tudo isso? A conclusão que se generalizou, a mais popular, mais razoável, foi a de que Marx teria tido seus deslizes e falhas de caráter “como todo mundo”. De fato, como negar que a traição masculina era normal e aceitável no século XIX? Francis Wheen defende a idéia de que não é o caso de fazer uma hagiografia de Marx e, portanto, o retrato que faz do Mouro é o de um incansável estudioso e bêbado; de um leitor fanático por Shakespeare e afeito a piadas vulgares; de um pai amoroso e distante devido às míticas 12 horas diárias de estudo no museu britânico; de um esposo apaixonado e capaz de flertar com outras a todo momento; de um comunista de hábitos vitorianos; de um defensor dos operários que jamais pisou numa fábrica; e assim por diante.
Chega-se, portanto, à conclusão de que é mais fácil crer numa coleção de paradoxos escandalosos do que numa coerência qualquer. Mas a saída pelo caminho da estética grotesca – de Wheen - é ainda exceção. O mais comum é encarar a coisa do ponto de vista de um pragmatismo cínico, ou seja, crer sem entusiasmo nem decepção, sem empolgação ou lamento, sem felicidade ou tristeza, numa palavra, sem sobressaltos, que a traição mencionada é um dado e que para os dados não há aplausos e nem vaias. Eis o odioso espírito da indiferença e do niilismo a esconder e conjugar-se adulteramente com o moralismo típico de certos pós-modernos!
Não é Marx  a ter motivos para amargurar-se se fossem seus inimigos a injuriá-lo, afinal, como observou Stendhal, “a maior felicidade que pode acontecer a um grande homem é ele, cem anos após a sua morte, ainda ter inimigos”. E como tem inimigos o velho Marx! O que preocupa é que até seus aliados tornaram-se adeptos de uma mentalidade moralista bisbilhotando a história atrás de argumentos ad hominen. Há quem, a partir desse tipo de lógica, defenda o marxismo "sem propriedade privada do outro", sem monogamia, ignorando o fato de que, ao contrário de Engels, Marx jamais se opôs ao amor romântico dois a dois, antes foi um notório romântico!
Mas não é só deslize casual. É sintomático de uma época em que os espíritos geniais perderam sua "aura" de profundidade e tornaram-se indivíduos de “carne e osso”, hábeis no manejar de suas “carreiras” (Bourdieu por Jameson). É a própria universalização da mercadoria e o avanço da técnica que nos empurram no rumo da secularização mitificada, de uma lógica mundana e de uma estética do purgatório (ao invés do sublime ou grotesco). É como se olhássemos para um intelectual contemporâneo, por exemplo Žižek, e nos incomodássemos com sua dimensão “monstruosa” e daí resolvêssemos segui-lo e tirar fotos dele em posturas banais ou constrangedoras - que devem existir - e daí nos convencêssemos de que ele é tão “normal” quanto nós. O fetiche aqui está em julgar a totalidade – de olho em e - como se fosse a soma de momentos isolados.
Vejamos, de todo modo, que essa metonímia burra e inconsciente pode ser projetada no passado quando se quer reconstituir a totalidade de uma vida a partir de cartas, esparsos relatos e comparações com o cidadão médio da época. Caso contrário, não se pode dizer que Marx foi “frio e cerebral”; não se poder dizer que ele tenha sido quem mais se opôs ao relacionamento de Tussy, ou que foi quem menos se opôs; não se pode afirmar que seus passeios com as filhas e leituras de Shakespeare, ou de historinhas infantis próprias, tenham sigo regra em sua vida de “pai afetuoso”, ou exceções, na trajetória de um “pai relapso”; não se pode dizer que tenha traído Jenny(ou a traía), ou que não o tenha feito; e quem sabe se ele frequentou, ou não, um chão de fábrica? E melhor: importa? Da mesma forma, não de pode comprar, por exemplo, a bizonha versão segundo a qual Weber fez sexo uma única vez na vida (com o detalhe de que teria sido quando escrevia "Rejeições Religiosas do Mundo" e não com sua esposa). Sejam visões hiperbólicas ou vulgares narrativas naturalistas, nada apaga o fato de que biografias são romances acerca de uma vida real, literatura. Dito isso, sejamos, ao menos,  resignados, não conclusivos e nem venenosos, ao invés, deixemos nosso homem falar por si mesmo e nos sugerir apenas. A carta é de poucos anos depois da crise mencionada, para sua esposa, em outra viagem dela:
“Minha amada,
Tenho diante de mim sua imagem viva, acolho-a nos meus braço, beijo-a da cabeças aos pés, caio de joelhos e murmuro: “Senhora, eu te amo”. Eu lhe quero mais que o Mouro de Veneza jamais quis. O mundo falso e corrupto concebe o caráter de todos os homens como falso e corrupto. Qual dos meus muitos caluniadores e com língua de serpente pôde alguma vez me acusar de possuir vocação para representar o papel principal de amante num teatro de segunda classe? E, no entanto, é verdade(...) ” ( De Marx [em Machester] para Jenny [em Trier], em 1856)

sábado, 17 de dezembro de 2011

A Ideologia brasileira

O complexo de vira-lata brasileiro é, no sentido clássico da palavra, uma ideologia. Todas as características estão presentes. Vê-se que é sustentada pelos grupos exploradores e, ao mesmo tempo, brota da própria realidade concreta, que ela é disseminada por todos os cantos e, por fim, obviamente, que ela ajuda a recriar seu contexto situacional, num círculo vicioso.
A mídia, uma vez mais, é o veículo da retórica que ajuda a disseminar a doença. Qualquer dia, em qualquer momento pode-se ter acesso às personificações do pessimismo conservador através da rede Globo, do jornal Folha de São Paulo, da revista Veja ou muitos de seus congêneres... A estratégia é repetida e chata: trata-se de mostrar uma (suposta) deficiência do sistema nacional; atribuí-la à debilidade do caráter ou falta de inteligência dos governantes (ou povo); traçar a idealização de uma realidade análoga, mas "resolvida" em outro país, sem esquecer de abstrair sequer um gota da história real ou do contexto mundial; por fim, basta defender a própria posição e dizer que ela é a solução final, é neutra e é defendida por todas as pessoas verdadeiramente sérias.
As sociedades perfeitas geralmente escolhidas para serem nosso exemplo costumeiramente localizam-se na América do Norte ou Europa, são Estados Unidos, Inglaterra e França. Os países europeus geralmente são escolhidos para fortalecerem opiniões acerca da "seriedade", "civilidade" e "bem-estar social", mas seguem sendo maus exemplos quando o objetivo dos nossos ideólogos é rebaixar a dignidade humana, impondo penas desumanas ou atacar os direitos dos trabalhadores. Dessa maneira, o ideal mais unânime certamente são os Estados Unidos, pois além de ser mais fácil defender o mais forte, o imaginário sobre o referido país oferece menos constrangimentos à reificação capitalista absoluta.
De um ponto de vista filosófico, é fácil apreender o motivo do sucesso e da necessidade dessa disseminação ideológica, é que da mesma maneira como da realidade do capitalismo brota sua auto-legitimação, também brota sua negação. Ou seja, os indivíduos que a partir da vivência do mercado são tentados a naturalizar o mercado, ao mesmo tempo, não podem deixar de perceber alguns dos absurdos inumanos gerados pelo atual modo de produção. Daí que a função da retórica dos ideólogos seja encontrar uma forma de cooptar essa “natural” proto-crítica e transformá-la em uma pseudo-crítica, focalizando as supostas ineficiências do capitalismo brasileiro (retórica centro-esquerda) ou do sistema político brasileiro (retórica centro-direita), ao invés de focalizar o capitalismo em geral.
Esse é o sentido, inclusive, da terminologia geopolítica que divide o mundo em países “desenvolvidos”, “em desenvolvimento” e “subdesenvolvidos”. O “erro” é não perceber o mundo como uma totalidade orgânica. A premissa de que os países desenvolvidos “já chegaram lá” mostra-se absolutamente falsa quando observamos o derretimento dos direitos atualmente em curso na Europa e é ainda mais risível supor que os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento estejam em curso de tornarem-se desenvolvidos. Vê-se que tal nomeclatura, forjada para ser etapista, mal oferece capacidade de convencimento num mundo em que o capital alcançou todos os cantos e brechas, sem oferecer promessas de benção generalizada no horizonte. Claro que, de um ponto de vista sociológico, ainda seria necessário explicar as mediações concretas que fazem com que os discursos se articulem da maneira como se articulam e se propaguem como se propagam no Brasil, mas, nesse momento, meu objetivo é esclarecer a verdade e não mergulhar demais na mundanidade das engrenagens.
Então, voltando ao nosso racionar através dos raciocínios (nossa visão filosófica), percebemos do que já foi dito que, de um lado, o complexo de vira-lata não é mais do que uma ideologia capitalista normal, que visa simular a possibilidade de perfeição sob o atual modo de produção. A idéia é de que “como no centro” podemos alcançar a paz e a felicidade, tal discurso não é idiossicrasia nossa, pois é o que serve para aplacar a consciência inclusive das populações que vivem nessas regiões e se vêem constantemente na necessidade de continuar a esperar pelo paraíso prometido, embora, no caso deles, a idolatria tem de se voltar não para a imitação de algum suposto paraíso concreto (como para nós), mas no simples mito do “crescimento” abstrato.
Por outro lado, nossa ideologia tem uma característica muito peculiar e cruel. Ela, por ter no exterior uma meta concreta, rebaixa duplamente o Brasil, não é só um país que tem uma meta a cumprir (como todos), mas é um país inferior quando comparado aos demais. A culpa é nossa por termos tantos recursos (!) e não estarmos no nível de nossos contemporâneos ricos. Cabe aos brasileiros corrigir sua política, sua economia e, sobretudo, seu caráter (!) “para se tornar centro”, dizem os ideólogos. Esse auto-menosprezo serve de consolo à nossa burguesia servil e ainda contribui para que ela legitime seu ataque aos inimigos que tem, seja a carga tributária, as cotas, alguma greve ou político.
O elemento realmente cruel é que, ao longo dos anos, incorporou-se tão arraigadamente esse senso de inferioridade que se forjou uma subserviência, muito mais do que a “pura simpatia do povo”, com tudo o que é do exterior, ao ponto de caímos no ridículo diante desses mesmos estrangeiros, ou seja, somos re-vitimizados. Embora seja verdade que o “crescimento” dos últimos anos e o governo petista, em alguma medida, trabalhem na contramão desse complexo de vira-lata, a fala zombeteira recente de um ator e diretor estadunidense revela a persistência do mal:
"Filmamos no Brasil porque lá você pode machucar as pessoas enquanto filma (...) [é] um país de extremos (...) Você pode explodir o país inteiro e eles ainda dizem para você: 'obrigado e tome aqui um macaco para você levar para casa' " (Sylvester Stallone)

sábado, 5 de novembro de 2011

Três filmes que contemplam pensamentos de agora

CONAN, O BÁRBARO – Um filme que ilustra o modo como a moral burguesa se diferencia da moral guerreira. Ele entra de maneira tão acertada no espírito dessas outras épocas que foi bastante rejeitado pela crítica jornalística local. Vivemos na época dos filmes de amor e não de guerra, embora os filmes amor já não sejam sempre realmente românticos e os de guerra raramente sejam guerreiros. Fato é que, em Conan, somos levados a um mundo em que a honra é o valor mais elevado e no qual matar não é pecado. O bárbaro tem as qualidades de um sujeito orgulhoso de si, para o qual tanto a vingança quanto a dívida são valores pessoais e não normatizados. O guerreiro é, por outro lado, um tipo social em que a palavra “amor” ainda não tem nenhum significado pessoal e daí sua despedida seca em relação à sua querida monja. Ante a ele, os modernos sentem medo e os pós-modernos uma espécie de desprezo. A riqueza do medo moderno bem poderia ser ilustrada pela personagem Naruto (do anime homônimo) e seus também civilizados companheiros de vila diante do maníaco Gaara, que construiu o sentido de sua vida ao redor do prazer e da idéia de matar.
O SEGREDO DE BROKEBACK MOUTAIN – A história de um amor masculino em que os parceiros, antes de mais nada, estão em luta contra a herança da moralidade guerreira e rústica, que sobrevive num neles. A cisão profunda e a culpa de Ennis Del Mar se realizam de todas as maneiras possíveis, um casamento perdido e frustrado, uma paternidade fracassada, a solidão e irritação permanente, e até o mal-estar físico. Só a montanha BrokeBack é o paraíso no qual o amor é possível para Ennis, mas, mesmo no paraíso, a homossexualidade é pecaminosa aos olhos do caubói e materializa-se no sacrifício dos cordeiros dos quais eles tomam conta. Somente da maneira mais trágica e cismogênica, num percurso de vinte anos, Ennis é capaz de adentrar no mundo da sensibilidade e do amor e, como um Romeu, ao fim é capaz de jurar amor. Jack Twist, por sua vez, se vê preso numa espera indeterminada pelo momento em que seu companheiro poderá acompanhá-lo, libertando-se dos grilhões de uma subjetividade antiquada para o amor. Jack Twist é o provocador/sedutor, que “salva” seu amante. Nos deparamos com uma nova fronteira da subjetividade masculina, a fronteira romântica, que em seu amadurecimento contra o mundo só pode representar-se em uma tragédia . Agora iremos para o mundo da fluidez...
IDIOCRACY – Esse terceiro filme é uma sátira ferrenha do mundo capitalista avançado, que eleva a aceleração e o movimento produtivo e destrói a profundidade proporcionada pela vivência no tempo, na história. É o fim do ego burguês centrado, é o Admirável Mundo Novo. Aqui estamos diante da terceira subjetividade de nossa brevíssima história, ou talvez da destruição da subjetividade. No governo dos idiotas, somente a mercadoria tem lógica própria e o maior dos problemas é que os seres humanos esqueceram-se de que, para produzir alimentos, é necessário irrigar as plantas com água e não com bebidas energéticas. Eis o cenário que Mike Judge traça distopicamente: o presidente é uma mercadoria ambulante, lutador e ator pornô; o sexo tornou-se propaganda de tudo; há propagandas em todas as partes; e a televisão tornou-se totalmente construídas em torno de piadas escatológicas, violência e sexo, sendo fundida ao sanitário para evitar qualquer interrupção (fluxo total). Nosso protagonista (moderno) viaja no tempo para um futuro (pós-moderno) que se esqueceu do passado, um futuro que só tem em mente a compra, a venda e o anti-intelectualismo. É hora do ditado se confirmar? Quem tem olho será rei? Ou será que os outros simplesmente o cegarão?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Futebol e vida

Victor Matsudo, médico esportivo, argumenta em favor de uma ciência do esporte para formar atletas olímpicos de alto nível no Brasil. O modo artesanal de “fabricação” dos atletas nacionais lhe parece um arcaísmo quando comparado ao modo industrial de produção da elite esportiva da antiga Alemanha Oriental, país proporcionalmente mais vitorioso em olimpíadas de todos os tempos (e para acompanhar o argumento ignoraremos que o país em questão era líder em dopagem). Segundo o médico, a fórmula utilizada por este país era a seguinte: selecionava-se um grande número de jovens esportistas; media-se o desempenho de cada um em habilidades lineares (propulsão vertical, propulsão horizontal, arrancada, etc.); comparavam-se os resultados individuais com as médias; e, finalmente, o número resultante era subtraído pelo desvio-padrão (expectativa de distância de cada caso em relação à média). Pessoas com números finais maiores do que 4 tinham chances reais de competir ao nível internacional e recebiam maiores investimentos.
A pergunta mais ingênua e mais lúcida a fazer diante de toda essa argumentação é: para quê tudo isso? É curioso pensar no estranho descaminho que a humanidade teve de tomar para chegar a conceber que sua tarefa e meta histórica, em todos os domínios da vida, é simplesmente maximizar números. Ou seja, nesse caso, importa mais “ganhar medalhas” do que possibilitar lazer e uma experiência existencial às pessoas. A prova de que essa estranha lógica se impôs como uma espécie de fato natural encontra-se no número pequeníssimo de pessoas que estranham criticamente essas ambições quantitativas – e mesmo as que o fazem, na maioria das vezes, restringem sua crítica a campos muito específicos. É que, tal como em Tempos Modernos, as engrenagens do objeto imiscuíram-se tanto no âmago do sujeito que ele já não as vê.
Nesse sentido, uma mínima reflexão sobre a natureza da atividade desportiva mostra-se privilegiada para alterar os rumos da crítica, é nosso ponto de Arquimedes. Acontece que nesse terreno (como, por exemplo, nas relações afetivas) não se pode obscurecer por completo a lógica do sujeito. Mesmo Vitor Matsudo tem de admitir, até no mais mecânico dos esportes, que os fatores extra-fisiológicos (sócio-psicológicos) são significativos. Ele chuta: representam um mínimo de “10%” do potencial de sucesso para um atleta num esporte bastante físico. Ignoremos a inconseqüência da adivinhação e a quantofrenia reinante nas ciências da saúde e talvez já tenhamos um reconhecimento avançado por parte do médico, que serve de entrada para o debate de nosso interesse. De resto, vou me furtar a esse debate ontológico sobre a constituição humana, pois ele será trabalhado de forma mais detalhada num texto sobre educação.
E, para me ajudar nessa esquiva, vou debater fundamentalmente o futebol. Nosso esporte nacional guarda em si uma metáfora sobre a vida, uma forma de ser em que o imprevisível mescla-se com a norma; na qual a dança não é menos necessária do que o cérebro; em cujo o espaço, cercado por 4 linhas, é grande suficiente para permitir que aconteça de um tudo e pequeno o suficiente para continuar humano, ser percorrido por uma voz e visto por um olhar; em que a coletividade dita o ritmo sem ofuscar o indivíduo; e, enfim, na qual a bola é nossa sorte, pois sob o domínio imperfeito dos pés, ela mostra toda potência que temos e todo o indecifrável capricho do destino. E justamente por tais aspectos o futebol não é mais circo do que uma forma implícita de combate à reificação, uma maneira de negar todos os determinismos através da esperança da superação humana. E ele o consegue de duas formas: de um lado, é capaz de fazer todos os corações baterem juntos no fantástico clima de um estádio e até numa boa narração, de outro, pode mostrar a idiotice da mais perfeita matemática perante o humano, tal como fez o Fluminense de 2009 ante sua suposta probabilidade de 99% de queda.
Ao contrário de esportes como o automobilísmo, natação, maratona, salto, arremesso e tantos outros, ele sequer poderia contar com significativas contribuições de máquinas ou dopagem. Em suma, em sua essência, é um esporte plena e demasiadamente humano! E ainda assim, como veremos, ele sofre uma espécie de distorção e mecanização sob o capital, e também nisso segue a vida (hodierna). Não vou tratar aqui da crítica rotineira e necessária que se faz aos caciques corruptos do futebol, como ao caricato Ricardo Teixeira. Ao contrário, trata-se agora de criticar não o medievo que sobrevive, porém o capitalismo que se instala no futebol brasileiro e vai rompendo parcialmente sua solidariedade com o feudalismo mais bizarro. Em tão pouco tempo de empresariamento sério, o novo futebol já vai mostrando seus avanços e insuficiências e a necessidade de uma ruptura total com o atualmente existente para poder realizar-se. (Quanto à crítica ao futebol dos caciques, ela desvela-se por si no belo texto da jornalista Daniela Pinheiro: http://catimbafc.com/2011/07/08/entrevista-de-ricardo-teixeira-para-a-piaui/)
Mas de onde ataca o capital se o futebol não aceita mecanização direta (como a maior parte da vida social)? São duas faces do medalhão mercadológico: a disciplinarização e o produtivismo.
Em primeiro, o capitalismo estraga o esporte em decorrência da necessidade de produção de espetáculos midiáticos constantes. Alguns times – como o Corinthians por aqui – cada vez mais se especializam em produzir peças publicitárias - e não jogadores e times. O pior é que essa se mostra uma das estratégias mais eficientes para ampliar as receitas. Ou seja, particularmente em times de massa, pode mostrar-se mais vantajoso investir na contratação de algumas estrelas e faturar na vendagem de camisas de ídolos pré-fabricados. A concentração do poder econômico no patrimônio de uns poucos clubes certamente resultará, no longo prazo, na diminuição da capacidade dos demais times os desafiarem e, portanto, num empobrecimentos da rica rivalidade e competitividade hoje existentes.
Teoricamente tal progressiva discrepância seria refreada no contexto futebolístico pelo fato de que os “clientes” dos clubes – ao contrário do que ocorre em empresas comuns – são leais aos seus produtos ao longo do tempo. Não obstante, no curso de um período mais longo, tal fidelidade clubística é abalada, se não por outras coisas, pela renovação geracional. Daí clubes como o Fluminense que ostentam valores como “para poucos e melhores” estarem nesse quesito com um discurso anacrônico.
Mas não pára por aí o embotamento das paixões que o capitalismo é capaz de produzir. Na verdade, a riqueza emotiva do futebol nacional também é diminuída pelo cerceamento da liberdade de expressão que a mídia produz em relação aos jogadores. Atualmente, não há nada mais enfadonho do que ouvir uma entrevista com os protagonistas do futebol, até os de maior personalidade dentro e fora do campo são intimidados pelo bombardeio de críticas da mídia esportiva em caso de qualquer “deslize” em relação ao que consideram boa maneiras. Quase todos os jogadores são melindrados ao ponto de produzirem frases como “Temos que ir para o jogo X para ganhar, [embora] com todo o respeito ao time Y, que é um grande clube”, ou seja, tornaram-se completamente bananas. Qual é o desrespeito em dizer orgulhosamente que se vai para um jogo querendo ganhar? E quem quiser contrastar a realidade atual com outra, não precisa ir longe: basta recorrer, via YouTube, a qualquer das entrevistas que um Romário dava há apenas 5 ou 6 anos. As formas como essas mudanças diminuem a emoção, o alvoroço e a própria rivalidade de jogos clássicos é auto-evidente.
Quanto ao segundo aspecto em que o esporte sede à mercadoria – o produtivismo – o efeito é ainda mais direto e estrutural. A dinâmica da compra e venda constante de jogadores e técnicos, em especial no Brasil, os leva a não criarem vínculos duradouros (e verdadeiros) com as torcidas e os clubes, de maneira geral. Dessa maneira, reforça-se o problema de embotamento criado pela disciplinarização midiática e se bloqueia parcialmente a construção de histórias intensas e heróicas envolvendo times ou jogadores exemplares. Quem lembrará seus nomes daqui a pouco e como eles serão capazes de defender as cores de suas camisas com paixão? Obviamente, o engrandecimento financeiro do futebol brasileiro nos últimos anos tem mudado um pouco esse quadro ao ponto de ser plausível a permanência de um Neymar por mais tempo no país e tendo a possibilidade de criar uma profunda identidade não somente com a seleção brasileira, mas também com o Santos Futebol Clube. Não obstante, o que vale para Neymar não vale para todos, a grande massa de jogadores com menor talento e/ou sensibilidade não poderá e/ou intentará eternizar sua memória num clube e sim buscará fontes progressivamente maiores de fortuna – assim tais jogadores têm sua glória fragmentada tal como sua história.
É ainda um efeito do produtivismo o aceleramento do ritmo dos calendários futebolísticos, afinal os canais de televisão precisam ter o que passar e as empresas patrocinadoras de espaço para mais de seus anúncios. E proporcionalmente cresce o número de lesões dos jogadores e o investimento tanto em preparação física quanto num elenco com “peças substitutas”. O resultado de toda essa “pressa” do mercado naturalmente reflete-se dentro das quatro linhas e os jogadores cada vez mais se transformam em corredores, aproximando-se dos atletas de esportes mais mecânicos. É necessário ser rápido não só para compensar eventuais faltas de talento individual das “peças”, como também por ser a forma mais garantida(mas não melhor) de montar um elenco eficiente para cada um dos compromissos que se sucedem rapidamente -  e sem precisar refletir sobre as especificidades dos jogares que se permutam a todo momento. É talvez o que o neurocientista Nicolelis quis dizer ao se referir a um futebol sem cérebro, um estilo de jogo em que o objetivo é tomar de assalto o gol adversário e não elaborar uma meticulosa trama para envolver o time oponente (como o Barcelona faz). Nicolelis defende que o cérebro humano sempre age através de uma fagocitação, mais ou menos eficiente, dos objetos exteriores e, portanto, como já sabia Durkheim, um time necessariamente é mais do que uma coleção de pessoas (ou peças) diferentes, ele é um todo que se realiza melhor ou pior em acordo com o grau de pertença sentido por cada um de seus elementos. Aqui a necessidade é pensar os distúrbios causados pela falta de sintonia entre jogadores entre si e também para com as torcidas.
É por essas e por outras razões que Nicolelis defende um modelo eleitoral amplo, envolvendo a extensão das torcidas, para escolher os dirigentes dos clubes. Mas o aumento da identidade coletiva é pouco plausível, ainda que considerando às tendências mais ou menos generalizadas para a democracia formal sob o capital. O quão longe estamos de um certo senso humanamente coletivo pode ser ilustrado se recuarmos para a discussão sobre a dominação midiática e percebermos a generalização da reprovação da empolgação de tirar a camisa para comemorar um gol. Os comentadores sempre observam, em casos de atitudes desmedidas de atletas, que o futebol é apenas um jogo, mas esquecem de aplicar essa crença na crítica ao regulamento e reclamam indignados dos jogadores que andam descamisados por alguns segundos no frenesi da comemoração. O caso é que o interesse dos patrocinadores de mostrar suas marcas sobrepõe-se a qualquer rito tradicional e é inquestionável. Ora, com isso ressalto que a verdadeira unidade geral da vida contemporânea - e logo do futebol - é da mercadoria*.
Tal unidade geral traz também consigo avanços, como observei no início do texto. É necessário avaliar a totalidade do processo que se passa diante de nossos olhos para sermos capazes de formar um mapa cognitivo capaz de nos orientar rumo ao fim do sufocante túnel, preservando os avanços e neutralizando os retrocessos. Então, continuarei essa reflexão futebolística a qualquer hora, analisando a questão da padronização dos lugares em estádios de futebol e sua relação com o modo mercadológico de vida e com o fim da moralidade do guerreiro.

* Pode-se pensar no efeito que tem para o esporte um novo panorama em que um jogo do Real Madrid é adiantado para o meio-dia para conquistar o poderoso público chinês e, de fato, obtém um sucesso estrondoso: cerca de 120 milhões de expectadores pela TV e mais de 200 milhões no total. Ou, mesmo no Brasil, o América Mineiro mandar seu jogo num região em que a torcida Corinthiana é muito maior para angariar verbas. Noutro campo, poderíamos também observar que o crescimento de certos esportes feminos (vôlei, por exemplo) não tem pudores em se apoiar na venda da imagem dos corpos das atletas.