O complexo de vira-lata brasileiro é, no sentido clássico da palavra, uma ideologia. Todas as características estão presentes. Vê-se que é sustentada pelos grupos exploradores e, ao mesmo tempo, brota da própria realidade concreta, que ela é disseminada por todos os cantos e, por fim, obviamente, que ela ajuda a recriar seu contexto situacional, num círculo vicioso.
A mídia, uma vez mais, é o veículo da retórica que ajuda a disseminar a doença. Qualquer dia, em qualquer momento pode-se ter acesso às personificações do pessimismo conservador através da rede Globo, do jornal Folha de São Paulo, da revista Veja ou muitos de seus congêneres... A estratégia é repetida e chata: trata-se de mostrar uma (suposta) deficiência do sistema nacional; atribuí-la à debilidade do caráter ou falta de inteligência dos governantes (ou povo); traçar a idealização de uma realidade análoga, mas "resolvida" em outro país, sem esquecer de abstrair sequer um gota da história real ou do contexto mundial; por fim, basta defender a própria posição e dizer que ela é a solução final, é neutra e é defendida por todas as pessoas verdadeiramente sérias.
As sociedades perfeitas geralmente escolhidas para serem nosso exemplo costumeiramente localizam-se na América do Norte ou Europa, são Estados Unidos, Inglaterra e França. Os países europeus geralmente são escolhidos para fortalecerem opiniões acerca da "seriedade", "civilidade" e "bem-estar social", mas seguem sendo maus exemplos quando o objetivo dos nossos ideólogos é rebaixar a dignidade humana, impondo penas desumanas ou atacar os direitos dos trabalhadores. Dessa maneira, o ideal mais unânime certamente são os Estados Unidos, pois além de ser mais fácil defender o mais forte, o imaginário sobre o referido país oferece menos constrangimentos à reificação capitalista absoluta.
De um ponto de vista filosófico, é fácil apreender o motivo do sucesso e da necessidade dessa disseminação ideológica, é que da mesma maneira como da realidade do capitalismo brota sua auto-legitimação, também brota sua negação. Ou seja, os indivíduos que a partir da vivência do mercado são tentados a naturalizar o mercado, ao mesmo tempo, não podem deixar de perceber alguns dos absurdos inumanos gerados pelo atual modo de produção. Daí que a função da retórica dos ideólogos seja encontrar uma forma de cooptar essa “natural” proto-crítica e transformá-la em uma pseudo-crítica, focalizando as supostas ineficiências do capitalismo brasileiro (retórica centro-esquerda) ou do sistema político brasileiro (retórica centro-direita), ao invés de focalizar o capitalismo em geral.
Esse é o sentido, inclusive, da terminologia geopolítica que divide o mundo em países “desenvolvidos”, “em desenvolvimento” e “subdesenvolvidos”. O “erro” é não perceber o mundo como uma totalidade orgânica. A premissa de que os países desenvolvidos “já chegaram lá” mostra-se absolutamente falsa quando observamos o derretimento dos direitos atualmente em curso na Europa e é ainda mais risível supor que os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento estejam em curso de tornarem-se desenvolvidos. Vê-se que tal nomeclatura, forjada para ser etapista, mal oferece capacidade de convencimento num mundo em que o capital alcançou todos os cantos e brechas, sem oferecer promessas de benção generalizada no horizonte. Claro que, de um ponto de vista sociológico, ainda seria necessário explicar as mediações concretas que fazem com que os discursos se articulem da maneira como se articulam e se propaguem como se propagam no Brasil, mas, nesse momento, meu objetivo é esclarecer a verdade e não mergulhar demais na mundanidade das engrenagens.
Então, voltando ao nosso racionar através dos raciocínios (nossa visão filosófica), percebemos do que já foi dito que, de um lado, o complexo de vira-lata não é mais do que uma ideologia capitalista normal, que visa simular a possibilidade de perfeição sob o atual modo de produção. A idéia é de que “como no centro” podemos alcançar a paz e a felicidade, tal discurso não é idiossicrasia nossa, pois é o que serve para aplacar a consciência inclusive das populações que vivem nessas regiões e se vêem constantemente na necessidade de continuar a esperar pelo paraíso prometido, embora, no caso deles, a idolatria tem de se voltar não para a imitação de algum suposto paraíso concreto (como para nós), mas no simples mito do “crescimento” abstrato.
Por outro lado, nossa ideologia tem uma característica muito peculiar e cruel. Ela, por ter no exterior uma meta concreta, rebaixa duplamente o Brasil, não é só um país que tem uma meta a cumprir (como todos), mas é um país inferior quando comparado aos demais. A culpa é nossa por termos tantos recursos (!) e não estarmos no nível de nossos contemporâneos ricos. Cabe aos brasileiros corrigir sua política, sua economia e, sobretudo, seu caráter (!) “para se tornar centro”, dizem os ideólogos. Esse auto-menosprezo serve de consolo à nossa burguesia servil e ainda contribui para que ela legitime seu ataque aos inimigos que tem, seja a carga tributária, as cotas, alguma greve ou político.
O elemento realmente cruel é que, ao longo dos anos, incorporou-se tão arraigadamente esse senso de inferioridade que se forjou uma subserviência, muito mais do que a “pura simpatia do povo”, com tudo o que é do exterior, ao ponto de caímos no ridículo diante desses mesmos estrangeiros, ou seja, somos re-vitimizados. Embora seja verdade que o “crescimento” dos últimos anos e o governo petista, em alguma medida, trabalhem na contramão desse complexo de vira-lata, a fala zombeteira recente de um ator e diretor estadunidense revela a persistência do mal:
"Filmamos no Brasil porque lá você pode machucar as pessoas enquanto filma (...) [é] um país de extremos (...) Você pode explodir o país inteiro e eles ainda dizem para você: 'obrigado e tome aqui um macaco para você levar para casa' " (Sylvester Stallone)
A mídia, uma vez mais, é o veículo da retórica que ajuda a disseminar a doença. Qualquer dia, em qualquer momento pode-se ter acesso às personificações do pessimismo conservador através da rede Globo, do jornal Folha de São Paulo, da revista Veja ou muitos de seus congêneres... A estratégia é repetida e chata: trata-se de mostrar uma (suposta) deficiência do sistema nacional; atribuí-la à debilidade do caráter ou falta de inteligência dos governantes (ou povo); traçar a idealização de uma realidade análoga, mas "resolvida" em outro país, sem esquecer de abstrair sequer um gota da história real ou do contexto mundial; por fim, basta defender a própria posição e dizer que ela é a solução final, é neutra e é defendida por todas as pessoas verdadeiramente sérias.
As sociedades perfeitas geralmente escolhidas para serem nosso exemplo costumeiramente localizam-se na América do Norte ou Europa, são Estados Unidos, Inglaterra e França. Os países europeus geralmente são escolhidos para fortalecerem opiniões acerca da "seriedade", "civilidade" e "bem-estar social", mas seguem sendo maus exemplos quando o objetivo dos nossos ideólogos é rebaixar a dignidade humana, impondo penas desumanas ou atacar os direitos dos trabalhadores. Dessa maneira, o ideal mais unânime certamente são os Estados Unidos, pois além de ser mais fácil defender o mais forte, o imaginário sobre o referido país oferece menos constrangimentos à reificação capitalista absoluta.
De um ponto de vista filosófico, é fácil apreender o motivo do sucesso e da necessidade dessa disseminação ideológica, é que da mesma maneira como da realidade do capitalismo brota sua auto-legitimação, também brota sua negação. Ou seja, os indivíduos que a partir da vivência do mercado são tentados a naturalizar o mercado, ao mesmo tempo, não podem deixar de perceber alguns dos absurdos inumanos gerados pelo atual modo de produção. Daí que a função da retórica dos ideólogos seja encontrar uma forma de cooptar essa “natural” proto-crítica e transformá-la em uma pseudo-crítica, focalizando as supostas ineficiências do capitalismo brasileiro (retórica centro-esquerda) ou do sistema político brasileiro (retórica centro-direita), ao invés de focalizar o capitalismo em geral.
Esse é o sentido, inclusive, da terminologia geopolítica que divide o mundo em países “desenvolvidos”, “em desenvolvimento” e “subdesenvolvidos”. O “erro” é não perceber o mundo como uma totalidade orgânica. A premissa de que os países desenvolvidos “já chegaram lá” mostra-se absolutamente falsa quando observamos o derretimento dos direitos atualmente em curso na Europa e é ainda mais risível supor que os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento estejam em curso de tornarem-se desenvolvidos. Vê-se que tal nomeclatura, forjada para ser etapista, mal oferece capacidade de convencimento num mundo em que o capital alcançou todos os cantos e brechas, sem oferecer promessas de benção generalizada no horizonte. Claro que, de um ponto de vista sociológico, ainda seria necessário explicar as mediações concretas que fazem com que os discursos se articulem da maneira como se articulam e se propaguem como se propagam no Brasil, mas, nesse momento, meu objetivo é esclarecer a verdade e não mergulhar demais na mundanidade das engrenagens.
Então, voltando ao nosso racionar através dos raciocínios (nossa visão filosófica), percebemos do que já foi dito que, de um lado, o complexo de vira-lata não é mais do que uma ideologia capitalista normal, que visa simular a possibilidade de perfeição sob o atual modo de produção. A idéia é de que “como no centro” podemos alcançar a paz e a felicidade, tal discurso não é idiossicrasia nossa, pois é o que serve para aplacar a consciência inclusive das populações que vivem nessas regiões e se vêem constantemente na necessidade de continuar a esperar pelo paraíso prometido, embora, no caso deles, a idolatria tem de se voltar não para a imitação de algum suposto paraíso concreto (como para nós), mas no simples mito do “crescimento” abstrato.
Por outro lado, nossa ideologia tem uma característica muito peculiar e cruel. Ela, por ter no exterior uma meta concreta, rebaixa duplamente o Brasil, não é só um país que tem uma meta a cumprir (como todos), mas é um país inferior quando comparado aos demais. A culpa é nossa por termos tantos recursos (!) e não estarmos no nível de nossos contemporâneos ricos. Cabe aos brasileiros corrigir sua política, sua economia e, sobretudo, seu caráter (!) “para se tornar centro”, dizem os ideólogos. Esse auto-menosprezo serve de consolo à nossa burguesia servil e ainda contribui para que ela legitime seu ataque aos inimigos que tem, seja a carga tributária, as cotas, alguma greve ou político.
O elemento realmente cruel é que, ao longo dos anos, incorporou-se tão arraigadamente esse senso de inferioridade que se forjou uma subserviência, muito mais do que a “pura simpatia do povo”, com tudo o que é do exterior, ao ponto de caímos no ridículo diante desses mesmos estrangeiros, ou seja, somos re-vitimizados. Embora seja verdade que o “crescimento” dos últimos anos e o governo petista, em alguma medida, trabalhem na contramão desse complexo de vira-lata, a fala zombeteira recente de um ator e diretor estadunidense revela a persistência do mal:
"Filmamos no Brasil porque lá você pode machucar as pessoas enquanto filma (...) [é] um país de extremos (...) Você pode explodir o país inteiro e eles ainda dizem para você: 'obrigado e tome aqui um macaco para você levar para casa' " (Sylvester Stallone)
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