A
lógica social não é óbvia, mas, ao contrário, apresenta estratos, os quais se
há de ter muito claro ao considerar cada argumento, é preciso pesar seu nível
de abstração, compreender seus limites e interpretar suas qualidades diferentes
em interação mútua.
Há,
é claro, os fatos (1), os acontecimentos que se sucedem de maneira constante e
sempre diversificada, num turbilhão de informação, que pode ser bem ou mal
usada – como diz a piada, se duas pessoas tem fome e se produzem dois
sanduíches, estatisticamente, ninguém está com fome.
Indo
mais a fundo, encontra-se algo mais importante, os contextos, as construções
culturais, as correlações de força, etc (2). É certamente este o ponto em que
comumente nos encontramos quando falamos de eleições com seriedade – ou seja,
ignorando os falseadores e propagandistas que citam apenas “fatos” – e aí nos
deparamos com a importante disputa por hegemonia, pela predominância de
valores, o que pode nos encaminhar por todo o amplo espectro que vai do
comunismo à barbárie.
Não
obstante, sem consideração à infraestrutura (3), à mudança efetiva da posição
relativa e absoluta dos indivíduos entre si, todo o foco na disputa por
hegemonia pode converter-se em circularidade, em religiosidade cega. Cada ideal
ganha sentido quando significa ou pode significar passos definitivos no
movimento real, quando pode se cristalizar em uma estrutura qualitativamente
diferente, que embasa saltos novos, ideais novos, constituição nova. É, sem
duvidas, o olhar a esse estrato que determina o avanço, a igualdade, a
acumulação.
O
que se vê hoje, de um lado, é a queda do senso comum ao nível puramente
estético, individualista, propagandista e factual, a realização da imitação
brasileira em relação aos países ocidentais de "capitalismo avançado" (o "nível 1"). De outro
lado, nas mentes “mais politizadas”, é a circunscrição da política à sua
dimensão puramente superestrutural (o "nível 2").
Fica-se
em dúvida, por exemplo, acerca de que estratégia predomina na campanha de
Dilma(líder em pesquisas) em relação à Marina(vice-líder), se sua intenção de
auto defesa do estigma de desonesta/vendida e sua busca por rotular a rival
como fanática/religiosa (o lado ad
hominen, abusando do factual); ou suas promessas de garantia de direito às
minorias e amparo aos pobres e acusação da adversária de privatista,
conservadora, etc. (ou seja, a dimensão político-moral, a luta por hegemonia de
valores).
Tomando
essas duvidosas diferenciações petistas como verdadeiras, seríamos gravemente
tentados a flertar com a posição de Saffatle, a entender como mais
“inteligente” diferenciar as candidatas e optar pelo menos pior. Mas uma pulga
surge atrás da orelha de quem percebe que 12 anos se dizem ameaçados por 4 de
qualquer novo governo; de que a alternância, a virtude máxima para muitos
democráticos, é a tendência e, com ela, segundo o PT, tudo virá abaixo inevitavelmente; ou, então,
que o povão não se tornou mais socialista, sequer mais progressista, desde as décadas sombrias de nosso
passado até os governos populares atuais.
Talvez
diferenciar seja apenas parte da inteligência, talvez tenha chegado o momento
de igualar, de encontrar a identidade de tudo o que está e esteve aí e assumir
postura não mais complacente com essa esmagadora ideologia contemporânea. No
capitalismo tardio, parece que as “conquistas” de minorias se tornou a
verdadeira finalidade da nova esquerda, os “direitos” são sempre anexados ao
ser inalterado, a democracia burguesa parece ter a tendência a crescer sempre
no respeito à “fala”, a expressão do que já é dado e nunca a alteração definitiva
do estatuto do ser falante.
Não
é atoa que os conservadores mais impertigados de hoje apelidaram todo o jogo
político petista ou neopetista de “marxismo cultural”, de luta por posições
igualitaristas no campo das representações.
A política dessa esquerda se parece com uma prisão em trincheiras
eternas, um jogo parlamentarista de correr atrás do próprio rabo, vendo cada
conquista de hoje ser ameaçada amanhã e se mantendo no poder através do
incentivo a esse medo perpétuo de que o miserável perca a migalha que tem. Já
está provado que todo grupo organizado pode ganhar força e respeito através
desse modelo e, no entanto, cada espaço ganho por um grupo só pode significar
uma carga extra de sofrimento para os miseráveis do grupo vizinho e, se chegasse
o impossível dia em que todas a “minorias” tivessem seu justo quinhão, toda exploração e
humilhação recairia sobre os ombros dos menos fortes dentre cada uma delas, entre
os pobres, pois o fim da pobreza, da escassez produzida, da lógica do ódio, em
uma palavra, da mercadoria, é a única luta que não se pode nem pensar em ganhar
através desse jogo de empurra-empurra.
O
“assalto ao céu” precisa da verdade ontológica, da coragem desinteressada e do
entendimento estrutural. Nada é tão contrário ao capitalismo tardio, onde
“verdade”, “desinteresse” e “estruturas” cederam lugar à crítica do
“autoritarismo”, à apologia da “identidade” e à luta pelas “singularidades”.
Realizou-se de maneira perversa o sonho dos progressistas hippies dos anos 60,
a criação do mundo a partir do pensar e o esvaziamento por parte da mente dos
modelos pré-fabricados, e tudo resultou num grande conservadorismo. A “inação”
uniu desde o capitalista George Lucas, que desejava ver sua poupança inflar, até os manifestantes anti-capitalistas,
os quais queriam fazer os prédios voarem. Mas o principal: uniu a esquerda
com o status quo.
A profundidade, religiosidade e projeção são
armas que precisam ser reabilitadas e, do ponto de vista individual, isso pode
começar acontecer ao se dizer não para a esquerda subjetiva do PT, ao
diferenciar não as palavras e imagens, mas os objetivos, métodos e elaborações
dos grupos políticos.
A prova de que até nos supostos radicais a estética política está presente a unir a quem se quer de esquerda com a direita encontra-se na crítica até hoje não sustentada dialeticamente em relação a URSS. Os comunistas, sem embargo, devem fazê-lo, devem parar de fugir de si mesmos e abraçar sua história para poderem ir além dela nela.
A prova de que até nos supostos radicais a estética política está presente a unir a quem se quer de esquerda com a direita encontra-se na crítica até hoje não sustentada dialeticamente em relação a URSS. Os comunistas, sem embargo, devem fazê-lo, devem parar de fugir de si mesmos e abraçar sua história para poderem ir além dela nela.
O delírio que tomou conta das formulações nessa eleição são fruto de
expectativas delirantes tanto por parte dos "progressistas" quanto dos
"conservadores", envolvidos no atual lamaçal da "política do
ressentimento": a esquerda deve sair desse charco para poder acabar com
ele!
O
momento presente permite isso. Talvez logo não vejamos mais quatro candidaturas
da verdadeira esquerda como nessa eleição, tendo em conta que toda junta ela ainda
não teria 10% das simpatias. Talvez superemos as situações 1) de um partido de
esquerda com mais espaço criticar seu maior aliado na TV; 2) de alguns deles
mostrarem-se tão ignorantes e autoritários; 3) de se abandonarem as aspirações
culturalistas, individualistas e anti-intelectuais; 4) do clamor por união que,
dessa vez, veio unilateralmente mostre-se como único caminho possível - e de uma
vez por todas. Superadas as ilusões, teremos uma esquerda capaz de apresentar
alternativa real ao antro estreito em que nos encontramos.
(*Acréscimo:o simples gráfico abaixo serve para demonstrar, matematicamente, que não só não devemos compreender a política em termos subjetivistas, mas que ela efetivamente não funciona de maneira subjetiva. Acreditar que o poder estar na ideias, na construção de novos valores, é ignorar a obviedade de que as ideias estão submetidas aos interesses e são manipulas em função destes. Todas as correntes eleitorais eram bem organizadas e ideologicamente estruturadas, no entanto, os resultados eleitorais estão claramente hierarquizados em função das receitas eleitorais).
