Kramer vs. Kramer (1979) retrata a história de um casal separado, Ted e Joanna, em disputa pela guarda do filho, Billy. Descontente com o casamento, a vida doméstica restrita e o compromisso quase exclusivo de seu marido com o trabalho, Joanna, de súbito, quer a separação. Surpreso, Ted lhe pede que fique, mas Joanna é impassível e sai de casa, deixando o filho Billy com o pai. Joanna sempre amou o filho, mas precisava de um tempo para si própria: “Toda a minha vida eu me senti como a esposa, a mãe, a filha de alguém, mesmo no tempo que nós estávamos juntos, eu nunca soube quem eu era, e este é o motivo pelo qual eu fui embora”
Diante da separação, Ted precisa se desdobrar para conciliar o trabalho, os cuidados com o filho e as tarefas domésticas. Contudo, quando começa a se acostumar à nova rotina, Joanna, recuperada e sentindo-se melhor consigo mesma, reaparece requerendo a guarda de Billy, pois, apesar de ter ido embora, nunca deixou de amar o filho. Frente a recusa de Ted, que fica transtornado com o pedido da ex-esposa, Joanna recorre à Justiça e obtém a decisão em seu favor. Ted fica desolado e dispõe-se a contestar para obter a reversão da sentença, pagando o que for preciso. Contudo é advertido pelo advogado de que, “desta vez, será o Billy a pagar”, pois isso implicaria em um depoimento da criança perante o juiz. Assim, para não expor o filho, Ted desiste de recorrer e, desolado, acaba aceitando que o filho passe a morar com a mãe.
No entanto, após a conformação de Ted, ocorre uma reviravolta completa. No dia de mudança de Billy para a casa da mãe, Joanna, considerando ser melhor para o filho permanecer onde já está, aceita que Billy continue com o pai.
Apesar do divórcio e
da vontade de ambos os pais de permanecer com o filho, percebe-se em
Kramer vs. Kramer uma
lógica de reconhecimento entre ambos, com vistas a preservação da
criança. Em primeiro lugar, durante o julgamento, em nenhum momento
os pais desqualificaram-se mutuamente. É verdade que Ted acusou em
particular Joanna de ter abandonado Billy, no momento em que ela
comunicou que queria o filho de volta e o advogado de Ted também a
acusou do mesmo. Apesar disso, durante o julgamento, embora Ted
pudesse utilizar-se aí de tal discurso em benefício próprio, seu
depoimento limitou-se a dizer o quanto ele e Billy se gostam:
Ted: – “A minha mulher estava sempre a
perguntar-me: “por que não pode uma mulher ter as mesmas ambições
que um homem?'. Acho que tens razão e talvez eu tenha aprendido
isso, mas, da mesma forma, gostaria de saber que lei é essa que diz
que a mulher é melhor progenitor, simplesmente em virtude do sexo.
Tive muito tempo para pensar o que faz de alguém um bom pai. Tem a
ver com constância, tem a ver com paciência, tem a ver com ouvi-lo,
ou fingir ouvi-lo quando já estamos fartos, tem a ver com amor, tal
como ela disse. Não sei onde está escrito que uma mulher tem
prioridade nesse campo, que um homem tem menos desses sentimentos do
que uma mulher. O Billy tem um lar comigo. Fi-lo o melhor que pude.
Não é perfeito. Não sou um pai perfeito. Por vezes, não tenho
paciência e esqueço-me que ele é uma criança. Mas estou lá.
Tomamos o café da manhã, ele fala comigo e depois vamos para a
escola. À noite, jantamos e conversamos. Leio para ele. Construímos
uma vida juntos e adoramo-nos um ao outro”.
Em seu depoimento,
Joanna, da mesma forma, embora afirme que Billy precise mais dela do
que do pai, reconhece a importância de Ted para o filho e não
critica o ex-marido, procurando demonstrar apenas, na disputa pelo
filho, como o ama e precisa dele. Nessa dinâmica, impera algum grau
de reconhecimento, pois os pais não se digladiam perante o filho e
este não permanece triangulado entre os dois. Assim, preserva-se
esse terceiro em comum da relação, que é o filho.Nova prova de reconhecimento se dá quando, para não expor a criança, Ted desiste de recorrer da decisão. Aqui, a lógica de reconhecimento se assemelha à dialética do senhor e do escravo. O escravo cede na sua vontade para preservar sua vida. No filme, Ted desiste de lutar para ter o filho, o que equivale ao escravo que cede à própria vontade, para preservar o próprio filho, que seria o representante simbólico da vida. Então, Ted aceita a decisão não por sua própria vontade, mas sacrifica a si mesmo pelo benefício do filho.
Assim, embora esteja desolado com a situação, Ted esforça-se ao explicar para Billy que agora este passará a morar com a mãe. Nessa situação, novamente, em nenhum momento ele desqualifica Joanna perante o filho. Pelo contrário, por mais descontente que esteja com a situação, se empenha para deixar o filho bem, mostrando como Joanna também o ama.
No entanto, a prova final e maior de reconhecimento se dá quando Joanna, julgando ser o melhor para Billy, recua em sua decisão e decide, por livre e espontânea vontade, que, apesar de seu direito de guarda da criança, Billy permanecerá com o pai. Emocionada, ela afirma:
“Quando acordei esta manhã não deixei de pensar no Billy e eu pensei nele acordando no quarto dele, com as nuvens que eu pintei na parede. E pensei que devia ter pintado nuvens nessa casa nova, porque ele pensaria que estava acordando em casa. Vim aqui para levar meu filho para casa e percebi que ele já está em casa. Gosto muito dele. Não vou levá-lo comigo.”
Com esta decisão, Joanna efetiva uma espécie de reconhecimento universal. Ela abdica do interesse próprio em ter o filho pelo todo, que seria o próprio bem-estar de Billy. Ted, quando aceita a decisão judicial permanece, de certa forma, na dialética do senhor e do escravo, porque abdica de seu desejo de ter o filho não por sua livre vontade, mas por força da lei. Joanna, ao contrário, espontaneamente (e não por força da obrigação), sai de sua lógica privada para o interesse do outro e do todo da família, encontrando, assim, na vontade de Ted, a sua própria vontade. A lógica da disputa cede espaço ao interesse real pelo outro, a própria criança. Os pais já conseguem comunicar-se livrevemente, independente da relação do direito e, assim, apesar da separação, consegue operar uma lógica de reconhecimento, em benefício do filho.
De fato, uma decisão como essa não é fácil para Joanna. Mas ela aprendeu a sacrificar-se de seu desejo egoísta e singular.
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