segunda-feira, 25 de junho de 2012

Avatar: a emancipação humana no mundo dos não-humanos.


Subsiste em Avatar, como nas representações românticas, um impulso revolucionário. Contudo, ocorre no filme uma alienação que se dá de dupla maneira. Em primeiro lugar, o sonho de uma realidade humana ideal é posto em um mundo imaginário ou exótico que, na trama, sequer é humano. Assim, o sonho da emancipação no mundo real e existente, o mundo originário do herói, escorrega para o desespero niilista, sem qualquer possibilidade de revolução no mundo dos humanos em que o herói vive. Ou seja, há uma rejeição pelo herói da sociedade em que ele vive, para uma outra sociedade, onde, nesta sim, ele poderia realizar seus potenciais revolucionários; uma fuga da realidade política original, onde não se poderia encontrar uma emancipação, para encontrá-la em um outro lugar, correspondente dos mais puros ideais.
Em segundo lugar, no mundo original do herói ele se sente limitado, preso, o que inclusive é manifesto pela própria condição física do personagem, que é cadeirante, como se isso correspondesse a uma limitação de sua liberdade. Assim, frente a essa atmosfera limitante e de desespero sufocante, é no outro mundo que ele encontra sua liberdade em todas as bases, agora ele libertou-se das amarras da cadeira, pode amar (ele apaixona-se por uma nativa), aproximar-se da natureza, dos ideais divinos e da força e espírito de revolução. Enfim, é nesse mundo imaginário que ele pode realizar seus ideais de emancipação humana, tanto no nível total de uma comunidade, quando no de seus próprios interesses individuais (amor, natureza, divino, etc.).
Ironicamente, o que era para apresentar um conteúdo revolucionário, separa a idéia de revolução (ou a humanidade) da própria sociedade, colocando-a em um outro mundo, inexistente. Como Sesshoumaru apontou em relação aos animes japoneses, também em Avatar tem-se a energia utópica do herói transformada em “nostalgia e mal-estar caótico”; um impulso revolucionário correto, mas que, paradoxalmente, recai  na própria fuga da sociedade.


*Essas reflexões foram realizadas amparadas em compreensão de Raymond Williams, em sua Tragédia Moderna, sobre o movimento do romantismo. Ver também tópico de abril de 2012, de Sesshoumaru, "Titanic e Avatar. Limites e grandezas da visão de James Cameron".

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