sábado, 30 de junho de 2012

Sobre o uso de tecnologia no futebol ou o Admirável Esporte Novo


               Lances polêmicos e equívocos de arbitragem em jogos da última Copa Do Mundo e da Eurocopa fizeram com que diversas pessoas relacionadas ao futebol se indignassem com a  “injustiça” contra certas seleções e exigissem a implementação, por parte da FIFA (entidade dona do futebol mundial), de tecnologias auxiliares ao juiz. Seriam tecnologias como o uso de um “chip” na bola para averiguar com precisão se ela entrou ou não no gol em cada lance; como a revisão computadorizada de lances de possível impedimento; análise técnica, por meio de vídeos, de lances faltosos e particularmente de pênaltis, etc.
                A FIFA, desde o início, mostrou-se resistente à ideia. Os motivos podem ser vários: desde a tendência natural ao conservadorismo dos velhinhos que dirigem a entidade, passando pelos interesses econômicos de patente das possíveis tecnologias, até a consideração séria de que o futebol poderia tornar-se um esporte chatíssimo se a tecnologia fosse empregada nele da maneira como é no tênis, por exemplo. Parece-me que essa terceira possível razão para o não emprego da tecnologia no futebol é a que merece uma visada mais detida, pois é a única razão para dar um veredito futebolisticamente sério ao impasse e, ademais, é a de maior complexidade teórica.
                Respondendo a um jornalista sobre a sua não aprovação do uso de tecnologias no campo de jogo, Michel Platini, ex-craque francês e presidente da UEFA (federação do futebol europeu), respondeu que poderia estar dando aquela entrevista por teleconferência e, no entanto, estava ali frente a frente com o repórter. A resposta pode parecer banal, mas não o é, seu significa é o de que a carnalidade e concretude do contato humano é um elemento a se considerar. Em contrapartida, há os que afirmam com embasamento histórico que “não é justo uma seleção preparar-se por quatro anos para uma disputa e ter todo o seu trabalho jogado fora perante um erro de arbitragem”.
                De fato, um lance injusto foi o que se passou com a Inglaterra na última Copa (Alemanha 4 X 1 Inglaterra [2010]), quando um gol seu, que poderia mudar a história do jogo, ultrapassou por uns poucos centímetros a linha da meta, mas não foi reconhecido; na atual Eurocopa (Ucrania 0 X  1 Inglaterra [2012]), por sua vez, um fôlego extra lhe foi dado, quando levou um gol que a poderia ter eliminado de maneira mais rápida, mas que não foi visto sequer pelo árbitro da linha do gol, que a FIFA inventou somente para esse tipo de situação.
                Considerando seriamente o argumento retórico de Platini e a indignação de seus adversários, não precisaremos sequer considerar números, pois são polêmicos: a proporção baixíssima de gols mal anulados ou mal concedidos, pode, com igual razão, ser considerada altíssima a partir de considerações sobre seu impacto em jogos específicos e na  história geral da competição. Ou seja, nos foquemos apenas nas consequências abstratas da implementação dos conceitos de cada lado da contenda.


            Se o futebol tiver suas regras modificadas, como parece ser a tendência no médio prazo, então teremos a segurança de saber que alguns lances decisivos poderão ser avaliados por uma comissão de juízes e dificultaremos significativamente a situação de uma seleção ter suas chances de vitória reduzidas por um erro técnico do juiz. Por outro lado, fica por discutir o método para decidir quais serão os lances reavaliados com o uso da tecnologia, se cada time teria um número limitado de solicitações ou se o próprio juiz escolheria em que momentos precisaria de ajuda.      
                É fundamental destacar o caráter de arbítrio envolvido em qualquer dos métodos aventados, afinal não se pode querer interromper o jogo a todo momento, sob pena de tornar o esporte insuportável e inviável, ou seja, o realismo ingênuo a motivar muitos dos defensores da tecnologia já está em causa - seja qual for o instrumento de análise - porque até hoje nada se inventou que controle o caráter subjetivo e decisório no próprio uso da tecnologia. Assim, a realidade continuará a não ser um livro aberto não importando quantas câmeras se espalhem pelo mundo ou pelo campo de futebol.
                Quanto ao jeito atual de jogar bola, trata-se de ressaltar a infinita limitação das puras imagens (paradas ou em movimento) e a beleza e verdade do movimento real das coisas. Como se sabe, a maior parte das polêmicas em futebol envolve a interpretação, posto que a possibilidade de mensuração física limita-se aos casos de impedimento ou entrada ou não da bola no gol. Não se pode nem em hipótese criar uma máquina para avaliar a intenção de um jogador colocar a mão na bola, a situação de simulação ou realidade de uma contusão que atrasa o jogo e põe em questão a violência do adversário faltoso, a maldade de uma dividida simples, se a “lei da vantagem” deve ou não ser aplicada em cada caso particular, etc.
                Mais grave que tudo isso, é o fato de que nos é vedado saber até que ponto qualquer lance isolado no jogo poderá ter consequências gerais e mudar toda a história. É óbvio que o chamado “efeito borboleta” tem sua efetividade tão em curso numa partida de futebol quanto em qualquer outro evento do mundo humano ou não humano. Por conseguinte, do pequeno encontrão que desloca o adversário ilegalmente pode originar-se, dez toques de bola depois, o gol necessário para a vitória ou até a simples desestabilização da vítima que revidará mais forte e será expulsa na jogada seguinte.
                Evitando aprofundar-me num relativismo que seria cínico e pouco realista, devo concluir o texto apenas insistindo na dialética do esporte a qual já me referi algumas vezes. Claro que no jogo há uma lógica não arbitrária e há erros muito prejudiciais e outros nem tanto, porém diferenciá-los é necessariamente uma atividade humana e todas as máquinas que se queira usar servirão apenas como mecanismo (eu diria, ideológico) para fingir que a ordem e a justiça reinam em um mundo (ou jogo, que o imita, afinal) no qual isto está bem longe de acontecer e quando vier a acontecer, no comunismo, ainda assim não eliminará o aspecto imprevisível e imponderável da vida, ao contrário, o ampliará.
                Sendo assim, defendo que se entenda o futebol seja entendido até certo ponto como beneficamente injusto. Quem realmente acredita que um impedimento dez centímetros mereça ser marcado e alterar o que pode ser uma bela vitória em um jogo? Quem pode alegar que uma bola que penetra um centímetro no gol e é parada pelo corpo do goleiro em queda é muito mais gol do que aquela que parou caprichosamente na exata linha do gol? Como se pode levar a sério a ideia de que uma bola desviada pelo juiz, que é elemento neutro, e que entre no gol terá sido justa enquanto a anulação de um gol em que a desesperada bicicleta do zagueiro que tirou a bola da baliza com um milésimo de atraso? O segredo está justamente na ideia do elemento neutro, devemos conceber um jogo com mais elementos neutros e não com menos: torcida, estado físico e mental de cada participante no jogo no dia da partida, gritos de dentro e fora do campo, erros razoáveis do juiz, tudo isso faz parte do mundo da bola e quem não o entende racionalmente não deixa de compreendê-lo no entusiasmo do jogo.


Edição posterior: Agora estamos em meio a Copa da Confederações [2013] e em meio a muitos eventos importantes fora de campo, no entanto, vem a calhar um exemplo empírico do que disse no texto acima. O último jogo do Brasil na primeira fase da competição teve seis gols, quatro nossos e dois dos italianos.
                1º. Ao final do primeiro tempo, quando o Brasil já tinha cansado de mostrar que era superior à Itália, Neymar fez um cruzamento e o zagueiro Dante, que tinha entrado por causa da contusão de David Luiz, aproveitou a sobra da cabeçada de Fred e abriu o placar. Ocorre que, depois de revisada a imagem algumas vezes, na televisão se chegou à conclusão de que, no momento da cabeçada, menos do que um pé do zagueiro estava à frente do penúltimo defensor, ou seja: impedimento!
                2º. O primeiro gol da Itália, por sua vez, saiu de um lance muito rápido e improvável do craque Balotelli, de uma pequena distração do (grande) zagueiro Thiago Silva e da boa finalização de Jaqueline.
                3º O segundo gol do Brasil nasceu de uma cobrança de falta espetacular de Neymar, que colocou a bola rápida e com efeito no extremo do cantinho esquerdo de Buffon. Bastava um insignificante variação de ângulo ou até interferência natural para a bola ir na trave. Ainda há uma indecidível polêmica acerca de se a falta em Neymar originalmente existiu ou se o atacante induziu o árbitro ao erro em sua forma de cair.
                4º Fred instigado pelo jejum de gols (2 jogos) enfatizado pela imprensa resiste ao empurra-empurra com o zagueiro italiano e chuta bem a bola pro gol. 3 a 1.
                5 º A Itália reage e faz seu segundo gol. O problema agora é que, antes da bola ser chutada e estufar a rede, Balotelli tinha sofrido um pênalti dentro da pequena área e o juiz tinha apitado! Ou seja, com a penalidade marcada, não podia validar o gol e devia anulá-lo e mandar algum italiano para a marca do pênalti. Não foi o que ele fez!
                6 º A Itália vinha pressionando e o Brasil estava recuado, embora o clima geral da torcida anima ainda era de que nosso time estava muito melhor na partida. No entanto, num contra-ataque, Fred pegou um rebote e fez mais um realizando seu desejo de alcançar Jô, o outro centroavante da seleção que já contava com dois gols.

                Placar final: 4 a 2. O espírito da torcida e imprensa claramente é favorável e até muito empolgado com a melhora do Brasil. Na imprensa de outros países e entre os jogadores derrotados, também domina inteiramente a versão de que o Brasil está avassalador. A torcida permanece engrenada e disposta a animar seus atletas e amedrontar os demais nos próximos jogos. Diremos que todos estão enganados? Seríamos mais sensatos se concluíssemos formalmente que um jogo com tantos erros, casualidades e elementos externos não poderia sequer ser validado e ainda menos índice de eficiência do vencedor?
 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Avatar: a emancipação humana no mundo dos não-humanos.


Subsiste em Avatar, como nas representações românticas, um impulso revolucionário. Contudo, ocorre no filme uma alienação que se dá de dupla maneira. Em primeiro lugar, o sonho de uma realidade humana ideal é posto em um mundo imaginário ou exótico que, na trama, sequer é humano. Assim, o sonho da emancipação no mundo real e existente, o mundo originário do herói, escorrega para o desespero niilista, sem qualquer possibilidade de revolução no mundo dos humanos em que o herói vive. Ou seja, há uma rejeição pelo herói da sociedade em que ele vive, para uma outra sociedade, onde, nesta sim, ele poderia realizar seus potenciais revolucionários; uma fuga da realidade política original, onde não se poderia encontrar uma emancipação, para encontrá-la em um outro lugar, correspondente dos mais puros ideais.
Em segundo lugar, no mundo original do herói ele se sente limitado, preso, o que inclusive é manifesto pela própria condição física do personagem, que é cadeirante, como se isso correspondesse a uma limitação de sua liberdade. Assim, frente a essa atmosfera limitante e de desespero sufocante, é no outro mundo que ele encontra sua liberdade em todas as bases, agora ele libertou-se das amarras da cadeira, pode amar (ele apaixona-se por uma nativa), aproximar-se da natureza, dos ideais divinos e da força e espírito de revolução. Enfim, é nesse mundo imaginário que ele pode realizar seus ideais de emancipação humana, tanto no nível total de uma comunidade, quando no de seus próprios interesses individuais (amor, natureza, divino, etc.).
Ironicamente, o que era para apresentar um conteúdo revolucionário, separa a idéia de revolução (ou a humanidade) da própria sociedade, colocando-a em um outro mundo, inexistente. Como Sesshoumaru apontou em relação aos animes japoneses, também em Avatar tem-se a energia utópica do herói transformada em “nostalgia e mal-estar caótico”; um impulso revolucionário correto, mas que, paradoxalmente, recai  na própria fuga da sociedade.


*Essas reflexões foram realizadas amparadas em compreensão de Raymond Williams, em sua Tragédia Moderna, sobre o movimento do romantismo. Ver também tópico de abril de 2012, de Sesshoumaru, "Titanic e Avatar. Limites e grandezas da visão de James Cameron".

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A lógica do reconhecimento após a separação


Kramer vs. Kramer (1979) retrata a história de um casal separado, Ted e Joanna, em disputa pela guarda do filho, Billy. Descontente com o casamento, a vida doméstica restrita e o compromisso quase exclusivo de seu marido com o trabalho, Joanna, de súbito, quer a separação. Surpreso, Ted lhe pede que fique, mas Joanna é impassível e sai de casa, deixando o filho Billy com o pai. Joanna sempre amou o filho, mas precisava de um tempo para si própria: “Toda a minha vida eu me senti como a esposa, a mãe, a filha de alguém, mesmo no tempo que nós estávamos juntos, eu nunca soube quem eu era, e este é o motivo pelo qual eu fui embora
Diante da separação, Ted precisa se desdobrar para conciliar o trabalho, os cuidados com o filho e as tarefas domésticas. Contudo, quando começa a se acostumar à nova rotina, Joanna, recuperada e sentindo-se melhor consigo mesma, reaparece requerendo a guarda de Billy, pois, apesar de ter ido embora, nunca deixou de amar o filho. Frente a recusa de Ted, que fica transtornado com o pedido da ex-esposa, Joanna recorre à Justiça e obtém a decisão em seu favor. Ted fica desolado e dispõe-se a contestar para obter a reversão da sentença, pagando o que for preciso. Contudo é advertido pelo advogado de que, “desta vez, será o Billy a pagar”, pois isso implicaria em um depoimento da criança perante o juiz. Assim, para não expor o filho, Ted desiste de recorrer e, desolado, acaba aceitando que o filho passe a morar com a mãe.
No entanto, após a conformação de Ted, ocorre uma reviravolta completa. No dia de mudança de Billy para a casa da mãe, Joanna, considerando ser melhor para o filho permanecer onde já está, aceita que Billy continue com o pai.
Apesar do divórcio e da vontade de ambos os pais de permanecer com o filho, percebe-se em Kramer vs. Kramer uma lógica de reconhecimento entre ambos, com vistas a preservação da criança. Em primeiro lugar, durante o julgamento, em nenhum momento os pais desqualificaram-se mutuamente. É verdade que Ted acusou em particular Joanna de ter abandonado Billy, no momento em que ela comunicou que queria o filho de volta e o advogado de Ted também a acusou do mesmo. Apesar disso, durante o julgamento, embora Ted pudesse utilizar-se aí de tal discurso em benefício próprio, seu depoimento limitou-se a dizer o quanto ele e Billy se gostam:
Ted: – “A minha mulher estava sempre a perguntar-me: “por que não pode uma mulher ter as mesmas ambições que um homem?'. Acho que tens razão e talvez eu tenha aprendido isso, mas, da mesma forma, gostaria de saber que lei é essa que diz que a mulher é melhor progenitor, simplesmente em virtude do sexo. Tive muito tempo para pensar o que faz de alguém um bom pai. Tem a ver com constância, tem a ver com paciência, tem a ver com ouvi-lo, ou fingir ouvi-lo quando já estamos fartos, tem a ver com amor, tal como ela disse. Não sei onde está escrito que uma mulher tem prioridade nesse campo, que um homem tem menos desses sentimentos do que uma mulher. O Billy tem um lar comigo. Fi-lo o melhor que pude. Não é perfeito. Não sou um pai perfeito. Por vezes, não tenho paciência e esqueço-me que ele é uma criança. Mas estou lá. Tomamos o café da manhã, ele fala comigo e depois vamos para a escola. À noite, jantamos e conversamos. Leio para ele. Construímos uma vida juntos e adoramo-nos um ao outro”.
Em seu depoimento, Joanna, da mesma forma, embora afirme que Billy precise mais dela do que do pai, reconhece a importância de Ted para o filho e não critica o ex-marido, procurando demonstrar apenas, na disputa pelo filho, como o ama e precisa dele. Nessa dinâmica, impera algum grau de reconhecimento, pois os pais não se digladiam perante o filho e este não permanece triangulado entre os dois. Assim, preserva-se esse terceiro em comum da relação, que é o filho.
Nova prova de reconhecimento se dá quando, para não expor a criança, Ted desiste de recorrer da decisão. Aqui, a lógica de reconhecimento se assemelha à dialética do senhor e do escravo. O escravo cede na sua vontade para preservar sua vida. No filme, Ted desiste de lutar para ter o filho, o que equivale ao escravo que cede à própria vontade, para preservar o próprio filho, que seria o representante simbólico da vida. Então, Ted aceita a decisão não por sua própria vontade, mas sacrifica a si mesmo pelo benefício do filho.
Assim, embora esteja desolado com a situação, Ted esforça-se ao explicar para Billy que agora este passará a morar com a mãe. Nessa situação, novamente, em nenhum momento ele desqualifica Joanna perante o filho. Pelo contrário, por mais descontente que esteja com a situação, se empenha para deixar o filho bem, mostrando como Joanna também o ama.
No entanto, a prova final e maior de reconhecimento se dá quando Joanna, julgando ser o melhor para Billy, recua em sua decisão e decide, por livre e espontânea vontade, que, apesar de seu direito de guarda da criança, Billy permanecerá com o pai. Emocionada, ela afirma:
Quando acordei esta manhã não deixei de pensar no Billy e eu pensei nele acordando no quarto dele, com as nuvens que eu pintei na parede. E pensei que devia ter pintado nuvens nessa casa nova, porque ele pensaria que estava acordando em casa. Vim aqui para levar meu filho para casa e percebi que ele já está em casa. Gosto muito dele. Não vou levá-lo comigo.
Com esta decisão, Joanna efetiva uma espécie de reconhecimento universal. Ela abdica do interesse próprio em ter o filho pelo todo, que seria o próprio bem-estar de Billy. Ted, quando aceita a decisão judicial permanece, de certa forma, na dialética do senhor e do escravo, porque abdica de seu desejo de ter o filho não por sua livre vontade, mas por força da lei. Joanna, ao contrário, espontaneamente (e não por força da obrigação), sai de sua lógica privada para o interesse do outro e do todo da família, encontrando, assim, na vontade de Ted, a sua própria vontade. A lógica da disputa cede espaço ao interesse real pelo outro, a própria criança. Os pais já conseguem comunicar-se livrevemente, independente da relação do direito e, assim, apesar da separação, consegue operar uma lógica de reconhecimento, em benefício do filho.
De fato, uma decisão como essa não é fácil para Joanna. Mas ela aprendeu a sacrificar-se de seu desejo egoísta e singular.