Não pretendo aqui buscar evidências de que Lars von Trier, diretor de Manderlay, tenha conhecimentos ou interesse pela astrologia. Se essa fosse minha tarefa, dificilmente teria evidências muito explícitas. Não pretendo também me debruçar sobre Melancolia, seu mais recente filme (2011), que, à primeira vista, parece ser aquele com maior afinidade direta ao mundo dos astros. Apenas a título de curiosidade (para aqueles que ainda não o viram), Melancolia trata da aproximação à Terra de um planeta chamado Melancolia e de sua relação com a própria falta de sentido da vida.
Mas o que pretendo pensar é sobre um outro filme, Manderlay (2005), segundo de uma trilogia pretendida pelo diretor sobre os Estados Unidos (iniciada com Dogville, 2003, mas que ficou interminada, pois o terceiro e último filme jamais foi feito). Manderlay conta a história contraditória do significado da libertação dos escravos naquele país. Após chegar a uma fazenda no Alabama, Grace, uma jovem idealista, filha de um poderoso gângster, surpreende-se com a manutenção da escravatura na fazenda, mesmo após a abolição oficial daquele regime. Mobilizada, Grace, com a ajuda dos capangas de seu pai, decide interferir na política local, instaurando ali finalmente uma libertação daquela condição e um novo regime, um negócio local nos moldes burgueses. Mas o desrespeito à Lei da Senhora (a senhora era a autoridade máxima dentro da fazenda e sua lei o signo do regime escravocrata), naqueles moldes, poderia causar uma grande tragédia? Onde deveria estar a libertação não acabou se consumando a própria queda? Os Estados Unidos estava preparado para recebê-los? Havia esperança para eles fora da fazenda? Ou, como apresenta a descrição de um panfleto sobre o filme: “os laços que regem estas relações [entre patrões e empregados] são bem mais complexos do que ela [Grace] pensava”.
Mas, novamente, o que quero pensar aqui não é uma análise de Manderlay, mas uma curiosa e sutil “coincidência” de um detalhe do filme com o conhecimento astrológico. Trata-se do seguinte: a Lei da Senhora, de Manderlay, consistia em um grande livro que expunha a espécie de contrato social e regras vigentes na fazenda, uma forma de manter a ordem. Dentre essas regras, uma delas estipulava a quantidade de alimento que deveria ser fornecida para cada escravo, os quais, por sua vez, eram divididos em tipos psicológicos, ordenados em números. Cada número representava uma personalidade psicológica e nele estava inscrito todos os escravos pertencentes àquele tipo. Havia os escravos fracassados, os arrogantes, os palhaços, os amáveis, os adaptáveis, etc. Mas, dentre as personalidades descritas, as que mais me chamaram a atenção foram as dos números 1 e 7.
O número 1 correspondia aos escravos arrogantes, aqueles com espírito questionador, rebeldes, altivos e que não aceitam a subserviência. Representa uma personalidade forte, que se impõe ativamente e funciona como uma liderança em relação às outras. Essa personalidade tem força individual por excelência e representa um espírito vaidoso e orgulhoso de si. Ela é o signo da personalidade ativa em si.
Já o número 7 é o escravo-camaleão, aquele que se mostra segundo a ocasião: ele se apresenta de acordo com o desejo dos olhos de quem o vê. É adaptável, mutável segundo o outro. 1 é expressão do indivíduo, da personalidade formada e ativa do próprio sujeito, do próprio ego, da independência sobretudo, do voltar-se para si. 7 é o outro, eu não me formo segundo a mim mesmo, mas sou mediado pelo outro, pelas necessidades do outro. De certa forma, o 7 não toma posição. Ele sempre fica em cima do muro, indecidido, porque vai de acordo com as circunstâncias mais favoráveis. É mutável e volta-se para o outro, para a relação intersubjetiva e não para a arrogância egoística.
É assim que 1 e 7 são representados em Manderlay. Pensava-se que a fazenda possuía um escravo com o espírito do número 1, Timothy, um dos escravos principais do filme. Mas, depois fica esclarecido que, na verdade, a fazenda não possuía nenhum escravo do tipo 1 e que Timothy pertencia antes ao tipo 7. A confusão é explicada pelo fato de que Grace, a personagem principal, desejava ver nesse escravo o princípio da independência libertadora, que serviria como inspiração a todos os outros e a ela mesma. Ela desejava ver nele, em suma, o número 1. De fato, onde estava escrito 7, Grace confundiu-se e leu 1, números parecidos graficamente. Havia ainda uma nota advertindo ter cuidado em relação a Timothy, por tratar-se de um escravo perigoso, pela dissimulação, própria do 7.
Mas por que 1 e 7? Por que dentre tantos números foram escolhidos o número 1 para representar o espírito voltado para si e o número 7 o espírito voltado ao outro? Eis a estranha espécie de coisa que, até agora, só podemos chamar de “coincidência”: o significado desses números no filme correspondem exatamente ao significado que têm na astrologia.
Para ficar mais claro também aos que não sabem nada de astrologia, gostaria de explicar, de movo breve, uma noção básica da astrologia, para além dos signos. Quero dizer, além de signos, a astrologia possui casas. Então, os planetas movem-se não só através de signos, mas também de casas, que são como espaços no céu. Como analogia, comparemos o mapa astral de uma pessoa com uma peça de teatro. No mapa astral de um sujeito, que é um retrato do céu na hora em que ela/ele nasceu, não só o seu Sol estava em um determinado signo (que é a única coisa que a astrologia vulgar costuma destacar), mas também a lua e todos os outros planetas de nosso sistema solar. Sendo assim, cada planeta, sol e lua estavam em um signo e em uma casa. Então, suponhamos que o mapa astral de uma pessoa seja a sua peça de teatro. Nessa peça, os planetas são como os atores; os signos que esses planetas estão são os personagens que esses atores assumem; e as casas que os planetas estão correspondem aos cenários arquetípicos onde se inserem os personagens de uma peça.
Pois bem, as casas possuem números de 1 a 12 e cada um dos quais corresponde, por princípio, a um signo do zodíaco (embora, no mapa de uma pessoa, o signo que está na casa não precisa ser o signo que corresponde por princípio àquela casa). Então, 1 corresponde por princípio ao signo de áries, 2 a touro, 3 a gêmeos e assim respectivamente segundo a ordem dos signos no zodíaco.
Mas tratemos especificamente dos números 1 e 7, que é o que nos interessa. Também na astrologia, 1 representa o primado da independência, do “Eu sou”, a energia vital e personalidade do sujeito, o poder de auto-afirmação e expressão do eu. Já o 7, como no filme, também aqui é o correspondente do princípio camaleão, da intersubjetividade, da capacidade de comprometer-se com o outro, de adaptar a própria personalidade e ceder segundo os desejos do outro. Em 1 eu sou minha própria tela de projeção, mas em 7 me espelho no outro. 1 e 7 são então números complementares, como áries (1) e libra (7). Numa guerra, 1 é o soldado da linha da frente, 7 a esposa pacífica e tradicional que anseia pela volta do amado.
Não me parece um acaso as “coincidências” entre Manderlay e o arquétipo astrológico. Por mais que Lars von Trier, esse brilhante diretor, não tenha talvez qualquer conhecimento astrológico, não me parece irrazoável a possibilidade de que a astrologia, se confirmando ou não “na realidade física”, tenha nos deixado um legado cultural impressionante, influenciando os próprios arquétipos e formas de visão que damos ao mundo. Uma espécie de “inconsciente coletivo”, que, de uma forma ou de outra, nos deixou sua marca indelével e continua nos perpassando, mesmo quando não temos conhecimento dela, como parece fortemente o caso de Manderlay. Quem sabe?! Quem sabe até onde essa impressionante magia pode nos levar?
Um comentário:
Pode ser.
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