Com entusiasmo e medo inicio minha participação neste blog. Tenho o receio de não ser boa o bastante. Para ser suficientemente clara, gostaria de começar falando sobre como esse sentimento remete ao próprio desenvolvimento da criança e transferência que nela se passa de um mundo divino para algo como que um realismo frustrado.
É interessante notar como na criança de pouca idade se forja de maneira destacável o ego auto-centrado e o orgulhoso de si. Acredito ser razoavelmente comum em uma criança, talvez com exceção das que tenham passado por graves situações de rejeição ou de apego inseguro, a sensação de ser o centro do mundo. A sensação, por vezes, de ser a enviada especial de um mundo divino, sendo por conseguinte ela superior a todos os outros. Nesse sentido restrito, a criança expressa uma violência, ela quer se impor como existência mais perfeita que qualquer outra. Os egos infantis são cheios de si, portam não apenas a esperança por toda a vida, mas a utopia e a magia. E nisso elas fazem inveja aos adultos, normalmente tão cansados e resignados ao medíocre, tão pouco encantados diante do mundo. Mas o encanto, tão desejado, nasce do espanto, da surpresa que nos tira do eixo e faz ter vontade de acreditar em algo para além, a utopia.
No caminho da esperança que resta a alguns, os caminhos do adulto não são infinitos: em geral, o amor, a arte, a política, o pensamento ou a religião (que já beira entre a esperança e o conformismo, porque não raro joga o paraíso para uma vida além). Mas, talvez a grande maioria, mais cética e letárgica do que esperançosa, se entrega ao conformismo, ao nada, fruto de duros anos de pura imbecilidade.
Seja como for, a criança traz em si o signo do ego. Mas isso é questão de anos. Não tarda vir sua insegurança, especialmente para aquelas personalidades e aparências mais esquisitas, as que tem baixa cotação e atributos não valorizáveis no mercado de “amigos de quem eu quero ser”, os fracassados, nerds, etc. Essas crianças, que antes eram deus, não têm mais reconhecimento. Elas não encontram a si mesmas em ninguém. A escola normalmente é o palco principal da solidão. Se não tem ao menos 01 amigo, a insignificância chega ao cruel. Mas é irônico notar como em muitos desses “fracassados” se subverte uma espécie de “orgulho nerd”. Tendo poucos a quem se reconhecem, ou mesmo não tendo ninguém, recriam o egocentrismo.
Diante da crise de reconhecimento infanto-juvenil, a escola conformista impõe duas saídas a essas vítimas da insegurança e da baixa auto-estima. O que segue aqui é apenas uma descrição grosseira e arquetípica desses dois tipos de personalidade em vias potenciais de desenvolvimento.
Na primeira dessas personalidades, frente à queda do auto-amor, a criança/adolescente sofre grave risco de que ela procure se tornar aceita buscando ser igual aos outros. Nesse processo, ela modela a si mesma a partir da baixeza dos outros, do conformismo, da assunção das regras, morais e atitudes mais toscas e rebanhescas. Ela forja sua personalidade de maneira tão igual e comum a todos os outros que chega a se esquecer que se trata de imitação e permanece convencida de que, se tem os mesmos hábitos da maior parte das outras pessoas, isto só confirma o fato de que seus desejos e atitudes são dotados de “bom senso”, como já observa de forma semelhante Erich Fromm, em A Arte de Amar. Por trás da mesmice, essas ex-crianças acreditam que pulsa a mais pura individualidade e liberdade do ser. Acreditam que existe uma consciência que escolheu livremente adotar ou não aquelas mais simples posturas. É assim que esses sujeitos passam do fracasso solitário para uma pseudo-unidade com o mundo da mesmice, aquele mundo que nos fazem acreditar que não existe outro, de tal forma que ele passa a parecer o único possível ou mesmo desejável. É o sujeito mais comum e mundano. Mas também é o que encontra maior aceite e união (aparente) com os outros de sua gente. Provavelmente, se nunca vier a ter consciência mais clara desse processo e não for muito perturbado por ansiedades e angústias daqueles que pecam por pensar demais, será razoavelmente feliz!
Na segunda personalidade, o sujeito cria para si uma realidade a parte, um mundo onde, neste sim, finalmente possa ser reconhecido como a criatura mais brilhante e especial que a humanidade já concebeu. É uma pena que o mundo inteiro não possa o perceber, mas ele basta a si mesmo. É um asceta por excelência e sente sua existência como a de um gênio renegado, um Nietzsche, o filósofo não reconhecido em vida. Esse tipo de personalidade não tem muita paciência com o mundo, baixo demais para ele. Esse sujeito julga-se um incompreendido porque supõe as outras mentes inocentes, enquanto na dele reina a suposta consciência. Não se sabe em que medida ele possa ter razão ou excesso de desrazão. Fato é que, apesar de toda a prepotência, a dificuldade para as relações sociais e outros defeitos mais, esse sujeito tem alguma espécie de força em si. Ele retorna ao estado do ego infantil, mas agora consciente. A rejeição o ensinou o egocentrismo, a auto-suficiência, a se satisfazer de seus próprios sonhos. Esse tipo não se satisfaz nesse mundo, mas vive de um outro, que se alimenta de ego, abstrações e fantasia.
Contudo, novamente eis o problema desse tipo: ele ainda precisa do todo. Hebbel, em 1838, já havia percebido esse problema em Napoleão. Diz Peter Szondi (Ensaio sobre o Trágico) a respeito de Hebbel (que, por sua vez, fala de Napoleão) o seguinte: “o erro de Napoleão está no 'fato de ele ter confiança no poder', de 'conseguir realizar tudo por si mesmo, por meio de sua própria pessoa'. Esse erro é 'inteiramente baseado em sua grande individualidade e, em todo o caso, é o erro de um deus'”. Mas “esse erro é 'o bastante para arruiná-lo', 'especialmente em nosso tempo, quando o indivíduo vale menos que a massa'”. Na sua individuação, apesar da fissura com o todo da vida, o indivíduo nunca desta se separa. Ou a idéia, embora não possa se unir à existência, também não pode persistir sozinha. Este é o trágico da existência, a contradição entre idéia e mundo da vida.
Mas existe um terceiro arquétipo do amor a si próprio, nem comum e nem asceta. Não o descreverei, pois ainda é tarefa para mim desvendar esse tipo, que porta a contradição. Intuitivamente, eu diria que ele leva a consciência do asceta, mas consegue mergulhar com sabedoria na sensibilidade. Ele emerge em meio ao mundo, faz como que o aceita e daí surge a sua crítica, como um estado de humor e de trágico do mundano, ele ri do desespero. E aí reside sua diferença em relação ao asceta, que não raro é incapaz de transcender para a existência concreta e, portanto, sempre permanece incompleto e isolado do mundo à sua volta.
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