sábado, 31 de março de 2012

Do conforto à ambição: o futebol e a vida de novo.


O que nos faz mover é a imaginação. Se fossemos criaturas pragmáticas e preguiçosas, ainda estaríamos nas “cavernas”, satisfeitos em procurar a cada dia o alimento suficiente para anular a fome. Mas a natureza humana é a de um ser eternamente insatisfeito.
O filósofo Ernst Bloch afirma que em nossa constituição antropológica, a fome é a primeira forma de vivência a sugerir o descontentamento com o puro presente. Ela nos impele, na aflição contínua que causa, a conceber um futuro livre dela mesma. A consciência aparece aqui pela primeira vez, inteligência antecipadora, projetiva.
É o momento em que o ser humano descobre a dialética dos possíveis: no presente há uma série de possibilidades em potencial, cada uma delas é passível de tornar-se dominante e fatalmente alguma se tornará, dependendo para isso apenas de nossa atividade (ou inatividade). Utopias, distopias, otimismo e pessimismo são as primeiras formas que o futuro humano já assume no presente.
Do ponto de vista coletivo, desmascarar o cinismo e o fatalismo são as necessidades primeiras para quem não se contenta com um futuro medíocre. Só assim seria possível construir uma visão coletiva de um futuro realmente diferente, de um tempo socialmente justo e rico.
Mas e do ponto de vista individual? Como se armar para elevar-se acima do nível da inércia? Duas posturas de vida surgem claramente aos meus olhos, observando exemplos futebolísticos. De um lado, há a alternativa apática de astros como Ronaldinho Gaúcho, que conduzem a própria carreira da maneira mais “confortável” possível, atuando nos limites estáticos de seu gigantesco talento e aproveitando “ao máximo” a vida.
De outro, há um jogador extraordinário como Neymar. Todos se surpreendem com sua evolução vertiginosa, que o levou do nível de um ótimo jogador ao nível de jogador genial e histórico em pouquíssimo tempo. Ele tornou-se mestre em todas as dimensões técnicas possíveis, assim como na inteligência tática e na postura disciplinar. E contrariando a “voz da experiência” de muitos ex-ídolos do futebol nacional, recusou-se a vender-se para o futebol europeu. Não só não parece ter desperdiçado potencial com essa escolha, como, de fato, já superou em prestígio e habilidade todos os jogadores que recomendavam seus caminhos para ele.
Parece claro que a valorização fantástica de Neymar não se deve a uma superioridade inata em relação a todos os jogadores brasileiros das últimas décadas. O que acontece é que as escolhas pessoais e a circunstância histórica onde vive Neymar não são as mesmas de seus antecessores.
O empoderamento dos times nacionais levou à ideia de que seria plausível ter astros e grandes times por aqui. O tradicional apego brasileiro ao gênio, maestro do time, somado à falta de super-hérois nos últimos campeonatos e à proximidade da Copa de 14, gerou também a urgência de tal ídolo.
Mas esse sonho era vago e dependia muito da sorte. Foi aí que entrou Neymar com sua intuição de vanguardeiro, a frente de nossas atuais condições, assessorado pela sensatez e dedicação do pai. Deveu-se muito ainda ao inteligente presidente do clube dele, Santos F.C., e ainda com a mística eterna desse escudo. Assim, o gênio não aceitou distanciar-se de sua base social para tornar-se uma distante esperança europeia. Tal decisão o manteve com seus pés em seu chão, assegurou-o no lugar mais fértil para desenvolver-se. Aqui não pode contentar-se em ser mais um “grande talento”, não pode contentar-se em aproveitar sua sorte, não pode contentar-se em ser uma estrela acomodada e satisfeita. E todo esse não contentar-se, foi ele quem escolheu. Mantendo-se no Brasil, Neymar disse não ao senso comum e resolveu abrir uma trilha nova em que não pode ser convencional, tem que superar-se, ir além de si para realizar o sonho coletivo, tentar realizar a utopia do futebol arte.
Entre determinismos e escolhas, aqui se mostra como é possível ir além do ordinário. Como acontece no futebol, acontece na vida: ou seja, quem é mais desafiador vai sempre mais longe, embora, em nossa época, o caminho seja sempre turbulento e cheio de riscos.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Lars von Trier, astrologia, Manderlay e 1 e 7


Não pretendo aqui buscar evidências de que Lars von Trier, diretor de Manderlay, tenha conhecimentos ou interesse pela astrologia. Se essa fosse minha tarefa, dificilmente teria evidências muito explícitas. Não pretendo também me debruçar sobre Melancolia, seu mais recente filme (2011), que, à primeira vista, parece ser aquele com maior afinidade direta ao mundo dos astros. Apenas a título de curiosidade (para aqueles que ainda não o viram), Melancolia trata da aproximação à Terra de um planeta chamado Melancolia e de sua relação com a própria falta de sentido da vida.

Mas o que pretendo pensar é sobre um outro filme, Manderlay (2005), segundo de uma trilogia pretendida pelo diretor sobre os Estados Unidos (iniciada com Dogville, 2003, mas que ficou interminada, pois o terceiro e último filme jamais foi feito). Manderlay conta a história contraditória do significado da libertação dos escravos naquele país. Após chegar a uma fazenda no Alabama, Grace, uma jovem idealista, filha de um poderoso gângster, surpreende-se com a manutenção da escravatura na fazenda, mesmo após a abolição oficial daquele regime. Mobilizada, Grace, com a ajuda dos capangas de seu pai, decide interferir na política local, instaurando ali finalmente uma libertação daquela condição e um novo regime, um negócio local nos moldes burgueses. Mas o desrespeito à Lei da Senhora (a senhora era a autoridade máxima dentro da fazenda e sua lei o signo do regime escravocrata), naqueles moldes, poderia causar uma grande tragédia? Onde deveria estar a libertação não acabou se consumando a própria queda? Os Estados Unidos estava preparado para recebê-los? Havia esperança para eles fora da fazenda? Ou, como apresenta a descrição de um panfleto sobre o filme: “os laços que regem estas relações [entre patrões e empregados] são bem mais complexos do que ela [Grace] pensava”.

Mas, novamente, o que quero pensar aqui não é uma análise de Manderlay, mas uma curiosa e sutil “coincidência” de um detalhe do filme com o conhecimento astrológico. Trata-se do seguinte: a Lei da Senhora, de Manderlay, consistia em um grande livro que expunha a espécie de contrato social e regras vigentes na fazenda, uma forma de manter a ordem. Dentre essas regras, uma delas estipulava a quantidade de alimento que deveria ser fornecida para cada escravo, os quais, por sua vez, eram divididos em tipos psicológicos, ordenados em números. Cada número representava uma personalidade psicológica e nele estava inscrito todos os escravos pertencentes àquele tipo. Havia os escravos fracassados, os arrogantes, os palhaços, os amáveis, os adaptáveis, etc. Mas, dentre as personalidades descritas, as que mais me chamaram a atenção foram as dos números 1 e 7.

O número 1 correspondia aos escravos arrogantes, aqueles com espírito questionador, rebeldes, altivos e que não aceitam a subserviência. Representa uma personalidade forte, que se impõe ativamente e funciona como uma liderança em relação às outras. Essa personalidade tem força individual por excelência e representa um espírito vaidoso e orgulhoso de si. Ela é o signo da personalidade ativa em si.

Já o número 7 é o escravo-camaleão, aquele que se mostra segundo a ocasião: ele se apresenta de acordo com o desejo dos olhos de quem o vê. É adaptável, mutável segundo o outro. 1 é expressão do indivíduo, da personalidade formada e ativa do próprio sujeito, do próprio ego, da independência sobretudo, do voltar-se para si. 7 é o outro, eu não me formo segundo a mim mesmo, mas sou mediado pelo outro, pelas necessidades do outro. De certa forma, o 7 não toma posição. Ele sempre fica em cima do muro, indecidido, porque vai de acordo com as circunstâncias mais favoráveis. É mutável e volta-se para o outro, para a relação intersubjetiva e não para a arrogância egoística.

É assim que 1 e 7 são representados em Manderlay. Pensava-se que a fazenda possuía um escravo com o espírito do número 1, Timothy, um dos escravos principais do filme. Mas, depois fica esclarecido que, na verdade, a fazenda não possuía nenhum escravo do tipo 1 e que Timothy pertencia antes ao tipo 7. A confusão é explicada pelo fato de que Grace, a personagem principal, desejava ver nesse escravo o princípio da independência libertadora, que serviria como inspiração a todos os outros e a ela mesma. Ela desejava ver nele, em suma, o número 1. De fato, onde estava escrito 7, Grace confundiu-se e leu 1, números parecidos graficamente. Havia ainda uma nota advertindo ter cuidado em relação a Timothy, por tratar-se de um escravo perigoso, pela dissimulação, própria do 7.

Mas por que 1 e 7? Por que dentre tantos números foram escolhidos o número 1 para representar o espírito voltado para si e o número 7 o espírito voltado ao outro? Eis a estranha espécie de coisa que, até agora, só podemos chamar de “coincidência”: o significado desses números no filme correspondem exatamente ao significado que têm na astrologia.

Para ficar mais claro também aos que não sabem nada de astrologia, gostaria de explicar, de movo breve, uma noção básica da astrologia, para além dos signos. Quero dizer, além de signos, a astrologia possui casas. Então, os planetas movem-se não só através de signos, mas também de casas, que são como espaços no céu. Como analogia, comparemos o mapa astral de uma pessoa com uma peça de teatro. No mapa astral de um sujeito, que é um retrato do céu na hora em que ela/ele nasceu, não só o seu Sol estava em um determinado signo (que é a única coisa que a astrologia vulgar costuma destacar), mas também a lua e todos os outros planetas de nosso sistema solar. Sendo assim, cada planeta, sol e lua estavam em um signo e em uma casa. Então, suponhamos que o mapa astral de uma pessoa seja a sua peça de teatro. Nessa peça, os planetas são como os atores; os signos que esses planetas estão são os personagens que esses atores assumem; e as casas que os planetas estão correspondem aos cenários arquetípicos onde se inserem os personagens de uma peça.

Pois bem, as casas possuem números de 1 a 12 e cada um dos quais corresponde, por princípio, a um signo do zodíaco (embora, no mapa de uma pessoa, o signo que está na casa não precisa ser o signo que corresponde por princípio àquela casa). Então, 1 corresponde por princípio ao signo de áries, 2 a touro, 3 a gêmeos e assim respectivamente segundo a ordem dos signos no zodíaco.

Mas tratemos especificamente dos números 1 e 7, que é o que nos interessa. Também na astrologia, 1 representa o primado da independência, do “Eu sou”, a energia vital e personalidade do sujeito, o poder de auto-afirmação e expressão do eu. Já o 7, como no filme, também aqui é o correspondente do princípio camaleão, da intersubjetividade, da capacidade de comprometer-se com o outro, de adaptar a própria personalidade e ceder segundo os desejos do outro. Em 1 eu sou minha própria tela de projeção, mas em 7 me espelho no outro. 1 e 7 são então números complementares, como áries (1) e libra (7). Numa guerra, 1 é o soldado da linha da frente, 7 a esposa pacífica e tradicional que anseia pela volta do amado.

Não me parece um acaso as “coincidências” entre Manderlay e o arquétipo astrológico. Por mais que Lars von Trier, esse brilhante diretor, não tenha talvez qualquer conhecimento astrológico, não me parece irrazoável a possibilidade de que a astrologia, se confirmando ou não “na realidade física”, tenha nos deixado um legado cultural impressionante, influenciando os próprios arquétipos e formas de visão que damos ao mundo. Uma espécie de “inconsciente coletivo”, que, de uma forma ou de outra, nos deixou sua marca indelével e continua nos perpassando, mesmo quando não temos conhecimento dela, como parece fortemente o caso de Manderlay. Quem sabe?! Quem sabe até onde essa impressionante magia pode nos levar?

Ego e utopia


Com entusiasmo e medo inicio minha participação neste blog. Tenho o receio de não ser boa o bastante. Para ser suficientemente clara, gostaria de começar falando sobre como esse sentimento remete ao próprio desenvolvimento da criança e transferência que nela se passa de um mundo divino para algo como que um realismo frustrado.

É interessante notar como na criança de pouca idade se forja de maneira destacável o ego auto-centrado e o orgulhoso de si. Acredito ser razoavelmente comum em uma criança, talvez com exceção das que tenham passado por graves situações de rejeição ou de apego inseguro, a sensação de ser o centro do mundo. A sensação, por vezes, de ser a enviada especial de um mundo divino, sendo por conseguinte ela superior a todos os outros. Nesse sentido restrito, a criança expressa uma violência, ela quer se impor como existência mais perfeita que qualquer outra. Os egos infantis são cheios de si, portam não apenas a esperança por toda a vida, mas a utopia e a magia. E nisso elas fazem inveja aos adultos, normalmente tão cansados e resignados ao medíocre, tão pouco encantados diante do mundo. Mas o encanto, tão desejado, nasce do espanto, da surpresa que nos tira do eixo e faz ter vontade de acreditar em algo para além, a utopia.

No caminho da esperança que resta a alguns, os caminhos do adulto não são infinitos: em geral, o amor, a arte, a política, o pensamento ou a religião (que já beira entre a esperança e o conformismo, porque não raro joga o paraíso para uma vida além). Mas, talvez a grande maioria, mais cética e letárgica do que esperançosa, se entrega ao conformismo, ao nada, fruto de duros anos de pura imbecilidade.

Seja como for, a criança traz em si o signo do ego. Mas isso é questão de anos. Não tarda vir sua insegurança, especialmente para aquelas personalidades e aparências mais esquisitas, as que tem baixa cotação e atributos não valorizáveis no mercado de “amigos de quem eu quero ser”, os fracassados, nerds, etc. Essas crianças, que antes eram deus, não têm mais reconhecimento. Elas não encontram a si mesmas em ninguém. A escola normalmente é o palco principal da solidão. Se não tem ao menos 01 amigo, a insignificância chega ao cruel. Mas é irônico notar como em muitos desses “fracassados” se subverte uma espécie de “orgulho nerd”. Tendo poucos a quem se reconhecem, ou mesmo não tendo ninguém, recriam o egocentrismo.

Diante da crise de reconhecimento infanto-juvenil, a escola conformista impõe duas saídas a essas vítimas da insegurança e da baixa auto-estima. O que segue aqui é apenas uma descrição grosseira e arquetípica desses dois tipos de personalidade em vias potenciais de desenvolvimento.

Na primeira dessas personalidades, frente à queda do auto-amor, a criança/adolescente sofre grave risco de que ela procure se tornar aceita buscando ser igual aos outros. Nesse processo, ela modela a si mesma a partir da baixeza dos outros, do conformismo, da assunção das regras, morais e atitudes mais toscas e rebanhescas. Ela forja sua personalidade de maneira tão igual e comum a todos os outros que chega a se esquecer que se trata de imitação e permanece convencida de que, se tem os mesmos hábitos da maior parte das outras pessoas, isto só confirma o fato de que seus desejos e atitudes são dotados de “bom senso”, como já observa de forma semelhante Erich Fromm, em A Arte de Amar. Por trás da mesmice, essas ex-crianças acreditam que pulsa a mais pura individualidade e liberdade do ser. Acreditam que existe uma consciência que escolheu livremente adotar ou não aquelas mais simples posturas. É assim que esses sujeitos passam do fracasso solitário para uma pseudo-unidade com o mundo da mesmice, aquele mundo que nos fazem acreditar que não existe outro, de tal forma que ele passa a parecer o único possível ou mesmo desejável. É o sujeito mais comum e mundano. Mas também é o que encontra maior aceite e união (aparente) com os outros de sua gente. Provavelmente, se nunca vier a ter consciência mais clara desse processo e não for muito perturbado por ansiedades e angústias daqueles que pecam por pensar demais, será razoavelmente feliz!

Na segunda personalidade, o sujeito cria para si uma realidade a parte, um mundo onde, neste sim, finalmente possa ser reconhecido como a criatura mais brilhante e especial que a humanidade já concebeu. É uma pena que o mundo inteiro não possa o perceber, mas ele basta a si mesmo. É um asceta por excelência e sente sua existência como a de um gênio renegado, um Nietzsche, o filósofo não reconhecido em vida. Esse tipo de personalidade não tem muita paciência com o mundo, baixo demais para ele. Esse sujeito julga-se um incompreendido porque supõe as outras mentes inocentes, enquanto na dele reina a suposta consciência. Não se sabe em que medida ele possa ter razão ou excesso de desrazão. Fato é que, apesar de toda a prepotência, a dificuldade para as relações sociais e outros defeitos mais, esse sujeito tem alguma espécie de força em si. Ele retorna ao estado do ego infantil, mas agora consciente. A rejeição o ensinou o egocentrismo, a auto-suficiência, a se satisfazer de seus próprios sonhos. Esse tipo não se satisfaz nesse mundo, mas vive de um outro, que se alimenta de ego, abstrações e fantasia.

Contudo, novamente eis o problema desse tipo: ele ainda precisa do todo. Hebbel, em 1838, já havia percebido esse problema em Napoleão. Diz Peter Szondi (Ensaio sobre o Trágico) a respeito de Hebbel (que, por sua vez, fala de Napoleão) o seguinte: “o erro de Napoleão está no 'fato de ele ter confiança no poder', de 'conseguir realizar tudo por si mesmo, por meio de sua própria pessoa'. Esse erro é 'inteiramente baseado em sua grande individualidade e, em todo o caso, é o erro de um deus'”. Mas “esse erro é 'o bastante para arruiná-lo', 'especialmente em nosso tempo, quando o indivíduo vale menos que a massa'”. Na sua individuação, apesar da fissura com o todo da vida, o indivíduo nunca desta se separa. Ou a idéia, embora não possa se unir à existência, também não pode persistir sozinha. Este é o trágico da existência, a contradição entre idéia e mundo da vida.

Mas existe um terceiro arquétipo do amor a si próprio, nem comum e nem asceta. Não o descreverei, pois ainda é tarefa para mim desvendar esse tipo, que porta a contradição. Intuitivamente, eu diria que ele leva a consciência do asceta, mas consegue mergulhar com sabedoria na sensibilidade. Ele emerge em meio ao mundo, faz como que o aceita e daí surge a sua crítica, como um estado de humor e de trágico do mundano, ele ri do desespero. E aí reside sua diferença em relação ao asceta, que não raro é incapaz de transcender para a existência concreta e, portanto, sempre permanece incompleto e isolado do mundo à sua volta.