O que nos faz mover é a imaginação. Se fossemos criaturas pragmáticas e preguiçosas, ainda estaríamos nas “cavernas”, satisfeitos em procurar a cada dia o alimento suficiente para anular a fome. Mas a natureza humana é a de um ser eternamente insatisfeito.
O filósofo Ernst Bloch afirma que em nossa constituição antropológica, a fome é a primeira forma de vivência a sugerir o descontentamento com o puro presente. Ela nos impele, na aflição contínua que causa, a conceber um futuro livre dela mesma. A consciência aparece aqui pela primeira vez, inteligência antecipadora, projetiva.
É o momento em que o ser humano descobre a dialética dos possíveis: no presente há uma série de possibilidades em potencial, cada uma delas é passível de tornar-se dominante e fatalmente alguma se tornará, dependendo para isso apenas de nossa atividade (ou inatividade). Utopias, distopias, otimismo e pessimismo são as primeiras formas que o futuro humano já assume no presente.
Do ponto de vista coletivo, desmascarar o cinismo e o fatalismo são as necessidades primeiras para quem não se contenta com um futuro medíocre. Só assim seria possível construir uma visão coletiva de um futuro realmente diferente, de um tempo socialmente justo e rico.
Mas e do ponto de vista individual? Como se armar para elevar-se acima do nível da inércia? Duas posturas de vida surgem claramente aos meus olhos, observando exemplos futebolísticos. De um lado, há a alternativa apática de astros como Ronaldinho Gaúcho, que conduzem a própria carreira da maneira mais “confortável” possível, atuando nos limites estáticos de seu gigantesco talento e aproveitando “ao máximo” a vida.
De outro, há um jogador extraordinário como Neymar. Todos se surpreendem com sua evolução vertiginosa, que o levou do nível de um ótimo jogador ao nível de jogador genial e histórico em pouquíssimo tempo. Ele tornou-se mestre em todas as dimensões técnicas possíveis, assim como na inteligência tática e na postura disciplinar. E contrariando a “voz da experiência” de muitos ex-ídolos do futebol nacional, recusou-se a vender-se para o futebol europeu. Não só não parece ter desperdiçado potencial com essa escolha, como, de fato, já superou em prestígio e habilidade todos os jogadores que recomendavam seus caminhos para ele.
Parece claro que a valorização fantástica de Neymar não se deve a uma superioridade inata em relação a todos os jogadores brasileiros das últimas décadas. O que acontece é que as escolhas pessoais e a circunstância histórica onde vive Neymar não são as mesmas de seus antecessores.
O empoderamento dos times nacionais levou à ideia de que seria plausível ter astros e grandes times por aqui. O tradicional apego brasileiro ao gênio, maestro do time, somado à falta de super-hérois nos últimos campeonatos e à proximidade da Copa de 14, gerou também a urgência de tal ídolo.
Mas esse sonho era vago e dependia muito da sorte. Foi aí que entrou Neymar com sua intuição de vanguardeiro, a frente de nossas atuais condições, assessorado pela sensatez e dedicação do pai. Deveu-se muito ainda ao inteligente presidente do clube dele, Santos F.C., e ainda com a mística eterna desse escudo. Assim, o gênio não aceitou distanciar-se de sua base social para tornar-se uma distante esperança europeia. Tal decisão o manteve com seus pés em seu chão, assegurou-o no lugar mais fértil para desenvolver-se. Aqui não pode contentar-se em ser mais um “grande talento”, não pode contentar-se em aproveitar sua sorte, não pode contentar-se em ser uma estrela acomodada e satisfeita. E todo esse não contentar-se, foi ele quem escolheu. Mantendo-se no Brasil, Neymar disse não ao senso comum e resolveu abrir uma trilha nova em que não pode ser convencional, tem que superar-se, ir além de si para realizar o sonho coletivo, tentar realizar a utopia do futebol arte.
Entre determinismos e escolhas, aqui se mostra como é possível ir além do ordinário. Como acontece no futebol, acontece na vida: ou seja, quem é mais desafiador vai sempre mais longe, embora, em nossa época, o caminho seja sempre turbulento e cheio de riscos.