Lances polêmicos e equívocos de
arbitragem em jogos da última Copa Do Mundo e da Eurocopa fizeram com que
diversas pessoas relacionadas ao futebol se indignassem com a “injustiça” contra certas seleções e exigissem
a implementação, por parte da FIFA (entidade dona do futebol mundial), de tecnologias
auxiliares ao juiz. Seriam tecnologias como o uso de um “chip” na bola para
averiguar com precisão se ela entrou ou não no gol em cada lance; como a
revisão computadorizada de lances de possível impedimento; análise técnica, por
meio de vídeos, de lances faltosos e particularmente de pênaltis, etc.
A
FIFA, desde o início, mostrou-se resistente à ideia. Os motivos podem ser
vários: desde a tendência natural ao conservadorismo dos velhinhos que dirigem
a entidade, passando pelos interesses econômicos de patente das possíveis tecnologias,
até a consideração séria de que o futebol poderia tornar-se um esporte
chatíssimo se a tecnologia fosse empregada nele da maneira como é no tênis, por
exemplo. Parece-me que essa terceira possível razão para o não emprego da
tecnologia no futebol é a que merece uma visada mais detida, pois é a única razão para dar um veredito futebolisticamente sério ao impasse e, ademais, é a de maior complexidade teórica.
Respondendo
a um jornalista sobre a sua não aprovação do uso de tecnologias no campo de
jogo, Michel Platini, ex-craque francês e presidente da UEFA (federação do
futebol europeu), respondeu que poderia estar dando aquela entrevista por teleconferência
e, no entanto, estava ali frente a frente com o repórter. A resposta pode parecer banal, mas não o é, seu significa é o de que a carnalidade e concretude do contato humano é um elemento a se considerar. Em contrapartida, há os
que afirmam com embasamento histórico que “não é justo uma seleção preparar-se por quatro anos para uma
disputa e ter todo o seu trabalho jogado fora perante um erro de arbitragem”.
De
fato, um lance injusto foi o que se passou com a Inglaterra na última Copa (Alemanha
4 X 1 Inglaterra [2010]), quando um gol seu, que poderia mudar a história do jogo, ultrapassou
por uns poucos centímetros a linha da meta, mas não foi reconhecido; na atual
Eurocopa (Ucrania 0 X 1 Inglaterra [2012]), por
sua vez, um fôlego extra lhe foi dado, quando levou um gol que a poderia ter
eliminado de maneira mais rápida, mas que não foi visto sequer pelo árbitro da
linha do gol, que a FIFA inventou somente para esse tipo de situação.
Considerando
seriamente o argumento retórico de Platini e a indignação de seus adversários,
não precisaremos sequer considerar números, pois são polêmicos: a proporção
baixíssima de gols mal anulados ou mal concedidos, pode, com igual razão, ser
considerada altíssima a partir de considerações sobre seu impacto em jogos específicos
e na história geral da competição. Ou seja, nos foquemos apenas nas consequências abstratas
da implementação dos conceitos de cada lado da contenda.
Se o futebol tiver suas regras
modificadas, como parece ser a tendência no médio prazo, então teremos a
segurança de saber que alguns lances decisivos poderão ser avaliados por uma
comissão de juízes e dificultaremos significativamente a situação de uma
seleção ter suas chances de vitória reduzidas por um erro técnico do juiz. Por
outro lado, fica por discutir o método para decidir quais serão os lances reavaliados com o
uso da tecnologia, se cada time teria um número limitado de solicitações ou se
o próprio juiz escolheria em que momentos precisaria de ajuda.
É
fundamental destacar o caráter de arbítrio envolvido em qualquer dos métodos
aventados, afinal não se pode querer interromper o jogo a todo momento, sob
pena de tornar o esporte insuportável e inviável, ou seja, o realismo ingênuo a
motivar muitos dos defensores da tecnologia já está em causa - seja qual for o
instrumento de análise - porque até hoje nada se inventou que controle o
caráter subjetivo e decisório no próprio uso da tecnologia. Assim, a realidade
continuará a não ser um livro aberto não importando quantas câmeras se espalhem
pelo mundo ou pelo campo de futebol.
Quanto
ao jeito atual de jogar bola, trata-se de ressaltar a infinita limitação das
puras imagens (paradas ou em movimento) e a beleza e verdade do movimento real
das coisas. Como se sabe, a maior parte das polêmicas em futebol envolve a
interpretação, posto que a possibilidade de mensuração física limita-se aos
casos de impedimento ou entrada ou não da bola no gol. Não se pode nem em
hipótese criar uma máquina para avaliar a intenção de um jogador colocar a mão
na bola, a situação de simulação ou realidade de uma contusão que atrasa o jogo
e põe em questão a violência do adversário faltoso, a maldade de uma dividida
simples, se a “lei da vantagem” deve ou não ser aplicada em cada caso
particular, etc.
Mais
grave que tudo isso, é o fato de que nos é vedado saber até que ponto qualquer
lance isolado no jogo poderá ter consequências gerais e mudar toda a história.
É óbvio que o chamado “efeito borboleta” tem sua efetividade tão em curso numa
partida de futebol quanto em qualquer outro evento do mundo humano ou não
humano. Por conseguinte, do pequeno encontrão que desloca o adversário ilegalmente
pode originar-se, dez toques de bola depois, o gol necessário para a vitória ou
até a simples desestabilização da vítima que revidará mais forte e será expulsa
na jogada seguinte.
Evitando
aprofundar-me num relativismo que seria cínico e pouco realista, devo concluir
o texto apenas insistindo na dialética do esporte a qual já me referi algumas
vezes. Claro que no jogo há uma lógica não arbitrária e há erros muito prejudiciais
e outros nem tanto, porém diferenciá-los é necessariamente uma atividade humana
e todas as máquinas que se queira usar servirão apenas como mecanismo (eu
diria, ideológico) para fingir que a ordem e a justiça reinam em um mundo (ou
jogo, que o imita, afinal) no qual isto está bem longe de acontecer e quando
vier a acontecer, no comunismo, ainda assim não eliminará o aspecto
imprevisível e imponderável da vida, ao contrário, o ampliará.
Sendo
assim, defendo que se entenda o futebol seja entendido até certo ponto como
beneficamente injusto. Quem realmente acredita que um impedimento dez
centímetros mereça ser marcado e alterar o que pode ser uma bela vitória em um
jogo? Quem pode alegar que uma bola que penetra um centímetro no gol e é parada
pelo corpo do goleiro em queda é muito mais gol do que aquela que parou
caprichosamente na exata linha do gol? Como se pode levar a sério a ideia de
que uma bola desviada pelo juiz, que é elemento neutro, e que entre no gol terá
sido justa enquanto a anulação de um gol em que a desesperada bicicleta do
zagueiro que tirou a bola da baliza com um milésimo de atraso? O segredo está
justamente na ideia do elemento neutro, devemos conceber um jogo com mais
elementos neutros e não com menos: torcida, estado físico e mental de cada
participante no jogo no dia da partida, gritos de dentro e fora do campo, erros
razoáveis do juiz, tudo isso faz parte do mundo da bola e quem não o entende
racionalmente não deixa de compreendê-lo no entusiasmo do jogo.
Edição posterior: Agora estamos
em meio a Copa da Confederações [2013] e em meio a muitos eventos importantes
fora de campo, no entanto, vem a calhar um exemplo empírico do que disse no
texto acima. O último jogo do Brasil na primeira fase da competição teve seis
gols, quatro nossos e dois dos italianos.
1º.
Ao final do primeiro tempo, quando o Brasil já tinha cansado de mostrar que era
superior à Itália, Neymar fez um cruzamento e o zagueiro Dante, que tinha
entrado por causa da contusão de David Luiz, aproveitou a sobra da cabeçada de
Fred e abriu o placar. Ocorre que, depois de revisada a imagem algumas vezes,
na televisão se chegou à conclusão de que, no momento da cabeçada, menos do que
um pé do zagueiro estava à frente do penúltimo defensor, ou seja: impedimento!
2º.
O primeiro gol da Itália, por sua vez, saiu de um lance muito rápido e
improvável do craque Balotelli, de uma pequena distração do (grande) zagueiro
Thiago Silva e da boa finalização de Jaqueline.
3º
O segundo gol do Brasil nasceu de uma cobrança de falta espetacular de Neymar,
que colocou a bola rápida e com efeito no extremo do cantinho esquerdo de
Buffon. Bastava um insignificante variação de ângulo ou até interferência natural
para a bola ir na trave. Ainda há uma indecidível polêmica acerca de se a falta
em Neymar originalmente existiu ou se o atacante induziu o árbitro ao erro em
sua forma de cair.
4º
Fred instigado pelo jejum de gols (2 jogos) enfatizado pela imprensa resiste ao
empurra-empurra com o zagueiro italiano e chuta bem a bola pro gol. 3 a 1.
5
º A Itália reage e faz seu segundo gol. O problema agora é que, antes da bola ser
chutada e estufar a rede, Balotelli tinha sofrido um pênalti dentro da pequena
área e o juiz tinha apitado! Ou seja, com a penalidade marcada, não podia
validar o gol e devia anulá-lo e mandar algum italiano para a marca do pênalti.
Não foi o que ele fez!
6
º A Itália vinha pressionando e o Brasil estava recuado, embora o clima geral da
torcida anima ainda era de que nosso time estava muito melhor na partida. No
entanto, num contra-ataque, Fred pegou um rebote e fez mais um realizando seu
desejo de alcançar Jô, o outro centroavante da seleção que já contava com dois
gols.
Placar
final: 4 a 2. O espírito da torcida e imprensa claramente é favorável e até
muito empolgado com a melhora do Brasil. Na imprensa de outros países e entre
os jogadores derrotados, também domina inteiramente a versão de que o Brasil
está avassalador. A torcida permanece engrenada e disposta a animar seus
atletas e amedrontar os demais nos próximos jogos. Diremos que todos estão
enganados? Seríamos mais sensatos se concluíssemos formalmente que um jogo com
tantos erros, casualidades e elementos externos não poderia sequer ser validado
e ainda menos índice de eficiência do vencedor?