Há não muito vi os dois filmes
absolutamente diversos. Até certo ponto, a diferença é bíblica, o simples pau-mandado
e o líder nobre. Mas há também o enfoque dos diretores Ridley Scott e Aronofsky.
O
descendente de Set carrega sobre suas costas a tarefa de representar todas as gerações
de homens justos desde a criação em oposição àqueles que têm por ancestral
Caim, que havia matado o também justo Abel. Noé cumpre sua tarefa de maneira impiedosa e,
seguindo ordem Divina, deixa morrerem até os mais inofensivos exemplares da “linhagem
impura”.
O
dilema ético poderia ser explorado de maneira muito rica e em aberto tom de
releitura, tendo em vista que o mesmo reformismo foi aplicado no que diz
respeito à fusão pluralista entre criacionismo e teorias científicas, além da
explicação compreensiva entre as divergências de Noé e do filho Cã, não mais amaldiçoado
pelo pai e progenitor dos escravos negros.
A
estética de tolerância passou longe do conteúdo moral do protagonista. Noé é um
tirano patriarcal do pior tipo: não só se mantém inflexível perante o desespero
dos incontáveis afogados como tenta matar os netos para eliminar de vez a raça
humana, tal como entendia ter Deus ordenado. Como um machão estadunidense,
esmaga os opositores ao seu plano e até a fraqueza final de não matar os netos
é 100% vontade e responsabilidade sua.
O
Moisés dos cinemas, por outro lado, é quase um guerreiro multicultural,
compreensivo, apaixonado pela mulher e hábil em batalha. As guinadas em sua
vida, da corte egípicia ao exílio e do exílio à resistência escrava judia, são
fruto do Destino, mas em igual medida de sua conduta. Quando, por exemplo, é
expulso da corte e poupado da morte por Ramsés, a ambiguidade deste cruel rei,
entre querê-lo longe e amá-lo, deriva de sua amizade e de ter já salvado a vida
do então futuro faraó.
O
mais interessante, no entanto, é sua relação para com Deus. Na película, a
representação infantil de Deus já deixa margem para uma ambiguidade
interpretativa, que veda uma interpretação definitiva acerca da natureza do
ser superior com o qual ele lida, se o Deu Único ou uma espécie de emissário falível.
Quando
Deus joga as 7 pragas sobre o Egito, Moisés repudia com todo vigor a maldição
sobre as crianças de seus inimigos e mostra uma empatia pelos inimigos dez
vezes maior do que o próprio ódio de Noé contra os seus. O Deus infante ri
dessa força de personalidade e se deixa seduzir por ela, dizendo ser
interessante o fato de que aquele seu servo nem sempre concordar com seus
atos e desígnios, de ter independência (!).
As
duas abordagens simbolizam duas quase opostas ideologias, apesar de versarem
ambas sobre matérias do Velho Testamento. A primeira em tudo se assemelha às
hierarquias tradicionais, ao dogmatismo e caráter centrado. Noé representa o pior lado do progresso, a impiedade, o meios justificados pelos fins, que sempre resultam em fins deturpados pelos meios. Já a segunda se
aproxima do caráter multicultural, da interpenetrabilidade entre bem e mal e das metas espaciais de
uma ética da comunicação e tolerância. Moisés, no entanto, não cai no individualismo pluralista e mantém seus mandamentos, suas cláusulas pétreas, seus princípios.
Um comentário:
Gostei da comparação do Noé do filme ao tirano patriarcal. Noé é um ogro que executa ordens, surdo e mudo à realidade objetiva, em contraste a Moisés, que é personalidade ativa, com livre-arbítrio e crítica em relação ao poder transcendente.
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