sábado, 14 de fevereiro de 2015

Noé e Moisés nas videologias contemporâneas.



              Há não muito vi os dois filmes absolutamente diversos. Até certo ponto, a diferença é bíblica, o simples pau-mandado e o líder nobre. Mas há também o enfoque dos diretores Ridley Scott e Aronofsky.
                O descendente de Set carrega sobre suas costas a tarefa de representar todas as gerações de homens justos desde a criação em oposição àqueles que têm por ancestral Caim, que havia matado o também justo Abel.  Noé cumpre sua tarefa de maneira impiedosa e, seguindo ordem Divina, deixa morrerem até os mais inofensivos exemplares da “linhagem impura”.
                O dilema ético poderia ser explorado de maneira muito rica e em aberto tom de releitura, tendo em vista que o mesmo reformismo foi aplicado no que diz respeito à fusão pluralista entre criacionismo e teorias científicas, além da explicação compreensiva entre as divergências de Noé e do filho Cã, não mais amaldiçoado pelo pai e progenitor dos escravos negros.
                A estética de tolerância passou longe do conteúdo moral do protagonista. Noé é um tirano patriarcal do pior tipo: não só se mantém inflexível perante o desespero dos incontáveis afogados como tenta matar os netos para eliminar de vez a raça humana, tal como entendia ter Deus ordenado. Como um machão estadunidense, esmaga os opositores ao seu plano e até a fraqueza final de não matar os netos é 100% vontade e responsabilidade sua.
                O Moisés dos cinemas, por outro lado, é quase um guerreiro multicultural, compreensivo, apaixonado pela mulher e hábil em batalha. As guinadas em sua vida, da corte egípicia ao exílio e do exílio à resistência escrava judia, são fruto do Destino, mas em igual medida de sua conduta. Quando, por exemplo, é expulso da corte e poupado da morte por Ramsés, a ambiguidade deste cruel rei, entre querê-lo longe e amá-lo, deriva de sua amizade e de ter já salvado a vida do então futuro faraó.
                O mais interessante, no entanto, é sua relação para com Deus. Na película, a representação infantil de Deus já deixa margem para uma ambiguidade interpretativa, que veda uma interpretação definitiva acerca da natureza do ser superior com o qual ele lida, se o Deu Único ou uma espécie de emissário falível.
                Quando Deus joga as 7 pragas sobre o Egito, Moisés repudia com todo vigor a maldição sobre as crianças de seus inimigos e mostra uma empatia pelos inimigos dez vezes maior do que o próprio ódio de Noé contra os seus. O Deus infante ri dessa força de personalidade e se deixa seduzir por ela, dizendo ser interessante o fato de que aquele seu servo nem sempre concordar com seus atos e desígnios, de ter independência (!).
                As duas abordagens simbolizam duas quase opostas ideologias, apesar de versarem ambas sobre matérias do Velho Testamento. A primeira em tudo se assemelha às hierarquias tradicionais, ao dogmatismo e caráter centrado. Noé representa o pior lado do progresso, a impiedade, o meios justificados pelos fins, que sempre resultam em fins deturpados pelos meios. Já a segunda se aproxima do caráter multicultural, da interpenetrabilidade entre bem e mal e das metas espaciais de uma ética da comunicação e tolerância. Moisés, no entanto, não cai no individualismo pluralista e mantém seus mandamentos, suas cláusulas pétreas, seus princípios.

Um comentário:

Aisha disse...

Gostei da comparação do Noé do filme ao tirano patriarcal. Noé é um ogro que executa ordens, surdo e mudo à realidade objetiva, em contraste a Moisés, que é personalidade ativa, com livre-arbítrio e crítica em relação ao poder transcendente.