“A poesia [ficção] é mais fina e mais filosófica do que a história;
porque a poesia expressa o universo, e a história somente o detalhe.” (Aristóteles
– A Poética)
Eles estão em toda parte e é tanto mais fácil nos enganarmos quanto mais próximos eles estão de nós, tanto na ficção quanto na vida. Os maiores vilões das Crônicas de Gelo e Fogo, de Martin, são uma encarnação psicologicamente riquíssima da personalidade egocêntrica. Os malvados são orgulhosos, egoístas e, sobretudo, mesquinhos. Eles podem aparentar gentileza e atenção quando é socialmente conveniente e podem - até mesmo - autenticamente amar uns poucos indivíduos extremamente próximos a eles, um sentimento sedutor por sua exclusividade e por sua dedicação cega. Quem é alvo de tal adoração pode custar a perceber ou ser levado a relativizar a iniquidade generalizada de seus adoradores para com todos os outros.
Mas, se há um sentido espiritual e intelectual que falta ao egocêntrico (mesquinho), esse
sentido é a audição. Aí está o calcanhar da Aquiles de seu afeto e da miragem que causa aos receptores dele: todo o seu amor está destinado a se tornar veneração, a
objetificar e colocar em pedestal a alteridade, não permitindo real expressão
do outro, sendo fechado em si mesmo e não podendo trazer satisfação profunda ao
ser amado. É o caso do mimo cego de Cercei para com Joffrey ou seu endeuzamento de Tywin
Lannister; da idealização de Joffrey em relação ao rei, Robert Baratheon; e,
igualmente, de Ramsay para com o pai, Roose Bolton. Veneram em tais
personalidades seu próprio eu travestido: ou o primogênito, o herdeiro homem e de seu próprio sangue; ou o rei conquistador, o guerreiro temível, a história épica; ou,
então, o nome nobre, o articulista frio, o lorde Protetor do Norte.
Sintomático
que todos esses amores se dão no – e somente no – âmbito da “família natural”. O
forte sentimento endógeno por parte daqueles que compartilham ou pensam compartilhar
laços de sangue. A importância desse apego está no fato mesmo de que a família,
sob a base de um ego imperfeitamente diferenciado, pode facilmente servir como defesa
moral e hipócrita contra todas as hostilidades reais ou supostas do mundo
exterior, ela é mais capaz do que qualquer outra instituição de se constituir em
uma autoilusão para aquele que busca dissimular seu egocentrismo.
Quanto
aos demais afetos nessas personagens, são sombras, restos de uma empatia
natimorta. Cercei cultuou o irmão Jaime por sua beleza gêmea à sua, por sua virilidade
e, principalmente, pelo amor dele em relação a ela. Quando ele perde a mão,
perde sua potência, amplia sua sede por verdadeira honra (consolida princípios), passa apreciar a
bondade nada glamourosa de Brienne (começa a ouvir melhor), ele perde a reciprocidade de sua paixão. Sua
nova figura aparece a Cercei como rechaço a ela, como abandono do glamour e
vaidade que ela representa e, assim rui, antes de mais nada, a imagem que ela
alimentava de seu irmão. Joffrey se agrada inicialmente com Sansa, com
Margaery, com seu Cão, mas só até ao ponto em que lhe conferem prestígio e
força, mas tem de lutar incessantemente, sem esperança de vitória, contra o seu
impulso de lhes pisar e humilhar. Já Ramsay mantém sua gangue, os Garotos do Bastardo,
como forma de potencializar suas atrocidades e regozijo com elas, mas,
obviamente, foi capaz de se livrar do Fedor I sem a menor dor.
Esse
último vilão, Ramsay Snow, é o caso mais claramente psicopatológico. A tara do
bastardo por torturar, seu prazer visceral com a dor e a humilhação alheia
quase não possuem vínculo com sua nova função social de herdeiro do Norte,
exceto, claro, pela tradição histórica de escalpelar dos Bolton. O caminho que o leva da
mesquinharia à crueldade é um abrupto salto por sobre as suas reais
necessidades políticas no Jogo dos Tronos,
um prazer completamente descabido pelo qual ele provavelmente arriscaria todo o
prestígio. Ao interrogar, pouco importa extrair as informações, importa
submeter completamente, esvaziar o coração e a mente de tudo o que não seja
medo e dor. Ao esfolar, pouco importa tratar-se de um inimigo implacável, um
ex-amigo ou uma ex-amante, e sim apreciar a dor, o grito, o sangue. Ao lutar,
pouco importa a própria vida, desde que possa infligir pavor e feridas em alguém.
Já
Joffrey Baratheon baseia toda sua desumanidade em suas atribuições régias, sua
crueldade e tolice se alimentam diretamente de sua coroa. O jovem rei é uma
criança medrosa, que sente prazer em queimar formigas, em espezinhar as
criaturas menores, em suma, triturar por triturar besouros atrás de besouro num
círculo sem fim (para usar a parábola de Tyrion sobre o Montanha). Tudo o que
foge ao seu controle lhe causa temor: a primeira noite com uma mulher, os reis
rebeldes, a batalha real que tem de lutar, a sombra de quem ele não pode
intimidar, etc. O prazer mórbido é aqui envolto por uma camada de princípio de
realidade.
A
empatia, base antropológica do bem e da ética no ser humano e que tende a
crescer na medida em que se desenvolve a consciência, aqui, estancou no limiar
do instrumental, na aguda percepção dos poderes
externos que podem ferir o eu. Joffrey se delicia com a violência
intrínseca à majestade, com a agressividade da hierarquização entre quem pode e
quem não pode, e a eleva ao máximo, porém compreende, intuitivamente, seus
limites, a organização social e o equilíbrio de poder que o matem no topo.
Claro que isso não é o bastante para evitar as hostilidades contra si, como o
demonstra o Casamento Roxo.
Mas,
se Ramsay e Joffrey são casos de extroversão doentia e acabam por flertar com a
morte em suas compulsões, Cerscei representa um caso muitíssimo mais
interessante psicologicamente, ao mesmo tempo em que se apresenta como um
modelo social muito mais frequente. Ela é a corporificação do ressentimento e
da ambição, sua imagem introvertida corresponde justamente à síntese da
contradição que ela representa enquanto elemento perverso, criatura do mal, mas num
jogo com regras e com outros jogadores. A descrição feita por seu irmão Tyrion
é a mais precisa possível:
"Westeros está dilacerado e sangrando, e não duvido que até agora
minha doce irmã esteja colocando ataduras nas feridas... com sal. Cersei é tão
gentil quanto o Rei Maegor [o Cruel], tão abnegada quanto Aegon, o Indigno, e
tão sábia quanto o Louco Aerys. Ela nunca esquece uma desfeita, real ou
imaginada. Confunde cuidado com covardia, divergência com desafio. E é
gananciosa. Gananciosa por poder, por honrarias e por amor." (Martin - A Dança dos Dragões)
A
força cruel de Cersei segue a contrastiva regra do "maior perigo, menor
visibilidade". Ela se move com dissimulação espontânea, se tal coisa é possível.
Seu egoísmo profundo teve sempre de lidar com sua condição de mulher, sua
posição sempre secundária na corte obrigou seu sadismo a se contorcer e
espremer sob a pressão da censura alheia e da precaução. Em sua regência, de
forma realista, tal debater-se, também interno, não desaparece de um momento para o
outro, então, sob a influência do maligno Qyburn, ela busca se livrar da culpa
pelos experimentos de torturas terríveis e pelas mortes que ordena, tapando os
ouvidos e afastando os olhos das criaturas mutiladas.
Cercei
Lannister é a figuração da maldade prosaica, da indiferença e cumplicidade em um
indivíduo comum. A melhor prova de que não há amor sem empatia. Sua pergunta à Qyburn sobre a mutilação planejada em seu campeão
é um resumo de sua avareza instrumental: “Como
serão essas modificações? Elas o deixarão mais fraco?”.
A guinada definitiva da Rainha é quase simultânea à de Jaime Lannister, mas em sentido oposto e, as duas juntas, colocam em xeque uma época de plena vigência do relativismo moral, o qual convive perfeitamente com seu falso opositor: o moralismo individualista, como o da parábola "beija-flor x incêndio florestal". Martin dá aula de realismo moral com sua contraposição entre uma tomada de posição objetivamente opressiva e outra emancipatória.
A guinada definitiva da Rainha é quase simultânea à de Jaime Lannister, mas em sentido oposto e, as duas juntas, colocam em xeque uma época de plena vigência do relativismo moral, o qual convive perfeitamente com seu falso opositor: o moralismo individualista, como o da parábola "beija-flor x incêndio florestal". Martin dá aula de realismo moral com sua contraposição entre uma tomada de posição objetivamente opressiva e outra emancipatória.
