segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Cersei, Joffrey e Ramsay: Da mesquinharia à crueldade.



“A poesia [ficção] é mais fina e mais filosófica do que a história; porque a poesia expressa o universo, e a história somente o detalhe.” (Aristóteles – A Poética) 

               
              Eles estão em toda parte e é tanto mais fácil nos enganarmos quanto mais próximos eles estão de nós, tanto na ficção quanto na vida. Os maiores vilões das Crônicas de Gelo e Fogo, de Martin, são uma encarnação psicologicamente riquíssima da personalidade egocêntrica. Os malvados são orgulhosos, egoístas e, sobretudo, mesquinhos. Eles podem aparentar gentileza e atenção quando é socialmente conveniente e podem - até mesmo - autenticamente amar uns poucos indivíduos extremamente próximos a eles, um sentimento sedutor por sua exclusividade e por sua dedicação cega. Quem é alvo de tal adoração pode custar a perceber ou ser levado a relativizar a iniquidade generalizada de seus adoradores para com todos os outros.
             Mas, se há um sentido espiritual e intelectual que falta ao egocêntrico (mesquinho), esse sentido é a audição. Aí está o calcanhar da Aquiles de seu afeto e da miragem que causa aos receptores dele: todo o seu amor está destinado a se tornar veneração, a objetificar e colocar em pedestal a alteridade, não permitindo real expressão do outro, sendo fechado em si mesmo e não podendo trazer satisfação profunda ao ser amado. É o caso do mimo cego de Cercei para com Joffrey ou seu endeuzamento de Tywin Lannister; da idealização de Joffrey em relação ao rei, Robert Baratheon; e, igualmente, de Ramsay para com o pai, Roose Bolton. Veneram em tais personalidades seu próprio eu travestido: ou o primogênito, o herdeiro homem e de seu próprio sangue; ou o rei conquistador, o guerreiro temível, a história épica; ou, então, o nome nobre, o articulista frio, o lorde Protetor do Norte.
                Sintomático que todos esses amores se dão no – e somente no – âmbito da “família natural”. O forte sentimento endógeno por parte daqueles que compartilham ou pensam compartilhar laços de sangue. A importância desse apego está no fato mesmo de que a família, sob a base de um ego imperfeitamente diferenciado, pode facilmente servir como defesa moral e hipócrita contra todas as hostilidades reais ou supostas do mundo exterior, ela é mais capaz do que qualquer outra instituição de se constituir em uma autoilusão para aquele que busca dissimular seu egocentrismo.
                Quanto aos demais afetos nessas personagens, são sombras, restos de uma empatia natimorta. Cercei cultuou o irmão Jaime por sua beleza gêmea à sua, por sua virilidade e, principalmente, pelo amor dele em relação a ela. Quando ele perde a mão, perde sua potência, amplia sua sede por verdadeira honra (consolida princípios), passa apreciar a bondade nada glamourosa de Brienne (começa a ouvir melhor), ele perde a reciprocidade de sua paixão. Sua nova figura aparece a Cercei como rechaço a ela, como abandono do glamour e vaidade que ela representa e, assim rui, antes de mais nada, a imagem que ela alimentava de seu irmão. Joffrey se agrada inicialmente com Sansa, com Margaery, com seu Cão, mas só até ao ponto em que lhe conferem prestígio e força, mas tem de lutar incessantemente, sem esperança de vitória, contra o seu impulso de lhes pisar e humilhar. Já Ramsay mantém sua gangue, os Garotos do Bastardo, como forma de potencializar suas atrocidades e regozijo com elas, mas, obviamente, foi capaz de se livrar do Fedor I sem a menor dor.
                Esse último vilão, Ramsay Snow, é o caso mais claramente psicopatológico. A tara do bastardo por torturar, seu prazer visceral com a dor e a humilhação alheia quase não possuem vínculo com sua nova função social de herdeiro do Norte, exceto, claro, pela tradição histórica de escalpelar dos Bolton. O caminho que o leva da mesquinharia à crueldade é um abrupto salto por sobre as suas reais necessidades políticas no Jogo dos Tronos, um prazer completamente descabido pelo qual ele provavelmente arriscaria todo o prestígio. Ao interrogar, pouco importa extrair as informações, importa submeter completamente, esvaziar o coração e a mente de tudo o que não seja medo e dor. Ao esfolar, pouco importa tratar-se de um inimigo implacável, um ex-amigo ou uma ex-amante, e sim apreciar a dor, o grito, o sangue. Ao lutar, pouco importa a própria vida, desde que possa infligir pavor e feridas em alguém.
                Já Joffrey Baratheon baseia toda sua desumanidade em suas atribuições régias, sua crueldade e tolice se alimentam diretamente de sua coroa. O jovem rei é uma criança medrosa, que sente prazer em queimar formigas, em espezinhar as criaturas menores, em suma, triturar por triturar besouros atrás de besouro num círculo sem fim (para usar a parábola de Tyrion sobre o Montanha). Tudo o que foge ao seu controle lhe causa temor: a primeira noite com uma mulher, os reis rebeldes, a batalha real que tem de lutar, a sombra de quem ele não pode intimidar, etc. O prazer mórbido é aqui envolto por uma camada de princípio de realidade.
                A empatia, base antropológica do bem e da ética no ser humano e que tende a crescer na medida em que se desenvolve a consciência, aqui, estancou no limiar do instrumental, na aguda percepção dos poderes externos que podem ferir o eu. Joffrey se delicia com a violência intrínseca à majestade, com a agressividade da hierarquização entre quem pode e quem não pode, e a eleva ao máximo, porém compreende, intuitivamente, seus limites, a organização social e o equilíbrio de poder que o matem no topo. Claro que isso não é o bastante para evitar as hostilidades contra si, como o demonstra o Casamento Roxo.
                Mas, se Ramsay e Joffrey são casos de extroversão doentia e acabam por flertar com a morte em suas compulsões, Cerscei representa um caso muitíssimo mais interessante psicologicamente, ao mesmo tempo em que se apresenta como um modelo social muito mais frequente. Ela é a corporificação do ressentimento e da ambição, sua imagem introvertida corresponde justamente à síntese da contradição que ela representa enquanto elemento perverso, criatura do mal, mas num jogo com regras e com outros jogadores. A descrição feita por seu irmão Tyrion é a mais precisa possível:
"Westeros está dilacerado e sangrando, e não duvido que até agora minha doce irmã esteja colocando ataduras nas feridas... com sal. Cersei é tão gentil quanto o Rei Maegor [o Cruel], tão abnegada quanto Aegon, o Indigno, e tão sábia quanto o Louco Aerys. Ela nunca esquece uma desfeita, real ou imaginada. Confunde cuidado com covardia, divergência com desafio. E é gananciosa. Gananciosa por poder, por honrarias e por amor." (Martin - A Dança dos Dragões)

                A força cruel de Cersei segue a contrastiva regra do "maior perigo, menor visibilidade". Ela se move com dissimulação espontânea, se tal coisa é possível. Seu egoísmo profundo teve sempre de lidar com sua condição de mulher, sua posição sempre secundária na corte obrigou seu sadismo a se contorcer e espremer sob a pressão da censura alheia e da precaução. Em sua regência, de forma realista, tal debater-se, também interno, não desaparece de um momento para o outro, então, sob a influência do maligno Qyburn, ela busca se livrar da culpa pelos experimentos de torturas terríveis e pelas mortes que ordena, tapando os ouvidos e afastando os olhos das criaturas mutiladas.
          Cercei Lannister é a figuração da maldade prosaica, da indiferença e cumplicidade em um indivíduo comum. A melhor prova de que não há amor sem empatia. Sua pergunta à Qyburn sobre a mutilação planejada em seu campeão é um resumo de sua avareza instrumental: “Como serão essas modificações? Elas o deixarão mais fraco?”
               A guinada definitiva da Rainha é quase simultânea à de Jaime Lannister, mas em sentido oposto e, as duas juntas, colocam em xeque uma época de plena vigência do relativismo moral, o qual convive perfeitamente com seu falso opositor: o moralismo individualista, como o da parábola "beija-flor x incêndio florestal". Martin dá aula de realismo moral com sua contraposição entre uma tomada de posição objetivamente opressiva e outra emancipatória.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Noé e Moisés nas videologias contemporâneas.



              Há não muito vi os dois filmes absolutamente diversos. Até certo ponto, a diferença é bíblica, o simples pau-mandado e o líder nobre. Mas há também o enfoque dos diretores Ridley Scott e Aronofsky.
                O descendente de Set carrega sobre suas costas a tarefa de representar todas as gerações de homens justos desde a criação em oposição àqueles que têm por ancestral Caim, que havia matado o também justo Abel.  Noé cumpre sua tarefa de maneira impiedosa e, seguindo ordem Divina, deixa morrerem até os mais inofensivos exemplares da “linhagem impura”.
                O dilema ético poderia ser explorado de maneira muito rica e em aberto tom de releitura, tendo em vista que o mesmo reformismo foi aplicado no que diz respeito à fusão pluralista entre criacionismo e teorias científicas, além da explicação compreensiva entre as divergências de Noé e do filho Cã, não mais amaldiçoado pelo pai e progenitor dos escravos negros.
                A estética de tolerância passou longe do conteúdo moral do protagonista. Noé é um tirano patriarcal do pior tipo: não só se mantém inflexível perante o desespero dos incontáveis afogados como tenta matar os netos para eliminar de vez a raça humana, tal como entendia ter Deus ordenado. Como um machão estadunidense, esmaga os opositores ao seu plano e até a fraqueza final de não matar os netos é 100% vontade e responsabilidade sua.
                O Moisés dos cinemas, por outro lado, é quase um guerreiro multicultural, compreensivo, apaixonado pela mulher e hábil em batalha. As guinadas em sua vida, da corte egípicia ao exílio e do exílio à resistência escrava judia, são fruto do Destino, mas em igual medida de sua conduta. Quando, por exemplo, é expulso da corte e poupado da morte por Ramsés, a ambiguidade deste cruel rei, entre querê-lo longe e amá-lo, deriva de sua amizade e de ter já salvado a vida do então futuro faraó.
                O mais interessante, no entanto, é sua relação para com Deus. Na película, a representação infantil de Deus já deixa margem para uma ambiguidade interpretativa, que veda uma interpretação definitiva acerca da natureza do ser superior com o qual ele lida, se o Deu Único ou uma espécie de emissário falível.
                Quando Deus joga as 7 pragas sobre o Egito, Moisés repudia com todo vigor a maldição sobre as crianças de seus inimigos e mostra uma empatia pelos inimigos dez vezes maior do que o próprio ódio de Noé contra os seus. O Deus infante ri dessa força de personalidade e se deixa seduzir por ela, dizendo ser interessante o fato de que aquele seu servo nem sempre concordar com seus atos e desígnios, de ter independência (!).
                As duas abordagens simbolizam duas quase opostas ideologias, apesar de versarem ambas sobre matérias do Velho Testamento. A primeira em tudo se assemelha às hierarquias tradicionais, ao dogmatismo e caráter centrado. Noé representa o pior lado do progresso, a impiedade, o meios justificados pelos fins, que sempre resultam em fins deturpados pelos meios. Já a segunda se aproxima do caráter multicultural, da interpenetrabilidade entre bem e mal e das metas espaciais de uma ética da comunicação e tolerância. Moisés, no entanto, não cai no individualismo pluralista e mantém seus mandamentos, suas cláusulas pétreas, seus princípios.