Sem
compreender esse jogo de sombras, nada se pode entender sobre a violência no
mundo hoje. Os bem-intencionados estão perdidos entre suas convicções confusas
e paradoxais: de um lado, veem que os cartunistas de esquerda franceses foram
massacrados por fascistas fundamentalistas e se sentem atacados; por outro
lado, na hora de revidar, se deparam com o drama da xenofobia e o crescimento
vertiginoso da direita na velha Europa e se veem sem quem atacar, sem alvo
plausível.
O
fato é que essa imprensa crítica na França, apesar de sua possível “intenção
progressista”, não está isenta do conflito maior, do qual faz parte toda a
comunidade mundial. A violência dos interesses econômicos do Ocidente contra os
povos da África e Ásia Central, desemboca na imigração em massa, a qual deságua
na competição econômica feroz entre trabalhadores cada vez mais empobrecidos e,
por fim, resulta a xenofobia. A caricaturização do Islã, em todas as suas
formas, cumpre o papel de desculpabilizar os opressores, tendo em vista que, mantidas
as circunstâncias e equilíbrio de força, a única resolução para o problema
árabe na Europa seria a “solução final”, empurrar os mulçumanos imigrados para
o afogamento.
A
visão curta de uma esquerda subjetiva a ver no fundamentalismo o único inimigo
se coaduna com a direita a atacar sempre o sintoma, querer espantar a mosca de
seu prato suculento. Complementarmente, cada reação dos extremistas ensandecidos,
por sua própria natureza reativa e conservadora, só poderá levar ao
recrudescimento do ódio e desprezo dos locais em relação a toda a sua
comunidade. O círculo do ódio não terá fim sem o resurgimento da busca enfática
pela verdade, sem a análise do real como um todo em suas articulações conflitantes.
Contraditoriamente, da charge do cartunista vitimado podemos tirar essa lição:
Os
impasses pré-marxistas que analisamos não são exceção, na verdade, são o fruto
inevitável da mentalidade pequeno-burguesa em hegemonia. No Brasil das últimas
eleições, mais do que nunca, vimos demonstrações dessa ignorância e a maior
delas tem longa história: a polêmica sobre a redução da maioridade penal.
Os
fascistas se apoiam numa espécie de utopia behavorista. Ao notarem a
intolerabilidade da violência querem resolvê-la com mais violência e, tal como utopistas
acéfalos que são, se veem como inventores da roda, engenheiros sociais
criativos supostamente a proporem uma técnica absolutamente nova, que não foi
usada por milênios e que já não vem ceifando brutalmente incontáveis vidas pelo
mesmo período, sem sucesso em corrigir os malvados desse mundo. Do lado oposto,
os piedosos e culturalistas defendem “os direitos humanos”, o direito dos infelizes
e/ou cruéis desse mundo manterem suas condições desgraçadas sem sofrerem a
carga extra da revitmização. Miséria e violência, sim, porém sem preconceito ou
punição.
Que
os adolescentes de periferias, negros e submetidos à exploração e violência
desde a mais tenra idade sejam mais propensos à marginalidade e violência
parece aos fascistas como inexplicável desvio, como mau-caráter pessoal a ser
corrigido com o máximo de brutalidade. Seria assim tão contrária a
interpretação dos social-democratas a verem em assassinos menores de idade
coitadinhos desprovidos de juízo e merecedores de novas oportunidades, de novas
vivências na miséria destinada a eles para se tornarem melhores? Ambas as
posições são risíveis.
A
defesa da “liberdade de expressão” no caso dos cartunistas assassinados é outra
piada. A liberdade em questão era de zombar de todo um povo, crenças, costumes
e sem dar direito de resposta? O que os tão secularizados cristãos fariam se
tivessem a imagem da Virgem Maria estampada como a do Profeta abaixo? E, ainda
mais grave, o quão mais absurdo se torna humilhar uma população que já é
perseguida, discriminada e oprimida em um país estrangeiro?
Todos lamentam profundamente cada uma dessas mortes, exceto a vilã inteligente, Senhora Le Pen, nova Embaixatriz da Morte, que continuará a se alimentar da confusão generalizada para tentar trazer o caos definitivo ao mundo.
