Eu sei que o pensar traz consigo toda sorte de armadilhas e entraves. Podemos alimentar um espírito analítico de tal maneira aguçado que nos tornemos cegos diante de toda emoção do cotidiano e, inclusive, ao emprego da racionalidade em outros campos ou objetos.
Já me ocorreu de estar tão preso à idéia da consecução de certas metas e tarefas ao ponto de praticamente não perceber outra dimensão da vida. O preço é caro: o esmaecimento da afetividade rapidamente causa desespero, mas todas as súplicas são vãs, pois a incapacidade em questão é a de perceber que o declínio da produtividade é função do próprio produtivismo.
E buscar nos efêmeros “diálogos” com colegas alguma reconciliação com a vida, nessa situação, é uma frustração tão dolorosa quanto difícil de evitar. E o poço é sempre mais fundo do que parece: a busca de luz através do descolorido território dos sorrisos amarelos e das conversas-brincadeira é uma areia movediça, que nos traga cada vez mais para as suas entranhas de brutalidade e idiotice.
É certo que o pensar pode nos levar por um caminho de “trevas”. Por outro lado, é a partir dele que podemos criticar, inclusive, as razões desvirtuadas com as quais fomos habituados. Certamente há algo de encantado no pensar que interpela outro ser, buscando compreendê-lo e, para além da pura empatia, acrescentar, construir ou adiantar nele algo de seu, uma impressão, idéia ou vontade.
Soube – através de um amigo – da fala de um personagem do filme Antes do Amanhecer que bem expressa o espírito do pensar-sentindo: “Se há algum tipo de magia no mundo, ela deve estar na tentativa de entender e compartilhar algo com alguém”. O filme não é mais do que razoável, mas a idéia de um casal que se encontra, dialoga da maneira mais espontânea, sem receios, e se apaixona, é uma pequena visão do paraíso.
Mas a raridade de tal forma de encontro se dá pelo fato de que ele exige uma magia por demais sofisticada (para nossos tempos), o treinamento é árduo.
Em primeiro, é necessário abandonar o estágio da pura imediaticidade, da espontaneidade pré-reflexiva, ou, em outras palavras, o da concretude crua. Para nossos jovens pós-modernos, isso já é um desafio tremendo.
O senso comum à altura em que nos encontramos é essa forma imediata de pensar. É um pensamento de consumidor, cuja a marca é não possuir qualquer unidade de coerência e voltar-se para os objetos sem relacioná-los. Um pensar quase circunscrito aos mecanismos necessários para trilhar os caminhos para as volúpias. Inquietação, ansiedade, vazio e histeria são um pesadelo tão onipresente nessas mentes, que não podem percebê-los enquanto tal. Esse viver-no-tempo é contentar-se em ser vítima das circustâncias.
A outra forma de equivoco do pensar, algo similar ao drama que descrevi no início do texto [lá na forma de vida, aqui na forma de pensar], é aquela que é própria aos dogmáticos. A razão aqui acaba por se extraviar no mundo conceitual.
É um problema particularmente comum nos grupos que freqüento. Algumas pessoas não podem ver o mundo além de dualismos rígidos (seja “bem” e “mal” ou mesmo “reacionário” e “revolucionário”). E, nesse caso, o diálogo vê-se limitado a concordância absoluta ou ao ódio.
Há colegas que perdem completamente o senso dialético da realidade. Tornam-se enraivecidos diante de qualquer diversidade e ainda mais quando esta é política. A imaturidade encontra-se no fato de que suas personalidades estão tão ambientadas ao meio marxista, que se esqueceram de que a mentalidade burguesa é um sintoma inevitável do mundo burguês. O encontro com essa antítese necessária deveria, então, ser sereno e não turbulento como uma briga de gangues. Mas não há como ser diferente, pois viver-para-o-tempo é obrigatoriamente esquecer-se da leviandade, doçura e flexibilidade do cotidiano.
Não bastasse isso, há toda a rabugice e preconceito que caracterizam os grupos políticos dogmáticos, até no caso da lida com seus exemplares mais análogos, como outros grupos de extrema esquerda. Quando não de maneira explícita, o estímulo a ignorância em relação ao mundo exterior vem na forma de uma sutil ciência da censura, de um preconceito fundado em algum dos pseudo-marxismos. A mensagem mais profunda é de que só no seu partido há humanidade e formas legítimas de vida, ou seja, nada no resto do mundo trabalha na direção certa, nada mais é revolucionário: é o prelúdio para o Stalinismo.
Trata-se de uma percepção congelada que é, inclusive, muito prejudicial aos propósitos partidários no curto prazo, afinal não é raro que toda essa rigidez forje uma personalidade de tal maneira alheia ao mundo exterior (da banalidade e rotina, do emprego, etc.), que, quando desencapsulada, quando expulsa de sua zona de conforto (universidade, por exemplo), ou simplesmente se desmancha ou volta-se com toda a virulência contra seu exótico mundo natal. Eis a origem de muitos reacionários ex-comunistas.
O pensar que, no sentido marxiano, merece o título de dialético é aquele que pode encarar a plasticidade do mundo sem perder a força crítica de suas categorias. É aquele que atravessou a concretude e o conceito para então reencontrar-se com o mundo. O pensar dialético reconhece em todo esforço totalizante (mesmo os mais diferentes do seu) um valorizável momento de liberdade e a vê, inclusive, nas tentativas parciais. Tais parcialidades - quando na forma política - são um verdadeiro dilema teórico para os marxistas vulgares. Vale pensar nas contradições obrigatórias que envolvem a situação de classe de militantes, o posicionamento quanto à política de cotas, quanto ao feminismo burguês, ou até as relações pessoais suprapolíticas.
O pensar mais elevado é realmente uma magia: ele, em diálogo, pode construir obras de tamanho interminável, compreender sutilezas indescritíveis e, acima de tudo, rir com toda sinceridade. Rir, aliás, é um belo exemplo de sentimento dialético, no qual, como golfinhos, mergulhamos na empatia só para logo em seguida saltarmos na percepção. Viver-o-tempo é conciliar o universo do sujeito e o do objeto. Talvez baste ver Chaves para entender ao que me refiro! ;)
Embora, obviamente, todos esses três níveis do pensar se intercruzem em cada personalidade das maneiras mais promíscuas possíveis, é verdade que o primeiro predomina sobre o terceiro. Assim sendo, as amizades verdadeiras e os diálogos profundos, confortáveis e expressivos continuam a ser um horizonte difícil de realizar no cotidiano.
Já me ocorreu de estar tão preso à idéia da consecução de certas metas e tarefas ao ponto de praticamente não perceber outra dimensão da vida. O preço é caro: o esmaecimento da afetividade rapidamente causa desespero, mas todas as súplicas são vãs, pois a incapacidade em questão é a de perceber que o declínio da produtividade é função do próprio produtivismo.
E buscar nos efêmeros “diálogos” com colegas alguma reconciliação com a vida, nessa situação, é uma frustração tão dolorosa quanto difícil de evitar. E o poço é sempre mais fundo do que parece: a busca de luz através do descolorido território dos sorrisos amarelos e das conversas-brincadeira é uma areia movediça, que nos traga cada vez mais para as suas entranhas de brutalidade e idiotice.
É certo que o pensar pode nos levar por um caminho de “trevas”. Por outro lado, é a partir dele que podemos criticar, inclusive, as razões desvirtuadas com as quais fomos habituados. Certamente há algo de encantado no pensar que interpela outro ser, buscando compreendê-lo e, para além da pura empatia, acrescentar, construir ou adiantar nele algo de seu, uma impressão, idéia ou vontade.
Soube – através de um amigo – da fala de um personagem do filme Antes do Amanhecer que bem expressa o espírito do pensar-sentindo: “Se há algum tipo de magia no mundo, ela deve estar na tentativa de entender e compartilhar algo com alguém”. O filme não é mais do que razoável, mas a idéia de um casal que se encontra, dialoga da maneira mais espontânea, sem receios, e se apaixona, é uma pequena visão do paraíso.
Mas a raridade de tal forma de encontro se dá pelo fato de que ele exige uma magia por demais sofisticada (para nossos tempos), o treinamento é árduo.
Em primeiro, é necessário abandonar o estágio da pura imediaticidade, da espontaneidade pré-reflexiva, ou, em outras palavras, o da concretude crua. Para nossos jovens pós-modernos, isso já é um desafio tremendo.
O senso comum à altura em que nos encontramos é essa forma imediata de pensar. É um pensamento de consumidor, cuja a marca é não possuir qualquer unidade de coerência e voltar-se para os objetos sem relacioná-los. Um pensar quase circunscrito aos mecanismos necessários para trilhar os caminhos para as volúpias. Inquietação, ansiedade, vazio e histeria são um pesadelo tão onipresente nessas mentes, que não podem percebê-los enquanto tal. Esse viver-no-tempo é contentar-se em ser vítima das circustâncias.
A outra forma de equivoco do pensar, algo similar ao drama que descrevi no início do texto [lá na forma de vida, aqui na forma de pensar], é aquela que é própria aos dogmáticos. A razão aqui acaba por se extraviar no mundo conceitual.
É um problema particularmente comum nos grupos que freqüento. Algumas pessoas não podem ver o mundo além de dualismos rígidos (seja “bem” e “mal” ou mesmo “reacionário” e “revolucionário”). E, nesse caso, o diálogo vê-se limitado a concordância absoluta ou ao ódio.
Há colegas que perdem completamente o senso dialético da realidade. Tornam-se enraivecidos diante de qualquer diversidade e ainda mais quando esta é política. A imaturidade encontra-se no fato de que suas personalidades estão tão ambientadas ao meio marxista, que se esqueceram de que a mentalidade burguesa é um sintoma inevitável do mundo burguês. O encontro com essa antítese necessária deveria, então, ser sereno e não turbulento como uma briga de gangues. Mas não há como ser diferente, pois viver-para-o-tempo é obrigatoriamente esquecer-se da leviandade, doçura e flexibilidade do cotidiano.
Não bastasse isso, há toda a rabugice e preconceito que caracterizam os grupos políticos dogmáticos, até no caso da lida com seus exemplares mais análogos, como outros grupos de extrema esquerda. Quando não de maneira explícita, o estímulo a ignorância em relação ao mundo exterior vem na forma de uma sutil ciência da censura, de um preconceito fundado em algum dos pseudo-marxismos. A mensagem mais profunda é de que só no seu partido há humanidade e formas legítimas de vida, ou seja, nada no resto do mundo trabalha na direção certa, nada mais é revolucionário: é o prelúdio para o Stalinismo.
Trata-se de uma percepção congelada que é, inclusive, muito prejudicial aos propósitos partidários no curto prazo, afinal não é raro que toda essa rigidez forje uma personalidade de tal maneira alheia ao mundo exterior (da banalidade e rotina, do emprego, etc.), que, quando desencapsulada, quando expulsa de sua zona de conforto (universidade, por exemplo), ou simplesmente se desmancha ou volta-se com toda a virulência contra seu exótico mundo natal. Eis a origem de muitos reacionários ex-comunistas.
O pensar que, no sentido marxiano, merece o título de dialético é aquele que pode encarar a plasticidade do mundo sem perder a força crítica de suas categorias. É aquele que atravessou a concretude e o conceito para então reencontrar-se com o mundo. O pensar dialético reconhece em todo esforço totalizante (mesmo os mais diferentes do seu) um valorizável momento de liberdade e a vê, inclusive, nas tentativas parciais. Tais parcialidades - quando na forma política - são um verdadeiro dilema teórico para os marxistas vulgares. Vale pensar nas contradições obrigatórias que envolvem a situação de classe de militantes, o posicionamento quanto à política de cotas, quanto ao feminismo burguês, ou até as relações pessoais suprapolíticas.
O pensar mais elevado é realmente uma magia: ele, em diálogo, pode construir obras de tamanho interminável, compreender sutilezas indescritíveis e, acima de tudo, rir com toda sinceridade. Rir, aliás, é um belo exemplo de sentimento dialético, no qual, como golfinhos, mergulhamos na empatia só para logo em seguida saltarmos na percepção. Viver-o-tempo é conciliar o universo do sujeito e o do objeto. Talvez baste ver Chaves para entender ao que me refiro! ;)
Embora, obviamente, todos esses três níveis do pensar se intercruzem em cada personalidade das maneiras mais promíscuas possíveis, é verdade que o primeiro predomina sobre o terceiro. Assim sendo, as amizades verdadeiras e os diálogos profundos, confortáveis e expressivos continuam a ser um horizonte difícil de realizar no cotidiano.
3 comentários:
De fato!
Uma vida inteira de cotidianos é pouco para semear, cultivar e colher os frutos da amizade. Assim, vivemos de frutos temporãs, que adoçam-no a boca num diálogo, num elogio, numa atenção...
Um abç!
Agradeço pelo comentário Will. Gostei de sua metáfora. Eu quis mesmo insinuar que é da maior importância saber vivenciar as relações dentro de suas parcialidades, embora com vistas ao magnífico horizonte do possível.
Encontrar-se a si mesmo no outro. Eis a chave da amizade. Mas as conversas vãs, tão próprias hoje em dia, não podem conduzir à verdadeira relação entre duas pessoas. Seu texto é terapêutico para todo aquele que sente (apenas)a solidão, apesar de todo esse alvoroço.
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