quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Marx e Jenny: ou o uso do imponderável pessoal para despolitização.

A história de quase todo grande personagem histórico é contada por personagens menores. O motivo é muito simples, tal como raios não caem repetidamente no mesmo lugar, os espíritos grandiosos são raros demais para serem vistos em bandos. O que nos restou da vida pessoal do gigantesco Marx também não foram mais do que fragmentos dele próprio, os que puderam ser apreendidos e compreendidos por seus pesquisadores caprichosos ou não. Tais fragmentos são unânimes em atestar sua assustadora capacidade intelectual, seu orgulho de si mesmo e, não menos, sua grande paixão por Jenny.
E agora o que importa é este último aspecto do temperamento de Marx, pois é relativamente pouco comentado e muito distorcido. Outros de seus atributos foram atacados: sua genialidade chegou a ser denominada por ideólogos como “confusão” e seu amor-próprio como “vaidade e egoísmo”, mas nada foi tão maculado quanto seu casamento, aparentemente é mais difícil condenar o amor por seus excessos do que através de sua negação. E a negação aqui é uma acusação de traição, que naturalmente derivaria, para nossos pós-modernos, em machismo, misoginia, etc. Eis mais um argumento para quem quer construir a emancipação política ao custo da emancipação humana!
O suposto "delito" teria sido praticado com Helene Demuth, quando estavam sozinhos em Londres e teria resultado em um filho. Especula-se que na época em que surgiram tais acusações Marx ainda era vivo e jovem (Jacques Attali), eram os anos 50 do século XIX, e ele escreveu a Weydemyer sobre “calúnias indescritíveis”, que recebia por parte de sua "legião de inimigos". E Marx escreveu, também nessa época, a Engels num tom grave sobre “um mistério no qual você desempenha um papel. Falamos em viva voz”.
Um silêncio enorme por parte dos possíveis envolvidos se deu a partir daí. Jenny escreveu sobre um incidente traumático dessa época, Engels terminou por adotar a criança e deixá-la sob outra responsabilidade, mas nada absolutamente conclusivo foi dito. A versão só voltou à tona na ocasião em que Louise - ligada a Kautsky, Bernstein e Freyberger – disseminou a informação de que teria ouvido de Engels (por quê?), em seu leito de morte, a confissão de que Marx teria traído Jenny e tido um filho com Helene. O contexto em que Louise estava inseria é dos mais suspeitos: ela era justamente uma agente infiltrada na casa de Engels para apropriar-se dos documentos e textos de Marx e levá-los para a Alemanha.
O que podemos extrair de tudo isso? A conclusão que se generalizou, a mais popular, mais razoável, foi a de que Marx teria tido seus deslizes e falhas de caráter “como todo mundo”. De fato, como negar que a traição masculina era normal e aceitável no século XIX? Francis Wheen defende a idéia de que não é o caso de fazer uma hagiografia de Marx e, portanto, o retrato que faz do Mouro é o de um incansável estudioso e bêbado; de um leitor fanático por Shakespeare e afeito a piadas vulgares; de um pai amoroso e distante devido às míticas 12 horas diárias de estudo no museu britânico; de um esposo apaixonado e capaz de flertar com outras a todo momento; de um comunista de hábitos vitorianos; de um defensor dos operários que jamais pisou numa fábrica; e assim por diante.
Chega-se, portanto, à conclusão de que é mais fácil crer numa coleção de paradoxos escandalosos do que numa coerência qualquer. Mas a saída pelo caminho da estética grotesca – de Wheen - é ainda exceção. O mais comum é encarar a coisa do ponto de vista de um pragmatismo cínico, ou seja, crer sem entusiasmo nem decepção, sem empolgação ou lamento, sem felicidade ou tristeza, numa palavra, sem sobressaltos, que a traição mencionada é um dado e que para os dados não há aplausos e nem vaias. Eis o odioso espírito da indiferença e do niilismo a esconder e conjugar-se adulteramente com o moralismo típico de certos pós-modernos!
Não é Marx  a ter motivos para amargurar-se se fossem seus inimigos a injuriá-lo, afinal, como observou Stendhal, “a maior felicidade que pode acontecer a um grande homem é ele, cem anos após a sua morte, ainda ter inimigos”. E como tem inimigos o velho Marx! O que preocupa é que até seus aliados tornaram-se adeptos de uma mentalidade moralista bisbilhotando a história atrás de argumentos ad hominen. Há quem, a partir desse tipo de lógica, defenda o marxismo "sem propriedade privada do outro", sem monogamia, ignorando o fato de que, ao contrário de Engels, Marx jamais se opôs ao amor romântico dois a dois, antes foi um notório romântico!
Mas não é só deslize casual. É sintomático de uma época em que os espíritos geniais perderam sua "aura" de profundidade e tornaram-se indivíduos de “carne e osso”, hábeis no manejar de suas “carreiras” (Bourdieu por Jameson). É a própria universalização da mercadoria e o avanço da técnica que nos empurram no rumo da secularização mitificada, de uma lógica mundana e de uma estética do purgatório (ao invés do sublime ou grotesco). É como se olhássemos para um intelectual contemporâneo, por exemplo Žižek, e nos incomodássemos com sua dimensão “monstruosa” e daí resolvêssemos segui-lo e tirar fotos dele em posturas banais ou constrangedoras - que devem existir - e daí nos convencêssemos de que ele é tão “normal” quanto nós. O fetiche aqui está em julgar a totalidade – de olho em e - como se fosse a soma de momentos isolados.
Vejamos, de todo modo, que essa metonímia burra e inconsciente pode ser projetada no passado quando se quer reconstituir a totalidade de uma vida a partir de cartas, esparsos relatos e comparações com o cidadão médio da época. Caso contrário, não se pode dizer que Marx foi “frio e cerebral”; não se poder dizer que ele tenha sido quem mais se opôs ao relacionamento de Tussy, ou que foi quem menos se opôs; não se pode afirmar que seus passeios com as filhas e leituras de Shakespeare, ou de historinhas infantis próprias, tenham sigo regra em sua vida de “pai afetuoso”, ou exceções, na trajetória de um “pai relapso”; não se pode dizer que tenha traído Jenny(ou a traía), ou que não o tenha feito; e quem sabe se ele frequentou, ou não, um chão de fábrica? E melhor: importa? Da mesma forma, não de pode comprar, por exemplo, a bizonha versão segundo a qual Weber fez sexo uma única vez na vida (com o detalhe de que teria sido quando escrevia "Rejeições Religiosas do Mundo" e não com sua esposa). Sejam visões hiperbólicas ou vulgares narrativas naturalistas, nada apaga o fato de que biografias são romances acerca de uma vida real, literatura. Dito isso, sejamos, ao menos,  resignados, não conclusivos e nem venenosos, ao invés, deixemos nosso homem falar por si mesmo e nos sugerir apenas. A carta é de poucos anos depois da crise mencionada, para sua esposa, em outra viagem dela:
“Minha amada,
Tenho diante de mim sua imagem viva, acolho-a nos meus braço, beijo-a da cabeças aos pés, caio de joelhos e murmuro: “Senhora, eu te amo”. Eu lhe quero mais que o Mouro de Veneza jamais quis. O mundo falso e corrupto concebe o caráter de todos os homens como falso e corrupto. Qual dos meus muitos caluniadores e com língua de serpente pôde alguma vez me acusar de possuir vocação para representar o papel principal de amante num teatro de segunda classe? E, no entanto, é verdade(...) ” ( De Marx [em Machester] para Jenny [em Trier], em 1856)

sábado, 17 de dezembro de 2011

A Ideologia brasileira

O complexo de vira-lata brasileiro é, no sentido clássico da palavra, uma ideologia. Todas as características estão presentes. Vê-se que é sustentada pelos grupos exploradores e, ao mesmo tempo, brota da própria realidade concreta, que ela é disseminada por todos os cantos e, por fim, obviamente, que ela ajuda a recriar seu contexto situacional, num círculo vicioso.
A mídia, uma vez mais, é o veículo da retórica que ajuda a disseminar a doença. Qualquer dia, em qualquer momento pode-se ter acesso às personificações do pessimismo conservador através da rede Globo, do jornal Folha de São Paulo, da revista Veja ou muitos de seus congêneres... A estratégia é repetida e chata: trata-se de mostrar uma (suposta) deficiência do sistema nacional; atribuí-la à debilidade do caráter ou falta de inteligência dos governantes (ou povo); traçar a idealização de uma realidade análoga, mas "resolvida" em outro país, sem esquecer de abstrair sequer um gota da história real ou do contexto mundial; por fim, basta defender a própria posição e dizer que ela é a solução final, é neutra e é defendida por todas as pessoas verdadeiramente sérias.
As sociedades perfeitas geralmente escolhidas para serem nosso exemplo costumeiramente localizam-se na América do Norte ou Europa, são Estados Unidos, Inglaterra e França. Os países europeus geralmente são escolhidos para fortalecerem opiniões acerca da "seriedade", "civilidade" e "bem-estar social", mas seguem sendo maus exemplos quando o objetivo dos nossos ideólogos é rebaixar a dignidade humana, impondo penas desumanas ou atacar os direitos dos trabalhadores. Dessa maneira, o ideal mais unânime certamente são os Estados Unidos, pois além de ser mais fácil defender o mais forte, o imaginário sobre o referido país oferece menos constrangimentos à reificação capitalista absoluta.
De um ponto de vista filosófico, é fácil apreender o motivo do sucesso e da necessidade dessa disseminação ideológica, é que da mesma maneira como da realidade do capitalismo brota sua auto-legitimação, também brota sua negação. Ou seja, os indivíduos que a partir da vivência do mercado são tentados a naturalizar o mercado, ao mesmo tempo, não podem deixar de perceber alguns dos absurdos inumanos gerados pelo atual modo de produção. Daí que a função da retórica dos ideólogos seja encontrar uma forma de cooptar essa “natural” proto-crítica e transformá-la em uma pseudo-crítica, focalizando as supostas ineficiências do capitalismo brasileiro (retórica centro-esquerda) ou do sistema político brasileiro (retórica centro-direita), ao invés de focalizar o capitalismo em geral.
Esse é o sentido, inclusive, da terminologia geopolítica que divide o mundo em países “desenvolvidos”, “em desenvolvimento” e “subdesenvolvidos”. O “erro” é não perceber o mundo como uma totalidade orgânica. A premissa de que os países desenvolvidos “já chegaram lá” mostra-se absolutamente falsa quando observamos o derretimento dos direitos atualmente em curso na Europa e é ainda mais risível supor que os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento estejam em curso de tornarem-se desenvolvidos. Vê-se que tal nomeclatura, forjada para ser etapista, mal oferece capacidade de convencimento num mundo em que o capital alcançou todos os cantos e brechas, sem oferecer promessas de benção generalizada no horizonte. Claro que, de um ponto de vista sociológico, ainda seria necessário explicar as mediações concretas que fazem com que os discursos se articulem da maneira como se articulam e se propaguem como se propagam no Brasil, mas, nesse momento, meu objetivo é esclarecer a verdade e não mergulhar demais na mundanidade das engrenagens.
Então, voltando ao nosso racionar através dos raciocínios (nossa visão filosófica), percebemos do que já foi dito que, de um lado, o complexo de vira-lata não é mais do que uma ideologia capitalista normal, que visa simular a possibilidade de perfeição sob o atual modo de produção. A idéia é de que “como no centro” podemos alcançar a paz e a felicidade, tal discurso não é idiossicrasia nossa, pois é o que serve para aplacar a consciência inclusive das populações que vivem nessas regiões e se vêem constantemente na necessidade de continuar a esperar pelo paraíso prometido, embora, no caso deles, a idolatria tem de se voltar não para a imitação de algum suposto paraíso concreto (como para nós), mas no simples mito do “crescimento” abstrato.
Por outro lado, nossa ideologia tem uma característica muito peculiar e cruel. Ela, por ter no exterior uma meta concreta, rebaixa duplamente o Brasil, não é só um país que tem uma meta a cumprir (como todos), mas é um país inferior quando comparado aos demais. A culpa é nossa por termos tantos recursos (!) e não estarmos no nível de nossos contemporâneos ricos. Cabe aos brasileiros corrigir sua política, sua economia e, sobretudo, seu caráter (!) “para se tornar centro”, dizem os ideólogos. Esse auto-menosprezo serve de consolo à nossa burguesia servil e ainda contribui para que ela legitime seu ataque aos inimigos que tem, seja a carga tributária, as cotas, alguma greve ou político.
O elemento realmente cruel é que, ao longo dos anos, incorporou-se tão arraigadamente esse senso de inferioridade que se forjou uma subserviência, muito mais do que a “pura simpatia do povo”, com tudo o que é do exterior, ao ponto de caímos no ridículo diante desses mesmos estrangeiros, ou seja, somos re-vitimizados. Embora seja verdade que o “crescimento” dos últimos anos e o governo petista, em alguma medida, trabalhem na contramão desse complexo de vira-lata, a fala zombeteira recente de um ator e diretor estadunidense revela a persistência do mal:
"Filmamos no Brasil porque lá você pode machucar as pessoas enquanto filma (...) [é] um país de extremos (...) Você pode explodir o país inteiro e eles ainda dizem para você: 'obrigado e tome aqui um macaco para você levar para casa' " (Sylvester Stallone)