A história de quase todo grande personagem histórico é contada por personagens menores. O motivo é muito simples, tal como raios não caem repetidamente no mesmo lugar, os espíritos grandiosos são raros demais para serem vistos em bandos. O que nos restou da vida pessoal do gigantesco Marx também não foram mais do que fragmentos dele próprio, os que puderam ser apreendidos e compreendidos por seus pesquisadores caprichosos ou não. Tais fragmentos são unânimes em atestar sua assustadora capacidade intelectual, seu orgulho de si mesmo e, não menos, sua grande paixão por Jenny.
E agora o que importa é este último aspecto do temperamento de Marx, pois é relativamente pouco comentado e muito distorcido. Outros de seus atributos foram atacados: sua genialidade chegou a ser denominada por ideólogos como “confusão” e seu amor-próprio como “vaidade e egoísmo”, mas nada foi tão maculado quanto seu casamento, aparentemente é mais difícil condenar o amor por seus excessos do que através de sua negação. E a negação aqui é uma acusação de traição, que naturalmente derivaria, para nossos pós-modernos, em machismo, misoginia, etc. Eis mais um argumento para quem quer construir a emancipação política ao custo da emancipação humana!
O suposto "delito" teria sido praticado com Helene Demuth, quando estavam sozinhos em Londres e teria resultado em um filho. Especula-se que na época em que surgiram tais acusações Marx ainda era vivo e jovem (Jacques Attali), eram os anos 50 do século XIX, e ele escreveu a Weydemyer sobre “calúnias indescritíveis”, que recebia por parte de sua "legião de inimigos". E Marx escreveu, também nessa época, a Engels num tom grave sobre “um mistério no qual você desempenha um papel. Falamos em viva voz”.
Um silêncio enorme por parte dos possíveis envolvidos se deu a partir daí. Jenny escreveu sobre um incidente traumático dessa época, Engels terminou por adotar a criança e deixá-la sob outra responsabilidade, mas nada absolutamente conclusivo foi dito. A versão só voltou à tona na ocasião em que Louise - ligada a Kautsky, Bernstein e Freyberger – disseminou a informação de que teria ouvido de Engels (por quê?), em seu leito de morte, a confissão de que Marx teria traído Jenny e tido um filho com Helene. O contexto em que Louise estava inseria é dos mais suspeitos: ela era justamente uma agente infiltrada na casa de Engels para apropriar-se dos documentos e textos de Marx e levá-los para a Alemanha.
O que podemos extrair de tudo isso? A conclusão que se generalizou, a mais popular, mais razoável, foi a de que Marx teria tido seus deslizes e falhas de caráter “como todo mundo”. De fato, como negar que a traição masculina era normal e aceitável no século XIX? Francis Wheen defende a idéia de que não é o caso de fazer uma hagiografia de Marx e, portanto, o retrato que faz do Mouro é o de um incansável estudioso e bêbado; de um leitor fanático por Shakespeare e afeito a piadas vulgares; de um pai amoroso e distante devido às míticas 12 horas diárias de estudo no museu britânico; de um esposo apaixonado e capaz de flertar com outras a todo momento; de um comunista de hábitos vitorianos; de um defensor dos operários que jamais pisou numa fábrica; e assim por diante.
Chega-se, portanto, à conclusão de que é mais fácil crer numa coleção de paradoxos escandalosos do que numa coerência qualquer. Mas a saída pelo caminho da estética grotesca – de Wheen - é ainda exceção. O mais comum é encarar a coisa do ponto de vista de um pragmatismo cínico, ou seja, crer sem entusiasmo nem decepção, sem empolgação ou lamento, sem felicidade ou tristeza, numa palavra, sem sobressaltos, que a traição mencionada é um dado e que para os dados não há aplausos e nem vaias. Eis o odioso espírito da indiferença e do niilismo a esconder e conjugar-se adulteramente com o moralismo típico de certos pós-modernos!
Não é Marx a ter motivos para amargurar-se se fossem seus inimigos a injuriá-lo, afinal, como observou Stendhal, “a maior felicidade que pode acontecer a um grande homem é ele, cem anos após a sua morte, ainda ter inimigos”. E como tem inimigos o velho Marx! O que preocupa é que até seus aliados tornaram-se adeptos de uma mentalidade moralista bisbilhotando a história atrás de argumentos ad hominen. Há quem, a partir desse tipo de lógica, defenda o marxismo "sem propriedade privada do outro", sem monogamia, ignorando o fato de que, ao contrário de Engels, Marx jamais se opôs ao amor romântico dois a dois, antes foi um notório romântico!
Mas não é só deslize casual. É sintomático de uma época em que os espíritos geniais perderam sua "aura" de profundidade e tornaram-se indivíduos de “carne e osso”, hábeis no manejar de suas “carreiras” (Bourdieu por Jameson). É a própria universalização da mercadoria e o avanço da técnica que nos empurram no rumo da secularização mitificada, de uma lógica mundana e de uma estética do purgatório (ao invés do sublime ou grotesco). É como se olhássemos para um intelectual contemporâneo, por exemplo Žižek, e nos incomodássemos com sua dimensão “monstruosa” e daí resolvêssemos segui-lo e tirar fotos dele em posturas banais ou constrangedoras - que devem existir - e daí nos convencêssemos de que ele é tão “normal” quanto nós. O fetiche aqui está em julgar a totalidade – de olho em e - como se fosse a soma de momentos isolados.
Vejamos, de todo modo, que essa metonímia burra e inconsciente pode ser projetada no passado quando se quer reconstituir a totalidade de uma vida a partir de cartas, esparsos relatos e comparações com o cidadão médio da época. Caso contrário, não se pode dizer que Marx foi “frio e cerebral”; não se poder dizer que ele tenha sido quem mais se opôs ao relacionamento de Tussy, ou que foi quem menos se opôs; não se pode afirmar que seus passeios com as filhas e leituras de Shakespeare, ou de historinhas infantis próprias, tenham sigo regra em sua vida de “pai afetuoso”, ou exceções, na trajetória de um “pai relapso”; não se pode dizer que tenha traído Jenny(ou a traía), ou que não o tenha feito; e quem sabe se ele frequentou, ou não, um chão de fábrica? E melhor: importa? Da mesma forma, não de pode comprar, por exemplo, a bizonha versão segundo a qual Weber fez sexo uma única vez na vida (com o detalhe de que teria sido quando escrevia "Rejeições Religiosas do Mundo" e não com sua esposa). Sejam visões hiperbólicas ou vulgares narrativas naturalistas, nada apaga o fato de que biografias são romances acerca de uma vida real, literatura. Dito isso, sejamos, ao menos, resignados, não conclusivos e nem venenosos, ao invés, deixemos nosso homem falar por si mesmo e nos sugerir apenas. A carta é de poucos anos depois da crise mencionada, para sua esposa, em outra viagem dela:
“Minha amada,
Tenho diante de mim sua imagem viva, acolho-a nos meus braço, beijo-a da cabeças aos pés, caio de joelhos e murmuro: “Senhora, eu te amo”. Eu lhe quero mais que o Mouro de Veneza jamais quis. O mundo falso e corrupto concebe o caráter de todos os homens como falso e corrupto. Qual dos meus muitos caluniadores e com língua de serpente pôde alguma vez me acusar de possuir vocação para representar o papel principal de amante num teatro de segunda classe? E, no entanto, é verdade(...) ” ( De Marx [em Machester] para Jenny [em Trier], em 1856)
E agora o que importa é este último aspecto do temperamento de Marx, pois é relativamente pouco comentado e muito distorcido. Outros de seus atributos foram atacados: sua genialidade chegou a ser denominada por ideólogos como “confusão” e seu amor-próprio como “vaidade e egoísmo”, mas nada foi tão maculado quanto seu casamento, aparentemente é mais difícil condenar o amor por seus excessos do que através de sua negação. E a negação aqui é uma acusação de traição, que naturalmente derivaria, para nossos pós-modernos, em machismo, misoginia, etc. Eis mais um argumento para quem quer construir a emancipação política ao custo da emancipação humana!
O suposto "delito" teria sido praticado com Helene Demuth, quando estavam sozinhos em Londres e teria resultado em um filho. Especula-se que na época em que surgiram tais acusações Marx ainda era vivo e jovem (Jacques Attali), eram os anos 50 do século XIX, e ele escreveu a Weydemyer sobre “calúnias indescritíveis”, que recebia por parte de sua "legião de inimigos". E Marx escreveu, também nessa época, a Engels num tom grave sobre “um mistério no qual você desempenha um papel. Falamos em viva voz”.
Um silêncio enorme por parte dos possíveis envolvidos se deu a partir daí. Jenny escreveu sobre um incidente traumático dessa época, Engels terminou por adotar a criança e deixá-la sob outra responsabilidade, mas nada absolutamente conclusivo foi dito. A versão só voltou à tona na ocasião em que Louise - ligada a Kautsky, Bernstein e Freyberger – disseminou a informação de que teria ouvido de Engels (por quê?), em seu leito de morte, a confissão de que Marx teria traído Jenny e tido um filho com Helene. O contexto em que Louise estava inseria é dos mais suspeitos: ela era justamente uma agente infiltrada na casa de Engels para apropriar-se dos documentos e textos de Marx e levá-los para a Alemanha.
O que podemos extrair de tudo isso? A conclusão que se generalizou, a mais popular, mais razoável, foi a de que Marx teria tido seus deslizes e falhas de caráter “como todo mundo”. De fato, como negar que a traição masculina era normal e aceitável no século XIX? Francis Wheen defende a idéia de que não é o caso de fazer uma hagiografia de Marx e, portanto, o retrato que faz do Mouro é o de um incansável estudioso e bêbado; de um leitor fanático por Shakespeare e afeito a piadas vulgares; de um pai amoroso e distante devido às míticas 12 horas diárias de estudo no museu britânico; de um esposo apaixonado e capaz de flertar com outras a todo momento; de um comunista de hábitos vitorianos; de um defensor dos operários que jamais pisou numa fábrica; e assim por diante.
Chega-se, portanto, à conclusão de que é mais fácil crer numa coleção de paradoxos escandalosos do que numa coerência qualquer. Mas a saída pelo caminho da estética grotesca – de Wheen - é ainda exceção. O mais comum é encarar a coisa do ponto de vista de um pragmatismo cínico, ou seja, crer sem entusiasmo nem decepção, sem empolgação ou lamento, sem felicidade ou tristeza, numa palavra, sem sobressaltos, que a traição mencionada é um dado e que para os dados não há aplausos e nem vaias. Eis o odioso espírito da indiferença e do niilismo a esconder e conjugar-se adulteramente com o moralismo típico de certos pós-modernos!
Não é Marx a ter motivos para amargurar-se se fossem seus inimigos a injuriá-lo, afinal, como observou Stendhal, “a maior felicidade que pode acontecer a um grande homem é ele, cem anos após a sua morte, ainda ter inimigos”. E como tem inimigos o velho Marx! O que preocupa é que até seus aliados tornaram-se adeptos de uma mentalidade moralista bisbilhotando a história atrás de argumentos ad hominen. Há quem, a partir desse tipo de lógica, defenda o marxismo "sem propriedade privada do outro", sem monogamia, ignorando o fato de que, ao contrário de Engels, Marx jamais se opôs ao amor romântico dois a dois, antes foi um notório romântico!
Mas não é só deslize casual. É sintomático de uma época em que os espíritos geniais perderam sua "aura" de profundidade e tornaram-se indivíduos de “carne e osso”, hábeis no manejar de suas “carreiras” (Bourdieu por Jameson). É a própria universalização da mercadoria e o avanço da técnica que nos empurram no rumo da secularização mitificada, de uma lógica mundana e de uma estética do purgatório (ao invés do sublime ou grotesco). É como se olhássemos para um intelectual contemporâneo, por exemplo Žižek, e nos incomodássemos com sua dimensão “monstruosa” e daí resolvêssemos segui-lo e tirar fotos dele em posturas banais ou constrangedoras - que devem existir - e daí nos convencêssemos de que ele é tão “normal” quanto nós. O fetiche aqui está em julgar a totalidade – de olho em e - como se fosse a soma de momentos isolados.
Vejamos, de todo modo, que essa metonímia burra e inconsciente pode ser projetada no passado quando se quer reconstituir a totalidade de uma vida a partir de cartas, esparsos relatos e comparações com o cidadão médio da época. Caso contrário, não se pode dizer que Marx foi “frio e cerebral”; não se poder dizer que ele tenha sido quem mais se opôs ao relacionamento de Tussy, ou que foi quem menos se opôs; não se pode afirmar que seus passeios com as filhas e leituras de Shakespeare, ou de historinhas infantis próprias, tenham sigo regra em sua vida de “pai afetuoso”, ou exceções, na trajetória de um “pai relapso”; não se pode dizer que tenha traído Jenny(ou a traía), ou que não o tenha feito; e quem sabe se ele frequentou, ou não, um chão de fábrica? E melhor: importa? Da mesma forma, não de pode comprar, por exemplo, a bizonha versão segundo a qual Weber fez sexo uma única vez na vida (com o detalhe de que teria sido quando escrevia "Rejeições Religiosas do Mundo" e não com sua esposa). Sejam visões hiperbólicas ou vulgares narrativas naturalistas, nada apaga o fato de que biografias são romances acerca de uma vida real, literatura. Dito isso, sejamos, ao menos, resignados, não conclusivos e nem venenosos, ao invés, deixemos nosso homem falar por si mesmo e nos sugerir apenas. A carta é de poucos anos depois da crise mencionada, para sua esposa, em outra viagem dela:
“Minha amada,
Tenho diante de mim sua imagem viva, acolho-a nos meus braço, beijo-a da cabeças aos pés, caio de joelhos e murmuro: “Senhora, eu te amo”. Eu lhe quero mais que o Mouro de Veneza jamais quis. O mundo falso e corrupto concebe o caráter de todos os homens como falso e corrupto. Qual dos meus muitos caluniadores e com língua de serpente pôde alguma vez me acusar de possuir vocação para representar o papel principal de amante num teatro de segunda classe? E, no entanto, é verdade(...) ” ( De Marx [em Machester] para Jenny [em Trier], em 1856)