Ele era o mais gentil, simpático
e inteligente daquele grupo, não restam dúvidas. Ele queria ser um sucesso
individual, mas acabou seduzido pela possibilidade de liderar, amar, dizer a
verdade... Essas escolhas foram se tornando poderosas e, sem querer, o
boa-praça logo se tornou um rebelde, o líder de um grupo em luta contra outro.
A posição consolidada, apesar de longe da sonhada, mostrou-se ainda mais feliz,
além de trazer prestígio e estabilidade.
A
vida, no entanto, tem qualquer coisa de avessa à estabilidade. O charme que
parecia infalível foi questionado, as circunstâncias desorganizaram seu grupo,
a vitória se tornou incerta. Em meio a agressões, o pior castigo foi a
distância do objeto de amor: a confiança inabalável derreteu-se, a incerteza se
tornou uma sombra permanente. O que pensam de mim? Vale a pena insistir numa
convicção que todos questionam? O que importa essa fé que já não traz paz no
presente?
Ser
refém de sua crença, fazer uma prece ridicularizada, tudo isso é um pesadelo. A
saída foi procurar se reconciliar com os inimigos. Não uma reconciliação
verdadeira, ele pensou, apenas uma aliança tática, um embuste para não se
queimar e poder virar o jogo. Tão carismático ele era que não demoraram a
surgir adversários dispostos a aproximação, ao mesmo tempo, os amigos não
puderam lhe virar as costas de imediato. Ele agradava a todos, dava esperança a
todos e era amado por quase todos.
Com
os inimigos ressentidos, sempre há alguns, ele mal precisou se ocupar:
simplesmente ficaram fora do novo edifício social, formado tendo-o como centro
gravitacional. Mas algo de nossos parceiros sempre nos afeta; na vida, a água e
o óleo sempre se misturam. A sedução, os mesquinhos dons ofertados pelos novos aliados sutil e firmemente insistem
em querer solapar a força, a certeza e até a lembrança daquela fidelidade (antes)
eterna. Por um instante, no entanto, a Fortuna é ainda maior do que a esperada:
surge uma fácil comunhão de todos ao seu redor, uma oportunidade de felicidade.
Logo
o herói está tão emaranhado naquilo que desprezava que até alguns de seus
aliados originais ficam com um pé atrás. Irá ele pular a cerca? Nem ele sabe.
Adia, reluta, empurra com a barriga e a tensão se mantém. A mais ardilosa
tentação é essa que se perpetua como promessa latente, como contradição do
desejo. Ora, ele tem de ceder, ceder só um pouquinho não faz mal, mas a Caixa
de Pandora não permite meio termo: ou está aberta ou fechada. A virada está
completa.
Agora
se trata apenas de disfarçar, por vergonha ou esperteza. O novo alinhamento já
faz exigências e elimina ambiguidades. Se
manter no centro do pacto passa a ser uma arte, um malabarismo. O que antes
eram laços verdadeiros, escolhas cheias de significado, agora são pequenos gestos,
agrados calculados e nunca encenados com a velha paixão. O símbolo da amizade
agora está esvaziado de sua verdade. A traição é percebida tarde demais, mas o
vencedor é derrotado: o que lhe resta é o gosto de cinzas na boca e o vislumbre
que tem é o de um medíocre a desempenhar o papel que deixou vago. Ele trocaria
o sucesso pela paixão se pudesse...