Max Rockatansk (Tom Hardy) é atualmente um louco, um
sujismundo comedor de calangos deformados a correr pelo deserto sem fim do
mundo pós-atômico. Nesse mundo, todos somos inimigos, nada é belo, tudo é
extremamente apressado e um pausa pode significar a morte, tanto quanto um
passo além do devido. Max, felizmente (?) menos mutilado que os outros, logo
será capturado como preciosa fonte de vida, como bolsa de sangue para Nux, um
guerreiro apodrecido neste verão atômico. Levado ao império da escassez, da
loucura, da rapidez, da angústia, das sombras, ele poderia definhar numa jaula
imunda enquanto usado de recurso, mas a fuga de algumas outras privilegiadas genéticas,
esposas cativas do imperador Immortal Joe (Hugh Keays-Byrne), e a obcessão fundamentalista de Nux(Nicholas Hoult)
por Valhalla, pela projeção ideal de tudo que a Terra já foi no Além, forçará
Max a voltar ao deserto exterior, agora como suprimento em uma caçada alucinada.
A perseguição é conceitual, o frenesi é crítico, o herói implacável é um
Floriano de Vidas Secas, as mulheres
belas são rebeldes, o vilão maligno é um opressor social, tudo isso torna o blockbuster um filme aplaudido em Cannes.
Quando
levado pela contingência e ardil a se unir aos alvos da caçada, às mulheres
representantes de toda subjugação física e moral, ele aprende que devemos ter
como primeiro objetivo fugir da opressão imediata, dos inimigos fisicamente
visíveis no retrovisor do caminhão. A corrida pelo deserto é perturbadora, a
areia que entra em toda parte, a secura dos diálogos, o calor que ultrapassa a
tela do cinema, as alucinações do protagonista, os intermináveis cães de guarda,
vassalos e comparsas do poder estabelecido, a acelerada agonia da guitarra
permanente, a feiura de tudo ao redor e somente a promessa da “Terra Verde”
adiante, como nos mitos ecologistas atuais. As dúvidas sobre como confiar nos
aliados desse mundo, a morte da fugitiva grávida, a tentação de uma das
oprimidas em voltar ao terrível conforto da escravidão, parecem todos elementos
a apontar para a falência da empreitada, para a vanidade de nossos sonhos. Mas
desse infernal paradoxo em que a esperança está no passado, nessa espiral
descendente, na qual toda possibilidade de realização parece recair nas artimanhas
de um pesadelo sádico, surge uma dissonância: o fanático Nux se torna um rebelde,
perde a esperança de glória em decorrência do fracasso perante Immortal Joe e é
seduzido pela beleza utópica da ruiva fugitiva. A desgraça, a derrota, e o amor
se tornam cúmplices e válvulas de escape.
A
fuga se realiza, a negação do existente se completa, mas daí o novum aparece? Quando Furiosa (Charlize Theron) leva seus
companheiros para a Terra Verde o segundo passo está dado, o paraíso perdido
das mulheres, da inocência, da liberdade e abundância, encontrado, porém eles
descobrem que as herdeiras do lugar são velhas enfraquecidas, a floresta é
pântano, a liberdade é caos e a abundância, miséria. As lágrimas são dolorosas,
a dor profunda, mas a teimosia de procurar o paraíso no espaço permanece, a
miragem não pode ser desfeita pelo choro, é a desistência moral que se impõe
primeiramente. Atravessar o deserto é um suicídio disfarçado. Max vê isso:
morrer matando é mais digno, a última coragem do espírito, a nossa única chance
de redenção, o terceiro e derradeiro objetivo da vida. Agora os rebeldes
retornam, seu caminhão corre em direção a cidade, antes símbolo de prisão,
sabendo que as perdas serão gigantescas, mas que a derrota pode soar como
vitória quando faz aflorar até o limite a virtude do espírito.
A
vitória é sempre uma dúvida, uma inquietação. Mesmo após aniquilar o imortal,
após refazer-se a si mesmo, nada nos garante que a vontade se tornará redenção.
Só mesmo quando o cadáver de Immortal Joe é reconhecido e a veneração popular
se mostra mágoa sublimado, quando o implorar revela que seu negativo é o ódio,
quando o desejo de vingança esquarteja o avatar da exploração, é que se tem
certeza de que o Império ruiu. Toda riqueza oculta talvez possa agora
significar outra coisa: as estufas elaboradas, quem sabe, um dia, possam
reesverdear o mundo, as mulheres possam deixar de servir como leiteiras e
reprodutoras, o elevado do edifício imperial posas se alinhar ao rasteiro do
mundo ordinário e assim que este deixe de ser miserável. Mas, sobretudo, a água
racionada, a escassez proposital e sua correlata ideologia da abundância como
um mal, como um perigo social e individual, possa ser desfeito para sempre.
Aqui Max encontra Marx, aqui descobrimos que para encontramos o melhor de nós
mesmos devemos parar de peregrinar e edificar a nova ordem no espaço e não
contra o espaço.