segunda-feira, 31 de agosto de 2015

MAD MA(R)X - O Guerreiro das Estradas?

“Aonde devemos ir, nós que peregrinamos por este deserto, em busca do melhor de nós mesmos?”  



                Max Rockatansk (Tom Hardy) é atualmente um louco, um sujismundo comedor de calangos deformados a correr pelo deserto sem fim do mundo pós-atômico. Nesse mundo, todos somos inimigos, nada é belo, tudo é extremamente apressado e um pausa pode significar a morte, tanto quanto um passo além do devido. Max, felizmente (?) menos mutilado que os outros, logo será capturado como preciosa fonte de vida, como bolsa de sangue para Nux, um guerreiro apodrecido neste verão atômico. Levado ao império da escassez, da loucura, da rapidez, da angústia, das sombras, ele poderia definhar numa jaula imunda enquanto usado de recurso, mas a fuga de algumas outras privilegiadas genéticas, esposas cativas do imperador Immortal Joe (Hugh Keays-Byrne), e a obcessão fundamentalista de Nux(Nicholas Hoult) por Valhalla, pela projeção ideal de tudo que a Terra já foi no Além, forçará Max a voltar ao deserto exterior, agora como suprimento em uma caçada alucinada. A perseguição é conceitual, o frenesi é crítico, o herói implacável é um Floriano de Vidas Secas, as mulheres belas são rebeldes, o vilão maligno é um opressor social, tudo isso torna o blockbuster um filme aplaudido em Cannes.
            Quando levado pela contingência e ardil a se unir aos alvos da caçada, às mulheres representantes de toda subjugação física e moral, ele aprende que devemos ter como primeiro objetivo fugir da opressão imediata, dos inimigos fisicamente visíveis no retrovisor do caminhão. A corrida pelo deserto é perturbadora, a areia que entra em toda parte, a secura dos diálogos, o calor que ultrapassa a tela do cinema, as alucinações do protagonista, os intermináveis cães de guarda, vassalos e comparsas do poder estabelecido, a acelerada agonia da guitarra permanente, a feiura de tudo ao redor e somente a promessa da “Terra Verde” adiante, como nos mitos ecologistas atuais. As dúvidas sobre como confiar nos aliados desse mundo, a morte da fugitiva grávida, a tentação de uma das oprimidas em voltar ao terrível conforto da escravidão, parecem todos elementos a apontar para a falência da empreitada, para a vanidade de nossos sonhos. Mas desse infernal paradoxo em que a esperança está no passado, nessa espiral descendente, na qual toda possibilidade de realização parece recair nas artimanhas de um pesadelo sádico, surge uma dissonância: o fanático Nux se torna um rebelde, perde a esperança de glória em decorrência do fracasso perante Immortal Joe e é seduzido pela beleza utópica da ruiva fugitiva. A desgraça, a derrota, e o amor se tornam cúmplices e válvulas de escape.
            A fuga se realiza, a negação do existente se completa, mas daí o novum aparece? Quando Furiosa (Charlize Theron) leva seus companheiros para a Terra Verde o segundo passo está dado, o paraíso perdido das mulheres, da inocência, da liberdade e abundância, encontrado, porém eles descobrem que as herdeiras do lugar são velhas enfraquecidas, a floresta é pântano, a liberdade é caos e a abundância, miséria. As lágrimas são dolorosas, a dor profunda, mas a teimosia de procurar o paraíso no espaço permanece, a miragem não pode ser desfeita pelo choro, é a desistência moral que se impõe primeiramente. Atravessar o deserto é um suicídio disfarçado. Max vê isso: morrer matando é mais digno, a última coragem do espírito, a nossa única chance de redenção, o terceiro e derradeiro objetivo da vida. Agora os rebeldes retornam, seu caminhão corre em direção a cidade, antes símbolo de prisão, sabendo que as perdas serão gigantescas, mas que a derrota pode soar como vitória quando faz aflorar até o limite a virtude do espírito.
            A vitória é sempre uma dúvida, uma inquietação. Mesmo após aniquilar o imortal, após refazer-se a si mesmo, nada nos garante que a vontade se tornará redenção. Só mesmo quando o cadáver de Immortal Joe é reconhecido e a veneração popular se mostra mágoa sublimado, quando o implorar revela que seu negativo é o ódio, quando o desejo de vingança esquarteja o avatar da exploração, é que se tem certeza de que o Império ruiu. Toda riqueza oculta talvez possa agora significar outra coisa: as estufas elaboradas, quem sabe, um dia, possam reesverdear o mundo, as mulheres possam deixar de servir como leiteiras e reprodutoras, o elevado do edifício imperial posas se alinhar ao rasteiro do mundo ordinário e assim que este deixe de ser miserável. Mas, sobretudo, a água racionada, a escassez proposital e sua correlata ideologia da abundância como um mal, como um perigo social e individual, possa ser desfeito para sempre. Aqui Max encontra Marx, aqui descobrimos que para encontramos o melhor de nós mesmos devemos parar de peregrinar e edificar a nova ordem no espaço e não contra o espaço.