Deixe-me lhe dar
um conselho, bastardo - disse Lannister. - Nunca se esqueça de quem é, porque é
certo que o mundo se lembrará. Faça disso sua força. Assim, não poderá ser nunca
a sua fraqueza. Arme-se com esta lembrança, e ela nunca poderá ser usada para
magoá-lo(...)Todos os anões serão bastardos, mas nem todos os bastardos
precisam ser anões
(Tyrion para Jon - pág 77 – A Guerra dos
Tronos)
Para ir ao
norte, deve viajar para o sul. Para alcançar o oeste, tem de ir para o leste.
Para ir em frente, deve voltar para trás, e para tocar a luz, tem de passar sob
a sombra. (Quaithe para Daenerys – A Fúria dos Reis)

Quase nada é tão
odioso quanto um traidor, um sujeito que nega suas convicções, um soldado que
trai seu exército, um ex comunista que abandona suas convicções, um amante que
trai ao outro, um amigo que abandona o outro em momento de necessidade, um
cínico a ironizar tudo aquilo pelo que se vive. Todos esses personagens se
caracterizam pela deslealdade, por uma fraqueza de caráter e por terem os olhos
voltados para o próprio umbigo apenas, mas há outro tipo de vira-casaca:
aqueles impulsionados pelo destino e que conseguem sintetizar tudo o que foram e
o que está por vir. Os primeiros são voluntaristas e aventureiros, o segundos revolucionários. Estes são personagens dialéticos, que
conseguem cavalgar sobre as guinadas do destino e frequentemente se desenvolvem
entre “os aleijados, bastardos e coisas quebradas”, como diria Tyrion
Lannister. E justamente esse perfil abunda nas Crônicas de Gelo e Fogo, sendo que seria prazeroso, quase por igual,
abordá-los na trajetória de Daenerys Targaryen, Arya Stark, Arianne Martell, Jorah
Mormont, Tyrion Lannister ou, particularmente, na do Regicida, Jaime Lannister. Mas escolho aqui três outras personagens,
saídas do tumultuado mundo Stark, que se destacam justamente pelas
peculiaridades que lhes foram impostas pelas marés revoltas de seus destinos às
vésperas da chegada dos temíveis Ventos
de Inverno.
A primeira
personagem é Sansa Stark. A menina criada para ser rainha, prendada, sonhadora,
nobre e bela e que é tentada a virar as costas para a família no momento em que
as disputas e antipatias dos seus parentes colocam em xeque seu destino
almejado. A jovem lady mimada, no
entanto, é posta em uma situação verdadeiramente trágica a partir do momento em
que a tensão entre as famílias se resolve irremediavelmente a favor dos
inimigos. Cada passo em seu destino aponta para esse desfecho, mas ela não pode
notar, não quer notar, e, em todo caso, é impotente: o exemplo de sua loba
protetora e amiga sacrificada injustamente perante os caprichos de uma
majestade Lannister fútil e em decorrência do conflito de um conflito de sua
irmã e de seu prometido é somente o primeiro sinal. Até o último momento
possível, Sansa permanece no espírito infantil, egocêntrico e prepotente
instilado por sua educação privilegiada e limitadora:
Pai,
acabei de me lembrar, não posso ir embora, vou me casar com o Príncipe Joffrey
- tentou sorrir com bravura para ele. - Eu o amo, pai, amo mesmo, mesmo, tanto
como a Rainha Naerys amou o Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, tanto como Jonquil amou
Sor Florian. Quero ser a sua rainha e ter os seus bebês. (668- A Guerra dos Tronos)
E mesmo
após a morte do pai, a brutalidade confirmada de sua paixão cega e
interesseira, Joffrey, ela não pode abandonar de imediato seu modo de ser
anterior. Ela simplesmente pode projetar seu delírio sobre um novo objeto, o gordo, atrapalhado e covarde Sor Dontos:
Meu
Florian - sussurrou. - Os deuses ouviram as minhas preces. Fugiu ao longo do
passeio do rio, passando pela cozinha pequena e atravessando o pátio dos porcos,
com os passos apressados perdendo-se por entre os roncos dos porcos nas
suas pocilgas. Casa, pensou, casa,
ele vai me levar para casa, ele vai me manter a salvo, o meu Florian. As
canções sobre Florian e Jonquil eram as suas favoritas. Florian também era modesto, embora não fosse tão velho.(186 - Fúria do Reis)
Ela continuará a buscar por uma magia
abstrata, a se apegar ao falso conforto de uma posição feminina passiva, a se
deixar prender pelas sutis armadilhas de ser uma donzela cobiçada, mas
impotente. O resultado funesto serão os múltiplos abusos e torturas
psicológicas cometidas por seu antes idealizado pretendente, a humilhação de
ter de se casar com o odiado anão Tyrion Lannister, a angústia de ser mantida
prisioneira e receber dia após dia as notícias do esfacelamento de sua família e, por fim, a traição de seu falso cavaleiro salvador.
Sansa é acusada e abusada por tudo, sem poder deixar de ser a esperança de paz de seus algozes,
é maltratada e necessária, ou seja, numa irônica inversão de sua situação
anterior, todo o seu desejo passa a ser estar ao lado dos familiares “menos nobres”, ao invés de estar numa
corte infernal dominada pela vaidade e crueldade. Mas toda a consciência
adquirida, toda “a experiência e desenvolvido de sua personalidade”, não pode
se impor sobre a realidade objetiva sem mais nem menos e, tanto no livro quanto
na série, por diferentes caminhos, será apenas um virada da sorte a poder
voltar a iluminar seu caminho, agora, como uma vira-casaca consumada, um mulher
desprovida de ingenuidade, e a única força tradicionalmente feminina da série,
alguém apto atuar jogar o jogo dos tronos ainda que restrita aos bastidores:
Uma vez, quando ela era apenas uma
garotinha, um cantor viajante tinha ficado com eles em Winterfell por meio ano.
Ele era um homem idoso de cabelos grisalhos e rosto curtido pelo vento, mas ele
cantou sobre cavaleiros, feitos e lindas mulheres, e Sansa derramou lágrimas
amargas quando ele os deixou, implorando a seu pai para que não o deixasse
partir.(...) Sansa havia orado para os Sete em seu septo e para os deuses
antigos da árvore-coração, pedindo a eles para trazerem o velho homem de volta,
ou melhor ainda, mandarem um outro cantor, jovem e charmoso. Mas os deuses não
lhe responderam, e os salões de Winterfell permaneceram em silêncio. Mas isso
foi quando ela era uma garotinha, e tola. Ela era uma donzela agora, tinha
treze anos e havia florescido. Todas as suas noites estavam cheias de música, e
durante o dia ela rezava por silêncio. (178 – O Festim dos Corvos)
O nosso segundo anti-heroi é o arrogante Theon Greyjoy,
último filho vivo de Balon Greyjoy, herdeiro das Ilhas de Ferro e “protegido”
de Lorde Stark. Era uma criança pequena quando a rebelião de seu pai foi destroçada,
seus irmãos foram mortos e foi capturado como refém por um dos inimigos mais
detestados por sua família. O rapaz, quando cresce,
é nobre e ressentido, fiel e infiel, amigo e rival dos filhos do patriarca
Eddard Stark, ao mesmo sedento por aprovação da família Stark e cioso de sua
identidade Greyjoy. Desse emaranhado de contradições, emerge uma personalidade
irritante e desdenhosa, sempre a sustentar um sorrisinho no canto da boca, um
conquistar um tanto quanto misógino e simultaneamente carente. Sua indelicadeza
é tanto maior quanto menor a posição daqueles com quem se relaciona, como numa
compensação por sua inferioridade se apraz em desprezar o bastardo Jon Snow,
bem como camponeses e prostituas, enquanto consegue ser plenamente amigo do
herdeiro Robb Stark. No entanto, sua prepotência costuma se limitar a má
educação, sem que consiga ser um individuo particularmente pérfido ou cruel.
Quando Theon vai a guerra, é valente, quando recebe de
Robb a dádiva de poder se reintegrar a sua nobre Casa para fortalecer a luta,
fica radiante, porém a dúvida logo chega para lhe assombrar. Balon Greyjoy ou
Robb Stark? Família ou amizade? Ser um conquistador astuto e desleal ou um
simples aliado? Seu caminho é o das primeiras veredas, talvez as mais fáceis. Com
sua pequena maré, Theon Greyjoy tomará Wintefell pela retaguarda de seus
antigos semifamiliares, irá até mais longe do que o almejado por seu pai para
provar seu valor, para demonstrar sua grandeza e tentar superar qualquer
contradição através da radicalidade de sua tomada de posição. Para com um
vira-casaca, seus antigos aliados não terão qualquer amor, não terão nenhuma
simpatia e serão insubmissos o quanto possível; perante seus novos homens, ele
não conquistará o prestígio de maneira tão rápida quando idealizava.
Como resultado de todas essas contradições a lhe
assolarem como num pesadelo constante, o recente príncipe de Winterfell não
terá como lidar com a crise e a rebeldia: seu destino caminhará movido de um equívoco
seguido ao outra, desembocando em tragédia. Quando os jovens Bran e Rickon
escapam aos seus tentáculos, o filho da Lula Gigante passa a ser tentado por um
Nefistófeles, por um demônio em sua orelha direita - e quase sem poder ouvir os
apelos redentores de meistre Luwin - submeterá sua alma a Fedor, o maligno
Ramsay Snow disfarçado. Mata e depois queima os cadáveres de filhos de
fazendeiros para fazê-los passar pelos nobres fugidos, para se mostrar temível
e não risível, para consolidar seu poder como suserano inquestionável perante
os novos vassalos. Vende toda sua honra, todos os seus valores transcendentes,
por uma promessa de glória terrena que não obterá.
Theon Greyjoy cai na armadilha do bastardo Ramsay, é
apunhalado pelas costas, perde Winterfell e seus homens logo após perder todas
a sua compaixão. Mas a morte não lhe sobreveio como consolo, ao contrário, caiu
na mão do mais pérfido herdeiro da tradição da família torturadora dos Bolton e
vai começar uma expiação inimaginável, além do preço por qualquer pecado que
se possa imaginar. Theon será humilhado, castrado, desdentado, esfolado e, por
fim, se converterá em Fedor, no capacho apodrecido do mais cruel e diabólico
dos senhores. Da grandeza da realeza, ele cairá numa condição de animal, viverá nos
canis, se alimentará de ratos, usará os trapos mais sujos e fedorentos
imagináveis e agradecera por tudo isso, enquanto puder se esquivar por alguns
momentos da tortura implacável enquanto puder rastejar e sussurrar seu novo
nome para agradar, sempre agradar, aquele que detém sobre si um poder muito
maior do que o da vida e morte. Fedor que
rima com temor. Theon Greyjoy chega a se esquecer de quem é. Mas pode viver
um centelha humana em seu interior? Há uma esperança adormecida no interior do Fantasma de Winterfell?
A neve caía no bosque sagrado também, derretendo quando chegava
ao solo. Sob as árvores cobertas de branco, a terra se transformara em lama.
Gavinhas de névoa pendiam no ar como fitas fantasmagóricas. Por que vim até
aqui? Esses não são meus deuses. Este não é meu lugar. A árvore-coração
estava diante dele, um gigante pálido com uma face esculpida e folhas como mãos
ensanguentadas. Uma fina camada de gelo cobria a lagoa ao lado do represeiro.
Theon se afundou sobre os joelhos diante da árvore.
– Por favor – murmurou, através dos dentes quebrados –, eu nunca
pretendi... – As palavras ficaram presas em sua garganta. – Salve-me – ele
finalmente falou. – Dê-me... – O quê? Força? Coragem? Misericórdia? (451- A
Dança dos Dragões)
E
Theon demonstra que a súplica, a reza vacilante de um homem esfacelado, pode
se converter numa força real, numa bravura nova, desprovida de qualquer
afetação, justamente no momento de maior desespero:
A noite estava sem vento,
a neve caía direto de um frio céu negro e, mesmo assim, as folhas da
árvore-coração farfalhavam seu nome. Theon, elas pareciam sussurrar, Theon.
Os velhos deuses, ele pensou. Eles me conhecem. Sabem meu nome. Eu
era Theon da Casa Greyjoy. Era um protegido de Eddard Stark, um amigo e irmão
de seus filhos.
– Por favor – caiu de
joelhos. – Uma espada, é tudo o que peço. Deixem-me morrer como Theon, não como
Fedor. – Lágrimas escorriam por seu rosto, impossivelmente quentes.
– Eu era um homem de
ferro. Um filho... um filho de Pyke, das ilhas.
Uma folha caiu, roçando em sua testa e pousando na lagoa. (509 - A Dança dos Dragões)
Uma folha caiu, roçando em sua testa e pousando na lagoa. (509 - A Dança dos Dragões)
Theon
poderá, depois de passar pelo maior sofrimento passível de ser infligido a um
ser vivente, se reerguerá parcialmente, então salvará Jeyne Poole, tomará coragem
e alimentará uma espécie de último orgulho, uma ousadia completamente sóbria.
Arriscar o resto de vida que tem, o pouquíssimo de forças físicas e psíquicas
armazenadas, contra a monstruosidade do bastardo Ramsay, longe de ser uma aposta
pequena, é a maior demonstração de bravura possível, é um dos raros cumes
possíveis de serem atingidos por um ser humano grandioso. O destino do herdeiro
de Pyke, do homem de ferro caído, permanece em aberto, mas sua riqueza interna,
seu valor inestimável, certamente podem ser uma herança riquíssima para o continente de Westeros, em meio
a todos os desafios pelos quais passa e ainda passará...

Mas o supremo
vira-casaca, o homem que mais mudou de lado, aquele no qual parece se combinar
toda a coloração multicultural e, ao mesmo, tempo todo o senso de verdade,
dever e objetividade, é Jon Snow. O Bastardo de Winterfell, por seus próprios
caminhos, também vai “além da honra e da vaidade”, supera o puro gelo e o
simples fogo. Desde o início, oscila entre ser o estigmatizado filho ilegítimo de
Eddard Stark, no seio de sua família, e ser o membro privilegiado de uma das famílias
mais importantes dos Sete Reinos, perante todo o restante do mundo. Vive
perseguido e rejeitado pela matriarca Catelyn Stark, mãe dos filhos de seu pai,
mas goza de amor por parte dos irmãos, particularmente do generoso Robb e da
também desajustada Arya, e de seu pai. Sonha em alcançar uma posição
privilegiada no interior da Patrulha da
Noite, na qual um bastardo “pode valer tanto quanto qualquer outro”, e onde
secretamente nutre sonhos épicos de honradez, combates com selvagens e, quem
sabe, até com criaturas mais misteriosas. Toda zombaria e alertas dos que sabem
sobre as frustrações da vida de celibato, dos rigores climáticos, dos irmãos
corruptos e cruéis, não podem calar de todo a contradição que Jon alimenta e que
tem como solução utópica a vida de guardião da Muralha.
A
Muralha guarda o mistério, ela é o limite protetor de toda uma coletividade
imaginada, de tudo o que pode ser precioso no mundo. Mas essa força ideal se
alimenta não só por seu poder de conservação, sua sedução provem igualmente da
proibição, da possibilidade de transpô-la, de explorar o mundo intocado, novo,
misterioso. Assim, Jon sonha ser o Primeiro
Patrulheiro, como seu tio, deseja ser o comandante militar a ir além das
fronteiras do conhecido. Envaidece-se de sua capacidade de luta, se vangloria
de sua habilidade que o poderá conduzir ao destaque necessário, porém só até
ser alertado por Tyrion Lannister acerca do perigo e da efemeridade de um orgulho que só
pode se sustentar sobre a mitificação, sobre a sonegação de sua vida anterior
de privilégio e treinamento em relação àqueles pobres camponeses com quem
duelava. Mas a humildade jamais se torna aqui monótona passividade, ela é
superação da vaidade simplória no sentido de uma vaidade dignificada, de um
sentido existencial.
Jon logo galgará o destaque merecido e verá
sua utopia improvável se tornará utopia concreta, o "a menos" da realização somado ao "a
mais" da experiência, as limitações da patrulha e o abandono do lar
contrapostas às descobertas de uma luta de sentido maior, à necessidade de
lidar com a ressurreição de mistérios a muito desconhecidos da humanidade: os
mortos revividos e seus mestres, os Vagantes Brancos. Mas para defender o
Reino Humano de tais criaturas, será necessário se deparar com outros inimigos
milenares, os selvagens. O ódio herdado e o espírito de luta mostram-se forte e
o jovem intendente bem gostaria de ignorar toda a subjetividade desse outro povo,
mas seu destino o coloca como prisioneiro deles, mais do que isso, como uma
espécie de prisioneiro estratégico, de espião capaz de deter, através da subtração de
informações, a horda inimiga, que parece querer transpor a Muralha custe o que
custar.
Mas, como tragicomicamente pode acontecer, o elemento
mediador, o ponto de contato de Jon com esse outro povo, torna-se parte dele, a
casaca virada torna-se também casaca autêntica. A culpa é de Ygritte, uma
selvagem com “cabelos de fogo” em meio ao gelo infinito. A ruiva o ama e ela a
ama. Selvagem? Snow agora, de vez quando, não pode deixar de ver vê-los como o
“povo livre”, aqueles valentes e livres que não se sujeitam a nenhum rei, que não se ajoelham e conhecem poderes muito maiores, que
mantém as tradições do velho e profundo Norte. Ao
contrário de Eddard, Jon não é enrigecido, não pode resistir ao seu amor em
nome de uma honra abstrata, seus votos não lhe parecem mais sagrados do que a
realidade, seu celibato não parece fazer sentido, a menos que sua quebra
significasse algum prejuízo real para os valores nos quais acredita.
Mas Jon não chega jamais a se perder de sua honra, ele a
supera/suspende, tal como o fez com a vaidade, e se vê obrigado a renunciar ao
seu amor para salvar os irmãos para os quais fez seus juramentos. O resultado
acaba por ser a morte daquela que o ensinou que ele “não sabe de nada”, que o
mundo é muito maior do que seu arbitrário círculo pessoal. Jon, no entanto,
diante da tragédia, da dupla traição necessária, aprende algo, aprende que
aqueles estranhos e perigosos são também seres humanos, são pessoas com amor,
sonhos, personalidades diferentes: “Havia esposas de lança com eles, com longos cabelos. Jon
não podia olhar para elas sem se lembrar de Ygritte; o brilho do fogo nos
cabelos, o olhar em seu rosto quando se despiu para ele na gruta, o som de sua
voz” (pág 639 – A Dança dos Dragões). E não só: da relativização da imaginação maniqueísta, brota uma nova
compreensão de que há sim "bem e mal",
um bem e mal menos mecânico, menos simples, no entanto, muito mais real em
sua atuação na ordem do mundo. Uma batalha a ser travada não entre os patrulheiros
e selvagens, mas interiormente a eles (enquanto coletividades), e
particularmente contra as forças a ameaçarem todos indistintamente, os Vagantes
Brancos:“Sou o escudo que guarda o
reino dos homens. Essas são as palavras.
Então diga-me, meu senhor: o que esses selvagens são, se não homens?” ( 590
– A Dança do Dragões)
Desde
o início, justamente por essa lembrança do valor e da humanidade daqueles por quem desenvolve afeto, Jon precisa se levantar contra seus próprios companheiros,
que já não são, para ele, um grupo orgânico, inquestionável por natureza, mas
seres falíveis e precisando passar por transformação junto com ele. Uma mudança, um movimento, no qual ele sente
necessidade de ser protagonista e o torna cada vez mais capaz de
perceber o absurdo das crenças que o rodeiam:
– E salvou a Muralha,
talvez – disse Bowen Marsh. – Esses são os inimigos dos quais falamos. Deixe-os
rezar entre ruínas, e se os deuses deles mandarem navios para levá-los para um
mundo melhor, muito bem. Neste mundo, não tenho comida para alimentá-los.
Jon flexionou os dedos da
mão da espada.
– As galés de Cotter Py ke
navegam por Durolar de tempos em tempos. Ele me diz que não há abrigo lá além
das cavernas. As cavernas que gritam, seus homens as chamam. Mãe Toupeira
e aqueles que a seguiram perecerão ali, de frio e de fome. Centenas deles. Milhares.
– Milhares de inimigos.
Milhares de selvagens.
Milhares de pessoas,
Jon pensou. Homens, mulheres, crianças. A raiva cresceu dentro dele,
mas, quando falou, sua voz estava calma e fria.
– São tão cegos assim, ou
isso é algo que não desejam enxergar? O que acham que vai acontecer quando
todos esses inimigos estiverem mortos?
Sobre a porta, o corvo
resmungou, Mortos, mortos, mortos.
– Deixe-me falar o que
acontecerá – disse Jon. – Os mortos se levantarão novamente, em centenas e aos
milhares. Eles se levantarão como criaturas, com mãos negras e claros olhos
azuis, e virão atrás de nós. – Levantou-se, os dedos da mão da espada abrindo e
fechando. – Têm minha permissão para ir. (pág
435 – A Dança dos Dragões)
Jon é muito provavelmente um
Targaryen, filho de Lyanna Stark e de Raeghar Targaryen, adotado por Eddard
para obscurecer o seu nascimento e existência. O fato é que aquela criança adotada era justamente fruto e símbolo de um amor, de
um reconhecimento entre almas de família inimigas. Esse reconhecimento acabou por desencadear a
guerra que aniquilou todo o equilíbrio de poderes anteriores, causou a
erradicação da família real Targaryen. Esse bastardo é filho ilegítimo de um mundo
que não pode aceitá-lo, que não está pronto para a conciliação que ele
representa, porém, sem saber sua verdadeira história, Jon se envolveu em outro projeto
de união impossível e de amor: ele quis juntar a família dos selvagens com a dos vassalos do Reino, unir todos os seres humanos. A consequência foi seu brutal assassinato! Mas
poderá agora o Senhor Comande da Patrulha da noite combinar-se com seu lobo
Fantasma? Poderá desfazer a cegueira de seus companheiros e abrir
contado para com as forças geradoras da vida? E poderá Jon Snow desvendar
até mesmo a morte, descobrir quem realmente ela é, compreender os Vagantes
Brancos?




