terça-feira, 30 de junho de 2015

Nossas sombras sonham com a escuridão?

"Você será requisitado a fazer coisas erradas não importa para onde vá – disse o velho. – É a condição básica da vida, ser obrigado a violar a própria identidade. Em algum momento, toda criatura vivente deve fazer isso. É a sombra derradeira, o defeito da criação." (Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? pág. 172)


                As sombras são artifícios, projeções ou construções nossas, mas, por vezes, somos levados a nos perguntar se algumas delas não podem se voltar contra nós, se podem se revoltar e nos atacar. A julgar pela filosofia dualista e maniqueísta de Melisandre, nas Crônicas de Gelo e Fogo, nossa época poderá dormir tranquila, pois mesmo aqueles vultos mais horripilantes que produzimos seriam frutos da luz, símbolo do apoio de R`ollor a nossa ação nesse mundo. A casualidade e confiança só valorizam as façanhas que realizamos para manter-nos sempre por cima e são um indício a mais de que toda nosso egocentrismo ou montruosidade servem ao bem maior. A metáfora zoroastrista se encaixa muito bem nos esquemas de um outro velho conhecido nosso, o liberalismo, que imagina uma harmonia pós-estabelecida entre os ardis mais mesquinhos e os seus - sempre justos - resultados coletivos.
                Seja como for, a obra literária a nos inspirar em nossa meditação sobre a escuridão que nos espreita não é a de Martin e nem muito menos a sabedoria perversa de Mel. A ficção científica de Philip K. Dick, em seu Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? , é um dos melhores guias que conheço para a viagem ao pasmo, à desolação e à melancolia que podem derivar de nossa ação. Seu protagonista, Rick Deckard, vive uma crise moral ao perseguir androides fugitivos: naturalmente, esses androides são infratores da lei e não são humanos, ao contrário fugiram das colônias marcianas provavelmente por um defeito que os fez assassinar aqueles com os quais deveriam colaborar fielmente.
                Ora, “aposentá-los” não poderia parecer um crime, um homicídio, sendo eles seres artificias e sem vida! Ainda mais em um mundo pós-nuclear em que as quinquilharias se acumulam por toda a parte e a humanidade é ameaçada pelo desequilíbrio do excesso de suas próprias produções, e tal é o mundo de Deckard: uma Terra dominada pela mídia, pelas drogas e a desolação.  Há provas, fatos empíricos, a reforçarem sua inocência: os teste de empatia demonstram que andróides não possuem o mesmo tempo de reação dos humanos quando confrontados com situações que nos constrangem ou causam incômodo. Um máquina, alguns fios, medidores supersensíveis da reação imediata (da escala Voigt-Kampff) e a sua consciência humana pode repousar tranquila novamente e, de quebra, aproveitar as benesses em forma de recompensa.
             As caixa de emapatia, a possibilidade de  fusão transcendental para com toda a humanidade sob a figura de Wilbur Mercer, eis a prova da superioridade humana de Deckart. Embora não seja do seu máximo agrado a experiência holista, ele é capaz de tê-la, ele não é um monstro. Como Žižek observou, nada é tão reconfortante como saber que nós somos complexos, frágeis,  passíveis de erro, ou seja, que não somos frios e perigosos como nossos inimigos. Desumanos, os androides podem ser destruídos com justiça:

"Empatia, evidentemente, existia apenas na comunidade humana, ao passo que inteligência em qualquer grau poderia ser encontrada em todo filo ou ordem biológica, incluindo os aracnídeos."( pág. 41)

                      Essa certeza, as vezes, empalidece: se há aqueles dentre os nosso inimigos que se pensam sensíveis, humanos, como posso saber que eu mesmo não sou como eles, um falso ser com empatia? Rachel Rosen força essa dúvida na cabeça de nosso caçador de recompensas: por um instante, ele hesita, sustem a respiração, questiona o Voigt-Kampff: e se ela só não responde com mais empatia por não ter sido bem socializada? A diferença de experiências, no entanto, é menos importante do que a confirmação de que Rachel é mesmo um ser artificial. Um ser autêntico, uma pessoa com alma, sonha com ovelhas de carne e osso, com animais dos quais possa cuidar e jamais se compraz com a dor deles, como os androides se deleitam. Deckart segue adiante, pois precisa comprar sua ovelha real, precisa parar de esconder a falsidade do ser do qual cuida, alimenta e dá carinho, embora ninguém externamente possa adivinhar sua mentira:  

"Perguntar ‘sua ovelha é genuína?’ seria, possivelmente, uma quebra na etiqueta pior do que indagar se os dentes de um cidadão, seu cabelo ou seus órgãos internos eram autênticos."  ( pág. 20)

                     Ao mesmo tempo, a duvida neokantiana aumenta, os limites de seu conhecimento tornam-se mais evidentes, o Outro mais enigmático. Sua própria esposa é um ser cada vez mais melancólico e sustentado por engenhos, por drogas a lhe forjarem um estado de espírito construído. Qual seria a diferença dela parara para os androides ou até para os especiais, os "cabeças de galinha", contaminados e degradados pela Poeira da Guerra Mundial Terminus? E o caçador de recompensas ainda descobre que Buster Gente Fina, o guia diário dos cidadãos, não passa - ele próprio - de um androide.
                    Os dilemas gnosiológicos, a duvida perturbadora só é contrabalançada pela vitalidade do sonho substancialista de Deckart: ter seu próprio animal biológico! Um sonho de realismo cada vez menos realista... Com isso, Dick coloca em questão todo o temor e incerteza derivados de um mundo fora de nosso controle, em que nossas criações (sejam artifícios técnicos ou sociais) adquirem uma realidade fantasmagórica e estranhada. Nesse contexto, as certezas são um erro: e se os androides, que se comprazem com a dor animal, pudessem constituir um afeto por seres como eles, por ovelhas elétricas? Se eles pudessem desejar substituir o natural pelo artificial, numa nova hierarquia de valores? A resposta multicultural (pós-moderna) parece a única disponível aqui, tal como o dualismo (modernista) da Sacerdotisa Vermelha só permite um maniqueísmo estranho a nós. Talvez uns certos vira-casacas venham mais a tarde a nos salvar com sua moralidade "para além da vaidade e honra", para além da passividade e da atividade cruel...