A história social do último
século e meio está intimamente entrelaçada com a história do marxismo, enquanto
movimento de massas e desenvolvimento teórico-político. Ao contrário de
qualquer outra, a filosofia da emancipação humana pode constituir e orientar a realidade
sobre a qual se debruçava, a partir de Marx, deixou de existir posicionamento
político (esquerda, direita ou centro) que não se referencie de uma maneira ou
outra ao comunismo científico, como continuador, herdeiro ou antípoda. Tornou-se também impossível não ver com certo
desdém os esforços acadêmicos que continuam restritos aos seus nichos intelectuais
superespecíficos ou até organizações práticas desprovidas de filosofia, pois a
dialética entre teoria e práxis ficou absolutamente patente no instante em que foram traçadas com garranchos aquelas letras, frases e parágrafos que continham a mais contundente das críticas ao pensamento burguês e a toda exploração do homem pelo homem. Justamente por esse fato, a reflexão sobre os momentos desse
intercâmbio de ser e pensar é vital: saber como se elaboraram os comportamentos no passado e tentar mapear como eles se desenham no presente.
O
momento fundador é o do século XIX, no qual as forças utópicas por um novo
mundo se manifestavam de maneira caótica. O blanquismo gostaria de tomar o
Estado por meio de um golpe; Bakunin esperava o fenecimento imediato do Estado;
Phroudon pensava na sociedade em termos morais e foi pioneiro indesejado e
modelar de certo anarquismo ainda em voga; afora os incontáveis
sonhadores inspirados em Fourier, Saint-Simon e até Rosseau. A trajetória de
Marx inverte em si mesma todo esse idealismo: a filosofia cética e materialista
fagocita uma compreensão histórico-utópica, depois um entendimento econômico da
sociedade e, em cada um desses passos, se aproxima da própria experiência das
massas em luta. O resultado é o estabelecimento de uma inédita base para todo o
pensamento crítico, a fundação de um método em que precisamente a história da interação
entre a ossatura da sociedade (seus grupos e posições) e suas representações culturais é decisiva, ou seja,
estamos falando da autoconsciência de um mundo em conflito em que as forças
sociais minoritárias se percebem como corpo único e com possibilidade de atuar,
de transformar o real a partir de sua inversão dialética, que as permite se
tornarem maioria efetiva. Esse entusiasmo inteligente é o ancestral de todas as táticas e estratégias contemporâneas em política e a imagem da 1º geração do marxismo.
Já a segunda geração floresce
juntamente com a ascensão da classe trabalhadora enquanto sujeito histórico no
Velho Mundo. O espectro do comunismo se materializa diante dos olhos dos povos
e traz consigo a brisa fresca do otimismo, a revolução aparece como horizonte
palpável. A tarefa de guiá-la caberá a Lênin, Rosa, Trotsky, Stalin ou Mao. Com
as mais diversas colorações, esse é um debate que se faz sobretudo no âmbito da
tática e, em geral, não tem o desenvolvimento histórico como um problema e sim
um dado. É o caso mesmo do primeiro Lukács marxista de História e Consciência de Classe, quando, a despeito de toda sua
invejável contribuição filosófica, orienta sua obra tendo em vista a inscrição
nos contornos do progressismo do debate Rosa-Lênin.
As
prioridades de uma geração, no entanto, frequentemente se revelam insuficientes
e enganosas no contato com apenas alguns câmbios de contexto. O que é sólido se
desmancha no ar, as certezas trazidas pelas condições imediatas não resistem ao
combate com as insignificantes interrogações marginalizadas naquela mesma
época. Quando as conquistas russas de Outubro começam a mostrar seus limites,
quando a Alemanha mergulha na barbárie hitlerista, quando o capital incorpora a
socialdemocracia e põe em funcionamento novas máquinas ideológicas para a
manutenção do status quo, então o progresso aparece como um tabu
insuportável e como venda a nos cegar perante o desenvolvimento histórico real.
A teoria europeia havia se entrincheirado ao leste e agora retorna desencantada
ao oeste.
Esse
é o momento em que o fechamento será
brilhantemente teorizado, sob o pano de fundo emocional da perda de
visibilidade do sujeito histórico. A
Dialética do Esclarecimento é a imagem modelar da reflexão sobre a derrota não
digerida, uma guinada do destino que a teoria marxista quer fagocitar, pois, ao
explicar o revés, Adorno e Horkheimer buscavam de alguma maneira exorcizá-lo. E
se não puderam fazê-lo sem recorrer à obra otimista de Lukács isso se dá não
apenas pelo reconhecimento da importância filosófica da geração anterior, mas
igualmente pela absorção involuntária da forma reflexiva do húngaro, que
naquele momento pendia em direção à linearidade evolutiva. Assim, a terceira
geração só pode contribuir com o diagnóstico sobre o aprisionamento ideológico
e transmitir o correspondente mal-estar a partir de sua inserção nas balizas
dos motes ideais por ela herdados. Aqui se unem dos frankfurtianos até
Althusser, do “médio” Lukács a muitos teóricos das singularidades regionais.
A
imaginação desse tempo é marcada pelas estruturas emocionais fornecidas pelo
mundo das guerras mundiais e da Guerra Fria, o saber tende a entrar no
horizonte de eventos da geopolítica. Mas
quais seriam as novas tendências quando atualizada essa conjuntura? Uma
quarta geração do marxismo viveu essa transição e sua tarefa tem sido meditar
sobre como a sociedade do capitalismo avançado incrementa as formas de reprodução e, ao mesmo tempo, não pode
impedir que em seus poros renasçam questionamentos sistêmicos, impulsos utópicos. Tal tarefa parece
necessitar da união entre fechamento (3ºG) e progresso (2ºG) e de alguma maneira acaba por fazer recurso a uma
ontologia marxista (1ºG), mas esta aparece complicada a cada
passo pelo desdobramento factual do capitalismo flexível e pela ideia da virada
linguística.
É
no velho Lukács que se veem os primeiros esforços no sentido de realizar a
complexa mediação, quando busca unir a causalidade
ao pôr teleológico. Em sua própria substância humana, a sociedade
capitalista é obrigada a sustentar a contradição entre as forças automotas do
estranhamento e as potências criadoras insaciáveis do gênero. Inversamente,
parte do marxismo inglês aparentada ao pós-estruturalismo, busca compreender as
cotradições da cultura em relação aos imperativos das relações de produção
mercantis como sendo provenientes do empuxo gerado por essas mesmas relações,
sempre a impelir o pensamento à negação.
É possível, não obstante, que uma
nova era se delineie no presente momento. Vivemos uma época em que
aparentemente as contradições típicas do capitalismo avançado começam a entrar
em evidência: fracassam as promessas do superestado sobrevivente, aprumam-se
novos movimentos de massas, emergem novos conflitos geopolíticos, decai definitivamente
a moralidade tradicional, intensificam-se conflitos religiosos, o terrorismo e
a imigração ilegal. Talvez já esteja a se ascender uma nova chama, uma quinta
geração do marxismo a desenvolver o materialismo histórico rumo à compreensão
dos pré-requisitos infraestruturais e narrativos
para a reunificação do sujeito histórico revolucionário.