São raras às vezes em que entro
num cinema e bate logo um desespero, vontade de imitar o bonequinho malcriado
das críticas de cinema, quebrar a tradição metódica e abandonar a sala de
exibição. Na verdade, é coisa tão avessa à minha natureza que não me ocorria
tal pensamento desde 2004, quando fui ver Garfield com minha mãe e irmã.
Talvez, no entanto, esse seja um ótimo motivo para eu escrever um pouquinho
sobre O Destino de Júpiter (2015).
A
história de Júpiter Jones (Mila Kunis) começa da maneira mais barulhenta e
entediante que poderia. A cena inicial é tão terrivelmente longa, barulhenta e
recheada de tiros e contratiros que chocalhou meu cérebro ao ponto de me fazer
cogitar por um segundo o supracitado desapego malcriado. O traço simplório do
enredo inicial era um argumento cantado de maneira ardilosa pelo demoniozinho
numa das minhas orelhas: Júpiter trata-se de uma menina de biografia triste,
muito pobre, explorada pelos próprios familiares e que, repentinamente,
descobre ser rainha de boa parte do universo (!), herdeira da Terra e muitos
outros planetas.
A
descoberta é feita em meio ao caos aventuresco das primeiras cenas, pois,
obviamente, um presente tão grande do destino não pode deixar de causar inveja
e planos homicidas por parte de supervilões universo afora. Os malvados nesse
caso são três irmãos, empresários espaciais, que herdariam essa e outras fatias
do multiverso, não fosse a inconveniente reencarnação da Rainha-faxineira,
Júpiter Jones, nascida sob o signo de Leão e influenciada pelo alinhamento da
Terra com Júpiter no momento de seu nascimento.
No
fim das contas, no entanto, há uma inspiração crítica para a perseguição
intergaláctica e ela se baseia num criativo e detalhado mundo ficcional. Os irmãos Wachowski, diretores e
produtores, incorporam aqui a estrutura de pensamento de seu Matrix (1999), acrescentam seu encanto
por temas espirituais e místicos e ainda acrescentam esquisitices cósmicas num
estilo digno de Star Wars (1977).
A
revolta é comprometida pelo fato de que a forma da revolta (o filme de ação que mal permite pensar) tornou-se adequada
aquilo conta o qual ela se revolta (a sociedade em que a poucos é dado o direito de pensar)? - o problema pode ser explorado tanto no conteúdo narrativo
de Jogos Vorazes (2012) quanto em sua
história real: as linhas de produtos para fãs de cada distrito. Em outras palavras, toda a ação e caos cinematográfico a atraírem irresistivelmente
o público e os criadores cancelam por completo a intenção crítica? Pode a
reflexão política intencionada sobreviver de alguma maneira nos interstícios da
agitação contínua e na afetividade que ela provoca? É apropriado averiguar a
contradição no próprio discurso do filme para não ir longe demais, porém sem
esquecer de ver no discurso e nos recursos formais do pós-ciberpunk (as contemporâneas "distopias reversíveis") o resultado de uma determinada configuração social.
Sobre
os componentes inspiradores do filme, parece que as espécies alienígenas, sua
burocracia ou poderes, são apenas um jogo cômico (embora talvez sintomático), mas
os outros dois ingredientes da narrativa, o espiritualismo e a crítica da exploração,
se entrelaçam de maneira a modificar a distopia pós-ciberpunk de seu filme dos
anos 90. Os alienígenas mais avançados representam uma espécie de classe
dominante universal que maquiavelicamente cultiva planetas e suas populações
humanoides com a intenção de fazer uma colheita genética na ocasião oportuna. A
extração e reposição ordenada da carga genética recria indefinidamente a vida de seus indivíduos
beneficiários. Sem em nada alterar sua base biológica, a
reciclagem não significa eliminação das estruturas superiores da individualidade e sim sua manutenção livre de envelhecimento.
Ao
contrário da história de Neo, portanto, na história de Júpiter, os explorados
não vivem no simulacro intencional criticado por seu inspirador contrafeito, Baudrillard.
Eles vivem num mundo em que conhecer
e ser estão ainda mais completamente divorciados
em relação à ilusão criada pelas máquinas, porque os alienígenas não apenas
montaram uma miragem manipulada num jogo de ação e reação, mas semearam e
prepararam um mundo inteiro (desde a extinção dos dinossauros) para funcionar
por si, completamente alijado da possibilidade de conhecer os propósitos reais
de sua existência ou de conceber a face de seus reais inimigos através de sua falhas ou excessos. Ainda mais claramente do que as máquinas, os alienígenas representam um perverso Deus ex machina. O total divórcio aqui reflete a dificuldade de perceber uma relação orgânica entre a base e o topo da pirâmide social.
O
espiritualismo se encontra no fato de que a repetição de uma ordem genética
dada, mesmo quando desprovida do sedimento corporal e psicosocial já
construído, significa identidade de personalidade, ou seja, a reencarnação de
uma pessoa. Esse é o modo como o abandono da exploração e sua recompensa na
imortalidade por parte dos empresários universais é amenizado, afinal, em
última instância, seus milênios de vida não são perdidos, apenas convertidos
numa nova vida quando renunciam ao seu “lucro genético”. A incognoscibilidade
dos dominadores (alienígenas) e o fosso em relação aos seus submetidos se
reflete na gratuidade ideal do rompimento de seus vínculos, ao contrário de Matrix em que as máquinas perderiam sua
existência sem a fonte humana de energia ou, ainda mais, de outra película
pós-ciberpunk também fundada sob a ideia da mercantilização do tempo, O Preço do Amanhã (2011),
na qual “ninguém deve ser imortal se for necessário que alguém morra”.
Por
um lado, a frieza do projeto dominador, a noção do transplante forçado de órgãos
e da mercantilização como forma de obter privilégios ilimitados sobre os
desprovidos de poder e conhecimentos reconstrói uma crítica extremamente
pertinentes à lógica do capital, ao mesmo tempo, a noção de
futilidade e superfluidade da exploração em última instância, recria uma
mitologia extremamente conservadora, na qual os desníveis sociais são tidos
como lamentáveis equívocos culturais (num espírito que me parece análogo ao
raciocínio de certos “neomarxistas”). Os recursos de uma crítica ao capitalismo tardio são sufocados por uma noção do tipo "feudalismo industrial", uma noção de que a dominação poderia se resolver apenas no nível de um maior esclarecimento.
O próprio pós-ciberpunk enquanto gênero representa
um amadurecimento da percepção das mazelas típicas do capitalismo tardio, ao
mesmo tempo, a forma induzida pela indústria cultural implica na formação de
imagens demasiado lineares para representarem adequadamente a contradição sentida.
É esse contraste explosivo entre intuição correta e representação equivocada
que perfaz grande parte da tragédia dos intelectuais esquerdistas
pós-estruturalistas ou “pós-pós-estruturalistas”. Sendo
assim, o “gosto” pelo cinema de ação e pela crítica entram em um
conflito radical, resultando na criação de um discurso incoerente
acerca da
ontologia desse mundo imaginário, embora a imperfeição seja dramatizada
por essa visível falta de qualidade.
É
por todo esse absurdo na ontologia dos Wachowski que seu resultado mais
visível, “a mensagem deixada ao público”, acaba sendo funesta: a Rainha do
Universo, após retomar seu trono, volta a ser uma lavadora de privadas. Embora
impeça o extermínio em massa dos terráqueos ao derrotar os vilões (embora sem os empoderar), Júpiter
Jones humildemente parece concluir que a sua própria exploração não é um
problema, mas apenas a inconsciência dessa injustiça era deletéria. A maior das
vitórias é, para ela, apenas o prólogo de uma derrota continuada e feliz!