quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Arte contemporânea: é arte de "verdade"?

Indagamo-nos se a arte contemporânea, com todo o tipo de bizarrices, configura-se ou não como arte, uma arte que é transformada em arte pelo discurso, pela palavra, pelo fenômeno, se quisermos assim dizer, e não pela essência. Portanto, diriam alguns, saudosistas ao tempo em que arte ainda eram quadros que pareciam trazer um significado, mais ou menos preciso, mais ou menos aberto, mas um significado, enfim, expressam estes, em um tom compreensível, que o que se produz hoje não se trata mais de arte. No entanto, talvez aqui valha a pena lembrar das lições de Lukács, não sobre a arte especificamente, até porque ele mesmo aspirava pelo retorno do realismo, não do realismo naturalista, mas de um realismo que traduz a essência do ser. Seja como for, vale lembrar as lições de Lukács sobre ideologia.

Para Lukács, a noção de ideologia se distingue do sentido pejorativo presente em grande parte da tradição marxista, de falsa consciência. A ideologia, para ele, diz respeito não tanto ao espelhamento correto ou falso da realidade econômica ou à sua corretude gnosiológica, mas, sobretudo, ao seu impacto sobre as tendências do desenvolvimento social, à sua relevância no desdobramento da realidade social. Há, porém, que se destacar aí duas advertências. Em primeiro lugar, o fato de que a ideologia não precisa significar, como gostaria a II Internacional, um espelhamento mecânico da economia, ou seja, que a ideologia eventualmente possa representar um espelhamento falso, não significa, por outro lado, que haja completa independência da ideologia em relação ao desenvolvimento da objetividade econômica. A compreensão de Marx, de que os homens fazem a sua história, embora não sob as condições que escolheram pode ilustrar esse processo. A duração da influência e efetividade de uma ideologia só pode ser compreendida não em completa dependência da economia, mas jamais pode se desprender completamente dela. É uma relação de identidade de identidade e diferença entre ideologia e economia.

Analisemos mais detidamente a questão. Lukács aborda dois grandes grupos de pores teleológicos, que visam ou o metabolismo com a natureza ou a influência dos pores teleológicos de outras pessoas. A diferença entre esses dois grupos reside, em parte, no fato de que o coeficiente de incerteza nos pores que visam influenciar as decisões de outras pessoas é maior não apenas em termos quantitativos, mas qualitativos. No metabolismo com a natureza, mesmo que nem sempre se possa ter um conhecimento pleno de todos os momentos do processo de trabalho, está dada uma legalidade estável do objeto, que pode ser conhecida de antemão (por exemplo, o tipo de matéria-prima, instrumento, modo de preparo etc. a ser utilizado no processo de trabalho), ou seja, as legalidades apenas podem ser conhecidas. O desenvolvimento social, porém, ao contrário do trabalho, produz novas legalidades a partir de si mesmo. Ou seja, os pores teleológicos que visam influenciar outros pores teleológicos geram novas legalidades. Assim, na dimensão política, os processos são mais incertos não apenas no sentido de que são menos passíveis de serem conhecidos, mas também mais dinâmicos. Por isso, com certa liberdade, podemos trazer aqui uma resolução da Dialética Negativa de Adorno (apesar de suas divergências e caminhos diferentes), o eterno adiamento da síntese no processo social. A ciência social não se presta a uma conclusão acabada, não apenas porque a própria sociedade é contraditória como quer Adorno, mas também porque novas legalidades são sempre geradas no seio do desenvolvimento social e, por isso, destaca-se sua peculiaridade e seu grau de incerteza em relação ao outro tipo de pôr teleológico, o trabalho. É assim que, como diz Lukács (p.513), “o traçado dos limites de uma política [a política como uma dimensão da ideologia] ‘em geral’ é muito mais restrito do que o da produção em geral”, porque o metabolismo com a natureza é menos incerto e, portanto, a abstração que Marx realiza com o processo de produção, quando fala nos Grundrisse em “produção em geral”, é mais razoável, porque é próprio da dimensão política e da ideologia como um todo a contínua produção de novas legalidades a partir de si mesma e, portanto, a impossibilidade de se dar de antemão um critério de corretude.

Isso não responde, contudo, o problema anteriormente posto sobre a relação contraditória entre economia e ideologia, quanto ao fato de que a ideologia pode ter um espelhamento eventualmente falso da economia, como explica Lukács referindo-se, aqui, ao direito: “Em outros contextos já expusemos que o direito tem de espelhar a realidade econômica de modo deformado. Isso mostra, por sua vez, como é errado abordar questões ideológicas com critérios gnosiológicos. Porque, nesse campo, não se trata de fazer uma separação abstrata de verdadeiro e falso na imagem ideal do econômico, mas de verificar se o ser-propriamente-assim de um espelhamento eventualmente falso é constituído de tal maneira que se torna apropriado para exercer funções sociais bem determinadas” (p.498). Porém, como se abordou anteriormente, trata-se de uma identidade de identidade e diferença. Assim, por mais que o direito, como uma esfera eminentemente posta (em contraposição aos costumes, à moral, etc., que tendem a ser mais espontâneos), possa tender a um esfacelamento cada vez maior do espelhamento do desenvolvimento econômico, ele surge eminentemente da economia. A partir dos conflitos surgidos na dimensão da economia, que na sua imediatidade parecem ser casos singulares, o surgimento de uma esfera destinada à resolução de conflitos e, portanto, a medida que avança a complexificação do desenvolvimento social, o surgimento de uma esfera relativamente autônoma. Assim, o direito configura-se então como nova forma de objetivação e alienação, que surge da economia, mas não é mero espelhamento dela. Por isso não é válida a mera análise gnosiológica da ideologia. Por outro lado, por mais que persista o elemento irrevogável da casualidade do direito, de não necessariamente manifestar uma simples transposição de determinações do processo econômico, “esta ação sempre ocorre só num campo de ação precisamente determinados em termos sociais”. Isto é, as compreensões do direito, por mais que possam partir das ações de um grupo de pessoas, como juristas especializados, são sempre são delimitadas por uma situação sócio-histórico concreta, por exemplo, como ilustra Lukács, a consideração jurídica do roubo como crime na acumulação originária ou no capitalismo desenvolvido. Aqui se ilustra, mais uma vez, a impossibilidade de ser dada uma ideologia em “geral”, por tal impossibilidade de perenização do conhecimento social em relação ao conteúdo, no caso do direito, de regras absolutas, por mais que a ciência oficial fetichizada queira compreender suas normas sociais como “eternas”, “naturais”.

Assim, compreende-se a unidade contraditória entre economia e ideologia. Porém, me permanecem algumas questões. O entrelaçamento de ambas não anula possíveis contradições, de casos singulares concretos que tomam um desenvolvimento diverso ao desenvolvimento econômico daquele momento. A pergunta, porém, é se e em que medida as novas cadeias causais postas em andamento pela ideologia, mesmo que não estejam em conformidade com a objetividade social, mas influem nela efetivamente, ou a contraria, pode persistir. Isto é, como, do descompasso entre os fatores objetivos e subjetivos, ou seja, como fatores subjetivos, ou da ideologia, podem persistir mesmo que contrariem o processo econômico? Ou seja, como a ideologia pode se tornar uma força efetiva a ponto de reverter, reverberar sobre o processo econômico, se não representa um espelhamento mais ou menos correto de tal processo? Como pode durar uma ideologia contraditória a uma dada objetividade social? Ela só pode durar se é consonante com o desenvolvimento geral? A isto ainda não tenho respostas, não apenas como, mas mesmo sobre tal possibilidade.

Seja como for, a partir de tal compreensão, os critérios gnosiológicos, para Lukács, são insuficientes. É a partir dessa apropriação que se configura minha crítica à crítica do PSTU aos  movimentos desorganizados da massa, então chamados Black Blocs. Não se está dizendo com isso que, em termos de conteúdo, a ação tática desse “grupo” (em aspas porque, pelo menos até o período da crítica, não me parece que havia, de fato, um grupo organizado, mas um conjunto de manifestações rebeldes e espontâneas por parte de pequenos grupos de pessoas mais ou menos articuladas), enfim, não se está admitindo uma concordância material com a prática espontaneista rebelde. No entanto, seguindo a compreensão de Lukács quanto à ideologia, tais atos eram não apenas inevitáveis, como manifestação de revolta por uma parcela da população, mas geraram novas cadeias causais, foram operantes.Isto, porém, permanece no caráter abstrato. Somente a análise do conteúdo deste ideal pode oferecer sua particularidade, sua constituição material, efetiva.

Essa consideração é essencial para a compreensão de que por um lado, uma análise ontológica das ideologias admite que o critério para sua compreensão não reside na correção científica verdadeira ou falsa de seu conteúdo como espelhamento da realidade econômica, mas no seu impacto sobre as tendências do desenvolvimento do processo produtivo, nos termos de Lukács, pores teleológicos que põem em funcionamento novas cadeias causais. Por outro lado, cai no erro oposto a completa rejeição dos critérios gnosiológicos para compreensão da ideologia, incorrendo no puro pragmatismo. Os conteúdos das ideias de modo algum são indiferentes ao processo social, como se fosse decisivo apenas o êxito prático. É assim que, por exemplo, em termos abstratos, como mostra Lukács, não compete examinar o ideal dos jacobinos no século XIX ou do nazismo no século XX, no sentido de que ambos foram decisivos, efetivos no processo de desenvolvimento da humanidade. Isto, porém, só em termos puramente abstratos, porque em termos humanos, faz toda a diferença o conteúdo da ideologia, o seu caráter político-moral, a sua particularidade: “já o teor ideal, moral, etc. que põem essas massas [jacobinos e nazistas] em movimento é extremamente diferenciado e essa diversidade imprime a sua particularidade, a sua constituição especificamente humana, a sua constituição política, a todos os atos ulteriores. O caráter humano-social da gênese, do caminho encetado por um movimento, determina também a direção e o conteúdo da práxis posterior. O homem enquanto ser que responde nunca é independente da questão que a história lhe coloca, mas de igual maneira o movimento social que se tornou objetivo jamais pode se tornar independente de sua gênese humano-social, político-moral” (p.509). O final desta citação nos permite a explicitação do problema, não se pode rejeitar o conteúdo da ideologia em detrimento de uma análise meramente pragmática, porque é ela [ideologia] que dá o critério da sociedade correta, a sociedade que se quer, seu caráter peculiarmente humano.

Para voltar à reflexão sobre a arte, é nestes termos que é falso quando se avalia a arte contemporânea como não-arte, no sentido de que ela é fundamento objetivo do desdobramento social, de que já é objetivamente parte do universo artístico, independentemente da valoração qualitativa que se tenha dela. Os artistas partem dela, independente de sua postura de recusa ou identificação com tal arte. Criticar a arte contemporânea seria recair na crítica de Feuerbach à religião. Feuerbach entende que a religião torna o homem estranho a si mesmo, por isso procura reduzir o mundo religioso à sua base profana, ao mundo social. Mas assim torna abstrata justamente essa base profana, desligando-a de suas contradições, que tornam necessário o mundo religioso. Com a arte, de modo análogo, do que se trata não é da recusa ou aceite do estilo de produção artística, mas que "espírito do tempo" permitiu criar um Andy Warhol ou Duchamp? Qual é a lógica cultural, própria do capitalismo tardio, na qual o objeto comum e a arte se igualam entre si, ao ponto que o que diferencia se uma caixa de brillo box é arte, mas outra outra igual a ela não o é, é apenas o seu "conceito"?

Andy Warhol, Brillo Boxes, 1964.

A pergunta não é aonde quer chegar esta arte, mas o que ela pode nos revelar como sintoma? O que
pode revelar como conteúdo ético, inclusive?

A aparência de que dinheiro supostamente gera mais dinheiro se revela como fenômeno, por trás do que se vela a essência do mais-valor e do mais-trabalho. No entanto, o lucro, enquanto fenômeno, não é uma aparência, mas fundamento real da atividade social, mesmo que a maior parte dos operadores do capital desconheçam sua origem como mais-valor. De modo mais ou menos análogo, embora muito mais incerto, a arte da caixa de Brillo Box, que deixa quase de "existir" fisicamente para se tornar performance, aparece apenas sob sua figura imediata, que vela uma mediação histórica atrás de si, mas não é mera aparência. A arquitetura medieval românica, com sua configuração pesada e ambientes escuros remete a um significado religioso, de entrega emocional e desprendimento da razão. A arte contemporânea também nos diz algo, que talvez não seja tão fácil identificar exatamente por estarmos nós mesmos imersos neste espírito. Como suspeita, relacionado a uma época que recusa qualquer ontologia como metafísica, a falta de referência externa. Assim como a Juliette de Sade, segundo examinam Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento, sem critérios sobre o que é possível, agarra-se às posturas sexuais mais execradas pela sociedade, não tanto pelo prazer, mas apenas "por diversão", porque, pela falta de parâmetros, "vale tudo", também neste sentido para um Andy Warhol não há mais critérios para o estabelecimento do que é arte, as fronteiras diluíram-se? Não se trata de gosto pessoal, mas da relação quase óbvia, inegável, entre a arte e seu próprio tempo.