A narrativa de Jogos Vorazes é
eminentemente política, embora haja na série um elevado grau de indeterminação
acerca dos conteúdos políticos específicos e o resultado dessa característica é
que transbordam leituras e divergências acerca da “real crítica” levada a cabo
por Suzanne Collins. A autora, no entanto, admite ter se inspirado na
experiência crítica do pai acerca da guerra estadunidense no Vietnã e dos
modernos “reality shows”.
O
terror da guerra, sua propaganda cruel, o sacrifício dos dominados em nome do
interesse de poucos e, ao mesmo tempo, o mundo do marketing milagroso, das
manipulações e falsificações televisivas, da competição individualista feroz e a
ideologia do vencedor imbatível formam, portanto, uma totalidade coerente, um
sistema unitário, nas páginas de Collins.
Não
há dúvida de que múltiplas situações históricas podem ser figurativamente
representadas nesse arranjo, até porque, como sabemos, a história até hoje
esteve sempre imersa em sangue, opressão e desvario. Mas, a julgar pelas
características dos protagonistas políticos da história, a Capital e o Distrito
13, parece muito mais plausível inferir que Collins esteve interessada em
reproduzir um conflito inspirado na Guerra Fria, no qual a primeira cidade
representa o capitalismo com seu cinismo, crueldade e futilidade, enquanto a
segunda cidade representaria o socialismo com suas esperanças bloqueadas pelo
autoritarismo e pela escassez de recursos.
A inversão da crítica burguesa usual é de
máxima importância aqui. A distância histórica permitiu a Collins manter uma crítica
comum aos regimes autoritários do tipo soviético e, no entanto, enfatizar muito
mais a violência liberal, a brutalidade das disputas individualistas e a
falsidade inerente à mídia em sua conjugação com o interesse das classes
dominantes. O efeito social corrosivo e a perversidade quase irracional da comunicação
de massas faz com que muitos expectadores sintam-se superiores perante a
credulidade e passividade supostamente caricaturais dos personagens, porém será
assim tão caricatural? A atração que o filme gera sobre a multidão parece
mostrar a força realista presente nesse “blockbuster”, a inspiração no presente
que nós vivemos. A contradição se encontra justamente na sociedade e, perante a
bela e rara formulação de um entendimento coerente que tal obra permite acerca
da sociedade “pós-moderna”, as interpretações se perdem no antagonismo da necessária
crítica radical total e da inerte aceitação ideológica do dado.
Não
surpreende que alguns – e talvez a maioria - tenham visto no livro ou no filme
apenas uma crítica ao Estado, uma crítica ela própria midiática e moralista à
concentração de poder nas mãos dos políticos. Quanto à autora sabemos que não é
tão superficial quando observamos sua ênfase na exploração econômica dos distritos
mais pobres, ou seja, no fato dela não ver o mercado ou a divisão do trabalho
como a mão amiga a distribuir benefícios (“Há coisas que as pessoas não pensa
quando nunca lhes faltou pão em casa”); igualmente o confirmamos em sua
contraposição da Capital com o 13, que surge no último livro e que contrasta
sua crítica ao autoritarismo com sua crítica ao capitalismo em fase monopolista.
Por fim, a tese da figuração da Guerra Fria ganha força com a ameaça nuclear
que no livro impede a guerra total, mas serve para manter a política de
estrangulamento econômico sobre o 13 e impedir o livre desenvolvimento de sua
sociedade.
Para
além dessa capacidade de representação de uma sociedade do espetáculo, na qual
violência e apologia se unem, o mais fascinante em Jogos Vorazes é a
dramatização do conflito pessoal no que diz respeito à interpretação e a espontaneidade,
à necessária adaptação e o impulso autêntico. Katniss Everdeen, a protagonista
da série, embora desde o início apresente críticas e antipatia pela Capital,
somente pode compreender verdadeiramente o mundo em que vive quando é envolvida
de maneira dramática na trama diabólica da luta pelo poder.
O
conflito entre ser uma peça num jogo muito mais amplo do que ela e ser quem se
é, é um paradoxo dilacerante. É confuso e insolúvel quando se trata da
política, da tensão entre a busca por sobrevivência e ser símbolo da rebelião e,
ainda mais, quando se trata do amor, a confusão gerada por representar para as câmeras
um amor comercialmente útil e, ao mesmo tempo, descobrir dentro de si uma
paixão e um afeto verdadeiros.
Katniss
torna-se um símbolo da revolução, o tordo (ou a foice e o martelo) da esperança
na medida em que vai deixando de ser apenas o negativo do sistema, na medida em
que é levada - e se deixa levar – para fora da limitação da vida no Distrito 12
e aprende quão deformada e absurda é a situação total de seu mundo, ela aprende
com a Capital que mesmo os cidadãos privilegiados da cidade são não muito mais
do que alienados e, no entanto, do arranjo que os tem como viga mestra brota
uma monstruosidade injustificável. Ela torna-se uma consciência universal e
crítica.
A
contraposição dialética entre o indivíduo advindo da sociedade, que atua sobre
ela, que a tem como palco de luta e de rebelião é repercutida de forma tão abrangente
pelo romance que não há sequer motivos para suspeitar que sua autora tenha
total consciência do que fez. Isto porque o dilema da protagonista é o do
próprio texto, que, apesar de sua inclinação absolutamente crítica, se dobra a
imperativos culturais mercadológicos em sua raiz, como a linguagem simples e
rápida, o esquema de roteiro de cinema industrial, etc. A própria crítica não
pode brotar de outra parte senão da totalidade criticada e Collins não ignora
inteiramente tal fato, pois observa que a ampla propaganda ao redor do filme, a
ênfase no triângulo amoroso gerada pela adaptação cinematográfica e todas as
demais “distorções” geradas pelo sucesso da história são paradoxos com os quais
seu fãs tem de saber lidar.