quinta-feira, 13 de março de 2014

A voracidade do espetáculo e o espetáculo da voracidade: sucinto comentário sobre a série Jogos Vorazes



A narrativa de Jogos Vorazes é eminentemente política, embora haja na série um elevado grau de indeterminação acerca dos conteúdos políticos específicos e o resultado dessa característica é que transbordam leituras e divergências acerca da “real crítica” levada a cabo por Suzanne Collins. A autora, no entanto, admite ter se inspirado na experiência crítica do pai acerca da guerra estadunidense no Vietnã e dos modernos “reality shows”.
                O terror da guerra, sua propaganda cruel, o sacrifício dos dominados em nome do interesse de poucos e, ao mesmo tempo, o mundo do marketing milagroso, das manipulações e falsificações televisivas, da competição individualista feroz e a ideologia do vencedor imbatível formam, portanto, uma totalidade coerente, um sistema unitário, nas páginas de Collins.
                Não há dúvida de que múltiplas situações históricas podem ser figurativamente representadas nesse arranjo, até porque, como sabemos, a história até hoje esteve sempre imersa em sangue, opressão e desvario. Mas, a julgar pelas características dos protagonistas políticos da história, a Capital e o Distrito 13, parece muito mais plausível inferir que Collins esteve interessada em reproduzir um conflito inspirado na Guerra Fria, no qual a primeira cidade representa o capitalismo com seu cinismo, crueldade e futilidade, enquanto a segunda cidade representaria o socialismo com suas esperanças bloqueadas pelo autoritarismo e pela escassez de recursos.
                 A inversão da crítica burguesa usual é de máxima importância aqui. A distância histórica permitiu a Collins manter uma crítica comum aos regimes autoritários do tipo soviético e, no entanto, enfatizar muito mais a violência liberal, a brutalidade das disputas individualistas e a falsidade inerente à mídia em sua conjugação com o interesse das classes dominantes. O efeito social corrosivo e a perversidade quase irracional da comunicação de massas faz com que muitos expectadores sintam-se superiores perante a credulidade e passividade supostamente caricaturais dos personagens, porém será assim tão caricatural? A atração que o filme gera sobre a multidão parece mostrar a força realista presente nesse “blockbuster”, a inspiração no presente que nós vivemos. A contradição se encontra justamente na sociedade e, perante a bela e rara formulação de um entendimento coerente que tal obra permite acerca da sociedade “pós-moderna”, as interpretações se perdem no antagonismo da necessária crítica radical total e da inerte aceitação ideológica do dado.
                Não surpreende que alguns – e talvez a maioria - tenham visto no livro ou no filme apenas uma crítica ao Estado, uma crítica ela própria midiática e moralista à concentração de poder nas mãos dos políticos. Quanto à autora sabemos que não é tão superficial quando observamos sua ênfase na exploração econômica dos distritos mais pobres, ou seja, no fato dela não ver o mercado ou a divisão do trabalho como a mão amiga a distribuir benefícios (“Há coisas que as pessoas não pensa quando nunca lhes faltou pão em casa”); igualmente o confirmamos em sua contraposição da Capital com o 13, que surge no último livro e que contrasta sua crítica ao autoritarismo com sua crítica ao capitalismo em fase monopolista. Por fim, a tese da figuração da Guerra Fria ganha força com a ameaça nuclear que no livro impede a guerra total, mas serve para manter a política de estrangulamento econômico sobre o 13 e impedir o livre desenvolvimento de sua sociedade.
                Para além dessa capacidade de representação de uma sociedade do espetáculo, na qual violência e apologia se unem, o mais fascinante em Jogos Vorazes é a dramatização do conflito pessoal no que diz respeito à interpretação e a espontaneidade, à necessária adaptação e o impulso autêntico. Katniss Everdeen, a protagonista da série, embora desde o início apresente críticas e antipatia pela Capital, somente pode compreender verdadeiramente o mundo em que vive quando é envolvida de maneira dramática na trama diabólica da luta pelo poder.
                O conflito entre ser uma peça num jogo muito mais amplo do que ela e ser quem se é, é um paradoxo dilacerante. É confuso e insolúvel quando se trata da política, da tensão entre a busca por sobrevivência e ser símbolo da rebelião e, ainda mais, quando se trata do amor, a confusão gerada por representar para as câmeras um amor comercialmente útil e, ao mesmo tempo, descobrir dentro de si uma paixão e um afeto verdadeiros.
                Katniss torna-se um símbolo da revolução, o tordo (ou a foice e o martelo) da esperança na medida em que vai deixando de ser apenas o negativo do sistema, na medida em que é levada - e se deixa levar – para fora da limitação da vida no Distrito 12 e aprende quão deformada e absurda é a situação total de seu mundo, ela aprende com a Capital que mesmo os cidadãos privilegiados da cidade são não muito mais do que alienados e, no entanto, do arranjo que os tem como viga mestra brota uma monstruosidade injustificável. Ela torna-se uma consciência universal e crítica.
                A contraposição dialética entre o indivíduo advindo da sociedade, que atua sobre ela, que a tem como palco de luta e de rebelião é repercutida de forma tão abrangente pelo romance que não há sequer motivos para suspeitar que sua autora tenha total consciência do que fez. Isto porque o dilema da protagonista é o do próprio texto, que, apesar de sua inclinação absolutamente crítica, se dobra a imperativos culturais mercadológicos em sua raiz, como a linguagem simples e rápida, o esquema de roteiro de cinema industrial, etc. A própria crítica não pode brotar de outra parte senão da totalidade criticada e Collins não ignora inteiramente tal fato, pois observa que a ampla propaganda ao redor do filme, a ênfase no triângulo amoroso gerada pela adaptação cinematográfica e todas as demais “distorções” geradas pelo sucesso da história são paradoxos com os quais seu fãs tem de saber lidar.