Pretendo apenas uma alegoria que, como
uma charada, quer ler algo esotérico, o ciclo dos signos na astrologia, à luz
do processo de formação do espírito, de um eu singular até o rumo final do
Espírito absoluto, mais ou menos inspirado nos moldes hegelianos. Não é
importante se a astrologia se revela ou não como falsa consciência, como concepção
errada do mundo. É uma paixão antiga, que, independente da verdade de sua
representação, forjou uma visão de mudo e, por isso mesmo, mostra-se
verdadeira. Se os fatos não correspondem, “pior para os fatos”! Além disso,
trata-se somente de uma brincadeira, que quer ver o “caminho” do zodíaco. Este
texto é também uma promessa antiga, típica de histórias como aquela contada por
Zizek a propósito de Niels Bohr. Um amigo o visitava e, tendo encontrado presa
à porta uma ferradura de cavalo, lhe perguntou se ele acreditava nisso, ao que
o dono da casa lhe respondeu que ele não acreditava, mas que dizem que funciona
mesmo para quem não acredita. Assim, me acho em uma estranha situação, a de,
pela vontade de não me ver mais às voltas com uma obrigação não cumprida, escrever
algo cujo tempo já passou.
Áries, como a criança, inicia a tomada de
consciência do mundo e de si. Já o espírito ariano ultrapassa o âmbito da pura
certeza sensível e reconhece que, na apreensão do mundo empírico material,
impera um eu ativo, que tem impulso e vontade e determina o objeto. Como puro
ego, mas aprisionado na lógica do desejo, o eu ariano quer se impor sobre o
outro, fazendo anular o momento do outro. A luta pela afirmação do eu se
apresenta em toda a primeira metade do zodíaco, mesmo que os temas variem
segundo o signo, mas é Áries que representa o desenvolvimento primordial do eu
impetuoso e voluntarioso. É somente a partir do sétimo signo, Libra, oposto de
Áries, que ingressa a afirmação de uma intersubjetividade, que reconhece o
outro.
Touro representa as “minhas posses”, o
amor pelas coisas que estão próximas a mim, que me são familiares. Em Touro
tanto o gosto pelos prazeres sensuais da vida, preso à esfera sensível, quanto
o amor leal, mas possessivo e ciumento, demonstram o prendimento do eu à lógica
do desejo, que ainda não pode reconhecer o outro e, às vezes, vincula-se
excessivamente à manifestação física imediato-pragmática, sem espaço para uma
representação mais própria do imaginário, que poderia dar chaves para uma
concepção da alteridade.
Gêmeos, como o intelectual, que se propõe
o método de buscar a verdade por meio da dúvida permanente, mas nunca a pode
alcançar, tampouco pode atingir o outro. Como a criança que busca conhecimento
do mundo, mas permanece, contudo, presa em sua própria cognição, assim Gêmeos
permanece nos limites de sua própria epistemologia, que nunca pode alcançar a
coisa, esse escravo do conhecimento. Também como o comerciante, sempre na busca
de algo novo, que possa satisfazer seus desejos de versatilidade, Gêmeos
permanece na lógica do desejo, como Áries e Touro, na busca de novos objetos,
sempre provisórios e a serem repetidamente esgotados, mesmo que sob uma
temática diferente.
Câncer
já me parece um indicativo, ou espécie de precursor do reconhecimento do outro,
na medida em que se apresenta uma empatia pelos desejos e assuntos da alma do
outro. No entanto, mesmo na solicitude e sensibilidade emocional, própria da
situação do seio materno, parece residir o espírito do ego e da possessividade
chantagista-emocional, que se faz vítima do mundo. Mas aqui, como o quarto
signo, que medeia entre Áries e Libra, entre o eu e o outro, qual pode ser tal
significado? O eu não mais solipsista, mas como família, como amor e
reconhecimento por todos aqueles que me são próximos como familiares? Como
também é que, por outro lado, é possível se efetuar a passagem de um pensamento
pragmático (Touro) e intelectualista (Gêmeos) rumo a um pensamento vivido e
imaginativo, onde se abre espaço para as imagens da fantasia e de empatia pelo
outro? No entanto, quanto a isto, é preciso reconhecer que ao longo de todo o
zodíaco os princípios de lógica e sensibilidade revezam-se continuamente,
permanecendo por 1 ou 2 signos.
Em Leão o princípio do eu volta a
aparecer no ciclo do zodíaco. Que poderá explicar esse reaparecimento do eu em
sua forma pura, primeiro como a cabeça (Áries) e agora como o coração? Que é
essa sensibilidade, que não verdadeira compaixão, mas auto-compaixão
arrebatadora? Quem é esse tirano, que se apresenta como criação e alegria, mas,
ao mesmo tempo, embaixador da megalomania? Leão permanece na lógica do desejo,
que precisa de satisfação no luxo descompromissado e no gozo ou nos prazeres
dos jogos. No entanto, Leão igualmente precisa do reconhecimento do outro. O
amor que sente pelo outro é necessidade de si mesmo, ou um amor que “só é
possível como reflexo narcisista”. Algum amor não é? A pessoa entusiasmada e ativa não pode,
porém, amar. Ò golpe trágico. Tamanha generosidade de um tal Rei. Mas para
quem? Alguém o mereceria? Paixões fugazes ou o grande amor? O exagero de Romeu
e Julieta, não tanto pelo caráter factual, mas pela idealidade. Já se observa,
de fato, a transposição de um eu puramente físico-presente, na cabeça ariana ou
nos soldados da linha de frente, para o eu no âmbito do domínio inteligível.
Virgem, por sua vez, o último signo da
primeira saga, me parece representar o ingresso na esfera ética. Mas trata-se
de uma ética muito precisa, a ética daquilo que é saudável e do que é nocivo ou
inconveniente. É algo próximo à ética kantiana, que permanece presa em uma
doutrina abstrata da moral, propugnando ações segundo uma máxima universal que
tem seu lócus fundamental não nas ações humanas reais, mas em um princípio
transcendente, que deve se impor sobre os seres humanos, como o universal e
objetivamente “certo” ou “errado”. Assim, visando uma postura objetiva,
ascética e correta, Virgem cai no campo da estreiteza mental, da consideração
obtusa e inibida da alteridade. Como diz certo livro de astrologia, “só se
apaixona quando tudo ‘está no lugar certo’”. “O signo de Virgem corresponde à
colheita, quando os grãos são separados da palha”. Mas o amor aos detalhes, a
cada etapa do processo de trabalho, ou a busca do princípio eternamente
correto, faz escapar a totalidade ou a dinâmica contextual. Por outro lado, é o
princípio obtuso da moral kantiana virginiana que permite estipular a norma de
direito universal, para que se possa oferecer os primeiros parâmetros da
consideração do outro, mesmo que ainda de forma abstrata, isolada das situações
concretas. Virgem me parece ser ainda também os trabalhos manuais, de preparação
do objeto, ao invés de seu simples consumo imediato. Virgem, ao invés de
meramente consumir eternamente o objeto, fazendo-o sucumbir (como predecessores
como Áries e Touro), inicia o princípio do trabalho, que prepara o objeto com
vistas a uma finalidade.
Finalmente a partir de Libra parece
ingressar, de maneira mais concreta e completa, o domínio do outro, inaugurando
essa segunda fase do zodíaco, que deve encerrar com Peixes. Agora, já se tem no
outro não algo a ser consumido ou desejado com vista a uma auto-satisfação, mas
em Libra, como na arte, o outro traz satisfação por si próprio, mais ou menos
como o desinteresse estético kantiano, como a beleza de uma paisagem pintada
que independe da existência efetiva dessa paisagem. Ou seja, em última
instância, é universal e, mesmo que eu tenha uma satisfação contemplativa, me é
indiferente. Por outro lado, se não é estranho que o domínio do outro se inicie
no signo do amor romântico, é estranho que neste signo se mesclem beleza e
amor, se por belo eu entendo o sentido estético kantiano do referido prazer
desinteressado. Como amor e desinteresse (no sentido estético) poderiam
misturar-se? De fato, tenho minhas dúvidas se o princípio do amor romântico,
como paixão arrebatadora, teria início não apenas no exagero shakespeareano
leonino, que tem o amor de si mesmo como modelo para o amor pelo outro (e
vice-versa), mas mesmo talvez em Touro, na sensibilidade sensual. Por que não
admitir que o narcisismo leonino, o ciúme possessivo taurino, ou a sensibilidade
canceriana já fazem parte, por si mesmos, do que se chama de amor romântico?
Não se trata de uma consideração ascética do outro com vistas a um determinado
fim. Tal posição parece mais próxima do amor romântico libriano já mediado pela
esfera ética virginiana, do casamento como considerado no senso comum. O amor
não é algo puramente belo e distante das afecções, mas carrega uma violência do
eu, embora simultaneamente com uma necessidade de reconhecimento do outro. Por
isso, acho estranho que Libra seja simultaneamente o signo do amor e da beleza,
se por beleza, estética e harmonia se entende algo que não afeta o sentido
prático-efetivo dos seres humanos. Por outro lado, se a beleza for considerada
como prazer desinteressado em outro sentido, no sentido de que carrega tanto um
caráter universal quanto subjetivo, tal estranhamento perde sua razão de ser.
Escorpião novamente introduz um princípio
de violência, mesclado com a própria morte. O signo do sexo já não trata aqui
da lógica do desejo no sentido do dispêndio impetuoso e superficial, que
permanece no puro eu, mas como outro efetivamente. Após o signo harmonioso e
pacífico da beleza, novamente emerge um princípio de tensão, obstinado nas
coisas ocultas, nos segredos, não mais nas minhas coisas (como Touro), mas nas
coisas dos outros.
Sagitário, como oposto de Gêmeos (que permanece um eterno cético flexível), escapa da prisão epistemológica e chega ao
outro, à identidade sujeito-objeto, se não ainda no plano espiritual no sentido
de Peixes, pelo menos no plano filosófico. Sagitário quer não apenas
conhecimento (Gêmeos), mas o sentido do mundo. Ele busca o sublime, de novo no
sentido kantiano, daquilo que é tão grandioso, que escapa a medida. É também
representativo que no processo de identificação entre sujeito e objeto se
encaminhe também um processo de maior centralidade do tema da liberdade, em um
sentido universal ou histórico-social, como em Sagitário ou Aquário.
Capricórnio, assim como Câncer, como o
signo que medeia entre Áries e Libra, mas desta vez no “hemisfério” do outro, representa
a vida política. Quero entender a política aqui não em um sentido utilitarista,
mas como aquilo que carrega a virtude ética e a realização humana. Somente
assim é possível entender a vida pública como a realização de um espírito do
mundo, uma vida política a partir do qual a humanidade se efetiva. Por isso,
ela se encontra como a execução do sentido filosófico dado em Sagitário.
Aquário, finalmente, como o signo da
revolução e da desestabilização parece revirar de cabeça para baixo todos os
antigos valores. A realização do espírito do mundo relacionada à utopia e à
superação do passado.
Peixes, por sua vez, parece representar o
princípio máximo de fusão. Após a destruição aquariana, Peixes dá um sentido de recuperação e renascimento, relacionado ao tema
mitológico da baleia (já considerada um peixe), que engoliu Jonas e, depois, com
sua saída do animal, a representação da reencarnação. Em Peixes se apresenta a
unificação de maneira interior. O eu já não é um ente isolado carente de si e incompleto, ou unido ao outro apenas de modo exterior, mas eu e outro se confundem e se identificam, o Eu que é Nós. Em tal relação entre sujeito e
objeto, que encontram a liberdade um no outro, tem-se o princípio de eticidade absoluto
que, porém, só pode se afirmar, a partir do polo do eu (Áries), seu seguidor
imediato. O mais profundo altruísmo logo seguido pelo princípio do ego. Aqui, neste signo oposto a Virgem, o qual caracterizamos como a ética abstrata, ter-se-ia, pelo contrário, a esfera da moralidade concreta. Mas que moralidade pode ser dada, quando eu e outro se igualam completamente?