quinta-feira, 31 de maio de 2012

A criação da animação no ocidente e no oriente: super-heróis e mundo mágico.



             A questão de entender a diferença entre a animação japonesa e a estadunidense, formas dominantes mundo afora e representantes de tipos quase tão opostos quanto a posição de seus respectivos países no globo, surgiu naturalmente em minha cabeça pelo gosto que nutro pelos animes japoneses desde a infância. Quanto aos quadrinhos estadunidenses, sempre tive um interesse relativamente retraído, limitado a alguns casos contados nos dedos, embora eles continuem a ser o formato mais veiculado no Brasil.
                Como se sabe, não é nada difícil racionalizar preferências pessoais para transformá-las em juízos de valor (principalmente políticos) sobre o mundo como um todo, então, obviamente, não quero incorrer neste erro valorando um formato como superior e outro como inferior. Quero somente remeter a criação de ambos aos seus substratos sociais e analisar como estes são retransmitidos através da própria forma de suas narrativas: há, em ambos os casos, conteúdos políticos ambíguos e contraditórios. Ao mesmo tempo, é claro que minha identificação subjetiva com determinado formato não é puro elemento a ser subtraído da minha conclusão, como um weberiano gostaria, mas é já indicativa de uma oculta afinidade estética, prenhe de determinações políticas e psicológicas.
                A primeira coisa que salta aos olhos nos desenhos produzidos nos Estados Unidos é que eles possuem super-heróis. Indivíduos que levam vidas mais ou menos normais e, no entanto, possuem dons especiais. Para poderem manter sua rotina, eles precisam proteger sua identidade através do uso de fantasias, que, por vezes, também tem a utilidade extra de lhes conferir proteção ou poderes. Dentro dessa forma, é possível uma infinidade de situações: desde o super-homem, cujo o poder é congênito e a fantasia nada mais faz do que lhe disfarçar (embora Clark Kent, também seja, em alguma medida, um disfarce), até o homem de ferro, cujo o poder é fruto de tecnologia e a fantasia, de fato, constitui todo o seu poder.
                Parece que aqui estamos diante de um travestir-se do próprio pensamento – e da sociedade – liberal. O indivíduo, por si, faz justiça, criando qualidades ou investindo bem nas que já tem.  Veremos adiante a importância do contraste dessa estrutura com a dos mangás (quadrinhos orientais). No ocidente, a pulverização individualista é tão grande que em um mesmo desenho, quando vários personagens têm poderes, o mais comum é que o poder de cada um deles seja totalmente diferente do dos outros.
                Se pensarmos, não há unidade profunda entre os raios que Ciclope solta dos olhos, a energia vital que Vampira suga de qualquer um que a toque, a regeneração de Wolverine, os poderes mentais de Jim e Xavier e os raios e a chuva que Tempestade invoca, em X-men. A única unidade de seus poderes é a mais genérica possível: todos são mutantes. Ainda mais espanto pode causar perceber que, num mesmo indivíduo, os poderes são esquizofrenicamente individualizados, é o caso do Super-homem, que possui supervelocidade, superforça, solta raios de fogo pelos olhos, possui sopro congelante e tem como ponto fraco a exposição a uma determinada pedra (kriptonita). A mesma pluralidade está presente nos vilões: alguns são puramente maus caráteres e outros tem poderes dos mais diversos e inexplicáveis.
                Simultaneamente, no entanto, há uma unidade entre esses heróis altamente individualizados, é a unidade moral da comunidade. Eles querem ser aceitos, querem proteger sua vida rotineira, as pessoas que gostam e a comunidade em geral (e em abstrato). Um caso exemplar no que diz respeito a todas essas características liberais é o Batman, o homem morcego sequer apela para dotes inatos, mágicos, ele cria todas as armas que tem e, se movendo pelas sombras da noite, mantém a salvo sua vida privada e a cidade de Gothan. Bruce Wayne é um bilionário exemplar em sua luta e em seu ódio contra criminosos (ladrõezinhos de terceira, principalmente) e também contra o quase nietzscheano Curinga.  
                A ênfase na solitária individualidade gera nos protagonistas dessas séries dilemas bem característicos. É o caso, como já foi citado, do super-homem que jamais expressa inteiramente quem é: como Clark, oculta sua força física e moral; como super-homem, oculta seus sentimentos e sua humanidade; ou seja, Kal-El foi irremediavelmente cindido entre Kripton e a Terra. Também com a alma fraturada vive Peter Parker, pois seu ganha pão, seu futuro profissional, sua vida pessoal e o seu eu heroico e altruísta (o homem-aranha) perfazem um paradoxo insolúvel: precisar ser fotógrafo e lidar com o chefe rabugento retira tempo para desenvolver seu brilhantismo como físico e ainda ataca direta e injustamente seu alter ego heroico; sua paixão pela ciência exata(!) e as cobranças acadêmicas se tornam fardo diante de suas outras prioridades, não obstante, foi graças a elas que sustentou seu ego por muito tempo frágil e também que desenvolveu recursos para sua vida de herói; por sua vez, sua vida privada gerou desde o início tanto dilemas éticos para o homem-aranha quanto inspiração (na família e no amor); sua identidade secreta, por fim, atrapalha seu romance com Mary Jane, mas, ao mesmo tempo, foi essa identidade que o liberou da inação e permitiu que ele se afirmasse diante da amada, é ainda o que possibilita que ele se destaque como fotógrafo de fotos valiosas. 
                Claro que a posição relativa de todos esses elementos narrativos varia de acordo com a versão da série em questão e a mídia (quadrinho, filme ou desenho animado), mas o fundamento da análise em nada se altera em decorrência dessas variações individuais. Antes de ser um empecilho, tais variações nos abrem as portas para avaliar outra característica marcante e diferencial dessas séries estadunidenses: seu caráter cíclico. Independe da intenção inicial dos autores, os desenhos mais famosos nos Estados Unidos acabaram por nunca ter fim ou uma versão definitiva, ao contrário, são sempre recriados, reinterpretados e adaptados à época.
                E não é à toa, não é sem causas, que continuam a ser produzidos e a fazer sucesso tais histórias. Ocorre que o drama subjetivo de Kal-El, Peter e tantos outros permanece absolutamente atual e verdadeiro. De fato, eles encarnam os conflitos do indivíduo moderno face aos seus diversos compromissos, ao seu pensamento fragmentado, à sua falta de reconhecimento, à sua solidão. O espectador se diverte, sente empatia e se conforta diante de uma cópia caricatural de si mesmo, tal como os protagonistas, ele também se vê dividido, também é o único a saber de sua excepcionalidade e também vê o amor como única salvação possível para a inevitável dureza de sua vida – é aqui necessário remeter a Adorno.
                Assim, vemos que a atualidade narrativa casada com o interesse pragmático de reprodução do lucro das produtoras faz com que as histórias clássicas nunca deixem de ser recontadas e de serem as predominantes. Não é nenhum exagero afirmar que a perpetuidade desses enredos recria um imaginário sempre similar: a compulsão a repetição com finalidades econômicas tem seu duplo na repetição idealizada de um mundo que é sempre o mesmo.
                Agora veremos diferenças muito significativas no caso das animações japonesas. Um clichê conhecido dos animes é a situação de o protagonista ser um adolescente que descobre um universo paralelo, onde pode realizar tarefas significativas, independente da idade ou do lugar que ocupava em seu mundo de origem. É o caso, por exemplo, de Yusuke Urameshi, em YuYu Hakusho, um jovem quase gangster, mas de bom coração, que após um acidente descobre a existência do Mundo Espiritual e se torna seu detetive e combatente, Yusuke entende ainda a importância das pessoas que ama (magia da Terra), particularmente de sua querida Keiko; é também o caso de Sakura, em Sakura Card Captor, em que a jovem  e meiga protagonista libera o selo que prendia as encantadas Cartas Clow, despertando-as com seu múltiplos e inesperados poderes e colocando o desprevenido mundo em apuros, a partir daí faz-se necessário que Sakura torne-se uma caçadora de cartas e desenvolva seus poderes espirituais até o limite.
                A peculiaridade mais clara quando comparamos tais exemplos com as animações ocidentais, é que aqui não há super-herói, o mundo inteiro é mágico e os protagonistas são pessoas com poderes espirituais tanto quanto incontáveis outras. Os protagonistas, dessa forma, não são criaturas absolutamente diversas de todas as outras, sua excepcionalidade, maior ou menor, não é de outra natureza. Daí o motivo pelo qual a maior parte deles não precisa se esconder atrás de uma fantasia qualquer.
                A maior unidade entre o indivíduo e o mundo também representa menor cisão interna nos indivíduos. O modo como os personagens japoneses desenvolvem suas relações amorosas é significativo: o amor não é um dilema no sentido de ser um jogo de mostra-esconde, não é uma tentativa de unidade e descanso em meio ao caos e às obrigações, ele é um amor mágico e serenamente incorporado à vida (sem ambiguidades ou ceticismo). Isso não quer dizer que dramas específicos do sentimento não sejam apresentados, como é o caso de triângulos amorosos, por exemplo, em InuYasha, com Agome, InuYasha e Kykyo ou, em Sakura Card Captor, no triângulo equilátero entre Shaoran, Yukito e Sakura.
                Poderia se supor que essa forma mais “ingênua” de retratar o amor se deve justamente ao caráter adolescente dos personagens, mas seria uma suposição errada. Alguns exemplos de personagens não-adolescentes poderiam vir a calhar: Goku e Chichi, em Dragon Ball e Dragon Ball Z, são um casal sólido, mesmo na fase adulta e casada deles; com a mesma desenvoltura límpida ocorre a relação entre Kaoru e Kenshin, em Samurai X. Também seria um equívoco supor que há um caráter “infantil” a justificar nos animes sua idealização do amor e a faixa etária dos personagens, afinal, seus fãs (os otakus) geralmente afirmam preferir o gênero devido à puerilidade dos congêneres ocidentais e, de fato, se nos pautarmos em critérios como presença de “violência” e “sexualidade”, realmente os animes parecerão voltados para um público mais velho. Na verdade, parece que o amor cristalino e a faixa etária adolescente obedecem a uma mesma determinação anterior: a necessidade simbólica de colocar os protagonistas para fora do mundo reificado, do trabalho e da rotina e de colocá-los em contato com uma espécie de essência mágica.
                Se assim o percebermos, veremos logo que todos os elementos dos animes parecem solidariamente conspirar nesse caminho. Além do que já foi citado, podemos observar o fato das histórias sempre terem encerramentos (com finais fechados ou não), ou seja, sequer um universo paralelo é constantemente renovado (como é o caso de Avatar: ocidental, mas com forte influência oriental), mas, ao contrário, a forma de obter lucro e cativar o público no Japão tendeu para a perpétua criação de novos universos. Até mesmo o traçado característico do desenho nipônico é de um tipo que destaca os olhos, o encantamento e afetividade nos personagens. Ele é considerado “menos realista” quando comparado ao ocidental, mas todo realismo numa representação é já uma cópia, forçada, por sua natureza, a enfatizar um ou outro elemento: os olhos grandes são a tentativa japonesa de sublinhar o luminoso no ser humano.
                Mas qual base social as insinua e subjaz a produções como essas? É uma pergunta importante considerando ser o Japão tão estabelecido no modo de produção capitalista quanto os Estados Unidos e, portanto, também com os fundamentos sociais do liberalismo, que apontei como base ideológica dos desenhos. Inspirado em Frederic Jameson, eu arriscaria dizer que no Japão sobrevivem mais elementos de formas sociais anteriores, não apenas como reminiscências e ideações, mas igualmente como relações sociais efetivas. Essa simultaneidade de diferentes modos de produção em si mesma impede a miragem de uma realidade linear, unidimensional, ao contrário, produz a ideia de outro estado de coisas possível, de um feixe de possibilidades no real. Nestas situações, a memória e a percepção se unem para criar a imagem de uma unidade, mas não uma unidade do presente fechado em si mesmo e inerte, e sim uma unidade de contrários (em luta): passado, presente e futuro tornam-se mais nítidos, mas suas formas se movimentam. O Ocidente é mais cego para a alteridade histórica do que o Oriente. Dessa forma, mesmo a recepção das obras é diferente:
 
“Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo."  (Slavoj Žižek - Discurso em Ocupe Wall Street)


              Obviamente, não precisamos averiguar essa copresença de tempos históricos diferentes somente em seus aspectos progressivos. Muito do que se veicula nos animes é extremamente reacionário. É o caso, por exemplo, das relações de gênero, muito arcaicas em alguns de seus aspectos. Quando voltamos a observar Sacura Card Captors e YuYu Hakusho, percebemos que seus respectivos protagonistas tem características estereotipadas de menina e menino, de fato, o primeiro anime é do tipo Shōjo, para meninas, e o segundo do tipo Shōnen, para garotos. Essa divisão, que é bem forte, já diz muito, embora seja destacável o fato de que protagonistas mulheres sejam bem mais numerosas nos animes do que nos desenhos. Particularmente no tipo Shōnen, as garotas ocupam um lugar bastante tradicional: elas, em geral, são plateia privilegiada das aventuras de seus companheiros, até mesmo suas roupas curtas denunciam seu papel e sua personalidade. Assim é Agome, em InuYasha, e todas as mulheres em Dragon Ball, posto que poucas estão entre os Guerreiros Z e são sempre periféricas e bem mais fracas quando comparadas aos protagonistas homens. 
                Outra ressalva a se fazer é que a visão da alteridade não significa, de maneira necessária, maior potencial para transformações, pois a inércia milenar no Oriente parece sempre conduzir o olhar para trás e, como não existe caminho de volta, é bem comum que toda sua energia utópica transforme-se em nostalgia e mal-estar caótico. Raymond Willians nos fala da diferença entre utopia e ficção (em suma, diferença entre esperança generosa e esperança agressiva), a primeira, em sua terminologia, se refere a situações de tranformações dominantes e a segunda a possibilidade de avanço ou derrota absoluta de uma classe: está claro que a situação japonesa se aproxima mais do primeiro caso.  Na verdade, inexiste anime famoso que, tal como o ocidental X-men, possua em seu enredo uma luta política de massas. Por sua vez, X-men não aponta para nada diferente do presente: representa literalmente a luta de uma minoria por reconhecimento, uma minoria que atua como um indivíduo moderno.