A questão de entender a diferença
entre a animação japonesa e a estadunidense, formas dominantes mundo afora e
representantes de tipos quase tão opostos quanto a posição de seus respectivos
países no globo, surgiu naturalmente em minha cabeça pelo gosto que nutro pelos
animes japoneses desde a infância. Quanto aos quadrinhos estadunidenses, sempre
tive um interesse relativamente retraído, limitado a alguns casos contados nos
dedos, embora eles continuem a ser o formato mais veiculado no Brasil.
Como
se sabe, não é nada difícil racionalizar preferências pessoais para
transformá-las em juízos de valor (principalmente políticos) sobre o mundo como
um todo, então, obviamente, não quero incorrer neste erro valorando um formato
como superior e outro como inferior. Quero somente remeter a criação de ambos
aos seus substratos sociais e analisar como estes são retransmitidos através da
própria forma de suas narrativas: há, em ambos os casos, conteúdos políticos
ambíguos e contraditórios. Ao mesmo tempo, é claro que minha identificação
subjetiva com determinado formato não é puro elemento a ser subtraído da minha
conclusão, como um weberiano gostaria, mas é já indicativa de uma oculta
afinidade estética, prenhe de determinações políticas e psicológicas.
A
primeira coisa que salta aos olhos nos desenhos produzidos nos Estados Unidos é
que eles possuem super-heróis. Indivíduos que levam vidas mais ou menos normais
e, no entanto, possuem dons especiais. Para poderem manter sua rotina, eles
precisam proteger sua identidade através do uso de fantasias, que, por vezes,
também tem a utilidade extra de lhes conferir proteção ou poderes. Dentro dessa
forma, é possível uma infinidade de situações: desde o super-homem, cujo o
poder é congênito e a fantasia nada mais faz do que lhe disfarçar (embora Clark
Kent, também seja, em alguma medida, um disfarce), até o homem de ferro, cujo o
poder é fruto de tecnologia e a fantasia, de fato, constitui todo o seu poder.
Parece
que aqui estamos diante de um travestir-se do próprio pensamento – e da
sociedade – liberal. O indivíduo, por si, faz justiça, criando qualidades ou
investindo bem nas que já tem. Veremos
adiante a importância do contraste dessa estrutura com a dos mangás (quadrinhos
orientais). No ocidente, a pulverização individualista é tão grande que em um
mesmo desenho, quando vários personagens têm poderes, o mais comum é que o
poder de cada um deles seja totalmente diferente do dos outros.
Se
pensarmos, não há unidade profunda entre os raios que Ciclope solta dos olhos,
a energia vital que Vampira suga de qualquer um que a toque, a regeneração de
Wolverine, os poderes mentais de Jim e Xavier e os raios e a chuva que Tempestade
invoca, em X-men. A única unidade de seus poderes é a mais genérica possível:
todos são mutantes. Ainda mais espanto pode causar perceber que, num mesmo
indivíduo, os poderes são esquizofrenicamente individualizados, é o caso do
Super-homem, que possui supervelocidade, superforça, solta raios de fogo pelos
olhos, possui sopro congelante e tem como ponto fraco a exposição a uma
determinada pedra (kriptonita). A mesma pluralidade está presente nos vilões:
alguns são puramente maus caráteres e outros tem poderes dos mais diversos e
inexplicáveis.
Simultaneamente,
no entanto, há uma unidade entre esses heróis altamente individualizados, é a
unidade moral da comunidade. Eles querem ser aceitos, querem proteger sua vida
rotineira, as pessoas que gostam e a comunidade em geral (e em abstrato). Um
caso exemplar no que diz respeito a todas essas características liberais é o
Batman, o homem morcego sequer apela para dotes inatos, mágicos, ele cria todas
as armas que tem e, se movendo pelas sombras da noite, mantém a salvo sua vida
privada e a cidade de Gothan. Bruce Wayne é um bilionário exemplar em sua luta
e em seu ódio contra criminosos (ladrõezinhos de terceira, principalmente) e
também contra o quase nietzscheano Curinga.
A
ênfase na solitária individualidade gera nos protagonistas dessas séries
dilemas bem característicos. É o caso, como já foi citado, do super-homem que
jamais expressa inteiramente quem é: como Clark, oculta sua força física e
moral; como super-homem, oculta seus sentimentos e sua humanidade; ou seja, Kal-El
foi irremediavelmente cindido entre Kripton e a Terra. Também com a alma
fraturada vive Peter Parker, pois seu ganha pão, seu futuro profissional, sua
vida pessoal e o seu eu heroico e altruísta (o homem-aranha) perfazem um
paradoxo insolúvel: precisar ser fotógrafo e lidar com o chefe rabugento retira
tempo para desenvolver seu brilhantismo como físico e ainda ataca direta e
injustamente seu alter ego heroico; sua paixão pela ciência exata(!) e as
cobranças acadêmicas se tornam fardo diante de suas outras prioridades, não
obstante, foi graças a elas que sustentou seu ego por muito tempo frágil e
também que desenvolveu recursos para sua vida de herói; por sua vez, sua vida
privada gerou desde o início tanto dilemas éticos para o homem-aranha quanto
inspiração (na família e no amor); sua identidade secreta, por fim, atrapalha
seu romance com Mary Jane, mas, ao mesmo tempo, foi essa identidade que o
liberou da inação e permitiu que ele se afirmasse diante da amada, é ainda o
que possibilita que ele se destaque como fotógrafo de fotos valiosas.
Claro
que a posição relativa de todos esses elementos narrativos varia de acordo com
a versão da série em questão e a mídia (quadrinho, filme ou desenho animado),
mas o fundamento da análise em nada se altera em decorrência dessas variações
individuais. Antes de ser um empecilho, tais variações nos abrem as portas para
avaliar outra característica marcante e diferencial dessas séries
estadunidenses: seu caráter cíclico. Independe da intenção inicial dos autores,
os desenhos mais famosos nos Estados Unidos acabaram por nunca ter fim ou uma
versão definitiva, ao contrário, são sempre recriados, reinterpretados e
adaptados à época.
E
não é à toa, não é sem causas, que continuam a ser produzidos e a fazer sucesso
tais histórias. Ocorre que o drama subjetivo de Kal-El, Peter e tantos outros
permanece absolutamente atual e verdadeiro. De fato, eles encarnam os conflitos
do indivíduo moderno face aos seus diversos compromissos, ao seu pensamento
fragmentado, à sua falta de reconhecimento, à sua solidão. O espectador se diverte,
sente empatia e se conforta diante de uma cópia caricatural de si mesmo, tal
como os protagonistas, ele também se vê dividido, também é o único a saber de
sua excepcionalidade e também vê o amor como única salvação possível para a
inevitável dureza de sua vida – é aqui necessário remeter a Adorno.
Assim,
vemos que a atualidade narrativa casada com o interesse pragmático de
reprodução do lucro das produtoras faz com que as histórias clássicas nunca
deixem de ser recontadas e de serem as predominantes. Não é nenhum exagero afirmar
que a perpetuidade desses enredos recria um imaginário sempre similar: a
compulsão a repetição com finalidades econômicas tem seu duplo na repetição
idealizada de um mundo que é sempre o mesmo.
Agora
veremos diferenças muito significativas no caso das animações japonesas. Um
clichê conhecido dos animes é a situação de o protagonista ser um adolescente
que descobre um universo paralelo, onde pode realizar tarefas significativas,
independente da idade ou do lugar que ocupava em seu mundo de origem. É o caso,
por exemplo, de Yusuke Urameshi, em YuYu Hakusho, um jovem quase gangster, mas
de bom coração, que após um acidente descobre a existência do Mundo Espiritual
e se torna seu detetive e combatente, Yusuke entende ainda a importância das
pessoas que ama (magia da Terra), particularmente de sua querida Keiko; é
também o caso de Sakura, em Sakura Card Captor, em que a jovem e meiga protagonista libera o selo que
prendia as encantadas Cartas Clow, despertando-as com seu múltiplos e
inesperados poderes e colocando o desprevenido mundo em apuros, a partir daí
faz-se necessário que Sakura torne-se uma caçadora de cartas e desenvolva seus
poderes espirituais até o limite.
A
peculiaridade mais clara quando comparamos tais exemplos com as animações
ocidentais, é que aqui não há super-herói, o mundo inteiro é mágico e os
protagonistas são pessoas com poderes espirituais tanto quanto incontáveis
outras. Os protagonistas, dessa forma, não são criaturas absolutamente diversas
de todas as outras, sua excepcionalidade, maior ou menor, não é de outra
natureza. Daí o motivo pelo qual a maior parte deles não precisa se esconder
atrás de uma fantasia qualquer.
A
maior unidade entre o indivíduo e o mundo também representa menor cisão interna
nos indivíduos. O modo como os personagens japoneses desenvolvem suas relações
amorosas é significativo: o amor não é um dilema no sentido de ser um jogo de
mostra-esconde, não é uma tentativa de unidade e descanso em meio ao caos e às
obrigações, ele é um amor mágico e serenamente incorporado à vida (sem
ambiguidades ou ceticismo). Isso não quer dizer que dramas específicos do
sentimento não sejam apresentados, como é o caso de triângulos amorosos, por
exemplo, em InuYasha, com Agome, InuYasha e Kykyo ou, em Sakura Card Captor, no
triângulo equilátero entre Shaoran, Yukito e Sakura.
Poderia
se supor que essa forma mais “ingênua” de retratar o amor se deve justamente ao
caráter adolescente dos personagens, mas seria uma suposição errada. Alguns
exemplos de personagens não-adolescentes poderiam vir a calhar: Goku e Chichi,
em Dragon Ball e Dragon Ball Z, são um casal sólido, mesmo na fase adulta e
casada deles; com a mesma desenvoltura límpida ocorre a relação entre Kaoru e
Kenshin, em Samurai X. Também seria um equívoco supor que há um caráter
“infantil” a justificar nos animes sua idealização do amor e a faixa etária dos
personagens, afinal, seus fãs (os otakus) geralmente afirmam preferir o gênero
devido à puerilidade dos congêneres ocidentais e, de fato, se nos pautarmos em
critérios como presença de “violência” e “sexualidade”, realmente os animes
parecerão voltados para um público mais velho. Na verdade, parece que o amor cristalino
e a faixa etária adolescente obedecem a uma mesma determinação anterior: a
necessidade simbólica de colocar os protagonistas para fora do mundo reificado,
do trabalho e da rotina e de colocá-los em contato com uma espécie de essência
mágica.
Se
assim o percebermos, veremos logo que todos os elementos dos animes parecem
solidariamente conspirar nesse caminho. Além do que já foi citado, podemos
observar o fato das histórias sempre terem encerramentos (com finais fechados
ou não), ou seja, sequer um universo paralelo é constantemente renovado (como é
o caso de Avatar: ocidental, mas com forte influência oriental), mas, ao
contrário, a forma de obter lucro e cativar o público no Japão tendeu para a
perpétua criação de novos universos. Até mesmo o traçado característico do
desenho nipônico é de um tipo que destaca os olhos, o encantamento e
afetividade nos personagens. Ele é considerado “menos realista” quando
comparado ao ocidental, mas todo realismo numa representação é já uma cópia,
forçada, por sua natureza, a enfatizar um ou outro elemento: os olhos grandes
são a tentativa japonesa de sublinhar o luminoso no ser humano.
Mas
qual base social as insinua e subjaz a produções como essas? É uma pergunta
importante considerando ser o Japão tão estabelecido no modo de produção
capitalista quanto os Estados Unidos e, portanto, também com os fundamentos
sociais do liberalismo, que apontei como base ideológica dos desenhos.
Inspirado em Frederic Jameson, eu arriscaria dizer que no Japão sobrevivem mais
elementos de formas sociais anteriores, não apenas como reminiscências e
ideações, mas igualmente como relações sociais efetivas. Essa simultaneidade de
diferentes modos de produção em si mesma impede a miragem de uma realidade
linear, unidimensional, ao contrário, produz a ideia de outro estado de coisas
possível, de um feixe de possibilidades no real. Nestas situações, a memória e
a percepção se unem para criar a imagem de uma unidade, mas não uma unidade do
presente fechado em si mesmo e inerte, e sim uma unidade de contrários (em
luta): passado, presente e futuro tornam-se mais nítidos, mas suas formas se
movimentam. O Ocidente é mais cego para a alteridade histórica do que o
Oriente. Dessa forma, mesmo a recepção das obras é diferente:
“Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo." (Slavoj Žižek - Discurso em Ocupe Wall Street)
Obviamente, não precisamos averiguar
essa copresença de tempos históricos diferentes somente em seus aspectos
progressivos. Muito do que se veicula nos animes é extremamente reacionário. É
o caso, por exemplo, das relações de gênero, muito arcaicas em alguns de seus
aspectos. Quando voltamos a observar Sacura Card Captors e YuYu Hakusho,
percebemos que seus respectivos protagonistas tem características
estereotipadas de menina e menino, de fato, o primeiro anime é do tipo Shōjo,
para meninas, e o segundo do tipo Shōnen, para garotos. Essa divisão, que é bem
forte, já diz muito, embora seja destacável o fato de que protagonistas
mulheres sejam bem mais numerosas nos animes do que nos desenhos.
Particularmente no tipo Shōnen, as garotas ocupam um lugar bastante tradicional:
elas, em geral, são plateia privilegiada das aventuras de seus companheiros,
até mesmo suas roupas curtas denunciam seu papel e sua personalidade. Assim é
Agome, em InuYasha, e todas as mulheres em Dragon Ball, posto que poucas estão
entre os Guerreiros Z e são sempre periféricas e bem mais fracas quando
comparadas aos protagonistas homens.
Outra
ressalva a se fazer é que a visão da alteridade não significa, de maneira
necessária, maior potencial para transformações, pois a inércia milenar no
Oriente parece sempre conduzir o olhar para trás e, como não existe caminho de
volta, é bem comum que toda sua energia utópica transforme-se em nostalgia e
mal-estar caótico. Raymond Willians nos fala da diferença entre utopia e ficção
(em suma, diferença entre esperança generosa e esperança agressiva), a
primeira, em sua terminologia, se refere a situações de tranformações
dominantes e a segunda a possibilidade de avanço ou derrota absoluta de uma
classe: está claro que a situação japonesa se aproxima mais do primeiro caso. Na verdade, inexiste anime famoso que, tal
como o ocidental X-men, possua em seu enredo uma luta política de massas. Por
sua vez, X-men não aponta para nada diferente do presente: representa literalmente
a luta de uma minoria por reconhecimento, uma minoria que atua como um
indivíduo moderno.