segunda-feira, 30 de abril de 2012

Titanic e Avatar. Limites e grandezas da visão de James Cameron

                   A opinião de Žižek de que James Cameron é "o mais perigoso de todos", de que seus filmes apresentam, ao invés do suposto "marxismo hollywoodiano", uma mensagem profundamente reacionária, parece exagerada em alguns pontos, mas analiticamente interessantes em outros. Quando observamos seus dois principais filmes, podemos ver a riqueza das contradições politicas desse diretor.
                  Titanic, de longe seu melhor filme, é o mais expressivo. Todos os elementos estão presentes:
                 A dor da protagonista Rose é reflexo da estupidez e futilidade do mundo que a cerca, um mundo que segrega ricos e pobres com a mesma violência que distingue homens e mulheres. É verdade que se trata de uma crítica à burguesia de outra época, uma burguesia com vícios aristocráticos, mas isso não quer dizer que a crítica volta-se apenas contra o passado, é um crítica que desvela muitas violências atemporais da cisão de classes e de gênero. Portanto, veremos que a mistificação de James Cameron encontra-se menos no modo como retrata os exploradores do que no modo como retrata os explorados.
                Outro elemento subversivo na narrativa do diretor é o foco nos momentos e atitudes limites da vida. Isto é simbolizado quando Rose está para se suicidar e Jack afirma “se você pular, eu pulo”. Essa ideia perpassa diferentes momentos do filme e, a princípio, mostra-se como afirmação incondicional da virtude da loucura no amor: basta lembrar a fuga da jovem para a festa na terceira classe, o momento em que ela arrisca-se e duvida de todos para salvar seu amado da gélida e fatal prisão na qual se encontrava ou o momento em que Rose pula do bote salva-vidas em que se encontrava para voltar aos braços de Jack.
                Toda essa intensidade é reforçada perante o poder da própria vida, da natureza, do mar assustador, que tudo engole. De fato, o cenário conduz o expectador à ideia de que a vida não é linear e institucional: o navio sólido desmancha-se tal como a fixidez das classes. O clima apocalíptico cria ainda um formidável contraste entre a força da vida e a da morte, sendo a vitalidade representada pelo pastor, que ampara as almas desesperadas, pelos músicos, que tocam até o fim, e não menos pelos desiludidos Thomas Andrews e pelo Capitão Smith, que aguardam a morte.
                Por outro lado, quando aborda o mundo de baixo, da terceira classe, surge um aparente paradoxo da visão de James Cameron: toda sua simpatia pelos oprimidos converte-se em mistificação ideológica. É algo que ocorre, por exemplo, quando ele constrói a festa na terceira classe como pura alegria em comparação com a austeridade dos salões de cima ou quando Jack mostra-se bem arranjado e feliz com sua vida errante e livre. A ideia básica é a de que a vida do pobre nada deve a do rico em termos de bem-estar, de bem viver.
                Como se não bastasse essa perversão oculta, há uma série de outras mensagens implícitas que acabam por contrariar a mensagem explícita. O caso mais flagrante, como Aisha observou em conversa pessoal, é o do “esquecimento” por parte de Rose do pacto “se você pular, eu pulo”: ao fim do filme, ela não pula com ele para as profundezas congelantes do Atlântico, ao contrário, após breve hesitação, o larga e vai em busca de sua salvação individual. O detalhe de que ele a tenha feito prometer que sobreviveria em nada altera nossa conclusão, somente a confirma, na medida em que atesta a bilateralidade do “realismo” (conservador) do casal.  Como observa Žižek, Jack “comporta-se com um padre a restaurar o ego de uma menina rica e mimada”.
                Rose, de fato, volta à normalidade da vida: volta a ser rica, case-se, tem filho e netos. Por sua vez, Jack some do mapa junto com a loucura do pacto firmado.  Ele não passa de uma lembrança guardada bem no fundo do coração de Rose e que retornará a tona somente na ocasião em que ela novamente se aproximar da morte (por velhice). Por fim, o “Coração Do Oceano” jogado em segredo ao mar é a reafirmação de que a “história de amor” de Rose continua selada no âmago de sua alma, um íntimo tão profundo quanto o oceano. Esse é o lugar onde “corretamente” repousam a paixão e a rebeldia, ocultados sob o comportamento racional e institucional, afinal o sentimento sobrevive apesar de tudo (de todo o mundo externo).
              É claro que todos esses paradoxos ideológicos não são fruto de qualquer malícia do diretor. Aqui, na verdade, nos deparamos com os limites de uma determinada forma de consciência e com o sincretismo típico do senso comum.

          A prova da não casualidade das citadas inconsequência de James Cameron pode ser construída se observarmos de maneira rápida, o que se passa em outro de seus filmes, Avatar.
                Em Avatar, a mensagem política é igualmente esquerdista e clara: um homem cadeirante vê a possibilidade de obter a cura de sua deficiência motora se prestar um serviço ao exército. Trata-se de conquistar a confiança de uma tribo de extraterrestres, que vive sobre o pretendido local de escavação de um importante minério. Ou seja, a missão dele é enganar e expropriar um povo ingênuo para poder receber uma grande recompensa material e também moral.
                Contudo, esse homem identifica-se com o povo nativo e volta-se contra o seu exército. Além disso, ele apaixona-se por uma nativa e resolve lutar por seu amor, enfrentando os rivais e a própria rusticidade da moça. Naturalmente, o militar que comandava a missão decide ajeitar as coisas através da violência e um conflito começa.
                É perceptível a estrutura similar à Titanic: aqui os laços dos quais é preciso se livrar não são os de classe, mas sim o cordão umbilical que liga o homem branco com seu país e, inclusive, os exclusivismo em relação à sua própria espécie. Por fim, James Cameron ainda é ousado quando faz o general-vilão proferir “é preciso combater o terror com terror”, frase que é impossível não associar com o discurso estadunidense quanto às suas guerras.
              Mas será que, em Avatar, a esquerda ultrapassa o nível da aparência? Creio que o modo exótico pelo qual a tribo é retratada já nos responde que não.  
         No filme, a virtude dos bons selvagens é a ingenuidade, mas tal ingenuidade não pode sustentar-se a si mesma, ela precisa da ajuda de alguns humanos caridosos, que tal como deuses-salvadores dispõem-se a preservar as criaturas indefesas. Nos vemos aqui diante do problema de toda a ideologia ecológica: o mito de um paraíso originário, um ambiente que não é fruto da ação humana e, portanto, só pode manter-se na ausência de relação com a humanidade. A contradição tipica de todo “primitivismo” é a de querer sustentar uma relação harmônica entre a natureza e a humanidade, sem que possa haver relação.
       Os selvagens extraterrestres, de fato, vivem todo o dilema dos “beneficiados” pelas consciências caridosas do ocidente, desde as Grandes Navegações até as ajudas humanitárias aos povos miseráveis de hoje, mas sem que em qualquer momento tal drama seja enfocado pelo diretor de maneira critica, ao contrario o tom é jubilatório. Um exemplo é o modo como o protagonista, além de conquistar a princesa e tornar-se o guerreiro mais poderoso ao domar a ave mais feroz, vê todos os seus rivais e opositores na tribo derrotados e mortos.
        Como se vê, toda a experiencia mistica e harmônica passada aos expectadores em Avatar, esconde um conteúdo ambíguo e uma forma medíocre. A alteridade aqui é puro simulacro. E um reflexão que pretendo desenvolver em breve e publicar aqui a de até que ponto a forma puramente comercial e focada em aspectos como os efeitos especiais já não predeterminam o caráter conservador de um obra.
               Enfim, a partir dessa rápida passagem por Titanic e Avatar, já podemos compreender melhor o que quis nos dizer Žižek. Compreendemos que tanto no caso dos pesquisadores que descobrem, conversando com a velha Rose, uma historia recheada de subjetividade no que lhes parecia somente o casco frio e destroçado do Titanic, quanto no caso dos terráqueos que aprendem que há coisas preciosas que estão acima do direito de qualquer ambição, James Cameron nos passa a lição de que a vida é mais importante do que o interesse. Essa percepção, no entanto, obscurece a realidade ao afirma-se como verdade do agora.
            É, sem mais delongas, o mal da mistificação social-democrata. A ideia espúria de que se pode fazer reinar a subjetividade, o imponderável (valor-de-uso) sem destruir a estrutura que gera a prevalência de interesses, de uma logica mercantil (valor-de-troca). Parece que esse é um modo bastante inconsequente de pensar, mas também oposta ao comunismo, existe uma outra forma mais pura de pensar: o liberalismo, “caras maus que se dizem caras maus”. Deliberar sobre qual dessas formas politicas causa maior atraso histórico é uma questão mais difícil do que parece, mas parece certo que a primeira é a mais enganosa.