Titanic, de longe seu melhor filme, é o mais expressivo. Todos os elementos estão presentes:
A dor da protagonista Rose é
reflexo da estupidez e futilidade do mundo que a cerca, um mundo que segrega
ricos e pobres com a mesma violência que distingue homens e mulheres. É verdade
que se trata de uma crítica à burguesia de outra época, uma burguesia com
vícios aristocráticos, mas isso não quer dizer que a crítica volta-se apenas contra
o passado, é um crítica que desvela muitas violências atemporais da cisão de
classes e de gênero. Portanto, veremos que a mistificação de James Cameron
encontra-se menos no modo como retrata os exploradores do que no modo como
retrata os explorados.
Outro
elemento subversivo na narrativa do diretor é o foco nos momentos e atitudes
limites da vida. Isto é simbolizado quando Rose está para se suicidar e Jack
afirma “se você pular, eu pulo”. Essa ideia perpassa diferentes momentos do
filme e, a princípio, mostra-se como afirmação incondicional da virtude da loucura
no amor: basta lembrar a fuga da jovem para a festa na terceira classe, o
momento em que ela arrisca-se e duvida de todos para salvar seu amado da gélida
e fatal prisão na qual se encontrava ou o momento em que Rose pula do bote
salva-vidas em que se encontrava para voltar aos braços de Jack.
Toda
essa intensidade é reforçada perante o poder da própria vida, da natureza, do mar
assustador, que tudo engole. De fato, o cenário conduz o expectador à ideia de
que a vida não é linear e institucional: o navio sólido desmancha-se tal como a
fixidez das classes. O clima apocalíptico cria ainda um formidável contraste
entre a força da vida e a da morte, sendo a vitalidade representada pelo pastor,
que ampara as almas desesperadas, pelos músicos, que tocam até o fim, e não
menos pelos desiludidos Thomas Andrews e pelo Capitão Smith, que aguardam a morte.
Por
outro lado, quando aborda o mundo de baixo, da terceira classe, surge um
aparente paradoxo da visão de James Cameron: toda sua simpatia pelos oprimidos
converte-se em mistificação ideológica. É algo que ocorre, por exemplo, quando
ele constrói a festa na terceira classe como pura alegria em comparação com a
austeridade dos salões de cima ou quando Jack mostra-se bem arranjado e feliz
com sua vida errante e livre. A ideia básica é a de que a vida do pobre nada
deve a do rico em termos de bem-estar, de bem viver.
Como
se não bastasse essa perversão oculta, há uma série de outras mensagens
implícitas que acabam por contrariar a mensagem explícita. O caso mais
flagrante, como Aisha observou em conversa pessoal, é o do “esquecimento” por
parte de Rose do pacto “se você pular, eu pulo”: ao fim do filme, ela não pula
com ele para as profundezas congelantes do Atlântico, ao contrário, após breve
hesitação, o larga e vai em busca de sua salvação individual. O detalhe de que
ele a tenha feito prometer que sobreviveria em nada altera nossa conclusão,
somente a confirma, na medida em que atesta a bilateralidade do “realismo” (conservador)
do casal. Como observa Žižek, Jack “comporta-se
com um padre a restaurar o ego de uma menina rica e mimada”.
Rose,
de fato, volta à normalidade da vida: volta a ser rica, case-se, tem filho e
netos. Por sua vez, Jack some do mapa junto com a loucura do pacto firmado. Ele não passa de uma lembrança guardada bem no
fundo do coração de Rose e que retornará a tona somente na ocasião em que ela
novamente se aproximar da morte (por velhice). Por fim, o “Coração Do Oceano” jogado
em segredo ao mar é a reafirmação de que a “história de amor” de Rose continua
selada no âmago de sua alma, um íntimo tão profundo quanto o oceano. Esse é o
lugar onde “corretamente” repousam a paixão e a rebeldia, ocultados sob o comportamento
racional e institucional, afinal o sentimento sobrevive apesar de tudo (de todo o mundo externo).
É
claro que todos esses paradoxos ideológicos não são fruto de qualquer malícia
do diretor. Aqui, na verdade, nos deparamos com os limites de uma determinada forma de
consciência e com o sincretismo típico do senso comum.
A
prova da não casualidade das citadas inconsequência de James Cameron pode ser
construída se observarmos de maneira rápida, o que se passa em outro de seus
filmes, Avatar.
Em
Avatar, a mensagem política é igualmente esquerdista e clara: um homem
cadeirante vê a possibilidade de obter a cura de sua deficiência motora se
prestar um serviço ao exército. Trata-se de conquistar a confiança de uma tribo
de extraterrestres, que vive sobre o pretendido local de escavação de um
importante minério. Ou seja, a missão dele é enganar e expropriar um povo
ingênuo para poder receber uma grande recompensa material e também moral.
Contudo,
esse homem identifica-se com o povo nativo e volta-se contra o seu exército. Além
disso, ele apaixona-se por uma nativa e resolve lutar por seu amor, enfrentando
os rivais e a própria rusticidade da moça. Naturalmente, o militar que
comandava a missão decide ajeitar as coisas através da violência e um conflito
começa.
É
perceptível a estrutura similar à Titanic: aqui os laços dos quais é preciso se
livrar não são os de classe, mas sim o cordão umbilical que liga o homem branco
com seu país e, inclusive, os exclusivismo em relação à sua própria espécie. Por
fim, James Cameron ainda é ousado quando faz o general-vilão proferir “é
preciso combater o terror com terror”, frase que é impossível não associar com
o discurso estadunidense quanto às suas guerras.
Mas será que, em Avatar, a esquerda ultrapassa o nível da aparência? Creio que o modo exótico pelo qual a tribo é retratada já nos responde que não.
Mas será que, em Avatar, a esquerda ultrapassa o nível da aparência? Creio que o modo exótico pelo qual a tribo é retratada já nos responde que não.
No filme, a virtude dos
bons selvagens é a ingenuidade, mas tal ingenuidade não pode
sustentar-se a si mesma, ela precisa da ajuda de alguns humanos
caridosos, que tal como deuses-salvadores dispõem-se a preservar as
criaturas indefesas. Nos vemos aqui diante do problema de toda a
ideologia ecológica: o mito de um paraíso originário, um ambiente
que não é fruto da ação humana e, portanto, só pode manter-se na
ausência de relação com a humanidade. A contradição tipica de
todo “primitivismo” é a de querer sustentar uma relação
harmônica entre a natureza e a humanidade, sem que possa haver
relação.
Os selvagens
extraterrestres, de fato, vivem todo o dilema dos “beneficiados”
pelas consciências caridosas do ocidente, desde as Grandes
Navegações até as ajudas humanitárias aos povos miseráveis de
hoje, mas sem que em qualquer momento tal drama seja enfocado pelo
diretor de maneira critica, ao contrario o tom é jubilatório. Um
exemplo é o modo como o protagonista, além de conquistar a princesa
e tornar-se o guerreiro mais poderoso ao domar a ave mais feroz, vê
todos os seus rivais e opositores na tribo derrotados e mortos.
Como se vê, toda a
experiencia mistica e harmônica passada aos expectadores em Avatar,
esconde um conteúdo ambíguo e uma forma medíocre. A alteridade
aqui é puro simulacro. E um reflexão que pretendo desenvolver em
breve e publicar aqui a de até que ponto a forma puramente comercial
e focada em aspectos como os efeitos especiais já não predeterminam
o caráter conservador de um obra.
Enfim, a partir dessa
rápida passagem por Titanic e Avatar, já podemos compreender melhor
o que quis nos dizer Žižek. Compreendemos que tanto no caso dos
pesquisadores que descobrem, conversando com a velha Rose, uma
historia recheada de subjetividade no que lhes parecia somente o
casco frio e destroçado do Titanic, quanto no caso dos terráqueos
que aprendem que há coisas preciosas que estão acima do direito de
qualquer ambição, James Cameron nos passa a lição de que a vida é
mais importante do que o interesse. Essa percepção, no entanto,
obscurece a realidade ao afirma-se como verdade do agora.
É, sem mais delongas,
o mal da mistificação social-democrata. A ideia espúria de que se
pode fazer reinar a subjetividade, o imponderável (valor-de-uso) sem
destruir a estrutura que gera a prevalência de interesses, de uma
logica mercantil (valor-de-troca). Parece que esse é um modo
bastante inconsequente de pensar, mas também oposta ao comunismo,
existe uma outra forma mais pura de pensar: o liberalismo, “caras
maus que se dizem caras maus”. Deliberar sobre qual dessas formas
politicas causa maior atraso histórico é uma questão
mais difícil do que parece, mas parece certo que a primeira é a mais
enganosa.