domingo, 12 de fevereiro de 2012

Cavalo de Guerra: o mundo natural e idílico versus o mundo civilizado e racional

  
             Spielberg é um homem sobre o qual praticamente nada sei. As informações mais elementares sobre ele são as seguintes: é um diretor de grande sucesso no circuito do cinema comercial, com filmes de roteiro mágico e audaciosos em termos de efeitos especiais, é filho de uma mãe pianista e um pai que lidava com tecnologia, ambos judeus. Sabendo desses dados, considerando os comentários do texto Em Busca da Sensibilidade, e tendo visto uns poucos de seus filmes, sou capaz de apostar que se trata de um sujeito com forte apego pelo encantado, que busca conscientemente uma estética para além do mundano.
                Seu filme Cavalo de Guerra é o que mais me prende a essa convicção. A história desse filme é o de um contraste entre a vagarosidade mística e afetiva do campo (embora também bruta) e a aceleração violenta e desesperadora da guerra mecanizada, daquela que é típica da urbanidade contemporânea – e essa contraposição em si mesma, atualmente, é impressionantemente libertadora (em seus variados matizes), até num filme doloroso como O Antricristo, de Lars Von Trier.
                A narrativa mostra um cavalo que é comprado em leilão por um camponês bêbado, em afronta ao seu senhorio, sua demonstração de coragem, audácia e estupidez acarreta reação por parte do poderoso ofendido, mas o velho camponês já não possui brio para além do efeito volátil do álcool. E o problema é que o cavalo em questão não é apropriado para o trabalho agrícola, ou seja, não pode ajudar no pagamento do que deve seu dono.  É aí que surge a relação do animal com o protagonista humano, filho do camponês, que tem amor e paciência com o cavalo.
                No curso da história, o cavalo acaba envolvido no monstruoso conflito humano e vive de perto o lado inglês, francês e alemão da guerra, visita a região rural da França e as trincheiras infernais em que as pessoas precisam trucidar as outras sem qualquer razão razoável e sem sequer conhecimento dos inimigos.
                Toda a tensão é retratada na medida em que saímos do cenário rural e até mesmo do ambiente das guerras a cavalo e caminhamos em direção ao horror das metralhadoras e bombas de gás da Primeira Guerra. Claro que no sentido de Em Busca da Sensibilidade, as guerras, e particularmente as do século XX, não seriam consideradas retrato da monotonia e homogeneidade do mundo capitalista tardio, mas entendo que ela é a melhor forma para o diretor retratar uma sociabilidade desumana.
                Mas toda a desumanidade no filme encontra uma negação interna, encontra pessoas dispostas a se arriscarem para ajudar a vítima das circunstâncias – movimento contraditório e esperançoso similar ao desenhado por Lars Von Trier, em Dançando no Escuro. Em Cavalo de Guerra, o protagonista é sempre ajudado por aqueles que possuem um coração ainda, de alguma maneira, empático e puro. Estes estão dentre as crianças e os aldeões afastados da guerra, mas até mesmo entre militares alemães e ingleses ou, mais surpreendentemente, ambos juntos.
                Toda essa força utópica, como era de se esperar, não é recebida de maneira unânime pelo público e mídia. Ao contrário, a crítica do Correio Brasiliense, mais uma vez a denunciar seu gosto pelo factual e simplório, por exemplo, faz menção negativa e totalmente exterior à lógica do filme ao defini-lo como improvável corrente de gentilezas e bondade na trajetória de um cavalo. O resenhista Tiago Siqueira do sítio cinema com rapadura percebe bem as coisas ao escrever:

“Steven Spielberg é um homem sentimental. Seus filmes às vezes beiraram a pieguice e, em um mundo marcado por cinismo, isso pode ser considerado um defeito para muitos. Mas, ao nos mostrar um conto de coragem e amizade que, mesmo se passando no mundo “real”, apresenta-se mais como uma parábola do que como qualquer outra coisa, ser piegas pode ser uma coisa boa. Em “Cavalo de Guerra”, ele se utiliza dos olhos do animal do título para nos mostrar as virtudes de uma vida simples e os horrores de uma das mais sujas das guerras, sempre com o lado emocional em evidência(...) Colocando o coração nas lentes de sua câmera, o diretor ignora a preferência das audiências modernas por tramas ambíguas do ponto de vista moral e nos entrega um longa mais simples e sincero, mas visualmente belíssimo.”