sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Em busca da sensibilidade


Na mesa do bar, os pedidos de bebida, os flertes estandartizados, o cheiro enjoativo do narguilé ou o insuportável do cigarro, sem contar o barulho e o vaivém caótico das pessoas. Em Brasília, cidade do desencontro, o palco considerado mais privilegiado para encontra-se com os outros e se comunicar com eles é a mesa de bar. O complemento das incontáveis horas de trabalho e consumo é o consumo boêmio e as conversas superficiais dos butecos, a busca pela plenitude e pelo ócio só conhece esse caminho. Em alguns casos, vê-se quase uma tentativa desesperada de tornar-se leviano para encontrar a diversão almejada, e a leviandade não raro acaba por conquistar completamente os modos de uma pessoa, mas nem sempre ela é generosa o suficiente para abarcar igualmente sua consciência, que continua a buscar de maneira desajeitada, e cada vez com menos probabilidade de sucesso, um encontro mágico.
Ou, então, o cenário é a universidade: salas de aula cheias de doutores tão autoconfiantes quanto fechados em si mesmos; estudantes tão desinteressados quanto eram no ensino médio, querendo que as aulas acabem para encontrarem seus colegas ou ficantes e igualmente desejantes que o próprio curso acabe para arranjarem logo um emprego público; a imagem dos mau-ajustados é, no máximo, aquela banal de um rodinha de gente fumando maconha, ou estudantes fora da sala de aula conversando sobre a próxima festinha, ou ainda um solitário com MP3 (ou, sei lá, MP15) no ouvido, escutando as mesmas bandinhas de rock estadunidense que todos os outros; o fluxo de gente - inigualável em Brasília – que anda ao nosso lado nos caminhos do ICC ou rumo ao RU só serve para reforçar a certeza de que estamos sós perante a indiferença de todos que nos rodeiam.
Como, com meu gosto pessoal pela magia, posso mergulhar afetivamente nesse mundo? Minha tentativa de deixar de carregar em todos os momentos a seriedade dos meus planos futuros, então, talvez, não encontre obstáculos somente em meus fantasmas internos. É possível que, para quem quase nunca se sente contemplado pelo ambiente externo, as duas saídas mais plausíveis sejam ou uma reação emocional dolorosa (a pura melancolia, o cinismo melancólico, o desespero, etc.) ou uma reação racionalista obsessivamente crítica (a sensação de distância irremediável em relação aos outros, a falta de tranqüilidade e espontaneidade permanente, o incomodo com o modo como as coisas funcionam, etc.). Um amigo que talvez sinta algo similar com relação ao mundo contemporâneo certa vez me mostrou a seguinte música de Raul Seixas:




Há muitos anos você anda em círculos
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiu

Você vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

Você cruzou todas as fronteiras
Não soube mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou

Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI




O “consolo” mais poderoso que se pode encontrar nessa situação provavelmente é o espírito utópico. A sede pelo futuro (movimento), pelo que parece impossível (até mesmo sendo o “fantástico”) e pela ação política em si, são formas de radical rejeição do mundo imanente. Possivelmente, a unidade mais explícita de tudo o que recusei acima como imagem de uma sociedade verdadeiramente humana, é o fato de que todos esses fenômenos me parecem de alguma forma homogêneos e desprovidos de qualquer transcendência. Claro que a vida boêmia em si não é banal (o alcóol e outros drogas, afinal, já são uma forma de se por para fora da mesmice), igualmente a vida acadêmica não é linear em si (pois é cheia de promessas, "descobertas", senso de entrega, contatos e assim por diante). A questão é a forma  de uma "subversão rotinizada", tal como o carnaval, que a primeira prática recebeu; e a profissão burocática que a segunda tornou-se. Como um outro amigo disse ironicamente sobre a juventude brasiliense: eles chegam numa cidade nova, para visitar, e a primeira coisa que fazem é buscar um bar para beber e uma ocasião para "ficar".
Frederic Jameson percebe em todo o espírito factual (não-utópico) atual uma tendência da própria vida sob o primado da mercadoria. Ao que parece a universalidade das equivalências gera uma miragem, uma percepção falsa de que no mundo (e no tempo) tudo é perpassado pelo mesmo: mesma língua, mesmos hábitos, mesmos sonhos, mesmas formas de relacionamento interpessoal, etc. Desaparece o senso do imponderável e todo o democratismo surge apenas como uma forma de nos despistar da triste verdade de que não há real alteridade sob o capital, cada vez menos resta sequer uma imagem dos modos de produção anteriores, das formas de convívio mais humanas, da natureza ou mesmo do inconsciente.
O “encanto” eu associo aquilo que é misterioso e poderoso, ao amor romântico em sua expressão mais elevada, à experiência existencial da alteridade na leitura de um romance ou até mesmo num bom filme, às incríveis surpresas que se pode esperar no diálogo com uma pessoa sensível e inteligente ou à sensação única de ir ao mar, da areia nos tocando, da marisia a envolver toda a costa e do poder extraordinário e benigno das ondas do mar em seu eterno movimento. Não há duvida de que é nessa sensibilidade tão espontânea, com sentidos vivos e conversas prosaicas, que desejo imergir, apesar do gélido mundo e do fardo – embora um pouco mágico – das “obrigações” acadêmicas. É talvez também uma maneira de levar a crítica ao seu estágio mais elevado, lembrando o conselho de Schiller: “viva com teu século, mas sem ser sua criatura”.
Outra música – de Caetano Veloso - me traz de volta ao meu feliz anacronismo constitutivo:


Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Meu amor..
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Em busca do diálogo

Eu sei que o pensar traz consigo toda sorte de armadilhas e entraves. Podemos alimentar um espírito analítico de tal maneira aguçado que nos tornemos cegos diante de toda emoção do cotidiano e, inclusive, ao emprego da racionalidade em outros campos ou objetos.
Já me ocorreu de estar tão preso à idéia da consecução de certas metas e tarefas ao ponto de praticamente não perceber outra dimensão da vida. O preço é caro: o esmaecimento da afetividade rapidamente causa desespero, mas todas as súplicas são vãs, pois a incapacidade em questão é a de perceber que o declínio da produtividade é função do próprio produtivismo.
E buscar nos efêmeros “diálogos” com colegas alguma reconciliação com a vida, nessa situação, é uma frustração tão dolorosa quanto difícil de evitar. E o poço é sempre mais fundo do que parece: a busca de luz através do descolorido território dos sorrisos amarelos e das conversas-brincadeira é uma areia movediça, que nos traga cada vez mais para as suas entranhas de brutalidade e idiotice.
É certo que o pensar pode nos levar por um caminho de “trevas”. Por outro lado, é a partir dele que podemos criticar, inclusive, as razões desvirtuadas com as quais fomos habituados. Certamente há algo de encantado no pensar que interpela outro ser, buscando compreendê-lo e, para além da pura empatia, acrescentar, construir ou adiantar nele algo de seu, uma impressão, idéia ou vontade.
Soube – através de um amigo – da fala de um personagem do filme Antes do Amanhecer que bem expressa o espírito do pensar-sentindo: “Se há algum tipo de magia no mundo, ela deve estar na tentativa de entender e compartilhar algo com alguém”. O filme não é mais do que razoável, mas a idéia de um casal que se encontra, dialoga da maneira mais espontânea, sem receios, e se apaixona, é uma pequena visão do paraíso.
Mas a raridade de tal forma de encontro se dá pelo fato de que ele exige uma magia por demais sofisticada (para nossos tempos), o treinamento é árduo.
Em primeiro, é necessário abandonar o estágio da pura imediaticidade, da espontaneidade pré-reflexiva, ou, em outras palavras, o da concretude crua. Para nossos jovens pós-modernos, isso já é um desafio tremendo.
O senso comum à altura em que nos encontramos é essa forma imediata de pensar. É um pensamento de consumidor, cuja a marca é não possuir qualquer unidade de coerência e voltar-se para os objetos sem relacioná-los. Um pensar quase circunscrito aos mecanismos necessários para trilhar os caminhos para as volúpias. Inquietação, ansiedade, vazio e histeria são um pesadelo tão onipresente nessas mentes, que não podem percebê-los enquanto tal. Esse viver-no-tempo é contentar-se em ser vítima das circustâncias.
A outra forma de equivoco do pensar, algo similar ao drama que descrevi no início do texto [lá na forma de vida, aqui na forma de pensar], é aquela que é própria aos dogmáticos. A razão aqui acaba por se extraviar no mundo conceitual.
É um problema particularmente comum nos grupos que freqüento. Algumas pessoas não podem ver o mundo além de dualismos rígidos (seja “bem” e “mal” ou mesmo “reacionário” e “revolucionário”). E, nesse caso, o diálogo vê-se limitado a concordância absoluta ou ao ódio.
Há colegas que perdem completamente o senso dialético da realidade. Tornam-se enraivecidos diante de qualquer diversidade e ainda mais quando esta é política. A imaturidade encontra-se no fato de que suas personalidades estão tão ambientadas ao meio marxista, que se esqueceram de que a mentalidade burguesa é um sintoma inevitável do mundo burguês. O encontro com essa antítese necessária deveria, então, ser sereno e não turbulento como uma briga de gangues. Mas não há como ser diferente, pois viver-para-o-tempo é obrigatoriamente esquecer-se da leviandade, doçura e flexibilidade do cotidiano.
Não bastasse isso, há toda a rabugice e preconceito que caracterizam os grupos políticos dogmáticos, até no caso da lida com seus exemplares mais análogos, como outros grupos de extrema esquerda. Quando não de maneira explícita, o estímulo a ignorância em relação ao mundo exterior vem na forma de uma sutil ciência da censura, de um preconceito fundado em algum dos pseudo-marxismos. A mensagem mais profunda é de que só no seu partido há humanidade e formas legítimas de vida, ou seja, nada no resto do mundo trabalha na direção certa, nada mais é revolucionário: é o prelúdio para o Stalinismo.
Trata-se de uma percepção congelada que é, inclusive, muito prejudicial aos propósitos partidários no curto prazo, afinal não é raro que toda essa rigidez forje uma personalidade de tal maneira alheia ao mundo exterior (da banalidade e rotina, do emprego, etc.), que, quando desencapsulada, quando expulsa de sua zona de conforto (universidade, por exemplo), ou simplesmente se desmancha ou volta-se com toda a virulência contra seu exótico mundo natal. Eis a origem de muitos reacionários ex-comunistas.
O pensar que, no sentido marxiano, merece o título de dialético é aquele que pode encarar a plasticidade do mundo sem perder a força crítica de suas categorias. É aquele que atravessou a concretude e o conceito para então reencontrar-se com o mundo. O pensar dialético reconhece em todo esforço totalizante (mesmo os mais diferentes do seu) um valorizável momento de liberdade e a vê, inclusive, nas tentativas parciais. Tais parcialidades - quando na forma política  - são um verdadeiro dilema teórico para os marxistas vulgares. Vale pensar nas contradições obrigatórias que envolvem a situação de classe de militantes, o posicionamento quanto à política de cotas, quanto ao feminismo burguês, ou até as relações pessoais suprapolíticas.
O pensar mais elevado é realmente uma magia: ele, em diálogo, pode construir obras de tamanho interminável, compreender sutilezas indescritíveis e, acima de tudo, rir com toda sinceridade. Rir, aliás, é um belo exemplo de sentimento dialético, no qual, como golfinhos, mergulhamos na empatia só para logo em seguida saltarmos na percepção. Viver-o-tempo é conciliar o universo do sujeito e o do objeto. Talvez baste ver Chaves para entender ao que me refiro! ;)
Embora, obviamente, todos esses três níveis do pensar se intercruzem em cada personalidade das maneiras mais promíscuas possíveis, é verdade que o primeiro predomina sobre o terceiro. Assim sendo, as amizades verdadeiras e os diálogos profundos, confortáveis e expressivos continuam a ser um horizonte difícil de realizar no cotidiano.