Na mesa do bar, os pedidos de bebida, os flertes estandartizados, o cheiro enjoativo do narguilé ou o insuportável do cigarro, sem contar o barulho e o vaivém caótico das pessoas. Em Brasília, cidade do desencontro, o palco considerado mais privilegiado para encontra-se com os outros e se comunicar com eles é a mesa de bar. O complemento das incontáveis horas de trabalho e consumo é o consumo boêmio e as conversas superficiais dos butecos, a busca pela plenitude e pelo ócio só conhece esse caminho. Em alguns casos, vê-se quase uma tentativa desesperada de tornar-se leviano para encontrar a diversão almejada, e a leviandade não raro acaba por conquistar completamente os modos de uma pessoa, mas nem sempre ela é generosa o suficiente para abarcar igualmente sua consciência, que continua a buscar de maneira desajeitada, e cada vez com menos probabilidade de sucesso, um encontro mágico.
Ou, então, o cenário é a universidade: salas de aula cheias de doutores tão autoconfiantes quanto fechados em si mesmos; estudantes tão desinteressados quanto eram no ensino médio, querendo que as aulas acabem para encontrarem seus colegas ou ficantes e igualmente desejantes que o próprio curso acabe para arranjarem logo um emprego público; a imagem dos mau-ajustados é, no máximo, aquela banal de um rodinha de gente fumando maconha, ou estudantes fora da sala de aula conversando sobre a próxima festinha, ou ainda um solitário com MP3 (ou, sei lá, MP15) no ouvido, escutando as mesmas bandinhas de rock estadunidense que todos os outros; o fluxo de gente - inigualável em Brasília – que anda ao nosso lado nos caminhos do ICC ou rumo ao RU só serve para reforçar a certeza de que estamos sós perante a indiferença de todos que nos rodeiam.
Como, com meu gosto pessoal pela magia, posso mergulhar afetivamente nesse mundo? Minha tentativa de deixar de carregar em todos os momentos a seriedade dos meus planos futuros, então, talvez, não encontre obstáculos somente em meus fantasmas internos. É possível que, para quem quase nunca se sente contemplado pelo ambiente externo, as duas saídas mais plausíveis sejam ou uma reação emocional dolorosa (a pura melancolia, o cinismo melancólico, o desespero, etc.) ou uma reação racionalista obsessivamente crítica (a sensação de distância irremediável em relação aos outros, a falta de tranqüilidade e espontaneidade permanente, o incomodo com o modo como as coisas funcionam, etc.). Um amigo que talvez sinta algo similar com relação ao mundo contemporâneo certa vez me mostrou a seguinte música de Raul Seixas:
Há muitos anos você anda em círculos
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiu
Você vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira
Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI
Você cruzou todas as fronteiras
Não soube mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou
Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar
Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiu
Você vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira
Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI
Você cruzou todas as fronteiras
Não soube mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou
Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar
Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI
O “consolo” mais poderoso que se pode encontrar nessa situação provavelmente é o espírito utópico. A sede pelo futuro (movimento), pelo que parece impossível (até mesmo sendo o “fantástico”) e pela ação política em si, são formas de radical rejeição do mundo imanente. Possivelmente, a unidade mais explícita de tudo o que recusei acima como imagem de uma sociedade verdadeiramente humana, é o fato de que todos esses fenômenos me parecem de alguma forma homogêneos e desprovidos de qualquer transcendência. Claro que a vida boêmia em si não é banal (o alcóol e outros drogas, afinal, já são uma forma de se por para fora da mesmice), igualmente a vida acadêmica não é linear em si (pois é cheia de promessas, "descobertas", senso de entrega, contatos e assim por diante). A questão é a forma de uma "subversão rotinizada", tal como o carnaval, que a primeira prática recebeu; e a profissão burocática que a segunda tornou-se. Como um outro amigo disse ironicamente sobre a juventude brasiliense: eles chegam numa cidade nova, para visitar, e a primeira coisa que fazem é buscar um bar para beber e uma ocasião para "ficar".
Frederic Jameson percebe em todo o espírito factual (não-utópico) atual uma tendência da própria vida sob o primado da mercadoria. Ao que parece a universalidade das equivalências gera uma miragem, uma percepção falsa de que no mundo (e no tempo) tudo é perpassado pelo mesmo: mesma língua, mesmos hábitos, mesmos sonhos, mesmas formas de relacionamento interpessoal, etc. Desaparece o senso do imponderável e todo o democratismo surge apenas como uma forma de nos despistar da triste verdade de que não há real alteridade sob o capital, cada vez menos resta sequer uma imagem dos modos de produção anteriores, das formas de convívio mais humanas, da natureza ou mesmo do inconsciente.
O “encanto” eu associo aquilo que é misterioso e poderoso, ao amor romântico em sua expressão mais elevada, à experiência existencial da alteridade na leitura de um romance ou até mesmo num bom filme, às incríveis surpresas que se pode esperar no diálogo com uma pessoa sensível e inteligente ou à sensação única de ir ao mar, da areia nos tocando, da marisia a envolver toda a costa e do poder extraordinário e benigno das ondas do mar em seu eterno movimento. Não há duvida de que é nessa sensibilidade tão espontânea, com sentidos vivos e conversas prosaicas, que desejo imergir, apesar do gélido mundo e do fardo – embora um pouco mágico – das “obrigações” acadêmicas. É talvez também uma maneira de levar a crítica ao seu estágio mais elevado, lembrando o conselho de Schiller: “viva com teu século, mas sem ser sua criatura”.
Outra música – de Caetano Veloso - me traz de volta ao meu feliz anacronismo constitutivo:
Frederic Jameson percebe em todo o espírito factual (não-utópico) atual uma tendência da própria vida sob o primado da mercadoria. Ao que parece a universalidade das equivalências gera uma miragem, uma percepção falsa de que no mundo (e no tempo) tudo é perpassado pelo mesmo: mesma língua, mesmos hábitos, mesmos sonhos, mesmas formas de relacionamento interpessoal, etc. Desaparece o senso do imponderável e todo o democratismo surge apenas como uma forma de nos despistar da triste verdade de que não há real alteridade sob o capital, cada vez menos resta sequer uma imagem dos modos de produção anteriores, das formas de convívio mais humanas, da natureza ou mesmo do inconsciente.
O “encanto” eu associo aquilo que é misterioso e poderoso, ao amor romântico em sua expressão mais elevada, à experiência existencial da alteridade na leitura de um romance ou até mesmo num bom filme, às incríveis surpresas que se pode esperar no diálogo com uma pessoa sensível e inteligente ou à sensação única de ir ao mar, da areia nos tocando, da marisia a envolver toda a costa e do poder extraordinário e benigno das ondas do mar em seu eterno movimento. Não há duvida de que é nessa sensibilidade tão espontânea, com sentidos vivos e conversas prosaicas, que desejo imergir, apesar do gélido mundo e do fardo – embora um pouco mágico – das “obrigações” acadêmicas. É talvez também uma maneira de levar a crítica ao seu estágio mais elevado, lembrando o conselho de Schiller: “viva com teu século, mas sem ser sua criatura”.
Outra música – de Caetano Veloso - me traz de volta ao meu feliz anacronismo constitutivo:
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...
Meu amor..
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você...
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...
Meu amor..
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei
Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você...