segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Futebol e vida

Victor Matsudo, médico esportivo, argumenta em favor de uma ciência do esporte para formar atletas olímpicos de alto nível no Brasil. O modo artesanal de “fabricação” dos atletas nacionais lhe parece um arcaísmo quando comparado ao modo industrial de produção da elite esportiva da antiga Alemanha Oriental, país proporcionalmente mais vitorioso em olimpíadas de todos os tempos (e para acompanhar o argumento ignoraremos que o país em questão era líder em dopagem). Segundo o médico, a fórmula utilizada por este país era a seguinte: selecionava-se um grande número de jovens esportistas; media-se o desempenho de cada um em habilidades lineares (propulsão vertical, propulsão horizontal, arrancada, etc.); comparavam-se os resultados individuais com as médias; e, finalmente, o número resultante era subtraído pelo desvio-padrão (expectativa de distância de cada caso em relação à média). Pessoas com números finais maiores do que 4 tinham chances reais de competir ao nível internacional e recebiam maiores investimentos.
A pergunta mais ingênua e mais lúcida a fazer diante de toda essa argumentação é: para quê tudo isso? É curioso pensar no estranho descaminho que a humanidade teve de tomar para chegar a conceber que sua tarefa e meta histórica, em todos os domínios da vida, é simplesmente maximizar números. Ou seja, nesse caso, importa mais “ganhar medalhas” do que possibilitar lazer e uma experiência existencial às pessoas. A prova de que essa estranha lógica se impôs como uma espécie de fato natural encontra-se no número pequeníssimo de pessoas que estranham criticamente essas ambições quantitativas – e mesmo as que o fazem, na maioria das vezes, restringem sua crítica a campos muito específicos. É que, tal como em Tempos Modernos, as engrenagens do objeto imiscuíram-se tanto no âmago do sujeito que ele já não as vê.
Nesse sentido, uma mínima reflexão sobre a natureza da atividade desportiva mostra-se privilegiada para alterar os rumos da crítica, é nosso ponto de Arquimedes. Acontece que nesse terreno (como, por exemplo, nas relações afetivas) não se pode obscurecer por completo a lógica do sujeito. Mesmo Vitor Matsudo tem de admitir, até no mais mecânico dos esportes, que os fatores extra-fisiológicos (sócio-psicológicos) são significativos. Ele chuta: representam um mínimo de “10%” do potencial de sucesso para um atleta num esporte bastante físico. Ignoremos a inconseqüência da adivinhação e a quantofrenia reinante nas ciências da saúde e talvez já tenhamos um reconhecimento avançado por parte do médico, que serve de entrada para o debate de nosso interesse. De resto, vou me furtar a esse debate ontológico sobre a constituição humana, pois ele será trabalhado de forma mais detalhada num texto sobre educação.
E, para me ajudar nessa esquiva, vou debater fundamentalmente o futebol. Nosso esporte nacional guarda em si uma metáfora sobre a vida, uma forma de ser em que o imprevisível mescla-se com a norma; na qual a dança não é menos necessária do que o cérebro; em cujo o espaço, cercado por 4 linhas, é grande suficiente para permitir que aconteça de um tudo e pequeno o suficiente para continuar humano, ser percorrido por uma voz e visto por um olhar; em que a coletividade dita o ritmo sem ofuscar o indivíduo; e, enfim, na qual a bola é nossa sorte, pois sob o domínio imperfeito dos pés, ela mostra toda potência que temos e todo o indecifrável capricho do destino. E justamente por tais aspectos o futebol não é mais circo do que uma forma implícita de combate à reificação, uma maneira de negar todos os determinismos através da esperança da superação humana. E ele o consegue de duas formas: de um lado, é capaz de fazer todos os corações baterem juntos no fantástico clima de um estádio e até numa boa narração, de outro, pode mostrar a idiotice da mais perfeita matemática perante o humano, tal como fez o Fluminense de 2009 ante sua suposta probabilidade de 99% de queda.
Ao contrário de esportes como o automobilísmo, natação, maratona, salto, arremesso e tantos outros, ele sequer poderia contar com significativas contribuições de máquinas ou dopagem. Em suma, em sua essência, é um esporte plena e demasiadamente humano! E ainda assim, como veremos, ele sofre uma espécie de distorção e mecanização sob o capital, e também nisso segue a vida (hodierna). Não vou tratar aqui da crítica rotineira e necessária que se faz aos caciques corruptos do futebol, como ao caricato Ricardo Teixeira. Ao contrário, trata-se agora de criticar não o medievo que sobrevive, porém o capitalismo que se instala no futebol brasileiro e vai rompendo parcialmente sua solidariedade com o feudalismo mais bizarro. Em tão pouco tempo de empresariamento sério, o novo futebol já vai mostrando seus avanços e insuficiências e a necessidade de uma ruptura total com o atualmente existente para poder realizar-se. (Quanto à crítica ao futebol dos caciques, ela desvela-se por si no belo texto da jornalista Daniela Pinheiro: http://catimbafc.com/2011/07/08/entrevista-de-ricardo-teixeira-para-a-piaui/)
Mas de onde ataca o capital se o futebol não aceita mecanização direta (como a maior parte da vida social)? São duas faces do medalhão mercadológico: a disciplinarização e o produtivismo.
Em primeiro, o capitalismo estraga o esporte em decorrência da necessidade de produção de espetáculos midiáticos constantes. Alguns times – como o Corinthians por aqui – cada vez mais se especializam em produzir peças publicitárias - e não jogadores e times. O pior é que essa se mostra uma das estratégias mais eficientes para ampliar as receitas. Ou seja, particularmente em times de massa, pode mostrar-se mais vantajoso investir na contratação de algumas estrelas e faturar na vendagem de camisas de ídolos pré-fabricados. A concentração do poder econômico no patrimônio de uns poucos clubes certamente resultará, no longo prazo, na diminuição da capacidade dos demais times os desafiarem e, portanto, num empobrecimentos da rica rivalidade e competitividade hoje existentes.
Teoricamente tal progressiva discrepância seria refreada no contexto futebolístico pelo fato de que os “clientes” dos clubes – ao contrário do que ocorre em empresas comuns – são leais aos seus produtos ao longo do tempo. Não obstante, no curso de um período mais longo, tal fidelidade clubística é abalada, se não por outras coisas, pela renovação geracional. Daí clubes como o Fluminense que ostentam valores como “para poucos e melhores” estarem nesse quesito com um discurso anacrônico.
Mas não pára por aí o embotamento das paixões que o capitalismo é capaz de produzir. Na verdade, a riqueza emotiva do futebol nacional também é diminuída pelo cerceamento da liberdade de expressão que a mídia produz em relação aos jogadores. Atualmente, não há nada mais enfadonho do que ouvir uma entrevista com os protagonistas do futebol, até os de maior personalidade dentro e fora do campo são intimidados pelo bombardeio de críticas da mídia esportiva em caso de qualquer “deslize” em relação ao que consideram boa maneiras. Quase todos os jogadores são melindrados ao ponto de produzirem frases como “Temos que ir para o jogo X para ganhar, [embora] com todo o respeito ao time Y, que é um grande clube”, ou seja, tornaram-se completamente bananas. Qual é o desrespeito em dizer orgulhosamente que se vai para um jogo querendo ganhar? E quem quiser contrastar a realidade atual com outra, não precisa ir longe: basta recorrer, via YouTube, a qualquer das entrevistas que um Romário dava há apenas 5 ou 6 anos. As formas como essas mudanças diminuem a emoção, o alvoroço e a própria rivalidade de jogos clássicos é auto-evidente.
Quanto ao segundo aspecto em que o esporte sede à mercadoria – o produtivismo – o efeito é ainda mais direto e estrutural. A dinâmica da compra e venda constante de jogadores e técnicos, em especial no Brasil, os leva a não criarem vínculos duradouros (e verdadeiros) com as torcidas e os clubes, de maneira geral. Dessa maneira, reforça-se o problema de embotamento criado pela disciplinarização midiática e se bloqueia parcialmente a construção de histórias intensas e heróicas envolvendo times ou jogadores exemplares. Quem lembrará seus nomes daqui a pouco e como eles serão capazes de defender as cores de suas camisas com paixão? Obviamente, o engrandecimento financeiro do futebol brasileiro nos últimos anos tem mudado um pouco esse quadro ao ponto de ser plausível a permanência de um Neymar por mais tempo no país e tendo a possibilidade de criar uma profunda identidade não somente com a seleção brasileira, mas também com o Santos Futebol Clube. Não obstante, o que vale para Neymar não vale para todos, a grande massa de jogadores com menor talento e/ou sensibilidade não poderá e/ou intentará eternizar sua memória num clube e sim buscará fontes progressivamente maiores de fortuna – assim tais jogadores têm sua glória fragmentada tal como sua história.
É ainda um efeito do produtivismo o aceleramento do ritmo dos calendários futebolísticos, afinal os canais de televisão precisam ter o que passar e as empresas patrocinadoras de espaço para mais de seus anúncios. E proporcionalmente cresce o número de lesões dos jogadores e o investimento tanto em preparação física quanto num elenco com “peças substitutas”. O resultado de toda essa “pressa” do mercado naturalmente reflete-se dentro das quatro linhas e os jogadores cada vez mais se transformam em corredores, aproximando-se dos atletas de esportes mais mecânicos. É necessário ser rápido não só para compensar eventuais faltas de talento individual das “peças”, como também por ser a forma mais garantida(mas não melhor) de montar um elenco eficiente para cada um dos compromissos que se sucedem rapidamente -  e sem precisar refletir sobre as especificidades dos jogares que se permutam a todo momento. É talvez o que o neurocientista Nicolelis quis dizer ao se referir a um futebol sem cérebro, um estilo de jogo em que o objetivo é tomar de assalto o gol adversário e não elaborar uma meticulosa trama para envolver o time oponente (como o Barcelona faz). Nicolelis defende que o cérebro humano sempre age através de uma fagocitação, mais ou menos eficiente, dos objetos exteriores e, portanto, como já sabia Durkheim, um time necessariamente é mais do que uma coleção de pessoas (ou peças) diferentes, ele é um todo que se realiza melhor ou pior em acordo com o grau de pertença sentido por cada um de seus elementos. Aqui a necessidade é pensar os distúrbios causados pela falta de sintonia entre jogadores entre si e também para com as torcidas.
É por essas e por outras razões que Nicolelis defende um modelo eleitoral amplo, envolvendo a extensão das torcidas, para escolher os dirigentes dos clubes. Mas o aumento da identidade coletiva é pouco plausível, ainda que considerando às tendências mais ou menos generalizadas para a democracia formal sob o capital. O quão longe estamos de um certo senso humanamente coletivo pode ser ilustrado se recuarmos para a discussão sobre a dominação midiática e percebermos a generalização da reprovação da empolgação de tirar a camisa para comemorar um gol. Os comentadores sempre observam, em casos de atitudes desmedidas de atletas, que o futebol é apenas um jogo, mas esquecem de aplicar essa crença na crítica ao regulamento e reclamam indignados dos jogadores que andam descamisados por alguns segundos no frenesi da comemoração. O caso é que o interesse dos patrocinadores de mostrar suas marcas sobrepõe-se a qualquer rito tradicional e é inquestionável. Ora, com isso ressalto que a verdadeira unidade geral da vida contemporânea - e logo do futebol - é da mercadoria*.
Tal unidade geral traz também consigo avanços, como observei no início do texto. É necessário avaliar a totalidade do processo que se passa diante de nossos olhos para sermos capazes de formar um mapa cognitivo capaz de nos orientar rumo ao fim do sufocante túnel, preservando os avanços e neutralizando os retrocessos. Então, continuarei essa reflexão futebolística a qualquer hora, analisando a questão da padronização dos lugares em estádios de futebol e sua relação com o modo mercadológico de vida e com o fim da moralidade do guerreiro.

* Pode-se pensar no efeito que tem para o esporte um novo panorama em que um jogo do Real Madrid é adiantado para o meio-dia para conquistar o poderoso público chinês e, de fato, obtém um sucesso estrondoso: cerca de 120 milhões de expectadores pela TV e mais de 200 milhões no total. Ou, mesmo no Brasil, o América Mineiro mandar seu jogo num região em que a torcida Corinthiana é muito maior para angariar verbas. Noutro campo, poderíamos também observar que o crescimento de certos esportes feminos (vôlei, por exemplo) não tem pudores em se apoiar na venda da imagem dos corpos das atletas.