Eu não queria deixar de anotar aqui um pequeno comentário sobre bizarrices que ouvi num seminário sobre direito e gênero há uns meses. Ir nesses espaços atualmente é procurar aborrecimentos, não posso me queixar. Seja como for, no fim das contas, ganho mais combustível para minhas ruminações políticas.
O primeiro indício de que as noites não apresentariam fortuna crítica foram os palestrantes. A mais aclamada era Lola, a dona de um blog feminista famoso e que tem sido bastante visitado. Já tinha lido uns trechinhos da autora e sabia que o pináculo de suas reflexões quase se resumia a descoberta diária de novas palavras feias e à apologia a fortificação da trincheira do feminismo pós-moderno.
Em linhas gerais, seu blog tem o valor de uma revista para adolescentes. A diferença positiva é ser feminista e não machista. Defende teses do tipo de que os cegos seriam mais felizes se fossem chamados de não-portadores de visão; de que o sexo não deveria ser um tabu e que é fundamental para a vida; e a tese equivocada de que o “ismo” em “homosexualismo” confere um caráter patologizante ao termo. (O problema do “ismo” é indicar um caráter volitivo do prefixo).
O alvoroço em torno de seu nome era irritante desde o início. Durante sua fala, meu desgosto foi ainda maior diante dos constantes aplausos políticos. Aplausos motivados por uma pura simpatia partidária, irrefletidos, sempre denunciam uma perigosa empolgação dogmática. Sua fala encerrou-se com uma homofóbica piadinha e sob uma avalanche de aplausos. A piada:
"Um caçador vê um urso grande, mira, atira e o abate. Ele está super feliz quando sente um tapinha no ombro. É um urso maior ainda, sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação. O urso lhe diz: ‘Você não deveria ter feito isso. Você matou um dos meus, e agora vai ter de pagar. Prefere morrer ou ser estuprado?’
O caçador escolhe a segunda alternativa. Abaixa as calças, sobrevive, mas jura vingança. Volta um ano depois ao Alasca procurando o urso que o estuprara. Encontra o animal, mira, atira, e o abate. Sente um tapinha no ombro. É um urso enorme, que lhe diz: ‘Você matou um dos meus, e agora vai ter de pagar. Prefere morrer ou ser estuprado?’
O caçador opta pela segunda alternativa e entrega-se àquele animal monstruoso, jurando vingança. No ano seguinte, sedento por desforra, volta ao Alasca. Vê o urso que o estuprara, mira, atira, e o abate. E sente outro tapinha no ombro. É um urso descomunal, que lhe diz: ‘Fala a verdade, flamenguista, você não vem aqui pra caçar, vem?’"
Uns dias depois e o tema era outro – mais polêmico. O “debate” era sobre a regulamentação da prostituição. Sabe-se que no Brasil a prostituição não é proibida, mas como não é regulamentada - e como diversos atos afins a ela são crimes - a situação prática da ocupação fica em um limbo. Há uma bipartição entre duas posições correntes no interior do feminismo quanto a este aspecto, existem as abolicionistas e as liberais. Como o nome sugere, as primeiras crêem que a prostituição é um dos grandes bastiões da continuação da escravidão da mulher, as segundas pensam que o corpo da mulher é/deve ser de sua propriedade e, portanto, não cabe a poderes externos interferir na utilização dele, ou seja, entende a venda do corpo como um direito.
As feministas organizadoras do evento pertencem a esta última vertente. O admirável é que chamaram apenas pessoas partidárias da mesma opinião. Toda a discussão tornou-se um grande louvor à sua própria posição. Os argumentos que seriam inicialmente favoráveis apenas a regulamentação por pouco não se tornaram uma apologia à prostituição e incluíram até uma citação muito suspeita à obra de Pierre Bourdieu.
O liberalismo feminista mostrou-se verdadeiramente liberal, a partir de argumentos em que conseguiam abstrair completamente os condicionamentos sociais da situação de prostituição. Uma palestrante chegou a argumentar que trabalhava com prostitutas e bem sabia que muitíssimas escolhiam sê-lo por pura vontade e eram felizes em seu dia-a-dia. Utilizavam até o princípio da “escolha racional” (talvez tenham lido Jevons), pois percebiam que era mais lucrativo do que outras ocupações. De certo deviam ter o mesmo espírito empreendedor de Bruna Surfistinha.
O ponto nevrálgico do argumento era mesmo a liberdade de uso do próprio corpo. Quem seria o terrível vilão a querer alienar uma mulher de seus direitos corporais em pleno século XXI? Talvez devêssemos acrescentar para sermos conseqüentes: quem seria canalha e tresloucado ao ponto de desejar impedir um miserável a vender um de seus rins a quem lhe pudesse pagar alguns trocados?
É um fato que ter qualquer moralidade – exceto a do capital – está tremendamente fora de moda. Está também ultrapassada a idéia de que haja uma psique que sofre para além do visível no corpo, tal como nos é tão bem representado no filme Bruna Surfistinha. É nesse sentido que o palestrante seguinte já nos advertiu de que seríamos uns cristãos arcaicos se defendêssemos uma postura contra a prostituição. Quem não defende o corpo enquanto mercadoria é reacionário*! Ou, pelo menos, o é quem não acha justo uma pessoa individual e livremente escolher tornar o seu uma...
Talvez aja um deus que veja a vida humana como uma comédia cheia de reviravoltas. Para mim, terráqueo lúcido e (daí) fora de moda, ainda existe uma pequena objetividade filosófico-antropológica, que sugere não ser a sexualidade humana o mesmo que um aperto de mão e não ter os mesmos efeitos psíquicos e ontológicos. E há um espírito sociológico (uma lembrança de Durkheim) que me sugere que a moral, independente de sua “correção”, não é um fato individual, mas coletivo e que, portanto, atinge as pessoas, queiram ou não.
Enfim, a cereja do bolo foi um último argumento da palestrante já citada. Ela disse que o cafetão não deveria ser criminalizado tal como não é criminalizado o esposo ocioso de uma advogada. Afinal de contas, ambos vivem às custas de uma mulher e não devem ser punidos pela diferença de profissão de suas “amadas”.
Realmente pode-se perder bastante tempo buscando diálogos políticos! O pior é sair do auditório sem quase nenhum acréscimo de conteúdo acerca do tema em questão: a regulamentação da prostituição. Qual seria o caminho brasileiro, visto que o método da Grécia e de certos estados dos EUA oneram ainda mais as prostitutas (com entraves ao casamento, exames freqüentes, etc)?
O primeiro indício de que as noites não apresentariam fortuna crítica foram os palestrantes. A mais aclamada era Lola, a dona de um blog feminista famoso e que tem sido bastante visitado. Já tinha lido uns trechinhos da autora e sabia que o pináculo de suas reflexões quase se resumia a descoberta diária de novas palavras feias e à apologia a fortificação da trincheira do feminismo pós-moderno.
Em linhas gerais, seu blog tem o valor de uma revista para adolescentes. A diferença positiva é ser feminista e não machista. Defende teses do tipo de que os cegos seriam mais felizes se fossem chamados de não-portadores de visão; de que o sexo não deveria ser um tabu e que é fundamental para a vida; e a tese equivocada de que o “ismo” em “homosexualismo” confere um caráter patologizante ao termo. (O problema do “ismo” é indicar um caráter volitivo do prefixo).
O alvoroço em torno de seu nome era irritante desde o início. Durante sua fala, meu desgosto foi ainda maior diante dos constantes aplausos políticos. Aplausos motivados por uma pura simpatia partidária, irrefletidos, sempre denunciam uma perigosa empolgação dogmática. Sua fala encerrou-se com uma homofóbica piadinha e sob uma avalanche de aplausos. A piada:
"Um caçador vê um urso grande, mira, atira e o abate. Ele está super feliz quando sente um tapinha no ombro. É um urso maior ainda, sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação. O urso lhe diz: ‘Você não deveria ter feito isso. Você matou um dos meus, e agora vai ter de pagar. Prefere morrer ou ser estuprado?’
O caçador escolhe a segunda alternativa. Abaixa as calças, sobrevive, mas jura vingança. Volta um ano depois ao Alasca procurando o urso que o estuprara. Encontra o animal, mira, atira, e o abate. Sente um tapinha no ombro. É um urso enorme, que lhe diz: ‘Você matou um dos meus, e agora vai ter de pagar. Prefere morrer ou ser estuprado?’
O caçador opta pela segunda alternativa e entrega-se àquele animal monstruoso, jurando vingança. No ano seguinte, sedento por desforra, volta ao Alasca. Vê o urso que o estuprara, mira, atira, e o abate. E sente outro tapinha no ombro. É um urso descomunal, que lhe diz: ‘Fala a verdade, flamenguista, você não vem aqui pra caçar, vem?’"
Uns dias depois e o tema era outro – mais polêmico. O “debate” era sobre a regulamentação da prostituição. Sabe-se que no Brasil a prostituição não é proibida, mas como não é regulamentada - e como diversos atos afins a ela são crimes - a situação prática da ocupação fica em um limbo. Há uma bipartição entre duas posições correntes no interior do feminismo quanto a este aspecto, existem as abolicionistas e as liberais. Como o nome sugere, as primeiras crêem que a prostituição é um dos grandes bastiões da continuação da escravidão da mulher, as segundas pensam que o corpo da mulher é/deve ser de sua propriedade e, portanto, não cabe a poderes externos interferir na utilização dele, ou seja, entende a venda do corpo como um direito.
As feministas organizadoras do evento pertencem a esta última vertente. O admirável é que chamaram apenas pessoas partidárias da mesma opinião. Toda a discussão tornou-se um grande louvor à sua própria posição. Os argumentos que seriam inicialmente favoráveis apenas a regulamentação por pouco não se tornaram uma apologia à prostituição e incluíram até uma citação muito suspeita à obra de Pierre Bourdieu.
O liberalismo feminista mostrou-se verdadeiramente liberal, a partir de argumentos em que conseguiam abstrair completamente os condicionamentos sociais da situação de prostituição. Uma palestrante chegou a argumentar que trabalhava com prostitutas e bem sabia que muitíssimas escolhiam sê-lo por pura vontade e eram felizes em seu dia-a-dia. Utilizavam até o princípio da “escolha racional” (talvez tenham lido Jevons), pois percebiam que era mais lucrativo do que outras ocupações. De certo deviam ter o mesmo espírito empreendedor de Bruna Surfistinha.
O ponto nevrálgico do argumento era mesmo a liberdade de uso do próprio corpo. Quem seria o terrível vilão a querer alienar uma mulher de seus direitos corporais em pleno século XXI? Talvez devêssemos acrescentar para sermos conseqüentes: quem seria canalha e tresloucado ao ponto de desejar impedir um miserável a vender um de seus rins a quem lhe pudesse pagar alguns trocados?
É um fato que ter qualquer moralidade – exceto a do capital – está tremendamente fora de moda. Está também ultrapassada a idéia de que haja uma psique que sofre para além do visível no corpo, tal como nos é tão bem representado no filme Bruna Surfistinha. É nesse sentido que o palestrante seguinte já nos advertiu de que seríamos uns cristãos arcaicos se defendêssemos uma postura contra a prostituição. Quem não defende o corpo enquanto mercadoria é reacionário*! Ou, pelo menos, o é quem não acha justo uma pessoa individual e livremente escolher tornar o seu uma...
Talvez aja um deus que veja a vida humana como uma comédia cheia de reviravoltas. Para mim, terráqueo lúcido e (daí) fora de moda, ainda existe uma pequena objetividade filosófico-antropológica, que sugere não ser a sexualidade humana o mesmo que um aperto de mão e não ter os mesmos efeitos psíquicos e ontológicos. E há um espírito sociológico (uma lembrança de Durkheim) que me sugere que a moral, independente de sua “correção”, não é um fato individual, mas coletivo e que, portanto, atinge as pessoas, queiram ou não.
Enfim, a cereja do bolo foi um último argumento da palestrante já citada. Ela disse que o cafetão não deveria ser criminalizado tal como não é criminalizado o esposo ocioso de uma advogada. Afinal de contas, ambos vivem às custas de uma mulher e não devem ser punidos pela diferença de profissão de suas “amadas”.
Realmente pode-se perder bastante tempo buscando diálogos políticos! O pior é sair do auditório sem quase nenhum acréscimo de conteúdo acerca do tema em questão: a regulamentação da prostituição. Qual seria o caminho brasileiro, visto que o método da Grécia e de certos estados dos EUA oneram ainda mais as prostitutas (com entraves ao casamento, exames freqüentes, etc)?
* Curiosa irônia que pune toda capacidade de totalizar (até e, principalmente, as de extrema esquerda) com o descrédito de ser "totalitária", "reacionária", "cristã", "ortodoxa", etc. O certo é ter opiniões tão pulverizadas quanto o são os nichos do mercado! O certo é não se meter no que não lhe diz respeito (como indivíduo-consumidor)! Parece agora que ver com maus olhos a prostituição; a violência do boxe e, ainda mais, do MMA; ou não assumir a validade política de gestos hiper-idiossincráticos, são todas formas patológicas de intolerância, de não saber lidar com a "diferença".